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HAROLD ROBBINS

http://groups.google.com/group/digitalsource








Ttulo original: "Where Love Has Gone"

Traduo de Maria de Lourdes Medeiros

1962 by Harold Robbins






Este livro foi digitalizado por Amrico Azevedo e Deolinda Fernandes. Caso esteja interessado em obter mais obras deste gnero, contacte com Amrico Azevedo  Rua Manuel Ferreira Pinto, 530- 4470-077 Gueifes Maia  Telef.: 229607039- 918175758






A FINALIDADE DA LEI DO TRIBUNAL DE MENORES


	Garantir a cada menor que se encontre sob a jurisdio do Tribunal de Menores os cuidados e orientao, de preferncia na sua prpria casa, que melhor possam servir o bem-estar espiritual, emocional, mental e fsico do menor e os melhores interesses do Estado; preservar e fortalecer, sempre que possvel, os laos familiares do menor, apenas o afastando da tutela dos pais quando o seu bem-estar e a segurana, ou proteco do pblico no possam ser salvaguardados sem esse afastamento; e, quando o menor  afastado da famlia, garantir-lhe uma tutela, cuidados e disciplina, tanto quanto possvel, equivalentes queles que lhe deveriam ter sido dados pelos pais.
	Seco 502, capitulo 2, do Cdigo do Bem-estar e das Instituies do Estado da Califrnia.










NDICE


Primeira Parte
A Histria, de Luke - Sexta-feira  noite


Segunda Parte 
 Parte do Livro - Acerca de Nora


Terceira Parte
A Histria de Luke - O fim-de-semana 


Quarta Parte 
 Parte do Livro - Acerca de Dani 


Quinta Parte 
A Histria de Luke - O julgamento










1









PRIMEIRA PARTE

A Histria de Luke
Sexta-feira  noite


	Era um daqueles dias, feitos para quem nasceu para perder. De manh, atirei com o meu emprego ao ar.  tarde, Maris bateu em cheio na bola e, quando as cmaras de televiso se puseram a segui-lo pelo campo, as pessoas viram, de relance, as expresses nos rostos dos Reds de Cincinnati e, de certa maneira, sentiram que a srie estava acabada, embora houvesse mais quatro jogos por jogar. E nessa noite o telefone tocou arrancando-me  minha cama de insnia, onde estava estendido a olhar para o tecto cinzento-escuro, tentando ficar muito quieto, ao mesmo tempo em que ouvia Elizabeth, que fingia dormir, na cama ao lado. A voz impessoal da telefonista da interurbana cantarolou num tom vazio.
	 Sr. Luke Carey, por favor. Tem uma chamada interurbana. 
         o prprio  respondi. 
       Entretanto, j Elizabeth tinha acendido a luz. Estava sentada na cama, com os longos cabelos louros a carem-lhe pelos ombros nus.
        Quem ?  tartamudeou em voz baixa.
       Tapei o bocal com a mo. 
        No sei  disse rapidamente.   uma chamada interurbana.
        Se calhar  aquele emprego em Daytona  disse cheia de esperana.  Para onde tu escreveste.
       Uma voz de homem fez-se ouvir pelo telefone. Tinha um vago sotaque do Oeste.
        Sr. Carey?
        Sim.
        O Sr. Luke Carey?
        Exactamente  respondi. 
       Estava a comear a ficar um bocado irritado. Se algum achava que isto tinha muita graa, eu no compartilhava da ideia.
        Daqui fala o sargento Joe Flynn, da Polcia de So Francisco.  O sotaque era agora ainda mais evidente.  Tem uma filha chamada Danielle?
       Uma sbita sensao de medo comprimiu-me as entranhas.
        Tenho sim  respondi rapidamente.  H algum problema?
        Parece-me que sim  disse, lentamente.  Ela acaba de cometer um homicdio!
       As reaces so qualquer coisa de cmico. Por momentos, quase larguei s gargalhadas. Tinha tido a viso do corpo de Danielle, mutilado, a sangrar, estendido, meio desfeito, numa estrada solitria. Mordi a lngua para no dizer "Foi s isso?". Em voz alta, perguntei:
        Ela est bem?
        Est ptima  respondeu o sargento. 
        Posso falar com ela?
        S de manh  respondeu.  Vai a caminho do Tribunal de Menores.
        A me dela est por a?  perguntei.  Posso falar com ela?
        No  disse.  Est l em cima, no quarto, com um ataque de histerismo. Parece-me que o mdico lhe est a dar uma injeco.
        Est a algum com quem eu possa falar?
        O Sr. Gordon vai a caminho do Tribunal de Menores com a sua filha.
        Harris Gordon?  perguntei.
        Isso mesmo  respondeu.  O advogado em pessoa. Foi ele que me pediu para lhe telefonar.
       Harris Gordon. O advogado. Era assim que o tratavam. Era o melhor de todos. E o mais caro. Eu tinha obrigao de saber. Ele  que tinha representado Nora no nosso divrcio e tinha feito do meu advogado um autntico palhao. Comecei a sentir-me melhor. Pelo menos Nora no estava assim to histrica, se ainda tinha pensado em o chamar. A voz do polcia tomou um tom curioso. 
        No quer saber quem foi que a sua filha matou?  Da maneira como ele disse, parecia mais "montou".
        Ainda nem consigo acreditar  respondi.  Como  que Danielle podia fazer mal a algum? Ainda nem tem quinze anos.
        Mas no h dvida de que o matou  disse o homem, numa voz inexpressiva.
        Quem?  perguntei.
        Tony Riccio  respondeu. A voz dele tomou um tom desagradvel.  O amiguinho da sua mulher.
        Ela no  minha mulher  respondi.  H onze anos que nos divorcimos.
        Acertou-lhe no estmago com um daqueles cinzis de escultor que a sua mulher tem no estdio. Afiado como uma navalha. Rasgou-o como se fosse uma baioneta. Havia sangue por todo o lado.  No creio que ele tivesse chegado a ouvir o que eu tinha dito.  Parece assim um daqueles casos em que o tipo andou a fazer-se com as duas  continuou  e a mida teve um ataque de cimes.
       Senti a nusea subir-me  garganta. Engoli com fora para a empurrar novamente para baixo.
        Eu conheo a minha filha, sargento  respondi.  No sei por que  que ela o matou ou mesmo se o matou, mas, se o fez, era capaz de apostar a minha vida em como no foi por isso.
        H mais de seis anos que o senhor no a v  insistiu.  As crianas mudam muito em seis anos. Crescem.
        Mas no para o crime  disse.  A Danielle no. 
       Desliguei antes que ele dissesse mais uma palavra e voltei para a cama. Elizabeth estava parada a olhar para mim, com os olhos azuis muito abertos.
        Ouviste? 
       Fez que sim com a cabea. Saltou rapidamente da cama e enfiou o roupo.
        Mas no posso acreditar.
        Nem eu  disse com voz melanclica.  A Dani  uma criana. Tem catorze anos e meio.
       Elizabeth pegou-me na mo.
        Vem at a cozinha. Vou fazer caf.
       Fiquei sentado, como que perdido na neblina, at que ela me meteu na mo a chvena de caf quente. Era uma dessas ocasies em que uma pessoa pensa em tudo e, no entanto, no pensa verdadeiramente em nada. Nada de que se possa lembrar, pelo menos. Talvez coisas pequenas. Talvez a primeira visita de uma garotinha ao jardim zoolgico. Ou talvez os risos por causa do jacto que vinha do mar, em La Jolla.  uma vozinha fraca de criana.
         to divertido viver num barco, pap! Por que  que a mam no vem para aqui viver num barco contigo, em vez de viver naquela casa grande e velha l no alto da colina, em So Francisco?
       Sentia uma espcie de sorriso dentro de mim quando me lembrava da maneira como Danielle costumava dizer So Francisco. Nora costumava irritar-se com isso. Nora falava sempre to bem. Nora fazia sempre tudo to bem. Tudo aquilo que as pessoas podiam ver. No exterior, traz uma senhora.
       Nora Marguerite Cecelia Hayden. Corria-lhe nas veias o sangue orgulhoso dos senhores espanhis da antiga Califrnia, o quente sangue irlands que lanara os trilhos dos caminhos-de-ferro do Oeste e a gua gelada que circulava nas veias dos banqueiros da Nova Inglaterra. Misturando tudo, o resultado era uma senhora. Com riqueza, poder e terras. E uma estranha espcie de talento bravio que a erguia bem alto acima de todas as outras pessoas.
       Porque tudo aquilo em que Nora tocava: pedra, metal ou madeira, tomava uma forma, uma vida prpria. E tudo aquilo em que ela tocava, que tivesse uma forma, uma vida prpria, ficava destrudo. Eu sabia-o. Porque tambm sabia aquilo que ela me tinha feito.
        Bebe o caf enquanto est quente.
       Levantei os olhos. Elizabeth olhava fixamente para mim. Levei o caf  boca. Sentia-lhe o calor penetrar no frio que era a minha barriga.
        Obrigado. 
       Ficou sentada  minha frente.
        Estavas longe daqui.  Forcei o meu esprito a voltar para junto dela.  Estavas a pensar em Danielle?
       Acenei-lhe com a cabea, silenciosamente, ao mesmo tempo em que um sentimento de culpa crescia dentro de mim. Era outra coisa que a Nora tinha. Uma maneira de se instalar no nosso esprito e de pr-esvaziar pensamentos que deviam pertencer a outra pessoa.
        O que  que vais fazer?  perguntou Elizabeth.
        No sei. No sei o que vou fazer.
       A voz dela era quente e suave.
        Pobre mida! 
       No respondi.
        Ao menos, a me est com ela. 
       Tive um riso amargo. A Nora nunca estava com ningum. S consigo prpria.
        A Nora est com um ataque de histeria. O mdico estava a p-la a dormir para o resto da noite.
       Elizabeth ficou a olhar para mim. 
        Quer dizer que a Danielle est sozinha? 
        O advogado delas acompanhou-a ao Tribunal de Menores  respondi.
       Elizabeth olhou para mim durante um momento, depois, ps-se de p e dirigiu-se ao armrio. Tirou outra chvena e pegou numa colher que estava a escorrer ao lado do lava-loua. Tinha a mo a tremer. A colher tilintou no cho de oleado. Ia apanh-la e ento parou.
        Que raio!  praguejou.  Estou to desajeitada!
       Apanhei a colher, enquanto foi buscar outra. Encheu a chvena de caf e sentou-se de novo.
        Que raio de altura para estar grvida!
       Sorri-lhe.
        A culpa no  s tua. Tambm tenho alguma coisa a ver com o caso.
       Os olhos dela no se afastaram dos meus.
        Sintome to estpida e intil. Uma matao. Especialmente agora.
        No sejas parva.
        No estou a ser parva  disse.  Tu no querias esta criana. Eu  que quis.
        Agora ests mesmo a ser parva.
        Tu j tinhas uma filha  disse.  Chegava-te. Mas eu tambm te queria dar um filho. Acho que tinha cimes dela. Tinha de provar que, pelo menos numa coisa, no ficava atrs da Nora.
       Dei a volta  mesa e sentei-me ao lado dela. Continuava a olhar para mim. Tomei-lhe a cara nas mos.
        No tens de provar nada. Amo-te.
       Os olhos dela continuavam fixos nos meus.
        Eu via a expresso do teu rosto quando falavas em Danielle. Sentias-lhe a falta. Por isso, pensei eu, se tivssemos um filho, j no terias tantas saudades dela.
       De repente, os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. Pegou na minha mo e p-la em cima da barriga cheia e dura.
        Vais gostar muito do nosso filho, no vais, Luke? Tanto como da Danielle?
       Inclinei-me e comprimi a face de encontro  vida que havia dentro dela.
        Sim, eu sei que sim  respondi.  J a amo agora.
        Ela pode vir a ser um rapaz.
        No tem importncia  murmurei.  Amo-te a ti e ao beb.
       Com as mos, puxou a minha cabea de encontro aos seios. Apertou-me muito de encontro a ela.
        Tens de ir l.
       Afastei-a de mim.
        Ests doida? Agora que tu ests a duas semanas de ires para o hospital?
        Eu c me arranjo  disse calmamente.
        E com que dinheiro? Fiquei desempregado esta manh, lembras-te?
        Temos quase quatrocentos no banco  disse.  E tu ainda tens na algibeira o ordenado da ltima semana.
        Cento e sessenta "dele"! Precisamos disso para viver. Posso levar semanas a arranjar outro emprego.
        Num avio a jacto so s trs horas e meia de Chicago a So Francisco  disse.  Uma ida e volta em classe turstica no chega a custar cento e cinqenta dlares.
        No, no fao isso. No posso. Precisamos desse dinheiro para o hospital.
        A minha deciso est tomada  disse.  Tens de ir. Eu sei como  que queria que as coisas se passassem se Danielle fosse nossa filha. 
       Estendeu a mo para o telefone de parede.
        Vai l para cima fazer as malas enquanto eu telefono para o aeroporto. E veste o fato de flanela antracite.  o nico fato decente que tens.
       Estava a olhar fixamente para a mala aberta que pusera em cima da cama, quando Elizabeth entrou no quarto.
        H um avio que sai de O'Hare s duas e meia  disse.  Faz uma paragem e vais chegar a So Francisco s duas da manh. Hora local.
       Fiquei onde estava, a olhar para o pequeno saco de lona. Sentia-me entorpecido. A notcia ainda no me tinha entrado bem na cabea.
        Vai tomar um duche, num instante  disse.  Eu fao-te a mala.
       Olhei-a, agradecido. Nunca era preciso dizer as coisas a Elizabeth. Ela sabia sempre como era. Dirigi-me para a casa de banho. Olhei para a minha cara no espelho. Tinha os olhos rodeados por umas olheiras fundas e como que enterrados nas rbitas. Peguei na mquina de barbear. A mo ainda me tremia.
       "Havia sangue por todos os lados." As palavras do sargento vieram-me  ideia. A barba que fosse para o diabo. Podia muito bem barbear-me de manh. Meti-me no duche e abri a gua com toda a fora. Quando sa, o saco j estava preparado e fechado. Dirigi-me para o armrio.
        Meti o teu fato na mala  disse Elizabeth.  Leva as outras calas e o casaco de sport na viagem. No vale a pena amachucares o fato no avio.
        Ok  respondi. 
       Mal acabei de fazer o n da gravata, o telefone tocou. Elizabeth foi atender.
         para ti  disse, estendendo-me o auscultador.
        Al.
       No precisei que me dissessem quem  que estava do outro lado da linha. Seria capaz de reconhecer aquela voz calma, onde quer que fosse. A minha ex-sogra. Como de costume no perdeu tempo com exrdios.
        O Sr. Gordon, o nosso advogado, acha que seria boa ideia vir at c.
        Como  que est Danielle?
        Ela est bem  respondeu.  Tomei a liberdade de reservar uma sute para si e para a sua mulher no Mark Hopkins. Quando levantar os bilhetes no aeroporto, mande-me um telegrama com o nmero do voo, para eu mandar uma limusina esper-lo ao aeroporto.
        No, muito obrigado.
        No  a altura de estar com orgulhos  disse teimosa.  Conheo a sua situao financeira, mas quer-me parecer que o bem-estar da sua filha  mais importante.
        O bem-estar da Dani tem sido sempre o mais importante. 
        Ento por que  que no vem?
        Eu no disse que no ia. Apenas me limitei a dizer no  sua oferta. Eu posso pagar,  minha maneira.
        Sempre o mesmo, no ?  perguntou.  Ser que alguma vez vai mudar?
        Fao-lhe a mesma pergunta  ripostei. 
       Houve um momento de silncio e depois novamente a voz dela; um pouco mais fria e um pouco mais clara.
        O Sr. Gordon quer falar consigo.
       A voz dele era quente e efusiva. Seria capaz de enganar quem no o conhecesse. Por detrs daquele som amigvel, havia um esprito que era como uma armadilha de ao.
        Como est, coronel Carey? H muito tempo que no falava consigo.
         verdade  disse.  H onze anos, no tribunal, num caso de divrcio.  No precisava de lhe avivar a memria. Provavelmente lembrava-se at das horas e dos minutos.  Como est a Dani?
        Ela est ptima, coronel Carey  disse num tom tranquilizador.  Quando o juiz viu o estado de choque em que a pobre criana se encontrava, encarregou-me de tomar conta dela. Neste momento, est l em cima, aqui em casa da av, a dormir. O mdico deu-lhe um sedativo.
       Independentemente de gostar dele ou no, fiquei contente por o termos ao nosso lado.
        Temos de a entregar novamente ao Tribunal de Menores, amanh de manh, s dez  disse.  Acho que seria boa ideia que o senhor a acompanhasse.
        L estarei.
        ptimo. Ser-lhe-ia possvel estar aqui s sete para tomar o pequeno-almoo connosco? H certas coisas que devamos discutir e preferia no o fazer pelo telefone.
        Ok  respondi.  Vou a tomar o pequeno-almoo, s sete.
       Houve uma pausa. Depois, a Sra. Hayden apareceu novamente em linha. Pareceu-me que a velha senhora estava a fazer um esforo para ser amvel.
        Quero tanto conhecer a sua mulher, Luke.
        Ela no vai.
       Ouvi o tom de surpresa na voz dela.
        Por qu?
        Porque est  espera de beb  respondi.  A todo o momento.
       Depois disso no havia mais nada a dizer e despedimo-nos. Mas logo que pousei o telefone, ele tocou. Era outra vez Harris Gordon.
        S mais uma coisa, Sr. Carey. Por favor, no fale com nenhum reprter.  importante que no faa quaisquer declaraes antes da nossa conversa.
        Compreendo, Sr. Gordon.  E desliguei. 
       Elizabeth encaminhou-se para a casa de banho.
        Vou me vestir e vamos juntos at O'Hare.
        Achas que no te faz mal? Posso chamar um txi.
        No sejas pateta  riu-se.  Apesar de tudo o que disseste  outra senhora ainda faltam umas duas semanas, pelo menos.
       Gosto de guiar  noite. O mundo acaba onde pra o raio luminoso dos faris. No vemos para onde vamos, por isso est tudo bem, pelo menos at onde conseguimos ver, o que j  uma vantagem em relao a tudo o mais nesta vida. Vi o velocmetro chegar aos oitenta depois baixar lentamente para sessenta. No havia pressa. Ainda nem sequer era meia-noite.
       Mas no nos apeteceu ficar em casa, sentados,  espera. No aeroporto havia movimento, pessoas. Teramos a impresso de estar a fazer alguma coisa, mesmo que no tivssemos nada que fazer. Pelo canto do olho, vi brilhar o fsforo que iluminou, por breves instantes, o rosto de Elizabeth. Depois, levantou o brao e ps-me o cigarro entre os lbios. Inalei profundamente.
        Como  que te sentes?
        Ok  respondi.
        Queres falar?
        O que  que se pode dizer? A Dani est com um problema e eu vou ter com ela.
        Falas como se j esperasses uma coisa destas  disse. 
       Olhei-a com uma espcie de surpresa. s vezes era espantosa. Mergulhava mesmo dentro de mim e saa-se com pensamentos que eu no queria admitir nem mesmo perante mim prprio.
        Eu nunca esperei uma coisa destas  respondi num tom inexpressivo.
       O cigarro dela brilhou.
        O que  que esperavas? 
        No sei.
       Mas isso tambm no era inteiramente verdade, Sabia muito bem aquilo que tinha esperado. Que um dia Danielle me telefonasse e me dissesse que queria estar comigo. No com a me. Mas onze anos j tinham feito com que esse sonho parecesse um bocado remoto.
        Achas que havia alguma coisa de verdadeiro no que aquele polcia sugeriu?
        No creio  respondi. Fiquei um momento a pensar.  No, tenho a certeza de que no havia. Se assim fosse, a Nora t-lo-ia morto. Ela nunca seria capaz de compartilhar uma coisa que achasse que lhe pertencia.
       Elizabeth ficou silenciosa e eu continuei com os meus pensamentos. Nora era assim. A nica coisa importante para ela era conservar aquilo que queria. Lembrava-me daquele ltimo dia no tribunal.
Naquela altura, j estava tudo decidido. Ela conseguia o divrcio. Eu estava sem dinheiro, vencido, mal podendo manter-me, enquanto ela tinha tudo o que queria. A nica coisa que faltava decidir era quem ficava com Danielle.
       Fomos para o gabinete do juiz para decidir essa questo. Em principio, devia ser apenas uma formalidade. J tnhamos acordado que Danielle passaria doze fins-de-semana por ano comigo e metade do vero, no barco em La Jolla.
       Sentei-me na cadeira em frente do juiz, enquanto o meu advogado explicava o acordo. O juiz acenou com a cabea e voltou-se para Harris Gordon.
        Parece-me um acordo equilibrado, Sr. Gordon.
       Lembro-me de que nesse momento Danielle, que estava a brincar com uma bola na outra ponta do gabinete, se voltou de repente e gritou:
        Agarra, pap! 
       A bola rolou pelo cho e, no momento em que ajoelhei para a apanhar, ouvi Harris Gordon responder:
        Mas a verdade  que no , Excelncia.
       Fiquei a olhar para ele, ainda com a bola na mo, sem conseguir acreditar. Era um ponto sobre o qual tnhamos acordado na vspera. Olhei para Nora. Os olhos de um azul-violeta pareciam olhar atravs dos meus. Fiz rolar a bola novamente na direco de Dani. Harris Gordon continuou:
        O argumento da minha cliente  que o coronel Carey no tem quaisquer direitos paternais.
        O que  que quer dizer com isso?  gritei, endireitando-me.  Eu sou o pai dela! 
       Os olhos escuros de Gordon eram imperscrutveis.
        Nunca lhe pareceu estranho que a criana tivesse nascido apenas sete meses depois do seu regresso do Japo?
       Tentei controlar a fria.
        Tanto a Sra. Carey como o mdico dela me garantiram que Dani era prematura.
        Para um indivduo adulto, o senhor foi um bocado ingnuo, coronel Carey.
       Gordon voltou-se novamente para o juiz.
        A Sra. Carey deseja informar o tribunal de que essa criana foi concebida seis a sete semanas antes de o coronel Carey regressar da sua comisso de servio. Considerando este facto, que ela tem a certeza de que o coronel Carey j h muito tempo admitiu para si prprio, reclama a custdia total da filha.
       Voltei-me para o meu advogado.
        Vai deix-los levar isto por diante?
       O meu advogado voltou-se para o juiz.
        Estou profundamente chocado com a aco deles. Vossa Excelncia deve compreender que isto  contrrio ao acordo que fiz com ele ontem.
       Vi pela maneira como falou que o juiz tambm tinha ficado chocado, embora as suas palavras fossem cuidadosamente imparciais.
        Lamento muito, mas espero que compreenda que o tribunal no pode impor qualquer acordo que no tenha sido feito na sua presena.
       Nesse momento, toda a minha fria irrompeu c para fora.
        Pois ento o acordo que v para o diabo  gritei.  Voltamos ao principio e lutamos pelo que  de direito!
       O meu advogado agarrou-me pelo brao e olhou para o juiz.
        Posso falar um momento com o meu cliente, Excelncia?
       O juiz fez que sim com a cabea e ns fomos para junto da janela. Ficmos de costas para a sala, a olhar para fora.
        J pensou no que isso significaria?  sussurrou.  Teria de admitir publicamente que a sua mulher o enganou enquanto esteve ausente!
        E da? Toda a cidade sabe que ela andou enrolada com So Francisco em peso, desde Chinatoun ao Presidio!
        Pare de pensar s em si, Luke. Pense na sua filha. O que isto h de significar para ela, se vier a lume? A prpria me a apresent-la como bastarda?
       Fiquei a olhar para ele. 
        Ela no era capaz. 
        J o fez. 
       A resposta era irrefutvel. No disse nada. Depois, uma vozinha veio do outro lado da sala.
        Apanha, pap! 
       Quase automaticamente, inclinei-me outra vez para apanhar a bola. Danielle atravessou a sala a correr e atirou-se para os meus braos. Levantei-a no ar. Ria-se, com os olhos pretos, a brilhar.
       De repente, senti vontade de a apertar muito de encontro ao peito. Nora estava a mentir. Tinha de estar. Fosse como fosse eu sabia, dentro de mim, que Dani era minha filha.
       Olhei para o outro lado da sala. Para o juiz, para o escrivo, para Harris Gordon, para Nora. Estavam todos a olhar para ns. Todos, excepto Nora, que estava a olhar para um ponto, algures, por cima da minha cabea.
       Pus-me a estudar o rostozinho sorridente em frente do meu. Uma sensao de agonia, de derrota cresceu dentro de mim. O advogado tinha razo. No podia fazer isso. No podia correr o risco de fazer mal  minha prpria filha.
        O que  que ns podemos fazer?  murmurei.
       Vi uma expresso de simpatia nos olhos do meu advogado.
        Deixe-me falar com o juiz.
       Fiquei parado, com Danielle nos braos, enquanto ele se aproximava da mesa. Passados momentos, voltou.
        Pode ter quatro fins-de-semana por ano. E duas horas aos domingos  tarde, se vier a So Francisco. Acha bem?
        Tenho alguma alternativa?  perguntei amargamente.
       Sacudiu a cabea de forma quase imperceptvel.
        Ok  disse.  Cus, como ela me deve odiar!
       Com o instinto infalvel das crianas, Danielle percebeu do que eu estava a falar.
        No, pap  disse rapidamente.  A mam gosta muito de ti. Ela gosta de ns dois. Foi ela que me disse.
       Olhei para o rosto pequenino, to srio, to desejoso de ter a certeza. Pestanejei para fazer parar as lgrimas impetuosas, salgadas.
        Claro, minha querida  disse, tranqilizando-a.
       Nora avanou para ns.
        Vem com a mam, minha querida  chamou.  So horas de ir para casa.
       Danielle olhou para ela e depois para mim. Acenei com a cabea quando Nora lhe estendeu os braos. Pela primeira vez Nora olhou para mim, por cima da cabea de Danielle. Havia uma curiosa expresso de triunfo nos olhos dela.
       A mesma expresso de triunfo que lhe tinha visto quando completava uma escultura na qual tinha estado a trabalhar. Qualquer coisa  qual ela se tinha esforado por dar forma. De repente, compreendi o que Danielle significava para ela. No era uma criana, era tambm qualquer coisa que ela tinha feito.
       Ps Danielle no cho e, de mos dadas, encaminharam-se para a porta. Enquanto Nora a abria, Danielle voltou-se para mim.
        Vens para casa, pap?
       Sacudi a cabea. Tinha os olhos cheios de lgrimas que quase me cegavam, mas consegui responder.
        No, querida, O pap tem de ficar aqui para falar com estes senhores. Vemo-nos depois.
        Ok. Adeus, pap.
       A porta fechou-se atrs delas. Fiquei apenas o tempo necessrio para assinar os papis. Depois, apanhei o comboio para La Jolla, meti-me no barco e embriaguei-me.
       Precisei de uma semana para ficar novamente sbrio a ponto de poder aceitar um aluguer.
       Paguei o meu bilhete, fiz seguir o saco e fomos at ao bar. Apesar da hora, estava cheio, Arranjmos uma mesa pequena e encomendei dois Manhattans. Levei a bebida  boca. Estava boa. Fria e no muito doce. Olhei para Elizabeth. Estava a ficar com um ar cansado.
        Sentes-te bem?  perguntei,  No devia ter-te deixado vir at aqui.
       Levantou o copo e bebeu alguns golos.
        Estou bem  disse, enquanto a cor lhe voltava ao rosto.  Talvez um bocadinho nervosa, mais nada.
        No h razo para isso.
        No  por causa do avio que estou nervosa  disse.   por causa de ti.
       Ri-me.
        No te preocupes. 
       No sorriu. 
        Vais v-la outra vez.
       Nessa altura percebi o que queria dizer. Nora tinha uma maneira de me desfazer que era sempre preciso um certo tempo para juntar os pedacinhos todos outra vez. Era nesse estado que me encontrava quando Elizabeth e eu nos conhecemos, havia seis anos. E j l iam cinco anos que me tinha divorciado.
       Era mesmo no fim do vero. Danielle tinha oito anos e eu estava de volta de So Francisco, onde a tinha ido entregar  me, depois de um dos nossos fins-de-semana pouco freqentes. Dani tinha corrido para casa e eu tinha ficado c fora  espera que o mordomo viesse buscar a mala dela. Depois do divrcio, nunca mais entrei em casa.
       A porta abriu-se, mas no era o mordomo. Era Nora. Ficmos um momento a olhar um para o outro. No havia qualquer expresso nos olhos frios de Nora.
        Quero falar contigo. 
        Sobre o qu?  perguntei. 
       Nora nunca perdia tempo. 
        Resolvi que a Dani nunca mais te vai visitar. 
       Preparei-me para a luta.
        Por qu?
        Ela j no  nenhuma criana  disse Nora.  V as coisas.
        Como, por exemplo?
        Como, por exemplo, a maneira como vives naquele barco imundo. As mulheres mexicanas que aparecem por l; as disputas de bbados. No quero exp-la a esse tipo de vida.
        S no sei como te atreves a falar. Suponho que achas melhor  tua maneira? Com lenis lavados e martinis?
        Tu l sabes. Parecia at que gostavas bastante. 
       Os pensamentos loucos que nos assaltam o esprito. A fascinao daquilo que se sabe ser o mal. Ela conhecia-me bem. Sabia do que estava a falar. Lutei contra as recordaes, para as impedir de se erguerem diante dos meus olhos.
        Hei-de falar nisso ao meu advogado  respondi.
        Sim, fala... se conseguires arranjar um advogado que te d ouvidos. Ests falido e sujo e, se fores a tribunal, tenho o depoimento de um detective particular sobre a maneira como vives. No consegues nada.
       Voltou-se e fechou-me a porta na cara. Fiquei um momento a olhar, depois desci os degraus que me separavam do meu velho calhambeque. S cheguei a casa bastante tarde, no dia seguinte e quando entrei no barco j levava meia caixa de usque.
       Dois dias depois ouvi uma pancada na porta da cabina. Fiz por me levantar do meu beliche e fui a cambalear at  porta. Abri-a para trs e, por momentos, senti o choque da dor que me ia dos globos oculares, atravs do nervo ptico, at ao crebro.
       O cu azul forte, o sol quente, o vestido branco e o cabelo, louro como o sol, da rapariga ali  minha frente. Fiquei um momento a pestanejar, para cortar a intensidade da luz. A rapariga falou, numa voz sonora e quente,
        Disseram-me na loja onde vendia o disco que faz servios de aluguer.  Continuei a pestanejar. Era demasiada luz para o usque.  Voc  que  o comandante?  perguntou. 
       A dor comeava a abrandar. Olhei-a com os olhos semicerrados. Era to agradvel de ver como de ouvir. Olhos azuis, queimada, boca rasgada e generosa, rosto aberto.
        Sou a tripulao toda. Entre e venha tomar uma bebida. 
       A mo que agarrou a minha quando desceu os degraus estreitos era forte e mostrava firmeza. Olhou curiosa em volta da cabina. No havia muito que ver. Garrafas de usque vazias e beliches desfeitos. No disse nada.
        Desculpe a desarrumao  disse.  Mas quando no tenho alugueres, bebo.
       Um leve sorriso pregueou-lhe os olhos.
        O meu pai fazia o mesmo. 
       Olhei para ela.
        O seu pai tambm fazia alugueres? 
       Sacudiu a cabea.
        Era comandante de um rebocador no East River, em Nova Iorque. E, nos intervalos, chegavalhe bem
        Eu no bebo quando estou a trabalhar  disse.
        Ele tambm no. Era o melhor comandante de rebocadores de Nova Iorque.
       Empurrei parte daquela trapalhada para fora da mesa e fui buscar dois copos lavados. Peguei na garrafa de bourbon.
        Tenho gua. No tenho gelo.
        Isso  um bom usque.  uma pena dilui-lo.
       Enchi os copos a meia altura do risco. Ela bebeu como se fosse gua. Uma rapariga mesmo a meu gosto.
        Agora falemos de negcios  disse pousando o copo.  Cinqenta dlares por dia. Sada s cinco da manh, regresso s quatro da tarde. Mximo quatro passageiros.
        Qual  o preo por uma semana? Queremos ir at L. A. passamos l o fim-de-semana e voltamos.
        Queremos  perguntei.  Quantas pessoas?
        Duas. Eu e o meu patro.
       Olhei para ela.
        O barco s tem esta cabina. Claro que, se for preciso, posso dormir no convs.
       Ela riu-se.
        No vai ser preciso.
        No percebo  respondi.  O tipo tem algum problema?
       Riu-se outra vez.
        No, no tem nenhum problema. Est com setenta e um anos e trata-me como se fosse filha dele.
        Ento, para que  o barco?
        Ele  construtor; de Phoenix. Teve uns quantos trabalhos aqui para estes lados e l para o p de L. A. Como j h muito tempo no v seno areia, pensou que talvez no fosse m ideia ir apanhar um pouco de ar do mar e pescar um bocado.
        No vai conseguir pescar grande coisa, no  a altura indicada. O peixe agora foi todo para os lados do Mxico.
        Ele tambm no se importa.
        Todas as refeies includas?  perguntei.
        Com excepo do fim-de-semana.
        Quinhentos  demais?
        Talvez quatrocentos.
        Est feito  disse. Pus-me de p.  Quando  que quer sair?
        Amanh de manh. Est bem s oito? Quer que deixe sinal?
        Sorri-lhe.
        Tem cara de pessoa honesta, Miss...
        Andersen  disse  Elizabeth Andersen.
       A rapariga ps-se de p. Um barco que passou fez o convs abanar debaixo dos nossos ps. Estendeu a mo para se segurar e ps-se a subir os degraus da cabina. Gritei-lhe:
        A propsito, Miss Andersen, que dia  hoje?
       Riu-se. Um riso quente e amigvel.
        Tal e qual como o meu pai. Era sempre a primeira coisa que perguntava depois de apanhar uma.  quarta-feira.
        Claro  disse. 
       Fiquei a v-la caminhar ao longo do cais at ao stio onde tinha deixado o carro estacionado. Voltou-se, acenou-me, e depois meteu-se no carro e foi-se embora. Eu voltei para a cabina e comecei a limpar tudo.
       Foi assim que a conheci. S nos casmos passado quase um ano.
        O que  que te faz sorrir?  perguntou Elizabeth. 
       Voltei ao presente, com um ligeiro sobressalto e, estendendo o brao por cima da mesa, pus a mo em cima da dela.
        Estava a pensar em como tu eras quando te conheci  disse.  Uma deusa loura, moldada em marfim e ouro.
       Riu-se e ps-se novamente a beber o seu Manhattan.
        Agora no me pareo l muito com uma deusa loura.
       Fiz sinal ao criado para que trouxesse mais duas bebidas.
        Ainda tenho tempo.
       O rosto dela ficou, de repente, muito srio.
        No ests arrependido de teres casado comigo, pois no?
        Sacudi a cabea.
        No sejas pateta! Porque  que havia de estar?
        No me consideras culpada daquilo que aconteceu? Estou a falar daquilo que aconteceu  Dani.
        No te considero culpada  respondi.  No havia nada que eu pudesse ter feito para o impedir. Sei-o agora.
        Costumavas pensar de outra forma.
        Era um disparate  disse.  Estava a servir-me da Dani como de uma muleta.
       O criado veio e ps as bebidas em cima da mesa. Quando se est  espera de um avio parece que o tempo no passa. Provavelmente  porque se tem a sensao de que tudo se devia mover mais depressa, como os avies que andam a novecentos quilmetros por hora. No entanto, estamos com os ps em terra firme e nada parece mover-se a no ser o desejo que temos dentro de ns de nos pormos a caminho, de chegarmos a outro stio.
       
       De manh no me sentira assim, ou antes, ontem de manh o vento soprava quente, vindo do lago, quando sai do carro no local onde estvamos a construir. A ltima casa daquele conjunto devia ficar de p naquele dia e eu tinha a certeza de que amos ter a aprovao para comear o grupo seguinte. Se o tempo continuasse como estava, conseguiramos pr de p o conjunto seguinte antes de chegar o mau tempo. Dessa maneira o trabalho de interiores poderia ser terminado durante o inverno. Fui at  Roullote que nos servia de escritrio e verifiquei as folhas de obra. Estava tudo dentro dos prazos. Este trabalho devia levar-me at dezembro. Nessa altura, j o beb teria idade para ir para o sul. Davis ia comear um projecto novo mesmo  sada de Daytona e havia boas hipteses de eu conseguir o lugar de supervisor.
       A verdade  que eu no era um arquitecto como a Nora sempre tinha pensado que deveria ser. Com um gabinete e secretrias e clientes que me vinham importunar para saber se deviam escolher um material dourado para os lava-louas da cozinha e telefones cor-de-rosa para as casas de banho. Em vez disso, usava camisas de trabalho e calas Levis; andava metido na lama durante todo o dia e construa casas para dez, doze, quinze mil. Nada de muito elaborado, mas boas para o preo. E casas para as pessoas viverem. As pessoas que precisavam delas. No para os neurticos, cuja nica razo para construrem uma casa era fazer vista aos olhos dos amigos.
       Sentia-me bastante bem. E til, tambm. Estava a fazer alguma coisa. Uma coisa que eu queria fazer. Aquilo para que tinha frequentado a escola, a escola de arquitectos. Aquilo que tinha planeado antes de ir para a guerra. 
       Preparava-me para comear a minha primeira volta de inspeco da manh, quando Sam Brady entrou na roulotte. Sam era o construtor, o patro. Sorri-lhe.
        Vem mesmo a tempo para os ver pr de p a ltima casa deste grupo.
       No me retribuiu o sorriso. Comecei a sentir que havia qualquer coisa que no estava a correr bem.
        Ei, o que  que h? No arranjou o dinheiro para a fase seguinte?
        Sim, j tenho o dinheiro.
        Ento, alegre-se. Vamos pr tudo de p antes que comece a nevar. Na primavera que vem voc vai andar por a com notas de mil a carem-lhe dos bolsos.
        No  isso, Luke  disse.  Lamento muito, mas tenho de te pr a andar.
        Voc est doido!  disse, ainda sem acreditar.  Quem  que lhe vai construir as casas?
        A firma que faz hipotecas tem um homem.  Olhou para mim.  Passou a fazer parte do acordo, Luke. Sem o homem tambm no havia dinheiro.  Retirou um cigarro do bolso e acendeu-o desajeitadamente.  Lamento muito, Luke.
        Lamenta?  disse, acendendo tambm um cigarro.  Essa  boa. E eu? O que  que julga que eu sinto?
        J ouviu alguma coisa acerca daquela obra de Davis?
       Sacudi a cabea. 
        Nem uma palavra. 
        Mas vai ouvir. 
       Levei o cigarro  boca em silncio.
          s uma questo de tempo, posso met-lo numa das equipas.
        No, muito obrigado  respondi.  Voc sabe muito bem que isso no  possvel, Sam.
       Fez que sim com a cabea. Ele sabia. Se me pusesse de novo a trabalhar numa das equipas, nenhum construtor do pas me voltaria a dar um lugar de encarregado. As coisas sabem-se depressa. Soltei uma lufada de fumo e esmaguei a beata num cinzeiro.
        Acabo o dia de trabalho e depois venho receber o que tiver a receber.
        O homem j vem esta tarde.
       Percebi o que estava a querer dizer.
        Nesse caso, vou-me embora  hora do almoo.
       Fez que sim com a cabea, deu-me o sobrescrito com o meu dinheiro e saiu. Fiquei um momento a v-lo afastar-se e depois comecei a retirar as minhas coisas da secretria velhssima.
       No fui direito para casa. Em vez disso, entrei num bar e fiquei a ver os Reds perderem a srie. Evitei o usque e fiquei com a cerveja de quinze cntimos. Maris marcou um golo  distncia, no momento em que eu voltava da minha quinta excurso  casa de banho. Vi uma imagem do director do Cincinnati, a olhar tristemente para o campo depois da proeza de Maris. O empregado do bar limpou o balco  minha frente.
        S sabem perder  disse, olhando por cima do ombro para a televiso.  Nasceram para perder,  o que . Bem podiam desistir j.
       Pus uns trocos em cima do balco e sa. No valia a pena continuar a adiar. Mais tarde ou mais cedo, ia ter de dizer  Elizabeth.
       Na realidade, foi mais fcil do que tinha pensado. Acho que ela percebeu logo qualquer coisa assim que eu entrei em casa mais cedo. No fez qualquer comentrio quando lhe contei, limitou-se a ir meter no forno o assado que tinha estado a preparar. Fiquei parado,  espera que dissesse alguma coisa, nem sei o qu. Qualquer coisa. Talvez que ficasse zangada. Mas no, agiu apenas como mulher.
         melhor ires l dentro lavar-te  disse.
       Preparava-me para mandar vir mais uma rodada, quando dei com Elizabeth a olhar para mim. Mudei para caf. Sorriu.
        A est outra coisa com que no precisas de te enervar  disse-lhe. 
        No  altura de te meteres na bebida. Precisas de estar com o esprito bem claro, se queres ajudar a Dani.
        No sei l muito bem o que  que posso fazer.
        Deve haver alguma coisa  respondeu  ou o Gordon no te dizia que fosses.
        Sim, acho que sim  disse.
       O lugar dos pais na nossa sociedade. O velho tinha de servir para alguma coisa. Nem que fosse para representar o papel de tipo decente na televiso. Sentia-me inquieto. Os ponteiros do grande relgio de parede marcavam um quarto para as duas. No queria estar parado.
        E se fssemos at l fora apanhar um bocado de ar?
       Elizabeth fez que sim com a cabea; peguei na conta e paguei  sada. Chegmos  varanda no momento em que um enorme jacto se aproximava a roncar pronto para a aterragem. Vi-lhe o enorme A duplo, de lado, quando passou a rolar antes de parar completamente. O altifalante, por cima das nossas cabeas, ressoou:
        American Airlines, voo 42, chegada de Nova Iorque na Porta n 4.
        Deve ser o meu avio  disse.
       Esbelto, reluzente, enorme. Quatro enormes motores equilibravam-se precariamente nas asas levemente recuadas. Enquanto o observvamos, as portas abriram-se e os passageiros comearam a desembarcar.
        Pela primeira vez, comeo a sentir-me s  disse Elizabeth, de repente.
       Olhei-a e o rosto dela pareceu-me plido sob o branco-azulado da luz fluorescente que vinha do campo. Peguei-lhe na mo. Estava fria.
        No sou obrigado a ir.
        Tens de ir e tu sabe-lo.  Os olhos dela estavam sombrios.
        Segundo a Nora, no  respondi.  H onze anos ela disse-me que eu no tinha quaisquer direitos sobre a Dani.
        E tu ests convencido disso?
       No respondi. Puxei de um cigarro e acendi-o. Mas ela no desistia assim to facilmente.
        Ests mesmo?  respondeu, com uma aspereza curiosa na voz.
        No  respondi, com os olhos postos no campo. Estavam a descarregar a bagagem.  No sei em que  que hei-de acreditar. Dentro de mim sinto que ela  minha filha. Mas, s vezes, gostava de conseguir acreditar que foi como a Nora diz. Tudo seria muito mais fcil.
        Achas que sim, Luke?  perguntou com suavidade.  ser que isso faria apagar os anos que viveste com a Dani; os anos em que ela te pertenceu, mais do que a qualquer outra pessoa, at mesmo  prpria me?
       Senti, de novo, apertar-se-me a garganta.
        Deixa-te disso!  disse com voz rouca.  mesmo que eu seja o pai dela, para que  que isso lhe serviu? No pude tomar conta dela; no pude mant-la. No pude sequer proteg-la da me!
        Mas podias am-la. E isso no deixaste de o fazer.
        Sim, amei-a  disse com amargura.  E serviu de muito e como lhe sirvo de muito agora. Sempre sem um centavo, a gastar os ltimos tostes.  Sentia na garganta um sabor amargo.  No devia ter deixado a Nora ficar com ela!
        E o que  que podias ter feito?
        Ter fugido com ela  respondi.  No sei. Qualquer coisa
        Tentaste isso uma vez.
        Eu sei  disse.  Mas estava teso e fui um cobarde. Pensava que era preciso dinheiro, quando a nica coisa de que Dani realmente precisava era de amor.
       Voltei-me para olhar para ela. 
        A Nora nunca lhe teve amor. Amor de verdade,  o que eu quero dizer. A Nora tinha o trabalho dela e a Dani andava por ali, quando no incomodava. Porque sei, se por alguma razo no lhe convinha, despachava-a para a av ou ento era eu que a levava para o barco. E queres saber o cmulo no meio de tudo isto?
       Fez que sim com a cabea.
        A Dani ficava sempre to contente quando via a me  continuei.  Estava sempre a tentar ser-lhe agradvel. E a Nora dava-lhe uma palmadinha na cabea, distraidamente, e continuava com o que estava a fazer. Eu via a criana voltar para mim, com uma expresso de tristeza no rosto, por baixo do riso infantil e mal podia conter as lgrimas.
       Havia um brilho comovido nos olhos de Elizabeth. Senti-a aconchegar-se a mim.
        Tu eras o pai dela  murmurou suavemente.  No podias ser, ao mesmo tempo, a me. Por mais que tentasses.
       O altifalante por cima das nossas cabeas ressoou de novo:
        American Airlines, voo Astrojet 42, para Denvor e So Francisco, embarque na porta n 24.
       Esfreguei o pescoo. De repente, senti-me cansado.
         para ns  disse.
        Tambm me parece, pap.
       Olheia surpreendido. Era a primeira vez que me tratava assim. Sorriu.
        Tens de te habituar outra vez.
        No vai ser difcil.
       Encaminhmo-nos novamente para o interior.
        Mandas-me dizer quando chegares?
        Telefono-te com pr-aviso, de So Francisco. Ponho a chamada em meu nome. Se no tiveres nada a dizer, responde que eu no estou. Assim, poupamos o dinheiro de uma chamada.
        O que  que eu posso ter para te dizer?
       Pus-lhe a mo no ventre. Riu-se.
        No te preocupes, no vou ter o beb enquanto no voltares.
        Prometes?
        Prometo.
       No havia muita gente junto  porta n 24 quando l chegmos. A maior parte dos passageiros j tinha embarcado. Beijei Elizabeth e dei o meu bilhete ao empregado. O homem olhou para o bilhete, carimbou-o, separou a parte de cima e devolveu-mo.
        Faa favor de ir em frente, Sr. Carey.
       Em Denvor no sa do avio para estender as pernas, conforme a hospedeira sugeriu. Em vez disso, fiquei sentado na sala e bebi uma chvena de caf a bordo. Era um caf simples, bem que eu sentia-lhe o calor escorrer dentro de mim e descontrair-me os msculos das entranhas.
       Seis anos. Era muito tempo. Muitas coisas podiam acontecer em seis anos. Uma criana podia tornar-se adulta. Agora j ela podia ser uma mulherzinha. De sapato saltos e saias de roda. Plida, quase sem cor, de batom e com sombra verde ou azul nos olhos e aquele cabelo to engraado, todo apanhado no alto da cabea, como uma alcachofra, que a faria parecer ainda mais alta. Devia parecer muito madura, at que lhe olhassem para a cara, poisessa altura, percebia-se bem como ainda era jovem.
       Seis anos  muito tempo para estar longe de casa. A criana que l se deixou pode crescer e tornar-se muitas coisas que uma pessoa nunca desejou para ela. Como a me. Seis anos e uma filha pode crescer e matar?
       Ouvi a porta da cabina fechar-se e as luzes acenderam-se. Esmaguei o cigarro no cinzeiro e apertei o cinto. A hospedeira veio de novo junto de mim e abanou a cabea com ar de aprovao, depois foi verificar o resto dos passageiros.
       Olhei para o relgio. Eram quatro e trinta, hora de Chicago. Atrasei o relgio duas horas. Agora eram duas e meia, hora da costa do Pacfico.
       Sorri para comigo mesmo. Era to fcil. Bastava atrasar o relgio e tinham-se aquelas duas horas para voltar a viver. Perguntei a mim mesmo qual a razo, se era assim to fcil, por que ningum inventava uma mquina que fizesse a mesma coisa em relao aos anos.
       Podia fazer recuar o relgio seis anos e Danielle no estaria onde estava naquele momento. No, falo-ia recuar quase quinze anos e voltaramos  noite em que ela nasceu. Lembra-me das horas passadas no hospital. Era mais ou menos a mesma hora que agora e Nora acabara de descer da sala de partos.
        No fique muito tempo  disse o mdico quando me dirigi para o quarto.  Ela est muito cansada.
        Quando  que posso ver o beb?
        Daqui a dez minutos. Bata na janela do berrio. A enfermeira mostra-lho.
       Sa novamente para o corredor e fechei a porta atrs de mim.
        Vou primeiro ver o beb. A Nora vai querer saber como  que ela . Se no for capaz de lhe dizer, vai ficar zangada.
       O mdico olhou-me, intrigado, depois encolheu os ombros. S passado muito tempo  que vim a saber que, na sala de partos, Nora nem sequer tinha querido olhar para a criana.
       Quando a enfermeira enredou o estore e levantou a minha filha nos braos, estremeci. Com o rostozinho contrado e vermelho, o cabelo preto o luzidio e os deditos apertados em dois pequenos punhos irados... estremeci.
       Qualquer coisa dentro de mim comeou a doer-me e senti toda a dor de nascer, todo o choque que aquele corpo pequenino conhecera nas ltimas horas. Olhei para ela e soube, mesmo antes de ela abrir os olhos e depois a boca, aquilo que ia fazer. Estvamos sincronizados, estvamos no mesmo comprimento de onda, estvamos como que amarrados um ao outro; ela era minha o eu era dela. Estvamos juntos e pertencamos um ao outro, E as lgrimas encheram-me os olhos, pelas lgrimas que ela no podia chorar.
       Depois a enfermeira deixou cair o estore e, de repente, fiquei sozinho. Sozinho como se estivesse  beira do mar e uma onda de noite escura se abatesse sobre mim. Pestanejei e encontrei-me de novo no corredor do hospital.
       Bati suavemente  porta de Nora. Uma enfermeira veio abrir.
        Posso v-la agora?  murmurei.  Sou o marido.
       Com aquele ar especial de tolerncia que as enfermeiras parecem ter de reserva para os pais, ela fez que sim com a cabea e desviou-se para o lado.
        No se demore muito.
       Aproximei-me da cama. Nora parecia estar a dormir, com os cabelos negros espalhados na almofada branca. Achei-a plida e cansada e ainda mais frgil e perdida do que eu alguma vez imaginara que pudesse ficar. Inclinei-me e beijei-a suavemente na fronte. No abriu os olhos, mas mexeu os lbios.
        Erguer os remos. A Marinha Livre Francesa no fala em morte.
       Olhei para a enfermeira que estava do outro lado da cama e sorri. Pus a minha mo sobre a de Nora, que estava pousada em cima do lenol e apertei-lha levemente.
        A Marinha Livre Francesa no fala em morte.
       Agora era a enfermeira que sorria.
         o Pentotal, Sr. Carey  disse.  s vezes f-las dizer coisas to engraadas.
       Fiz que sim com a cabea e apertei novamente a mo de Nora. Uma estranha expresso de medo atravessou o rosto dela.
        No me faas mal, John  murmurou, com voz rouca.  Fao tudo o que tu quiseres! Prometo. Mas no me faas mal!
        Nora!  disse rapidamente.  Nora! Sou eu, o Luke.
       De repente, abriu os olhos.
        Luke!  a vaga sombra de medo desapareceu.  Estava a ter um sonho terrvel.
       Passei o brao em volta dela. Nora estava sempre a ter sonhos terrveis.
        Est tudo bem, Nora  murmurei.  Est tudo bem.
        Sonhei que me estavam a partir as mos! Eu no podia suportar uma coisa dessas. Tu sabes que no podia. As minhas mos, no. Sem elas eu no era nada!
        Foi s um sonho  disse-lhe.  Foi s um sonho.
       Levantou as mos e ps-se a olhar para elas. Compridas, esguias e graciosas. Depois olhou para mim e sorriu.
        No achas que sou pateta? Claro que no tm nada. 
       Fechou os olhos e adormeceu de novo.
        Nora  murmurei.  No queres que te fale do beb?  uma menina, maravilhosa, linda. Parece-se contigo.
       Mas Nora nem se mexeu. Estava a dormir. Olhei para a enfermeira. No devia ser assim. Nos livros era de outra maneira. Acho que a enfermeira deve ter notado o meu ar de espanto, porque se ps a sorrir com simpatia.
         o efeito da droga. 
        Claro  respondi.
       E sa para o corredor. 
       
       Olhei atravs da janela do avio. Pareceu-me ver a aura luminosa da cidade, ao longe,  frente do avio. So Francisco. No bastaria fazer que o relgio recuasse quinze anos. Isso no teria feito parar coisa alguma. Vinte anos seria melhor.
       1942. Vero. E o P-38 meio destroado que eu conduzia, lanou-se a gritar pelo vento abaixo quando mergulhei em direco s chamins do navio de guerra japons, preto e cinzento. E ento senti um desejo repentino e estranho. Um desejo de largar as bombas e no puxar a alavanca a seguir; ir atrs delas at s chamins do navio de guerra e morrer com ele no mar gelado.
       Assim j no haveria Medalha de Voo, nem Estrela de Prata, nem Corao de Prpura. Talvez houvesse um C. M. H. como tinham dado ao Colin Kelly, que tinha feito a mesma coisa havia pouco tempo. No teria havido hospital, nem a marcha do heri, nem desfiles, nem publicidade.
       Porque, nessa altura, eu tambm j no existiria e no iria agora a caminho de So Francisco, tal como nesse tempo fui a caminho de So Francisco. Pois estaria morto e nunca teria conhecido Nora e Danielle nunca teria nascido.
       Quase vinte anos. E talvez mesmo isso no tivesse sido suficiente. Era to novo nessa altura. Estava cansado. Fechei os olhos um momento.
       Por favor, meu Deus, d-me o tempo de volta.










































SEGUNDA PARTE

 Parte do Livro
Acerca de NORA


        banal, mas  verdade. O tempo ajuda a perspectivar. Quando se  apanhado pelas emoes do presente, a verdade  que no se consegue ver, ficamos como folhas impelidas pelos ventos de outono, agitados pelos demnios que se apossam de ns. O tempo enfraquece e, por vezes, mata os demnios do amor deixando apenas o mais tnue fio de uma lembrana, que nos permite espreitar o passado pelo buraco da fechadura e ver muita coisa que no vamos antes. Olhei atravs da janela quando o avio descreveu um circulo largo por cima da cidade para entrar na pista de aterragem. Vi as luzes da cidade e a enfiada de prolas que eram as suas pontes e, de repente, compreendi que a dor e o medo que sentira ao pensar em voltar tinham deixado de existir. Jaziam mortos no passado, com os outros demnios que me tinham possudo.
       Naquele momento compreendi porque  que a Elizabeth tinha insistido em que eu viesse e senti-me grato para com ela. Tinha escolhido este meio para exorcizar os meus demnios, de forma a poder mais uma vez ser senhor de mim mesmo, livre das minhas culpas e torturas.
       Os reprteres estavam l, com as suas mquinas, mas estavam to cansados como eu, quela hora da madrugada. Passados alguns minutos deixaram-me ir embora. Prometi-lhes um depoimento completo, naquele mesmo dia, mas mais tarde.
       Fui  Herz, aluguei o carro mais barato que tinham e depois encaminhei-me para a cidade, para um novo motel que tinham construdo em An Ness, mesmo em frente do Tommys Joynt. O quarto era pequeno, mas confortvel, dentro daquele estilo antisptico comum nos motis. Peguei no telefone e liguei para Elizabeth. Quando ouvi a voz dela, saindo quente da nossa cama, dizer  telefonista que eu no estava em casa, tive vontade de lhe agradecer. Mas a ligao foi interrompida antes que tivesse tempo de dizer o que quer que fosse.
       A luz da manh comeava a espreitar  janela. Aproximei-me e olhei para fora. A norte, na direco das montanhas, por entre a neblina cinzenta, via a torre de Mark Hopkins erguer-se no cu. Tentei ver mais alm, uns quantos quarteires para oeste, uma fachada branca conhecida e um telhado de pedra lipes italiana. A casa onde eu tinha vivido. A casa onde, naquele preciso momento, Nora estava provavelmente a dormir. A dormir, naquele mundo especial, muito dela, cheio de sonhos estranhos.
       Vindo de longe, de entre os nevoeiros do sono entorpecido, o telefone tocava. Nora ouviu-o e no o ouviu. No queria ouvi-lo. Enterrou mais a cara na almofada e com as mos apertou-a de encontro aos ouvidos. Mas, mesmo assim, o telefone continuava a tocar.
        Rick! Atende!  E esse pensamento f-la acordar.  que Rick tinha morrido.
       Rolou na cama e olhou o aparelho com ar malfico. Agora o toque vinha de longe e ela apenas ouvia o som do carrilho suave que tinha instalado na extenso do quarto. Continuou a no fazer qualquer movimento para atender.
       Passados momentos, o carrilho calou-se e a casa ficou de novo em silncio. Sentou-se e pegou num cigarro. O sedativo que o mdico lhe dera na noite anterior ainda a fazia sentir um bater surdo dentro da cabea. Acendeu o cigarro e inalou profundamente o fumo. Ouviu-se um estalido quando o intercomunicador foi ligado, trazendo-lhe a voz do mordomo.
        Est acordada, Miss Hayden?
        Sim  respondeu, sem se mexer da cama.
        A sua me, est ao telefone.
        Diz-lhe que ligo para ela daqui a uns minutos, Charles. E traz-me algumas aspirinas e um caf.
        Sim, senhora. 
       Ouviu-se um estalido quando o intercomunicador foi desligado. Passados momentos, voltaram a lig-lo.
        Hayden?
        Sim?
        A sua me diz que  muito importante; precisa de falar imediatamente com Miss Hayden.
        Oh, est bem  disse com mau modo. Estendeu a mo para o telefone.  E despacha-te com a aspirina e o caf, Charles. Tenho uma dor de cabea horrvel.  Depois, disse para o telefone:  Est, me?
        Nora, ests acordada?  A voz da me era viva e penetrante.
        Agora, estou  disse numa voz cheia de ressentimento. 
       No percebia como  que a me conseguia. J tinha passado bastante dos setenta e a voz dela era como se estivesse acordada havia muitas horas.
        So seis e meia, Nora. Estvamos a contar contigo s sete. O Sr. Gordon j est aqui.
        O Luke j chegou?
        No. Mas vem.
        Fala com uma certeza...  disse Nora.  Como  que sabe? Ele j disse alguma coisa?
        No.
        Se calhar no veio.
        Ele aparece  disse a me num tom definitivo.  Ele disse que vinha.
        A me sempre acreditou mais no Luke do que em mim, no foi?  A voz dela estava cheia de ressentimento.
        Isso no tem importncia. Tu s minha filha.
        E  s isso que conta  acrescentou Nora amargamente.
         verdade  disse a me secamente, num tom peremptrio.  E se no aprendeste isso at agora, nunca o hs de aprender.
       Ouviu-se uma pancada leve, depois a porta abriu-se e Charles entrou. Trazia uma pequena bandeja de prata.
        O Sr. Gordon quer que vistas um fato muito simples e um casaco de fazenda, Nora. Nada de pinturas, s um batom claro.
        O Sr. Gordon pensa em tudo.
       Charles pousou a bandeja numa mesa pequena ao lado da cama. Encheu uma chvena com caf e passou-lha juntamente com trs aspirinas num pratinho.
        Bem podes agradecer a Deus por o termos connosco  disse a me.
        Tenho mesmo de ir? Sinto-me to mal. Tenho uma dor de cabea terrvel...
        Nora!  a voz da me estava chocada.
        O que  que eu posso fazer? No consigo agentar outra vez aquelas perguntas todas, esta manh. E os reprteres tambm l ho-de estar...
       A voz da me tornou-se fria e dura.
        Esta manh vais com a tua filha ao Tribunal de Menores. Uma coisa que eu no posso fazer por ti. O pai dela vai l e tu tambm l vais, quer te agrade quer no.
       Sentiu o parafuso da dor de cabea apertar-lhe mais as fontes. 
        Est bem, eu vou. 
       Pousou o telefone e pegou nas aspirinas. Colocou as trs em cima da lngua e empurrou-as para baixo com um golo de caf.
        E como  que est Miss Danielle?  perguntou Charles suavemente, com um ar inquiridor no rosto redondo e luzidio.
       Nora levantou os olhos para o mordomo com uma espcie de surpresa. No tinha perguntado. Mas tambm no tinha havido, propriamente, uma razo para isso. Se houvesse algum problema com Danielle, a me ter-lhe-ia dito.
        Est ptima  respondeu automaticamente.  Charles esperou que ela continuasse.  A minha me disse que ela estava a dormir  acrescentou, mentindo.
        Depois, sentiu-se zangada consigo prpria. No tinha de lhe dar explicaes. Charles no passava de um criado. O facto de j estar h muito tempo com ela no queria dizer nada. 
        Diz  Violet que me prepare o banho  disse, com aspereza.
        Mando-a j para cima, Miss Hayden.
       A porta fechou-se atrs dele e Nora acabou a sua chvena de caf. Levantou-se da cama e encheu novamente a chvena. Quando se voltou, viu a sua prpria imagem no grande espelho que ficava por cima da cmoda. Sempre com a chvena na mo, aproximou-se.
       Ps-se a estudar cuidadosamente essa imagem. No parecia ter trinta e oito anos. Continuava esbelta e bem direita. No tinha vestgios de gordura nos quadris e os seios, embora nunca tivessem sido grandes, continuavam bem redondos e firmes.
       Levou a chvena  boca sem tirar os olhos de si prpria. Agradava-lhe a maneira como a carne lhe brilhava atravs da seda branca e transparente e da renda da camisa de noite. Inclinou-se para o espelho, perscrutando o prprio rosto. Havia uns leves crculos azuis sob os olhos, mas para alm disso, no havia quaisquer sinais do que tinha passado. Tinha os olhos lmpidos, sem vestgios de sangue e a carne que lhe cobria as faces estava esticada e sem o mais leve inchao.
       Comeava a sentir-se melhor. No haveria ningum que a visse hoje que no tivesse dificuldade em acreditar que Danielle era realmente filha dela.
       Ao lado, na casa de banho, comeou a ouvir-se a gua a correr para a banheira. Acabou rapidamente o caf e, deixando a chvena em cima da cmoda, dirigiu-se para a casa de banho. A criada de cor levantou os olhos da grande banheira de mrmore enterrada no cho.
        Bom dia, Miss Hayden. 
       Nora sorriu.
        Bom dia, Violet.
        A senhora descansou bem, Miss Hayden?
        Depois de o Dr. Bonner me ter dado aquele sedativo, no me lembro de mais nada.
        Eu tambm no dormi l muito bem. Os polcias fizeram-me ficar a p metade da noite, com perguntas.
       Nora olhou para ela, curiosa.
        O que  que lhes disseste?
        O que  que eu havia de lhes dizer?  respondeu Violet, pondo-se de p.  O mesmo que vi quando entrei no estdio.  Estendeu a mo para um frasco de sais de banho, que estava na prateleira por cima da banheira e comeou a salpicar a gua com o perfume.  Quando entrei a senhora estava no cho, inclinada por cima do Sr. Riccio. E a Miss Danielle estava toda encostadinha  parede.
        No quero falar nisso!  disse Nora, friamente.
        C eu tambm no. Nunca mais quero nem pensar naquilo. Tapou o frasco e p-lo de novo na prateleira. O odor forte e almiscarado do perfume comeou a espalhar-se no ar, juntamente com o vapor que saa da banheira.  S uns minutos, j fica cheia. Quer que lhe faa uma frico?  bom para descontrair.
       Nora acenou com a cabea, em silncio e tirou a camisa de noite por cima da cabea. Violet pegou rapidamente na camisa, dobrou-a cuidadosamente em cima da cadeira, enquanto Nora se estendia na estreita mesa de massagens.
       Pousou o queixo em cima dos braos cruzados. Era to bom estender-se. Estender-se mesmo, at sentir puxar todos os msculos do corpo. Respirou fundo e fechou os olhos.
       Depois do banho, carregou no boto do intercomunicador.
        Charles?
        Faz favor, Miss Hayden. 
        s capaz de me tirar o carro da garagem? E no te importas de me servir de motorista? No me sinto capaz de guiar.
        Claro, Miss Hayden.
       Soltou o boto e ps-se de p. Ficou a olhar-se no espelho comprido antes de sair do quarto. Harris Gordon sabia o que estava a fazer. Em situaes como esta, era to importante causar a impresso certa. O fato preto que tinha vestido estava perfeito. Dava-lhe um ar esbelto e jovem. E o casaco simples, de fazenda, que tinha por cima do brao, dava o toque final; aquilo a que os amigos que tinha no mundo da publicidade chamaria de sincero. Estava com aspecto jovem, atraente e digno de confiana. Pegando nas luvas e  na carteira, saiu do quarto. 
       Os saltos finos e pontiagudos ecoavam com um som oco nos degraus circulares da escada de mrmore quando ela desceu para o vestbulo de entrada. Olhou para fora por uma das janelas que enquadravam a porta.
       Charles ainda no tinha trazido o carro. Seguindo um instinto que ela prpria no entendia l muito bem, voltou para o corredor estreito que levava ao estdio.  porta, parou surpreendida. Um jovem polcia estava sentado em frente da entrada.
       O homem ps-se de p, levando a mo ao bon, desajeitadamente.
        Bom dia, minha senhora.
        Bom dia. Eu sou Miss Hayden.
        Eu sei, minha senhora. Estive aqui a noite passada.
       Ela levantou uma sobrancelha, com um ar de surpresa afectada.
        Ficou toda a noite?  perguntou.  Sem descansar?
        Sim, minha senhora.
        J tomou o pequeno-almoo? Deve estar com fome. 
        Eu estou bem, minha senhora.  O polcia corou, atrapalhado.  Tiveram a amabilidade de me trazer caf.
        Posso entrar? 
       Ficou a olhar para ela, atrapalhado. No respondeu.
        No h problema, garanto-lhe  disse assumindo, de repente, aquele tom patroa-criado que assumia quando a importunavam.  Alis, aqui  o meu estdio.
        Eu sei, minha senhora. Mas o sargento disse que no queria que mexessem em nada.
        Eu no mexo em nada  disse friamente.  Se quiser pode vir ver.
       O polcia hesitou um momento.
        Nesse caso, acho que no h problema.
       Nora ficou parada,  espera. O jovem polcia olhou para ela e, depois corou ao perceber. Abriu a porta para ela passar.
        Obrigada  disse enquanto ele dava um passo para o lado, para a deixar passar.
       Parou  entrada da porta e olhou em volta. Havia marcas de giz no cho, no stio onde o corpo de Rick ficara estendido e algumas manchas que pareciam ser de sangue. Sentiu o olhar do polcia a observ-la, levantou a cabea e encaminhou-se cuidadosamente para a janela, rodeando as marcas de giz.
       O arco de soldar ainda estava em cima do banco, onde o tinha deixado quando Rick entrara no estdio. A caixa com as finas tiras de ao estava no cho, ao lado do pequeno pedestal sobre o qual o seu ltimo trabalho comeava a tomar forma.
       Estava ainda apenas no esqueleto, mas havia j algumas tiras de ao esticadas e soldadas no devido lugar, que sugeriam a silhueta final. Fechou momentaneamente os olhos. Sim, ainda l contava; ainda podia v-lo depois de completo. Sentiu um estranho e intimo prazer. Mesmo o que se passara na noite anterior no lhe tinha perturbado a viso ou o talento.
       A fora e o conhecimento daquilo que era, daquilo que tinha dentro dela, brotou-lhe quente atravs do sangue. No era como os outros. Era diferente. Ningum conseguia ver o que ela via. Abriu os olhos e olhou para o polcia, com um sorriso especial de satisfao nos lbios.
         lindo  disse. Depois, voltou-se, bruscamente, e saiu do estdio.
       Eu estava a murmurar patetices a Dani, o tipo de patetices que um pai s vezes diz e Dani tinha entrado no jogo. Agradava-lhe ser outra vez, por momentos, uma garotinha, mas uma espcie de instinto fez-nos voltar os olhos para a porta.
       Antes que qualquer de ns se mexesse, Dani saltou da cadeira e, quando chegou junto de Nora, deixara de ser uma garotinha. A transio foi rpida e to completa, a ponto de ser chocante. Agora era uma mulherzinha.
       Olhei em volta da mesa, para ver se os outros tinham notado. No cheguei a perceber. Harris Gordon tinha um sorriso vago no rosto, como se estivesse a pensar no bom efeito que aquilo teria produzido no tribunal. A minha antiga sogra estava a olhar para mim, com uma expresso pensativa nos olhos vivos, azuis. Depois, tambm ela se voltou para a porta. Nora tinha os braos em volta de Dani.
        Filhinha  dizia suavemente, voltando a cara para Dani para a poder beijar.  Minha pobre filhinha!
        Sentes-te bem, me?  perguntou Dani cheia de ansiedade.
        Estou bem, querida. E tu...?
        Sinto-me bem, me. S... s estou um bocado assustada. Tive pesadelos horrveis esta noite.
       Nora passou-lhe a mo pelos cabelos.
        Pronto, pronto, no estejas assustada. A me no vai deixar que te acontea nada. Daqui a uns dias j est tudo acabado. Voltas para casa e  como se nada tivesse acontecido.
        Eu sei, me. E sabes por qu? 
       Nora sacudiu a cabea.
       Dani veio ter comigo e pegou-me na mo. 
        Porque o pap veio ajudar-me  disse com um sorriso cheio de orgulho.  Veio de Chicago!
       Nora ficou a olhar para ns. Percebi pela expresso dos olhos dela que era como se os seis anos que eu e Dani tnhamos estado separados nunca tivessem acontecido. Percebi pelo calor confiante da mo da minha filha, que entre ns tudo estava como dantes. ramos to parecidos que Nora sempre se sentia um tanto posta de lado quando estvamos juntos.
        Emagreceste, Luke.  Veio direita a mim, de mo estendida e eu senti todo o ressentimento que havia nela  Obrigada por teres vindo.
        Nem com correntes me poderiam ter impedido de vir  disse calmamente. 
       Peguei-lhe na mo, de forma breve e impessoal. Nada do que costumava ser. Retirou a mo rapidamente e levou-a  testa, naquele gesto que eu recordava to bem. O aviso da dor de cabea, como eu lhe chamava. E aquela sombra especial que lhe apareceu nos olhos confirmava-o.
        De repente, senti-me velha  disse.  Pareces to jovem, a ao lado da Dani.
        Tu nunca hs de envelhecer  disse delicadamente.
       Mas ela olhou para mim e percebeu que no era assim. E percebeu que eu tambm percebia. A sombra adensou-se e enrugou-lhe a fronte. Abruptamente, voltou-se para a me.
        Tem aspirina, me? Parece-me que estou com aquilo que chamam uma ressaca de sedativo.
       A me fez um gesto.
        No aparador, Nora. 
       Vi-a atravessar em direco ao aparador e sacudir o pequeno frasco, fazendo cair trs comprimidos. Depois ps um outra vez dentro do frasco e fiquei a saber que j tinha tomado trs antes de chegar. Olhou para mim antes de engolir as duas aspirinas e houve de novo entre ns aquela centelha especial de reconhecimento.
       De repente senti pena dela. No me perguntem por qu; aconteceu. s vezes  terrvel saber tanto acerca de outro ser humano. Percebi que estava cheia de um medo novo: o inexplicvel e que se sentia muito s. Isto era o amanh. O amanh vazio dos seus pesadelos secretos. Este era o amanh que ela tinha dito a si prpria que nunca chegaria.
       E eu era naquele amanh o mesmo que sempre tinha sido. Antes de ela me comer os olhos.
       
       Em setembro de 1943, a guerra em Itlia estava quase terminada. MacArthur tinha comeado a sua longa marcha de regresso s Filipinas e eu estava em So Francisco, a dar uma volta pelas fbricas e instalaes de defesa. Os pilotos tinham decidido que seria a maneira ideal de recuperar as foras antes de voltar ao servio.
       Nora preparava a sua primeira exposio com o trabalho que tinha feito nos vinte e um meses que se seguiram  nossa entrada na guerra. O pequeno estdio que tinha sido anteriormente uma estufa, nas traseiras da casa da me, estava apinhado de gente. Ela olhou em volta, avaliando a situao. Estava satisfeita com o resultado.
       At os prprios jornais tinham mandado os seus crticos de arte e estes pareciam impressionados. No podia deixar de sentir uma intima sensao de orgulho. Era uma compensao para o cansao das longas noites passadas no estdio depois de ter trabalhado, durante todo o dia, na fbrica de avies.
       A guerra. Era uma loucura aquilo que tinha feito. Mas tinha cado na armadilha, como toda a gente. Apanhada na histeria do patriotismo. Os jornais deram grande relevo  coisa Nora Hayden, distinta debutante, filha de uma das principais famlias de So Francisco e uma das jovens artistas mais promissoras da Amrica, pe de lado a sua carreira enquanto durar a guerra.
       Tinha-se sentido como uma idiota ao ler aquilo. Mas nos princpios de 1942 nunca tinha pensado que a guerra durasse tanto tempo. Naquela altura j estava farta. Estava saturada de ter de se levantar s seis e meia e fazer vinte e cinco quilmetros de carro para chegar ao trabalho, seis dias por semana; saturada de fazer o mesmo trabalho estpido, dia aps dia.
       Parar a fita rolante. Soldar o fio nmero um ao fio nmero dois. Pr a fita em movimento para a rapariga da bancada a seguir poder soldar o fio nmero dois ao nmero trs. Parar a fita rolante para recomear tudo de novo. Estava cansada do papel de Rosie, a Revistadora.
       Tudo aquilo era demasiadamente mecanizado, demasiadamente programado para ela. At as horas do almoo eram organizadas. J no bastava ter de comer uma sanduche horrvel, ainda por cima todos os dias, ao meio-dia, juntamente com a sanduche e o caf, que mais parecia lama sem acar, ainda tinha de engolir exortaes para aumentar a produo.
       Naquele dia,  hora do almoo, houvera um comcio completo, com heri de guerra e tudo. Ela nem tinha sado. Tinha preferido ir at  sala, no andar de cima, e empoleirar-se num banco perto da janela. Acendeu um cigarro e estendeu-se. Fechou os olhos.
       O silncio temporrio da fbrica era um alvio abenoado. Bem precisava daquele descanso. Na noite anterior s se tinha deitado s quatro da manh, para ter a certeza de que tudo estaria pronto para a exposio daquela tarde. Do lado de fora, a multido soltou um brado. Sentou-se e olhou para fora. Um Chevrolet do exrcito, cor de azeitona e castanho, parou junto ao estrado, mesmo por debaixo da grande bandeira azul e branca da fbrica.
       A multido soltou novo brado, no momento em que um homem se levantou do assento de trs e subiu para a plataforma. 
       O homem, claro, era eu.
       No fiz nada, mas o aplauso cresceu a ponto de se tornar embaraoso. Desesperado, olhei para outro lado. Ainda era suficientemente novato naquilo para me sentir como um idiota. Voltei-me e olhei para cima. Uma rapariga estava  janela, mesmo por cima da entrada do edifcio. A princpio o meu olhar no se demorou sobre ela, mas depois, por uma questo de reflexo, premonio, kismet, ou o que lhe quiserem chamar, os meus olhos voltaram-se de novo para ela. Naquela fraco de tempo, os nossos olhares cruzaram-se.
       Nora afastou-se da janela, furiosa. Era de mais. No tinha nada a ver com aquilo tudo. Alis, nunca devia era ter ido trabalhar para ali. Hesitou um momento, depois foi escada abaixo direita  seco de pessoal. Um dia acabaria por se ir embora, por que no naquele mesmo dia, o dia da sua primeira exposio?
       E agora tudo era diferente. Estava outra vez viva e o mundo acontecia  volta dela. Apanhou o fio da conversa. Sam Corwin, crtico de arte do Examiner, estava a falar com um homem que ela no conhecia.
        A montagem  a arte do futuro  dizia.  Em cada dia que passa nesta guerra, descobrimos que a nica arte verdadeira  o resultado do acaso. A guerra est a destruir a finalidade confessa do homem e a nica coisa que nos vai restar, quando tudo isto acabar, ser o resultado do acidente, o acaso. A montagem ser a nica forma de arte que reflecte a tentativa da natureza para se organizar em qualquer coisa que tenha significado.
       Mergulhou de cabea na conversa. Em todas as ocasies em que conseguia encontrar-se no campo oposto de uma discusso com Sam, estava sempre pronta. Lembrava-se do tempo em que ela prpria se impressionava tambm com a erudio dele. Ainda no tinha feito dezassete anos e era uma estudante de arte entusiasta, naquela noite em que tinha ido ao apartamento dele para escutar algumas palavras cheias de sabedoria. Tinham acabado por levar para a cama as suas diferenas de opinio, para as resolver. Ainda se lembrava da expresso de susto que vira na cara dele depois, quando lhe tinha dito que era menor. Agora, voltou-se e encarou Sam. 
        Discordo, Sam. A arte sem tonalidade no  riscada, Limita-se a exprimir o vazio do artista. Especialmente em escultura. Um trabalho acabado deve ter qualquer coisa a dizer, mesmo que o seu criador seja a nica pessoa a poder ouvi-lo. 
       Sorriu para o homem que no conhecia e pediu desculpa, estendendo-lhe a mo.
        Sou Nora Hayden e o Sam, s vezes, faz-me perder a cabea.
       O homenzinho de meia-idade com o sorriso agradvel apertou-lhe a mo.
        Desconfio que o Sam, s vezes, faz isso para arreliar as pessoas. Sinto-me encantado em conhec-la, Miss Hayden. O meu nome  Warren Bell, 
       Abriu os olhos, surpreendida. Warren Bell era um dos mais proeminentes professores de Arte do pas.
        Professor Bell,  uma grande honra.  Voltou-se para Sam com ar acusador.  Devias ter-nos-dito que o professor Bell vinha  exposio, Sam.
        No ralhe com ele, Miss Hayden. A verdade  que eu prprio no sabia que vinha. Tinha combinado almoar com o Sam e ele sugeriu-me que viesse com ele. Como tenho ouvido falar muito no seu trabalho, no resisti.
        O professor Bell est a pensar fazer uma exposio de escultura americana contempornea na U. S. C.  disse Sam.  Fiz-lhe notar que nenhuma exposio ficaria completa sem qualquer coisa tua. Portanto, como vs, no te sou to antagnico como pensas.
       Nora levantou a mo, parodiando o gesto do vencido.
        Sam, tens toda a razo. A montagem  a arte do futuro.  Todos riram.  Vou chamar a Arlene Gately para o acompanhar  disse para o Dr. Bell. 
       Arlene Gately, que tinha uma pequena galeria no centro da cidade, servia-lhe, ao mesmo tempo, de patrocinadora e de agente
        No  preciso. Para falar a verdade, prefiro dar uma volta por a sozinho.
        Esteja  vontade.  Sorriu.  Se quiser saber alguma coisa, pergunte-me, por favor.
       O professor inclinou-se, ligeiramente e afastou-se. Nora voltou-se novamente para Sam.
        s um reles!  murmurou.  Podias ter-me avisado.
        Eu bem quis. Mas todas as vezes que te procurei, estavas com uma data de gente  tua volta.  Tirou um cachimbo da algibeira do casaco e meteu-o na boca.   verdade que h a hiptese de fazeres uma exposio no Clay Club de Nova Iorque para o ms que vem?
       Olhou para ele, curiosa.
        Como  que soubeste?
        Pela Arlene. Quem  que havia de ser?
        s vezes a Arlene fala demais  disse.  Ainda no  certo.  Procurou o professor Bell com o olhar.  Achas que, ele vai escolher alguma coisa?
        Quem sabe? Esperemos que sim. J  tempo de So Francisco nos dar outro grande escultor alm do Bufano.
        Achas que eu sou grande, Sam?  perguntou, tomando de repente uma expresso muito sria.
        No temos ningum maior  disse com igual seriedade.  E tenho um pressentimento de que o professor Bell concorda comigo.
       Nora respirou fundo.
        Ento vou esperar, com todas as minhas foras.
       Sam voltou-se para ela e sorriu.
        Se assim for, talvez, para variar, eu no tenha de ouvir um artista defender que a nica inspirao verdadeira se encontra no marxismo.
       Ela riu-se.
        Pobre Sam, andas com problemas, no andas?
        Como  que sabes?  perguntou secamente.  Ultimamente temo-nos visto pouco.
       Ela ps-lhe a mo no brao.
        No  que eu goste menos de ti, Sam. S que tenho andado um bocado atarefada. Entre a fbrica da fora area e o estdio no tenho tido tempo para sair.
        Pareces-me um bocado tensa. Do que tu precisas  de um dos meus famosos tratamentos de relaxamento.
       Olhou-o, pensativa. Nenhum deles era tolo. E favores eram favores. No queria dizer nada e queria dizer tudo. Era assim o mundo em que viviam.
        J h muito tempo, Sam, no ?
        Demasiado  respondeu.
        Achas que o mdico conseguiria arranjar tempo para mim esta noite?
        Acho que ele  capaz de conseguir. As oito, em minha casa?
        L estarei.
       Ficou a observ-lo enquanto se aproximava do professor Bell. Tentou ouvir o que estavam a dizer, mas uma mo, pousando-lhe no brao, f-la voltar.
        Que tal, minha querida?
        ptimo, me. 
        Ainda bem.  Cecelia Hayden sorriu. No sorria muitas vezes e, quando isso acontecia, acendiam-se-lhe os olhos azuis, muito vivos, sob o cabelo branco, cuidadosamente penteado.  Estava a pensar se terias tempo de me fazer um pequeno favor.
        O que , me? 
         por causa de um rapaz, filho de um amigo do teu pai. Esqueci-me da exposio quando o convidei para vir tomar coqueteis esta tarde. Provavelmente vai ficar para jantar.
        Oh, me!  disse Nora num tom desesperado.  Que m altura! Tenho tanto em que pensar.
        Por favor, querida. 
       Nora olhou para a me. Aquelas trs palavras no deixavam campo para discusses. Apesar da sua aparncia frgil, Cecelia Hayden era dura como uma pedra.
        Parece ser um rapaz to simptico  continuou.   heri de guerra. Tem apenas trs dias antes de voltar ao servio. Tenho a certeza de que vais gostar dele. Disse ao Charles que o traga aqui logo que chegar.
       Nora fez que sim com a cabea e voltou-se, precisamente no momento em que Sam se aproximava dela com ar excitado.
        Ele quer O Homem Moribundo.
        Essa no!  A voz dela estava cheia de espanto.
        Ele gostou. 
        F-lo desistir  pediu.  Eu nem sequer queria trazer essa pea para a exposio. S a trouxe porque precisava de uma pea grande para encher aquele canto. J nem sequer trabalho daquela maneira.
        No tem importncia.  essa que ele quer.
       Nora voltou-se e olhou atravs da multido para a grande figura de ferro. Era um homem, meio cado no cho, apoiado num cotovelo e com uma das mos sobre o corao, ao mesmo tempo que uma expresso de agonia lhe contorcia as feies. Lembrava-se da excitao com que trabalhara naquela pea, mas, de qualquer forma, agora parecia-lhe feia.
        Por favor, Sam, convence-o a levar outra coisa qualquer!
        Eu no, depois de ele me ter dito que era a primeira vez que via um artista captar o momento exacto da morte numa escultura.
       Nora ficou a olhar para ele.
        Ele disse mesmo isso?
       Sam fez que sim com a cabea. Ela olhou novamente para a esttua, tentando ver nela o mesmo que o professor.
        Est bem  disse, por fim.  ptimo. Vou dizer-lhe que pode ficar com ela.
       Pelo menos era uma pea grande, pensou para se consolar. E sempre era melhor apresentar uma pea assim numa exposio conjunta do que uma pea mais pequena. As pessoas no podiam deixar de reparar nela.
       Estava assim parada, com uma expresso pensativa no rosto, quando a me me levou at junto dela. A Sra. Hayden tocou-lhe no brao e Nora voltou-se para ns. Levantou o rosto e eu vi que era a rapariga que estava, naquela tarde,  janela da fbrica. Vi os olhos dilatarem-se-lhe de espanto numa expresso de surpresa curiosa e compreendi que tambm ela me tinha reconhecido.
        Nora, este  o major Luke Carey. Major Carey, a minha filha Nora.
       As guerras so as pedras de amolar de que o homem se serve para aguar os seus apetites.
       Olhei para ela e percebi que estava perdido. H raparigas que so putas, outras so senhoras e uma vez para cada homem h uma que  ambas as coisas. Compreendi isso logo que lhe toquei na mo. Os olhos azul-escuros eram quase violeta, escondidos pelas pestanas compridas e pesadas e o cabelo negro e espesso estava puxado para cima, deixando a fronte livre. A pele creme e transparente, esticada sobre os malares proeminentes, e a figura esbelta, de seios pequenos, quase fazendo pensar num rapaz, levava-nos a errar todas as contas. Mas, para mim, estava tudo certo.
       Este era o fim ltimo. A vida e, a morte. Por dentro e por fora. A me dela afastou-se um bocado e eu continuava a segurar-lhe na mo. Tinha uma voz baixa e aquele tom de afectao cuidadosamente cultivado, comum nas raparigas que frequentam as boas escolas do Leste.
        Para onde  que est a olhar, major Carey?
       Soltei-lhe rapidamente a mo. Era como se tivesse perdido o contacto com uma forma especial de realidade, como se batesse com a cabea de encontro a uma parede porque, quando parava, a sensao era to agradvel.
        Desculpe  disse.  No era minha inteno ficar embasbacado.
        Como  que descobriu onde me podia encontrar?
        No descobri. Foi apenas um feliz acaso.
        Tem assim sempre tanta sorte?
       Abanei a cabea.
        Nem sempre.
       Vi os olhos dela percorrerem-me as fitas que trazia no bluso. Sabia o que ela estava a ver. Alm do Purble Heart e do Cluster, havia cores suficientes para alegrar uma pequena rvore de Natal.
        Pelo menos, est vivo.
       Fiz que sim com a cabea.
        Acho que no tenho de que me queixar. At aqui, j eu cheguei.
        E no acredita que consiga chegar at ao fim?
       Era mais uma afirmao do que uma pergunta. Ri-me. Esta rapariga no gostava de perder tempo; ia direita ao fim.
        J por duas vezes tive sorte  disse.  Ningum tem sorte trs vezes.
        Tem medo de morrer?
        Constantemente. 
       Olhou outra vez para as fitas.
        Tenho a certeza de que, se lhes dissesse, no o mandavam para l outra vez.
         natural que no  disse.  Mas eu no fazia isso.
        Porque no?
        Acho que ainda tenho mais medo de fugir cobardemente do que de morrer.
        No pode ser s por isso.
       Comeava a sentir-me desconfortvel. Ela no parava de insistir.
        Talvez no seja  admiti.  Talvez seja porque a morte  como uma mulher que se anda a perseguir h muito tempo. Queremos saber se  to m ou to boa quanto pensamos que deve ser.
         s nisso que pensa?  perguntou.  Na morte?
        H j quase dois anos que no tenho tempo para pensar em mais nada. 
       Olhei em direco  esttua que tinha visto ao entrar O Homem Moribundo. Senti que o olhar dela seguia o meu.
        Sou como aquele homem da esttua. Em todos os momentos que vivo.
       Vi-a estudar a esttua durante alguns instantes, depois, pegou-me outra vez na mo. Senti-a estremecer.
        No pretendi dar s minhas palavras um sentido assim to horrvel.
        No me pea desculpa  disse a rapariga rapidamente. Tinha agora os olhos escuros, de um prpura quase negro como os pesados cachos de uvas das vinhas perto de Sacramento.  Percebo exactamente aquilo que quer dizer.
        Acredito.  Sorri e depois desviei o olhar. Tinha de ser.
         Sabe uma coisa  disse  quando soube da festana, pensei logo que ia ser uma grande maada. Mais uma menina de sociedade armada em artista.  Agora j me sentia capaz de a encarar outra vez.  Mas tenho c um pressentimento de que voc  mesmo boa.
        Ela ainda  melhor do que isso, Luke.  A voz familiar veio de trs de mim.   mesmo muito boa.
       Voltei-me. Havia mais de trs anos que no ouvia aquela voz.
        Professor Bell!  Ao apertar-me a mo, parecia excitado e satisfeito.
        O Luke foi um dos meus rapazes aqui h uns anos  disse para Nora.  Formou-se em Arquitectura.
        Construo.  Sorri lembrando-me da nossa velha discusso.  A arquitectura  para os pardais, a construo  para as pessoas.
        Sempre o mesmo Luke. 
       Olhou-me para a cara e vi-lhe o choque nos olhos. J antes tinha visto aquela expresso nos olhos de velhos amigos meus. O minsculo emaranhado de cicatrizes de metralha visvel na minha pele curtida e acobreada de certa maneira no tinha nada a ver com o rapazinho de faces rosadas que tinha partido para a guerra.
        No propriamente o mesmo, professor  disse tentando faz-lo sentir mais  vontade.  A guerra j dura h muito.
       E enquanto estvamos ali a conversar, sentia a mo dela cada vez mais quente na minha.
       O jantar foi servido na grande sala de jantar que deitava, de l de cima da colina, para a baa. Todos se tinham ido embora. S tnhamos ficado ns trs: Nora, a me e eu. Olhei para o topo da mesa onde a velha senhora estava sentada. Parecia mesmo bem naquele stio. Tudo estava no seu lugar. O sumptuoso revestimento de carvalho, a grande mesa redonda, as velas a brilhar nos castiais de prata. E ela ali estava sentada, direita e alta, e havia qualquer coisa nela que me fazia pensar numa lmina de ao reluzente.
       Na sua maneira calma e tranqila, era forte e segura da sua fora. Tinha-se conscincia de toda a sabedoria que existia nela, embora nunca lhe fosse necessrio afirm-la. Por aquilo que o meu pai me tinha dito, muita gente tinha ficado surpreendida ao lidar com aquela viva jovem e calma que tinha herdado duas grandes fortunas.
        O meu falecido marido falou-me muitas vezes do seu pai.  Sorriu-me atravs da mesa.  Eram grandes amigos. Parece-me estranho nunca nos termos conhecido.

       Acenei com a cabea, em silncio. A mim no me parecia estranho. At  altura em que se reformou, no ano anterior, o meu pai tinha sido chefe dos correios na pequena cidade do sul da Califrnia onde nasci. J no tinha nada a ver com o mundo de Gorald Flaydem tal como Hayden no tinha nada a ver com o dele. A nica coisa que tinham em comum era o facto de terem estado no mesmo peloto na Primeira Guerra Mundial.
        O seu pai salvou a vida ao meu marido durante a primeira guerra. Sabia?
       Ouvi a mesma histria. Mas quando o meu pai ma contou, era precisamente o contrrio.
       Pegou numa campainha de prata que estava em cima da mesa,  frente dela. O som era suave.
        Querem tomar caf no solrio?
       Olhei para Nora. Ela deitou uma olhadela ao relgio de pulso.
        V com o major Carey, me  disse.  Eu fiquei de estar s oito horas na cidade.
       Uma ruga leve franziu ligeiramente a fronte da Sra. Hayden e desapareceu.
        Tens mesmo de ir, querida?
       Nora no levantou os olhos para a me.
        Prometi a Sam Corwin que ia ver o projecto dele para a exposio de escultura moderna.
       A Sra. Hayden olhou rapidamente para mim, depois para Nora.
       O tom da voz dela sugeriu apenas um vago protesto, mas tive a sensao de que escolhia cuidadosamente as palavras. Se era por eu estar presente, no sabia.
        Julgava que j tinham ultrapassado isso  disse.  H tanto tempo que no falas com o Sr. Corwin!
        Tem de ser, me. Afinal foi o Sam que trouxe o professor Bell  minha exposio.
       Voltei-me para a Sra. Hayden.
        No se preocupe por minha causa, Sra. Hayden  disse rapidamente.  Tambm tenho de estar de volta ao Presidio s oito e meia. Se quiser, posso levar a sua filha.
        No quero dar-lhe maada  disse Nora.
        Maada nenhuma. Estou com um carro do exrcito, por isso no tenho de me preocupar com as senhas de gasolina.
        Est bem  respondeu.  D-me s uns minutos para me vestir.
       Vimo-la afastar-se e depois de ela desaparecer, voltei-me para a me.
        Tem uma filha cheia de talento, Sra. Hayden. Deve sentir-se muito orgulhosa.
        E sinto  respondeu. Depois uma expresso curiosa surgiu-lhe nos olhos azuis, muito vivos.  Mas devo confessar que nem sempre a entendo. s vezes fico meio assustada.  to diferente das raparigas do meu tempo. A verdade  que a Nora no passa de uma criana e eu j a tive um bocado tarde.
         a guerra. Estamos todos diferentes.
        Que disparate! Oio isso constantemente  disse com aspereza.  Conversa fiada. A vossa gerao no  a nica que fez uma guerra. A minha tambm. E o mesmo aconteceu com os jovens da gerao dos meus pais.
       Podia ter discutido esse ponto, mas no o fiz.
        A sua filha tem um grande talento  repeti.  O professor Bell disse-me muitas vezes que o talento nem sempre  a coisa mais fcil do mundo para se entender ou com que viver.
       Os olhos dela brilharam, divertidos.
        Voc  um jovem muito simptico. Espero que venha visitar-nos mais vezes. Tenho um pressentimento de que vai ser muito bom para ns.
        Espero que sim. Mas tenho de voltar para o continente, Talvez quando a guerra acabar.
       Olhou-me directamente nos olhos.
        Nessa altura pode j ser demasiado tarde.
       Creio que o espanto se me reflectiu na cara, porque ela tomou um ar ainda mais divertido. Peguei num cigarro.
        Ouvi dizer que antes de se alistar era um jovem arquitecto muito prometedor, major Carey.
        Pelos vistos, so poucas as coisas que lhe escapam, Sra. Hayden.
        Fao por isso, major Carey.  muito importante para uma viva desamparada manter os olhos bem abertos.
       Ia protestar. Viva desamparada, francamente! Depois reparei novamente no sorriso dela e percebi que estava a entrar comigo.
        Que mais conseguiu saber a meu respeito, Sra. Hayden?
        Antes da guerra, candidatou-se a um lugar na Hayden de Carruthers. Ficaram muito impressionados consigo.
        Mas no tanto como o exrcito.
        Eu sei, major Carey  disse.  E tambm tenho conhecimento dos seus feitos na guerra.
       Levantei a mo.
        Poupe-me a isso, Sra. Hayden. Onde  que pretende chegar? 
       Olhou-me directamente.
        Gosto de si, major Carey  disse.  Dentro das circunstncias adequadas poderia haver um lugar de vice-presidente para si na Hayden de Carruthers.
       Fiquei a olhar para ela. Isso significaria comear por cima. Bastante bom para um tipo que nunca tinha tido um emprego depois de acabar o curso. Hayden de Carruthers era uma das principais firmas de arquitectura da Costa Oeste.
        E como  que sabe isso, Sra. Hayden?
        Sei  respondeu, calmamente.  Os meus interesses na firma do-me uma posio de controlo.
        E o que  que considera "as circunstncias adequadas"? 
       Deitou uma olhadela para a porta e depois novamente para mim. O olhar dela era brilhante e firme.
        Creio que j conhece a resposta.
       Precisamente nesse momento Nora voltou  sala.
        Espero no o ter feito esperar muito.
        De maneira nenhuma  respondi.
        O major e eu estvamos a ter uma conversa muito interessante, Nora.
       Reparei no olhar rpido e curioso que Nora lanou  me. Baixei os olhos para a mulher mais idosa.
        Muito obrigado pelo jantar, Sra. Hayden  disse com toda a formalidade.
        Com todo o prazer, major. Pense no que eu lhe disse.
        Com certeza. Mais uma vez, muito obrigado.
        Adeus, major.
        Boa noite, me  disse Nora. 
       A voz da me chegou at ns quando estvamos  porta.
        No fiques at muito tarde, querida.
       Senti a fragrncia do perfume de Nora quando ela se recostou no assento. Despertou qualquer coisa em mim. No era o gnero de perfume que se usasse para um encontro de negcios.
        Para onde?  perguntei.
        Louer Lombard Street. No estou a faz-lo desviar do seu caminho, pois no?
        De maneira nenhuma.  
       Aproximei-me mais e senti a mo dela no meu brao.
        A me falou-lhe de mim?
        No.  No se podia dizer que estivesse a mentir. Mas tambm no estava a dizer a verdade.  Por qu?
        Por nada  disse com naturalidade.
       Percorremos alguns quarteires em silncio.
        Voc no tem de estar de volta ao Presidio s oito e meia, pois no?
        Estou a perceb-la perfeitamente.
       Olhou para mim.
        No  nada disso  disse rapidamente.  Eu no disse nada.
       Parei o carro por causa de um semforo. A luz vermelha ps-lhe a pele em fogo.
 O que  que vai fazer agora?  perguntou.
        No sei. Vou at Chinatoun... apanhar uma, se calhar.
        Isso  pura fuga.
       A luz mudou e pus novamente o carro em andamento.
        Da mais pura que h  concordei.  Mas ainda  a melhor maneira que conheo para deitar as coisas para trs das costas.
       Senti-lhe a mo apertar-me o brao.
         assim to horrvel? 
        s vezes. 
       Sentia-lhe as unhas atravs do casaco.
        Quem me dera ser homem! 
        Estou bem contente que voc no seja. 
       Voltou-se para mim. 
        Quer encontrar-se comigo, mais tarde?
       Senti-lhe a dureza dos seios pequeninos de encontro  minha manga. Compreendi nesse momento, que tinha razo. Ela era tudo aquilo que eu pensava e estava ali  minha disposio, mas havia qualquer coisa que me impedia de ir em frente.
        No creio  disse. 
        Por qu?
        Por nada.  Estava aborrecido comigo mesmo.  No tem importncia.
        Para mim, tem. Diga-me.
       Senti a aspereza da irritao apoderar-se da minha voz.
        Conheo pelo menos uma dzia de stios nesta cidade onde podia ser recebido em segundo lugar, caso fosse disso que eu andasse  procura.
       Largou-me o brao e afastou-se. Vi, de repente, as lgrimas aparecerem-lhe nos olhos.
        Desculpe  disse.  J estou fora h tanto tempo. Quer-me parecer que j me esqueci das boas maneiras.
        No tem de pedir desculpa. Ouvi o que merecia.  Olhou pela janela.  Volte aqui,  a meio do prximo quarteiro.
       Encostei o carro ao passeio.
        Ainda tem mais trs dias de licena?
         verdade  respondi.
        Telefona-me?
        No creio. Vou at La Jolla pescar um bocado.
        Eu vou l ter.
        No me parece boa ideia.
        Oh, tem l alguma rapariga?
       Ri-me.
        No h rapariga nenhuma.
        Ento por que...
        Porque eu vou voltar para a guerra  disse com aspereza.   Porque eu no quero nenhuma espcie de ligao, No quero ter nada em que pensar a no ser chegar ao fim do dia seguinte. Conheo muitos tipos que perderam todos os amanhs a olhar para ontem.
        Voc tem medo.
        Tem toda a razo. Eu j lhe tinha dito.
       Agora estava a chorar a valer. As lgrimas rolavam-lhe pela cara. Pus-lhe a mo no ombro.
        Olhe, isto  um disparate  disse suavemente.  Neste momento est tudo muito difcil. Talvez um dia, quando a guerra acabar, se eu me safar...
       Interrompeu-me.
        Mas voc mesmo disse que nunca se tem sorte trs vezes.
        Parece que  verdade  admiti.
        Ento, no pensa mesmo que me vai telefonar. Nunca.
       Havia uma tristeza estranha na voz dela.
        Parece que estou sempre a pedir-lhe desculpa. Desculpe.
       Ficou um momento a olhar para mim, depois saiu do carro.
        No gosto de despedidas.
       No tive oportunidade de lhe responder porque ela correu pelas escadas acima, sem olhar para trs. Acendi um cigarro e fiquei sentado a v-la tocar  campainha. Passados momentos, apareceu um homem e ela entrou.
       Quando voltei ao hotel, pelas trs da manh, tinha um bilhete debaixo da porta.
       Por favor, telefone-me de manh para podermos continuar a nossa discusso.
       Estava assinado Cecelia Hayden. Amachuquei o bilhete, zangado e atirei-o para o cesto dos papis. De manh, fui-me embora para La Jolla sem me dar ao trabalho de lhe telefonar.
       Na semana seguinte j ia a caminho da Austrlia e da guerra. Se me tivesse passado pela cabea que a velha senhora ia ficar presa  espera do meu telefonema, estaria apenas a enganar-me a mim mesmo. Havia coisas pelas quais ela no podia esperar. No dia seguinte, telefonou a Sam Corwin.
        Sr. Hayden  disse Sam Corwin entrando na sala onde ela o aguardava.  Espero no ter chegado atrasado.
        De maneira nenhuma, Sr. Corwin  replicou secamente.  Sente-se, por favor.
       Ele deixou-se cair na cadeira e olhou-a com curiosidade. Desde que tinha recebido o telefonema naquela manh, que perguntava a si prprio o que seria que ela lhe queria. Cecelia Hayden foi direita ao assunto.
        Nora foi escolhida para o Prmio de Escultura da Fundao Eliofheim.
       Sam olhou-a com um novo e sbito respeito. Tinham corrido alguns boatos nesse sentido. Mas os nomes das pessoas indigitadas eram mantidos no maior segredo. Sobretudo, porque este era o primeiro prmio a ser atribudo desde o principio da guerra.
        Como  que sabe?  perguntou com ar fechado. 
       Ele prprio no tinha ainda conseguido obter qualquer confirmao a esse respeito.
        No importa  respondeu com jovialidade.  O que  importante,  eu saber que assim .
        ptimo, estou muito contente pela Nora. Espero que receba o prmio. Merece-o.
 Era por causa disso que eu queria falar consigo; quero ter a certeza de que ela o vai receber.  Sam ficou a olh-la. No disse palavra. 
        s vezes, o dinheiro pode tornar-se num terrvel obstculo.  continuou a Sra. Hayden.  Especialmente, no campo das artes. Gostaria de ter a certeza de que a fortuna da minha filha no vai afectar negativamente oportunidades como esta.
        Tenho a certeza de que isso no aconteceria, Sra. Hayden. O jri est acima dessas coisas.
        Ningum est acima de certos preconceitos, sejam eles de uma forma ou de outra  disse em tom definitivo.  E neste momento, quer-me parecer que todo o mundo das artes liberais est orientado no sentido da ideologia comunista. Praticamente tudo aquilo que  realizado por algum de fora desse grupo  automaticamente rejeitado como burgus e sem importncia.
        No acha que est a ser um pouco simplista? 
        Parece-lhe?  objectou, olhando-o directamente.  Ento diga-me uma coisa. Nos ltimos anos, os principais prmios artsticos tm sido ganhos por artistas que, quando no fossem nitidamente comunistas, lhes estavam pelo menos muito prximos.
       Sam ficou sem resposta. O que ela dissera estava muito prximo da verdade.
        Supondo que eu concordava consigo. Continuo a no perceber o que  que se pode fazer a esse respeito. No  possvel comprar a Eliofheim.
        Eu sei. Mas ns tambm sabemos que todas as pessoas so susceptveis de ser influenciadas; que ningum est acima do poder da sugesto. O jri  composto por seres humanos.
        E o que  que eu posso fazer? Seriam precisas pessoas de muito peso para que eles lhes dessem ouvidos.
        No outro dia, estive a falar com Bill Hearst, de Sam Simeon  disse.  Mostrou-se muito seguro de que a Nora merecia o prmio. Achava que seria um triunfo para o americanismo.
       Comeava a fazer sentido. Devia ter pensado logo de onde  que lhe vinha a informao.
        Hearst poderia ser-nos til. Quem mais?
        O seu amigo professor Bell, por exemplo. Hearst tambm j falou com Bertie MeCormick, de Chicago. Tambm est muito interessado. Deve haver muitos mais, tenho a certeza;  s uma questo de procurar.
        Seria preciso dar muitas voltas. Estamos em fevereiro. Portanto faltam menos de trs meses para que os prmios sejam anunciados, em maio. E mesmo assim no se pode ter a certeza.
       A Sra. Hayden tirou uma folha de papel da secretria.
        O seu ordenado no jornal so cerca de quatro mil e quinhentos. Alm disso, faz uma mdia de cerca de dois mil dlares em artigos para revistas e trabalhos diversos.  Olhou para ele.  No  l muito, pois no, Sr. Corwin?
       Sam sacudiu a cabea.
        No, no  l muito, Sra. hayden.
        O senhor tem gostos caros, Sr. Corwin  continuou.  Tem um bom apartamento. Vive bem, embora um pouco acima dos seus meios. Nos ltimos anos tem acumulado dvidas num montante ligeiramente superior a trs mil dlares por ano.
       Corwin sorriu.
        No me preocupo l muito com as minhas dvidas. 
        Eu sei, Sr. Corwin. Estou informada de que uma boa parte desse dinheiro nunca  reembolsado em dinheiro, mas em favores. Estaria muito longe da verdade se afirmasse que o seu rendimento total estava prximo dos dez mil dlares por ano?
       Fez que sim com a cabea.
        No estaria muito longe.
       Ps novamente a folha de papel em cima da secretria.
        Estou pronta a pagar-lhe dez mil dlares pela sua colaborao para garantir  minha filha o Prmio Eliofheim. Se ela o receber, entraremos num contrato de dez anos que lhe garante vinte mil por ano e ainda dez por cento sobre o lucro bruto que ela fizer.
       Sam fez rapidamente os seus clculos. Se Nora mantivesse o ritmo de produo, poderia fazer entre cinquenta a cem mil por ano, no caso de ganhar o prmio.
        Digamos cinquenta por cento?
        Vinte e cinco por cento  disse ela rapidamente.  Ao fim e ao cabo, a Nora sempre tem de pagar as despesas da galeria.
        S um momento, Sra. hayden. Isto est a ir depressa de mais para mim. Vejamos se eu a estou a compreender bem. A senhora est a contratar-me como agente de imprensa para ajudar Nora a ganhar o Prmio Eliofheim?
        Exactamente Sr. Corwin.
        E se ela receber o prmio, entramos ento num acordo segundo o qual eu me torno seu representante, agente ou director artstico; como lhe queira chamar, por um perodo de dez anos? Para esse fim, receberei vinte mil por ano, mais vinte e cinco por cento dos lucros brutos que ela tirar do seu trabalho?  A Sra. Hayden fez novamente que sim com a cabea.  E se ela no receber o prmio?
        No haveria muita razo para se fazer o acordo, pois no, Sr. Corwin?
        No, claro que no  respondeu. Olhou para ela com ar sagaz.  E se fizermos o acordo, quem paga a garantia?
        A minha filha, claro.
        Mas pode acontecer que ela no ganhe o suficiente para que a coisa valha a pena.
        Duvido muito que ela se preocupe com isso.  A velha senhora sorriu.  Nora  uma mulher rica. Tem um rendimento de mais de cem mil por ano, de uma fundao pertencente  famlia.
       Sam ficou a olhar para ela. Sabia que Nora tinha dinheiro, mas nunca pensara que fosse tanto.
        Estou curioso acerca de uma coisa, Sra. Hayden. Falou  Nora neste assunto?
       Ela fez que sim com a cabea.
        Claro, Sr. Corwin. Nunca viria discutir este assunto consigo sem ter o consentimento expresso da Nora.
       Sam encheu o peito de ar.
        Ento porque no foi ela a falar-me nisso?
        Nora achou que seria melhor se discutssemos os dois o assunto primeiro  replicou.  Assim, se o senhor no concordasse a vossa relao no seria perturbada.
       Sam acenou com a cabea.
        Estou a perceber.  Procurou o cachimbo na algibeira e depois, p-lo na boca, pensativo.  Claro que ambas compreenderam j que, se eu assumir essa posio, a minha deciso em todas as questes relacionadas com o negcio, ser definitiva?
        A Nora tem a maior considerao tanto pela sua integridade como pela sua perspiccia.
        Temos o negcio fechado, Sra. Hayden.
        Nora vai ficar muito contente.
        Onde  que ela est? H uma srie de coisas que temos de discutir.
        Vou mandar o Charles cham-la  disse a Sra. Hayden.  Acho que ela est no estdio.
Carregou num boto e o mordomo apareceu  porta. Pediu-lhe que chamasse Nora e voltou-se novamente para Sam. A voz dela era enganosamente suave:
        Eu tambm estou muito satisfeita, Sr. Corwin. Ser para ser um grande alvio saber que h mais algum alm de mim que se ocupa do bem-estar de Nora.
        Pode ter a certeza de que farei tudo o que estiver ao meu alcance, Sra. Hayden.
        Estou convencida disso  respondeu.  No vou fingir que conheo a minha filha em todas as situaes. Ela  uma pessoa muito voluntariosa. Nem sempre estou de acordo com o seu comportamento.
       Sam no respondeu, limitou-se a ficar sentado de cachimbo na boca, a olhar para ela. Perguntava a si mesmo o que  que ela sabia, na realidade, acerca de Nora. A afirmao que fez a seguir tornava claro que havia poucas coisas que no soubesse.
        Imagino que posso ser considerada antiquada em muitos aspectos  disse num tom de desculpa  mas, s vezes, a minha filha parece-me ... como  que hei-de dizer...? bastante promiscua?
       Sam estudou-a cuidadosamente durante alguns momentos.
        Posso falar-lhe com toda a franqueza, Sra. Hayden?
       Fez que sim com a cabea.
        Peo-lhe que compreenda que no estou a defender Nora nem a atac-la. Mas acho que  da maior importncia que, tanto a senhora como eu compreendamos de que  que estamos a falar.
       Estava a observ-lo to cuidadosamente como ele a tinha observado a ela.
        Continue, por favor, Sr. Corwin.
        Nora no  uma pessoa vulgar  disse Sam.   uma pessoa cheia de talento, talvez mesmo um gnio. No sei.  extremamente nervosa, tem uma sensibilidade apurada e  muito emotiva. Precisa de sexo tal como muita gente precisa de lcool.
        Est a tentar dizer-me, de uma maneira delicada, que a minha filha  ninfomanaca, Sr. Corwin?
        No  nada disso que eu estou a tentar dizer, Sra. Hayden  respondeu, escolhendo cuidadosamente as palavras.  Nora  uma artista. Encontra no sexo um certo estimulo e, ao mesmo tempo, uma forma de fuga. Disse-me uma vez que isso a ajudava a aproximar-se mais das pessoas, a aprender mais coisas sobre elas, a compreend-las melhor.
       Ela continuava a observ-lo.
        O senhor e Nora...?  deixou a pergunta suspensa no ar. 
       Sam olhou-a bem de frente. Fez que sim com a cabea, sem falar. A velha senhora suspirou ao de leve e baixou os olhos para a secretria.
        Agradeo-lhe a sua honestidade, Sr. Corwin. No era minha inteno intrometer-me nas suas relaes pessoais.
        J h muito que tudo acabou  disse.  Descobri isso na ltima vez que ela esteve em minha casa.
        E isso foi h cerca de seis meses? Por altura da exposio dela?
       Sam Corwin fez que sim com a cabea.
        Nora pareceu-me muito perturbada. Tinha estado a chorar. Parece que aquele jovem major que a levou no carro tinha sido muito spero com ela.
        O major Carey  disse.  Pareceu-me um homem to simptico.
        Disse qualquer coisa que a incomodou. Fosse como fosse, mandei-a para casa de txi, meia hora depois de ter chegado.
        Sempre perguntei a mim mesma porque  que ela teria chegado a casa to cedo naquela noite. Gostava de lhe pedir um favor, Sr. Corwin.
        Tudo aquilo que estiver ao meu alcance.
        Nora tem em muito alta conta a sua opinio. Ajude-me ... ajude-a a no se meter em sarilhos.
        Vou tentar, Sra. Hayden. Por ns todos.
        Obrigado  disse. De repente, parecia muito cansada. Recostou-se na cadeira e fechou os olhos.  s vezes, penso que a melhor coisa para ela seria casar-se. Talvez assim se sentisse diferente.
        Talvez.  Mas, l no fundo, Sam sabia que no era assim. As raparigas como Nora nunca mudavam; casadas ou no.
       Ficaram sentados em silncio at  chegada de Nora.
        O Sr. Corwin concordou com a nossa proposta  disse a me.
       Nora sorriu. Estendeu-lhe a mo.
        Obrigada, Sam.
        No me agradeas  disse.  Ainda podes vir a lament-lo antes de tudo isto chegar ao fim.
        No me importo de arriscar.
        Ok  respondeu ele numa voz jovial e cheia de profissionalismo.  Vamos a ver... em que  que ests a trabalhar?
        Estou a preparar-me para uma exposio que a Arlene Gately vai fazer em abril.
        Cancela.
        Por que carga de gua?
        No nos  possvel.
        Mas eu prometi...
        Ento vais ter de quebrar a promessa  disse Sam bruscamente. Voltou-se para a Sra. Hayden.  Passe-nos um cheque de dez mil dlares. A Nora e eu vamos para Nova Iorque.
        Nova Iorque?  perguntou Nora.  Por qu?
       A me olhava para Sam com ar interrogador.
        Nova Iorque  repetiu ele.  Quero que o Aaron Scaasi lhe arranje uma exposio em abril.
        No posso fazer uma coisa dessas.
        Por que no?  perguntou com aspereza.
        Porque a Arlene tem sido sempre o meu agente. Ela  que tem organizado todas as exposies que eu tenho feito. No posso voltar-lhe as costas ao fim de tanto tempo.
        Podes. E  isso mesmo que vais fazer. Arlene Gatoly pode ser muito simptica, mas no passa de uma negociante em pequena escala e de uma terra pequena. Tu j a ultrapassaste. Aaron Scaasi  reconhecido como um dos principais negociantes de arte do mundo inteiro. Neste momento, uma exposio na galeria dele aproxima-te mais do prmio do que tudo o mais que possas fazer.
        Mas como  que sabes que ele est de acordo?
        Est, sim.  Sam sorriu.  Esse cheque de dez mil dlares diz-me que ele vai estar de acordo.
       Tudo isto, claro est, aconteceu enquanto eu ainda estava no Pacfico.
       Eu era o tipo indicado para uma novela do gnero Somerset Maugham. A floresta escaldante e fumegante a atrair o homem branco para uma espcie de torpor, seduzindo-o depois com a ajuda de uma linda rapariga de pele bronzeada para uma vida feliz com que nunca sonhara na ptria bem amada. Mas comigo as coisas nunca se passaram assim. Acho que devia estar no tipo de floresta errada.
       Fazia sempre um frio hmido na pista area a norte de. Port, Moresby, e por mais roupa que se pusesse em cima, o frio chegava-nos aos ossos. Andava-se sempre a bater os dentes, com o nariz a pingar e era mais fcil apanhar uma gripe do que a malria. Passvamos a maior parte do tempo que tnhamos livre, aconchegados em volta do enorme fogo redondo na sala de equipamento dos pilotos, a discutir os aspectos tcticos mais srios da guerra como, por exemplo, se Pat conseguiria apanhar a Dama Drago, antes de ela violar Terry ou se Daisy Mac alguma vez conseguiria libertar Lil Abner do Momismo.
       Nos intervalos destas discusses de alto nvel, corramos para os avies sempre que as sirenes gritavam, subamos e voltvamos a aterrar e depois mandvamos as ceroulas para os indgenas que nos lavavam a roupa, para estarmos prontos para o prximo voo. H qualquer coisa de muito inesttico em se morrer com a roupa de baixo suja. Pode dizer-se que quase anti-americano.
       Cheguei a tenente-coronel da maneira mais difcil. O meu comandante de voo recebeu o tiro que o fez desaparecer do cu mesmo em frente dos meus olhos e eu fui posto no lugar dele. Ainda me lembro do que pensei quando me trocaram as folhas de carvalho douradas pelas de prata: Todos tm de morrer; agora  a minha vez.
       Mas tinha tido sorte. Ainda me lembro da surpresa que senti perante aquela dor repentina e fina como uma agulha que me apertou as costas. O painel de comandos desintegrou-se diante dos meus olhos no momento em que o Zero japons rodou por cima da minha cabea e foi bater na gua, no momento em que eu tentava safar-me da que estava por baixo de mim. No sei como  que consegui voltar  pista. Parecia-me que flutuava num mar de geleia e, de repente, o avio tocou no cho e rolou sobre si mesmo. Algures, ao longe, ouvi algum gritar e senti as mos que me puxavam. Eram mos quentes, reconfortantes, embora estivessem a tentar arrancar-me ao calor delicioso que me rodeava. Fechei os olhos e entreguei-me a elas. J era tempo de chegar quela floresta sobre a qual tinha lido tanta coisa. Sorri para comigo Mesmo.
       Assim sim. Estava deitado na praia em Bali-Bali e havia um milhar de belezas de seios nus, todas elas parecidas com Dorothy Lamour, a passearem-se de um lado para o outro e o nico problema era que eu tinha de decidir qual  que ia escolher para aquela noite. Isto era um sonho do qual no ia desistir. MacArthur bem podia aprender a passar sem mim.
       Fui mandado de volta para os Estados Unidos logo que fiquei em condies de viajar. S na segunda semana de julho  que vim a saber que Nora tinha ganho o Prmio Eliofheim e, mesmo assim, s porque vi, por acaso, a fotografia dela na capa da Life.
       Desde fevereiro, altura em que tinha sido ferido, tinha passado cinco semanas num hospital na Nova Guin, depois mais sorte no hospital dos veteranos em San Diego, aps o que me tinham dado alta, dizendo-me que estava como novo. Ia ter uma licena de trinta dias antes de voltar para o meu regimento, por isso voltei para La Jolla, aluguei um pequeno barco no qual podia comer e dormir e pus-me a curtir ao sol.
       Estava a dormitar numa cadeira no convs quando fui acordado pela pancada de uma trouxa a cair em cima do convs. Abri os olhos e vi um rapaz na orla do cais a rir-se para mim. Fazia questo de no ler os jornais dirios; estava farto de ouvir falar na guerra. Mas tinha pedido ao vendedor de jornais que me arranjasse umas quantas revistas todas as semanas.
       Meti a mo na algibeira e atirei pelo ar uma moeda de meio dlar. Ele apanhou-a com toda a graa de Joe Di Maggio ao trazer para baixo uma bolada alta.
       Inclinei-me, peguei no mao de jornais e revistas e desatei o fio que os amarrava. As revistas escorregaram pelo cho e eu peguei na primeira que me veio  mo. Fiquei a olhar para a fotografia da rapariga de cabelos escuros, com o seu ar vagamente familiar e lembro-me de ter pensado que era agradvel eles terem desviado um pouco as atenes da guerra. Depois compreendi por que  que a rapariga me parecia to familiar.
       Estava l, em pequenas letras brancas destacadas: NORA HAYDEN - DETENTORA DO PRMIO DE ESCULTURA DA FUNDAO ELIOFHEIM.
       Olhei para a fotografia e aquela sensao estranha assaltou-me de novo. Os olhos escuros e luminosos, a boca estranhamente sensual por cima do queixo orgulhoso, quase altivo. Era como se fosse ontem, embora j tivesse passado quase um ano desde que a vira.
       Abri a revista. Havia mais fotografias no interior. Nora a trabalhar no pequeno estdio nas traseiras da casa da me. Nora a fumar enquanto esboava uma ideia. Nora sentada a uma janela, com a luz por detrs a desenhar-lhe a silhueta. Ou estendida no cho, a ouvir um disco. Comecei a ler.
       A esbelta Miss Hayden que mais parece um modelo do que uma artista, no deixa quaisquer dvidas no nosso espirito em relao  sua posio quanto ao trabalho.
       A escultura  a nica forma de vida autntica no campo da arte, afirma, tridimensional. Podemos andar em volta dela, v-la de qualquer ngulo, toc-la, senti-la como qualquer outra coisa viva. Tem forma, volume e realidade e existe na vida que nos rodeia. Podemos v-la em qualquer pedra, no gro macio de qualquer pedao de madeira, na fora pnsil e malevel de cada tira de metal.
       Cabe apenas ao artista fazer brotar esta viso escondida na matria-prima, dar-lhe forma, acrescentar-lhe um sopro de vida... "
       Ouvia-lhe a voz ecoar-me no ouvido. Voltei-me de novo para a capa da revista e pus-me a estudar a fotografia dela. No foi preciso mais nada. Deixei cair a revista em cima do convs e levantei-me. Foi assim que mudei de ideias. Que mal fazia ser um ano depois?
       Fiquei na cabina telefnica apertada e estreita, ao fundo da doca, a ouvir o telefone tocar do outro lado, em So Francisco. Foi a me que atendeu.
        Daqui fala Luke Carey  respondi.  Lembra-se de mim? 
       A voz da velha senhora era clara e firme.
        Claro que me lembro, coronel. Como est?
        Estou ptimo, Sra. Hayden. E a senhora?
        Nunca estive doente nem um s dia em toda a minha vida  disse.  Li nos jornais o que se passou consigo. Foi muito valente da sua parte.
        Os jornais exageraram. A verdade  que eu no podia ter feito outra coisa.
        Tenho a certeza de que no foi s isso. Mas podemos discutir o caso noutra altura.  Ouvi a voz dela tornar-se mais suave.  Tenho pena de que a Nora no esteja c. Sei que ela vai ficar decepcionada.
        Oh!  respondi.  E eu que queria tanto dar-lhe os parabns por causa do Prmio Eliofheim.
         por isso mesmo que ela no est c. A pobre pequena nunca mais teve um momento de descanso desde que a notcia foi tornada pblica. Insisti em que ela fosse para La Jolla para fugir um bocado de tudo isso.
        Disse La Jolla?
        Sim  a voz dela modificou-se de repente.  De onde  que o senhor est a telefonar?
        La Jolla. Estou aqui de licena.
        No  o que se chama uma coincidncia feliz, coronel? Claro, agora lembro-me de ter visto qualquer coisa nos jornais a propsito da sua estada a. Nora est no Sand and SurfClub.
        Vou telefonar-lhe  disse.
        Se no conseguir falar com ela, coronel, entre em contacto com Sam Corwin. Ele sabe onde  que ela est.
        Sam Corwin?
        Sim  disse.  Lembra-se dele? Aquele jornalista amigo do professor Bell.  ele quem dirige os assuntos da minha filha. A pobre pequena no tem cabea para negcios.  A voz dela modificou-se de novo.  Espero bem que no tenhamos de esperar mais um ano para voltar a v-lo, coronel. Continuo a achar que temos um assunto a discutir. Parece-me que a Hayden de Carruthers seria um excelente lugar para retomar a sua carreira.
        Agradeo-lhe muito o seu interesse, Sra. Hayden. Havemos de falar disso muito em breve.
        Ser sempre bem-vindo, meu jovem amigo. Adeus.
       O telefone deu um estalido e eu hesitei um momento antes de pr outra moeda. Desta vez foi Corwin quem atendeu.
        Miss Hayden est?  perguntei.
        Quem  que est ao telefone?
        Luke. Carey.
       Pareceu-me que a voz dele tomou um tom mais cordial. 
        Coronel Carey?
        Sim. 
        S um momento, por favor. Vou ver se consigo encontr-la. 
       Fiquei um momento agarrado ao telefone e depois ouvi a voz dela.
        Coronel Carey. Que surpresa! Como  que soube onde eu estava?
       Ri-me. 
        Foi a sua me que me disse. Pensei que talvez pudssemos encontrar-nos para tomar uma bebida.
        Est em La Jolla?
        A cerca de cinco quilmetros da  disse.  Que tal a ideia?
        Gostava imenso. Mas Aaron Scaasi, o meu agente, deve chegar de Nova Iorque a todo o momento. Damos um cocktail para a imprensa s cinco horas.
       Esperei que ela sugerisse outra ocasio, mas no o fez. Estava certo, pensei. No tinha nenhum motivo para isso. A ltima vez que tnhamos estado juntos, eu no fora propriamente o que se podia chamar um exemplo de delicadeza.
        Eu tento noutra ocasio.
        Sim, por favor  disse delicadamente e desligou.
       Franzi os olhos para o cu enquanto caminhava ao longo do cais. O cu estava bom. Azul como nos postais, com algumas nuvens muito claras. O sol estava agradvel e quente; mais tarde ia ficar escaldando e pesado, mas eu no me importava... Nessa altura j estaria no mar. Estava tudo acabado, pensei. Mas tambm no sabia o que Sam. lhe tinha dito depois de eu desligar.
        No foste l muito cordial.  disse Sam enquanto ela pousava o auscultador.
        Que diabo! Um ano inteiro. Quem  que ele julga que ?
       Sam aproximou-se outra vez do livro de esboos e ficou a olhar para ele. O esboo que se via era o de um jovem que se preparava para mergulhar. Estava nu. Sam conhecia-lhe a cara. Era o estudante do liceu que trabalhava como mergulhador-salvador no clube.
        Ele no  como esses rapazolas  disse secamente.  Esse v-se bem que  piada.
        Tens alguma objeco a pr?
        Pessoalmente no  respondeu.  No me interessa nada com quem  que tu vais para a cama. Mas quando a coisa entra no domnio pblico, afecta-nos o negcio.
       A voz de Nora tornou-se fria.
        Onde  que ouviste falar no assunto?
        Em Muscle Beach no se fala de outra coisa.  demais para o mido ficar com a histria s para ele. Tem contado tudo aos amigalhaos ponto por ponto. No faltou nada.
       Furiosa, arrancou a folha com o esboo de bloco e amarfanhou-a.
        Patifezinho! 
        Eu tinha-te dito que fosses discreta  disse Sam pacientemente.
        E o que  que eu hei-de fazer?  perguntou, atirando para o cho o papel amarfanhado.  Ir para freira?
       Automaticamente, ele apanhou o papel do cho e atirou-o para o cesto dos papis. Tirou o cachimbo da algibeira.
        No consegues deixar de fumar esse cachimbo horrvel? No suporto o mau cheiro.
       Meteu-o na algibeira em silncio e dirigiu-se para a porta. Nora deteve-o.
        Sam...  j no estava zangada e parecia, de repente, muito jovem e desamparada.  Sam, o que  que tu achas que eu devo fazer?
        No sei  respondeu pensativo.  Mas eu comeava por deixar esses midos todos em paz.
        Eu deixo, Sam  respondeu rapidamente.
        E h outra coisa  acrescentou.  No fazia mal nenhum se fosses vista com uma pessoa como esse teu amigo soldado que telefonou agora mesmo. Podia ajudar a afastar os mexericos.
       Quando voltei, o velho guarda que estava sentado no banco em frente dos escritrios do cais acenou-me com a mo cansada.
        Ol, coronel.
        Ol.
        Ouvi dizer para a que viram peixe grosso l para os lados de Coronado. Talvez valesse a pena ir l dar uma espreitadela.
        Sou capaz disso  disse, dando-lhe a rao diria.  Ele deixou cair na algibeira o meio dlar.
        Obrigado, coronel.  Olhou para mim franzindo os olhos aquosos.  A propsito, est uma rapariga no seu barco. Eu disse-lhe que devia estar a voltar do almoo.
       Dirigi-me para o barco. Nora deve ter ouvido os meus passos porque quando cheguei encontrei-a de p no convs. Trazia uns shorts azuis s pintinhas e um corpete e parecia uma mida com o cabelo preto amarrado em rabo de cavalo.
        Ol  disse.
        Ol  respondi.
       Franziu os olhos por causa do sol.
         a minha vez de pedir desculpas, coronel.
       Fiquei um momento a observ-la e depois saltei para o convs, ao lado dela.
	 No precisava de vir at aqui para isso, Nora.
       Ps-me a mo no brao. Senti-a quente na minha.
        Mas eu quis vir, coronel. Quis que soubesse que tinha pena. 
       Estava to perto que lhe sentia o perfume dos cabelos. Era bom, limpo e fresco, como os pinheiros no alto das colinas e a nica maquilhagem que trazia era um leve toque de batom. Olhei-a nos olhos. Pareceu-me uma eternidade. Depois, beijei-a.
       A boca dela era quente e doce e tinha-os dentes fortes e aguados por detrs dos lbios macios. Senti-lhe o brao em volta do pescoo e a presso do corpo de encontro ao meu. Deixei cair a mo at ficar na cintura dela e, ao descer, quase lhe contei as costelas, uma a uma. Foi tal como eu tinha pensado que havia de ser entre ns. Depois de a ter beijado outra vez, larguei-a com a mesma impetuosidade e peguei num cigarro. Fiz girar a roda do meu isqueiro, mas no consegui que o raio do isqueiro funcionasse.
        Olha, estou a tremer.
        Eu tambm estou a tremer  respondeu suavemente. 
       Puxei uma fumaa do cigarro que tinha finalmente conseguido acender e, em seguida, passei-lho. Ela tirou uma fumaa e depois voltou-se.
        Da outra vez queria que voc me beijasse.
        E eu queria beij-la.
        Ento por que  que no o fez?  Os olhos dela eram como as sombras sobre a gua, entre o barco e o cais.  Sabia que eu estava pronta.
       Voltei-me para o outro lado.  Pensei que fosse... para outra pessoa.
        E isso tinha muita importncia, naquela altura?
        Para mim tinha  disse  Voc levou tempo demais a compor a cena. Eu queria que tudo batesse certo entre ns.
        Voc tambm no soube aproveitar l muito bem a situao.
        No.
        E agora ainda tem importncia?
       Tomei-a de novo nos braos.
        Agora j nada tem importncia. Nessa altura os olhos dela estavam cheios de lgrimas e molhava-me a cara com elas.
        Oh, Luke, Luke!
       Sei tudo o que se tem dito acerca das lgrimas de uma mulher, mas no acredito em nada disso. So o melhor banho que existe para o ego de um homem. Senti que tinha dois metros de altura quando lhe afastei as lgrimas com um beijo. Nessa tarde no cheguei a ir ver o peixe a Coronado. Em vez disso, enfiei o uniforme pela primeira vez desde que ali estava e fui atrs dela para a conferncia de imprensa.
       Senti-me contente quando tudo estava prestes a terminar. Foi horrvel. Os reprteres, assim que nos viram juntos, rodearam-nos por todos os lados. Obrigaram-nos a posar. Fizeram perguntas. Estvamos noivos? Quando  que nos casvamos? Como  que nos tnhamos conhecido? Ela ia comigo a Washington quando fosse condecorado? Eu tinha vindo para ali para estar perto dela ou era o contrrio?
       Passados momentos, fartaram-se de fazer perguntas para as quais no tnhamos resposta e a festa tomou o caminho para o qual tinha sido organizada. Isto era: para ouvir Aaron Scaasi expor as razes pelas quais pensava que Nora era a coisa mais importante que tinha acontecido  escultura americana desde o totem. Devo dizer que ele foi bastante convincente. At me convenceu a mim. Era um homem careca e atarracado que mais parecia um ex-pugilistado, que um dos mais proeminentes negociantes de objectos de arte do pas. No parava de enxugar a testa com um leno azul-celeste. Nora parecia uma criana, sentada no sof ao lado dele. Sam Corwin aproximou-se e sentou-se.
        Sabe o que est a dizer  comentou, com um aceno em direco a Scaasi.  Ela  mesmo muito boa.
       Olhei para Sam. Era um homem magro, de aspecto quase frgil, cuja aparncia poderia enganar quem no reparasse na boca firme e no queixo decidido. L no fundo, o indivduo era duro como rocha.
        Eu acredito nele  disse, perguntando a mim mesmo at onde iria o interesse de Corwin por Nora.
       Foi como se soubesse o que eu estava a pensar.
        Conheo a Nora desde os tempos em que ela ainda andava na escola. Sempre tive f nela e fiquei muito satisfeito quando Nora e a me sugeriram que eu me encarregasse dos negcios dela.
       Ficou a estudar-me com os olhos escuros.
        Devo-lhe um voto de agradecimento.
        Oh?  disse. Fez que sim com a cabea.  Por ter vindo  recepo. Nora ficou muito perturbada, depois de ter falado consigo e estava disposta a cancelar tudo, se no conseguisse encontr-lo para lhe pedir desculpa.  muito emotiva,  quase como uma criana neste gnero de coisas.
       A festa estava a chegar ao fim e Corwin afastou-se para trocar algumas palavras finais com os jornalistas. Talvez o bourbon me tivesse afectado os sentidos, mas fiquei com a impresso de que ele tinha querido dizer-me mais qualquer coisa.
       Scaasi e Nora aproximaram-se. Nessa altura dei comigo a criticar a maneira familiar como ele lhe pousava a mo no ombro.
        No quereria fazer-nos companhia ao jantar?
       Hesitei um momento, olhando para Nora; depois decidi-me.
        No, obrigado. Tm negcios a tratar e eu no quero incomod-los.
        No incomodava nada  disse Nora rapidamente. 
       Vi a decepo nos olhos dela. Por momentos, quase mudei de ideias. Depois pensei melhor. Sorri, pedindo desculpa.
        Prometi a mim mesmo que ia pescar um bocado. Acho que vou sair com o barco esta noite e parar l para os lados do Coronado. Quando o sol nascer j estou a postos.
        Amanh, a que horas volta?  perguntou Nora.
        Tarde.
        Ento, j no o vejo. Tenho de estar de volta a So Francisco na manh seguinte.
        Lamento  respondi. 
       Sam chamou Scaasi e deixaram-nos ficar sozinhos.
        Tenciona telefonar-me?  perguntou.
        Claro.
        No, no tenciona  disse, passado um momento.  Eu sei que no vai telefonar. Vai ser como da ltima vez. Vai-se embora e no vou saber mais de si. S vou saber o que ler nos jornais.
        No seja tonta. Eu disse que lho telefonava.
        Quando?
        Assim que for a So Francisco.
        O que tambm pode ser nunca  disse, melanclica. 
       Peguei-lhe na mo. Pareceu-me quente, macia e abandonada.
        Eu telefono-lhe. Prometo. 
       Olhou para mim de uma maneira estranha.
        E se lhe acontecer alguma coisa. Como  que eu sei?
        No me acontece nada. Agora tenho a certeza. Sabe aquele ditado: "Onde tens de ir ..."?
       Os ltimos reprteres desfilaram porta fora. Eram horas de ir. Apertei a mo a toda a gente.
        Eu vou consigo at  porta  disse Nora.
        Saimos para o ptio. J estava escuro e milhares de estrelinhas minsculas iluminavam a noite. Fechei a porta atrs de ns.
        Pensei que no gostava de despedidas  disse. 
       Sabia que podia t-la beijado, mas preferi no o fazer. Se o tivesse feito, no me teria ido embora. Acho que ela tambm sabia que era assim.
        Isto no  uma despedida  sussurrou, tocando-me ao de leve na mo. A porta fechou-se atrs dela e eu desci ao encontro do txi.
       Scaasi j tinha ido para o quarto dele para se preparar, por isso Sam estava sozinho quando Nora voltou para dentro. Olhou para ela com ar interrogador.
        Arranja-me uma bebida  disse a rapariga. 
       Silenciosamente, levantou-se da cadeira e arranjou-lhe um scotch com soda. Ela pousou o copo.
        Vou casar com ele  disse quase num desafio. 
       Corwin continuou silencioso.
        Bom, no tens nada para me dizer?  o que tu e a minha me querem, no ?
       Sam mostrou-se surpreendido.
        Como  que sabes?
        No sou assim to parva  disse, pegando novamente na bebida.  Percebi isso assim que me disseste que lhe telefonasse. Depois, quando ele disse que a minha me lhe tinha dado o nmero, tive a certeza.
       Agora, depois de ela ter feito aquela afirmao, Sam j no tinha a certeza de estar satisfeito com a ideia.
        O casamento  uma coisa sria.
       Nora acabou a bebida e pousou o copo.
        Eu sei  disse.
        Parece ser bom tipo.
        O que tu queres dizer  que eu no sou!
        No disse isso.
        Eu sei que no disseste. Mas  o que ests a pensar, no ? Visto eu ser como sou, no dou uma boa mulher para ele.  Sam ficou silencioso.  E por que  que no posso ser?  perguntou.  Tenho uma boa idade. No sou muito difcil. Tenho todo o dinheiro de que precisarmos e depois da guerra, posso arranjar as coisas de maneira a ele fazer o que quiser. Achas muito mau?
        Isso  uma pergunta ou uma afirmao?
         uma afirmao!  disse, zangada. 
       Ele puxou do seu inseparvel cachimbo.
        Nesse caso, s tenho uma pergunta a fazer-te. Gostas dele?
        Nora ficou a olhar para ele. Era a ltima coisa que esperava que ele lhe perguntasse.
        Claro!
        Ento, ptimo!  Sorriu.  Quando  o casamento? 
       Viu o sorriso dele e a zanga e a desconfiana desapareceram. Retribuiu-lhe o sorriso.
        Logo que conseguir que me pea para casar com ele  respondeu.
       Quando voltei ao barco, troquei o uniforme por um par de Levis. Os depsitos de combustvel estavam cheios; j o tinha verificado antes, quando pensei ir atrs do peixe, mas no gostei da maneira como algumas das velas estavam a queimar, por isso, pus-me a limp-las. Isso, por sua vez, levou-me a limpar os empaques e depois as vlvulas e, quando dei por mim, eram quase dez horas. De repente, senti que estava com fome.
       Vi as minhas provises, mas a verdade  que no havia nada que me apetecesse. Alm disso, teria de arranjar mais alguns mantimentos, se queria ficar fora at tarde no dia seguinte. Descobri uma pequena mercearia que ainda estava aberta, comprei o que precisava e fui ao Greasy Spoom comer um bife pssimo, com o inevitvel frasquinho de chili. No havia outra maneira de o fazer ir para baixo.
       De repente, nem o chili conseguia disfarar o gosto horrvel da comida. Olhei para o prato, aborrecido. Se no tivesse sido parvo, podia ter comido um jantar decente. Mas no. Eu tinha de ser sempre independente. Nada de prises para o velho Luke, Ele marchava sozinho. Meti na boca mais uma garfada de bife e pus-me a mastigar enquanto reflectia. Afinal, o que  que se passava comigo?
       O problema era que tentava sempre tornar as coisas maiores do que eram na realidade. No sabia aceitar as coisas tal como eram. Tinha de tornar tudo profundo e grande. O que era afinal? O dinheiro dela? O facto de a velha senhora mo ter praticamente metido  cara? No, no podia ser isso. Lembrei-me de que, nos velhos tempos da escola, costumavam dizer: " to fcil um tipo apaixonar-se por uma rapariga rica como por uma pobre. S que  muito melhor."
       De repente percebi o que era. No estava muito interessado em me deixar prender porque tinha medo. Medo de que, se me apaixonasse por ela, me deixasse ir. Nora era tudo aquilo que eu sempre tinha querido. Classe, estilo, encanto, toda ela brilho e esplendor, com um acabamento que s os anos podiam dar. E com tudo isso ainda um talento artstico e uma feminilidade feroz e selvtica, que eu sentia correr fundo dentro dela. A vida com uma rapariga daquelas no seria fcil. Alm disso, como  que eu sabia que ela sentia da mesma maneira? O que  que eu tinha para oferecer?
       Tirei mais uma garfada de bife, mas j estava frio e afastei o prato. Fui at ao balco e peguei nos meus dois sacos de compras. No tinha frigorifico, por isso pus tudo no cho da cabina e olhei para o cu. Estava claro e a lua brilhava de tal forma que quase parecia dia. Olhei para o mar. Estava calmo como um lago, como era costume dizer-se. Olhei para o relgio. Eram onze e meia. Conseguiria fundear em Coronado pouco depois da uma. Estendi o brao, carreguei no boto do arranque e depois sai para o convs, para pr o barco em movimento.
       A viagem no demorou mais do que eu pensava. Quando desliguei o motor e deixei cair a ncora, os salpicos vieram bater-me na cara. Era bom. Deixei cair o fato no convs e saltei pela borda fora atrs da ncora. Nadar no mar alto  como estar a ser embalado num bero. O oceano tem um volume, um corpo que sentimos debaixo de ns, Erguemo-nos com ele e camos com ele como se faz com uma mulher; o movimento acalma-nos, faz-nos sentir mais repousados e desfaz todos os ns.
       Mais tarde subi novamente para o barco e atravessei o convs descalo, em direco  cabina. Empurrei a porta e entrei. Estendi a mo  procura de uma toalha, mas encontrei o stio das toalhas vazio. Mal me voltei para acender a luz, uma voz saiu da escurido.
         procura de uma toalha, Luke? 
       E uma toalha saiu da escurido, voando, bateu em mim e caiu no cho. Inclinei-me para a apanhar.
       No conseguia v-la. Estava escondida nas sombras do beliche, mas conseguia ouvir-lhe o riso.
        Meu Deus, como ests magro! Estive a ver-te pela portinhola. Contam-se todos os ossos.
       Rapidamente enrolei a toalha em volta do corpo. Ouvi-a mexer-se e depois a cabea dela bloqueou o luar que entrava pela portinhola. Senti-lhe o toque das mos no meu ombro e quando se voltou, o luar deu-lhe em cheio no rosto. Estendi-lhe os braos e, mesmo antes de lhe tocar, j sabia que estava to nua como eu.
       No sei quanto tempo ficmos ali, na cabina minscula, com os lbios a tocarem-se, os corpos moldados um no outro, de forma que nem conseguia dizer onde acabava eu e comeava ela.
        Amo-te, Nora  disse. 
       Senti-a mexer-se ligeiramente nos meus braos.
        Amo-te, Luke.  Encostou-me a cara ao peito.  Eu tinha-te dito que no era um adeus.
       Levantei-a nos braos e levei-a at ao beliche.
        Nunca mais vamos dizer adeus, tu e eu  sussurrei. 
       Os braos dela estenderam-se e puxaram-me para um pas de maravilhas que nunca tinha conhecido antes.
       Como  doce a carne do amor! Estava a dormir de lado, quando acordei a meio da noite; tinha as costas de encontro  parede, os joelhos dobrados para cima, tanto quanto o espao permitia. Tinha os olhos fechados e, mesmo  luz do luar, reparei como as pestanas eram compridas e escuras e como se parecia com uma criana quando dormia. Lentamente abriu os olhos. Fechou-os de novo, por momentos e depois voltou a abri-los, lentamente. Um sorriso malicioso surgiu-lhe no rosto. Puxou-me a cabea de encontro ao peito.
        Vem, meu querido. 
       Os seios dela eram como pequenos frutos maduros, doces, firmes e quentes, como os pssegos amarelos que crescem nas rvores em julho. Beijei-os e ouvi-lhe o grito sensual de prazer. Mais tarde, muito mais tarde, com a cara enterrada no meu ombro, murmurou.
        Nunca tinha sido assim, Luke. Nunca! 
       Acariciei-lhe suavemente a cabea. No respondi. Levantou a cabea para me olhar nos olhos. 
        Acreditas em mim, no acreditas?  Fiz que sim com a cabea, sem dizer nada.  Tens de acreditar em mim! No podes deixar de acreditar  disse ferozmente.  Digam as pessoas o que disserem.
        Acredito em ti. 
       Com grande espanto meu, ela comeou a tremer e quase largou a chorar.
        H pessoas que me odeiam! Que invejam tudo o que tenho e tudo o que fao. Esto sempre a inventar histrias a meu respeito. A contar mentiras.
       Lembro-me de como me senti naquele momento muito mais sensato e muito mais velho do que ela.
        No penses nisso. H sempre gente dessa. Mas eu conheo-te e qualquer pessoa que te conhea no vai dar ouvidos a essas histrias.
       Apertei-lhe novamente a cabea de encontro ao meu ombro e, passado um bocado, deixou de tremer.
        Luke, em que  que ests a pensar?  Levantou os olhos para mim.  Luke, tenho uma confisso terrvel a fazer.
       Um medo repentino cresceu dentro de mim. Se me tinha mentido em qualquer coisa, no queria saber. No queria que nada mudasse entre ns. No disse palavra. Acho que ela sabia o que se estava a passar dentro de mim, porque me lanou um sorriso trocista.
        No sei cozinhar. 
       A sensao de alvio que me percorreu o corpo foi quase cmica. Larguei a rir. Depois deslizei para fora do beliche, para ir fazer caf. Quando voltei, vi que ela tinha descoberto um pedacito de arame. Ficou sentada calmamente, a brincar com o fio enquanto eu bebia o caf forte e negro. Senti-me absolutamente fascinado quando o pequeno fio de metal ganhou vida e tomou o contorno de um homem prestes a mergulhar na gua. Ela notou a minha atitude e ps o fio de lado.
        No pares  disse.  Quem me dera saber fazer uma coisa assim!
       Sorriu.
        Eu, s vezes, preferia no saber. Gostava de parar, mas no consigo. Estou sempre a ver coisas em coisas e  como se elas tivessem de vir c para fora. Entendes o que eu quero dizer?
        Acho que sim. Pertences ao nmero das pessoas com sorte. Muitas pessoas vem coisas, mas no conseguem faz-las tomar forma.
       Ficou um momento a olhar para a figura de arame e depois deitou-a para o lado, despreocupadamente.
         verdade, sou uma das pessoas com sorte  disse quase com amargura.  E tu? O que s tu?
       Encolhi os ombros.
        No sei. Nunca pensei nisso. Sou um tipo qualquer, acho eu,  espera que a guerra acabe.
        E depois o que  que vais fazer?
        Arranjar emprego. Com um bocado de sorte talvez consiga construir umas quantas casas antes de ser demasiado velho para sentir prazer com isso. No sei se presto para alguma coisa. Nunca tive a oportunidade de me afirmar. Fui direito da universidade para a fora area.
        O professor Bell diz que tu s muito bom.
        A opinio do professor Bell no  isenta  disse.  Fui o aluno preferido dele.
        Talvez eu te possa ajudar. Tenho um primo que  um arquitecto bastante conhecido.
        Eu sei  respondi.  George Hayden. Hayden de Carruthers... 
        Como  que soubeste?
        Foi a tua me que me disse. 
       Olhou-me, pensativa. Depois, estendeu a mo para um cigarro. Acendi-lho. Inalou profundamente o fumo.
        A minha me no perde tempo.
       No respondi. Inclinou-se para trs.
         tudo to sossegado, aqui. To grande e vazio e distante de tudo. No h barulho que nos faa doer os ouvidos, nem pessoas para nos aborrecerem. Apenas uma calma tremendamente profunda. Como se estivssemos sozinhos no mundo. 
       Eu no disse nada.
        Luke.  No olhou para mim.  Queres casar comigo?
        Quero. 
       Ento, olhou-me, com os olhos claros e escuros ao mesmo tempo.
        Nesse caso porque  que no me pedes? 
        O que  que eu tenho para oferecer a uma rapariga como tu?  perguntei.  No tenho nada. Nem dinheiro, nem emprego, nem futuro. Nem sequer sei se terei com que sustentar uma mulher.
        E isso  assim to importante? Eu tenho o suficiente... 
        Para mim,  importante  disse, interrompendo-a.  Sou um tipo antiquado.
       Ajoelhou ao meu lado e pegou-me nas mos.
        Isso no tem importncia, Luke. Acredita, nenhuma importncia. Pede-me que case contigo.  Fiquei a estud-la em silncio. Afastou os olhos dos meus.  Isto , se queres realmente casar comigo. Mas no s obrigado a isso, s por causa do que aconteceu entre ns. Quero que saibas isso.
       Estendi os braos e voltei a cara dela para mim.
        Amo-te  disse.  Queres casar comigo? 
       No respondeu. Limitou-se a olhar para mim e a acenar com a cabea, com as lgrimas a brilharem-lhe nos olhos. Inclinei-me e beijei-a suavemente nos lbios.
        Tenho de dizer ao Sam. 
        Ao Sam?  perguntei. 
        Sim, faz parte do trabalho dele. Vai ter de preparar um comunicado para a imprensa. Sempre  melhor do que deixar algum reprter mexeriqueiro tomar conta do caso e deturpar tudo.
       No respondi. Ps-me a mo no brao.
        Sam  um bom amigo.

        Era o homem com quem te ias encontrar na noite em que te conheci  disse.
        Ah, ento  isso! Tens cimes dele.  No respondi.  No tens de ter. J h muitos anos que o Sam  um bom amigo. Desde o meu tempo de escola.
        Eu sei. Ele teve o cuidado de mo dizer. 
       Ficou um momento com os olhos pregados em mim.
        E  s isso que ele tem sido. Um bom amigo. Nunca houve nada entre ns, embora as pessoas digam o contrrio.
        Essa  uma das coisas de que estavas a tentar prevenir-me?  perguntei.
        . Mas trata-se de mais uma mentira suja 
       Ali mesmo, cometi o primeiro erro do nosso casamento. Era de facto uma mentira, mas a mentira era dela. No sei porque  que eu sabia, mas a verdade  que sabia. Talvez fosse a expresso cndida e honesta dos olhos dela ou o tom decidido da voz. Qualquer coisa que no estava certa. Nunca tinha sentido aquilo nela, no encaixava.
       Mas o erro foi meu e no se pode voltar atrs e comear tudo pelo principio. Uma mentira leva a outra, no apenas para o mentiroso, mas tambm para quem finge acreditar, at que a verdade se torna demasiado terrvel para que qualquer dos dois a possa enfrentar. Mas, naquela altura, eu ainda no sabia isso. Pelo contrrio, pensava que, fosse o que fosse que ela no queria que eu acreditasse, j tinha acabado h muito. Tinha acontecido antes de eu a conhecer e j no tinha importncia. Eu amava-a e ela amava-me e tudo o mais era ontem. Inclinei-me e beijei-a ao de leve na face.
        Acredito em ti  disse.
       
       Olhei de relance para Dani, que estava sentada ao meu lado e depois para Nora que estava sentada do outro lado da mesa, entre Harris Gordon e a me. Embora no o fizesse de maneira acintosa, ela conseguia evitar cuidadosamente o meu olhar, depois das palavras de saudao, delicadas, que tnhamos trocado. Perguntava a mim mesmo se os demnios da memria alguma vez tinham voltado para a atentar, como tinham feito comigo. Harris Gordon olhou para o relgio.
        Acho melhor prepararmo-nos  disse. Olhou para Dani, do outro lado da mesa e sorriu.  Vai l acima depressa buscar o teu casaco, minha filha.
       Dani olhou para ele um momento, depois, em silncio, saiu da sala. Um silncio incmodo caiu sobre ns, como se Dani tivesse levado com ela o meio invisvel que tornava possvel a comunicao entre ns. Gordon pigarreou.
        Dani pode ir no carro com a me e a av.  Voltou-se para mim.  Gostaria que o senhor viesse comigo, coronel. Teramos, assim, uma oportunidade de falar.
       Fiz que sim com a cabea. Era isso mesmo que eu queria. Continuava a no saber mais do que aquilo que ele me tinha dito na noite anterior, pelo telefone. Durante todo o pequeno-almoo, tnhamos evitado cuidadosamente falar daquilo que nos fizera reunir ali.
        Podemos ir no meu carro, me  disse Nora.  O Charles guia.
       Um leve suspiro escapou dos lbios da Sra. Hayden. Olhou para mim com um vago sorriso sombrio.
        Envelhecer  um processo penoso. Nunca se consegue que tenha a graciosidade que ns gostaramos de lhe imprimir.
       Retribui-lhe o sorriso com um aceno de cabea. Sabia exactamente o que ela queria dizer. Quando Gordon saiu atrs da Sra. Hayden, Nora e eu ficmos sozinhos. Nora pegou na cafeteira.
        Mais caf?  Fiz que sim com a cabea.  Natas e acar?  Olhei para ela. Corou.  Que disparate o meu! Esqueci-me. Simples. Sem natas. Um quadradinho de acar.  Ficmos um momento em silncio.  A Dani est muito bonita, no achas?
        Sim, est muito bonita  respondi, levando a chvena  boca. 
        O que  que pensas dela?
        No sei o que  que hei-de pensar. J no a via h tanto tempo e agora s estive com ela uns minutos.
       Uma nota de sarcasmo apareceu-lhe na voz:
        Nunca pensei que precisasses de tempo para formar uma opinio. Costumavas dizer que vocs os dois estavam sempre sintonizados.
        Estvamos  respondi.  Mas isso foi h muito tempo. Dani cresceu e aconteceram-nos tantas coisas a ambos. No sei, talvez volte com o tempo.
        Costumavas mostrar-te mais seguro da tua filha.  Olhei para ela.
        Havia muitas coisas das quais eu costumava sentir-me mais seguro. Como agora, por exemplo. Tenho a certeza de que ests, deliberadamente, a fazer uma grande histria  volta da palavra filha. Se ests a tentar dizer-me alguma coisa, podes aproveitar agora.
       Os olhos dela toldaram-se.
        Continuas exactamente como quando nos conhecemos. Dolorosamente directo.
         demasiado tarde para mentiras delicadas, Nora. Embarcmos nisso h muito tempo e no deu resultado. A verdade  mais simples. Assim ningum tropea em nada.
       Nora baixou os olhos para a toalha.
        Por que  que vieste?  perguntou com amargura,  Disse ao Gordon que no precisvamos de ti. Estvamos a entender-nos muito bem.
       Pus-me de p. 
        Eu no queria vir. Mas tenho a certeza de que, se estivessem a entender-se assim to bem, no teria sido preciso.
       Dei meia volta e sa para a sala de entrada. Sentia um n caracterstico nas entranhas. Nora no tinha mudado nada.
       Nesse momento Dani vinha a descer as escadas. Levantei os olhos para ela e, dentro de mim, tudo ficou paralisado. J no era uma rapariguinha que vinha pelas escadas abaixo. Era uma mulher. Algum que eu tinha conhecido muito bem: a me dela. Trazia um fato de saia e casaco, o casaquinho atirado despreocupadamente por cima dos ombros, Tinha o cabelo fofo, acho que  como lhe chamam, o batom acabado de pr na boca jovem. A criana que tinha estado sentada a meu lado  mesa do pequeno-almoo desaparecera outra vez.
        Pap!
       O gelo desfez-se dentro de mim. A voz continuava a ser de uma criana. 
        Sim?
       Desceu e fez uma pirueta  minha frente.
        Como  que me acha? 
        Uma boneca de carne e osso.  Sorri, estendendo-lhe os braos.
        No faa isso, pap  disse rapidamente.  Vai escangalhar-me o cabelo.
       O sorriso desapareceu-me do rosto. Continuava a ser uma criana, se era s isso que a preocupava, Mas talvez no fosse. Nora agia da mesma forma quando queria preservar aquilo que chamava a sua imagem. Fiquei a pensar se a minha filha tambm passara a pensar como ela. Dani pareceu notar o meu constrangimento.
        No te preocupes, pap  disse, no mesmo tom estranhamente tranquilizador que tinha usado quando Nora entrara na sala.  Tudo vai correr bem.
       Baixei os olhos para ela.
        Tenho a certeza de que sim.
        Eu sei que vai, pap  disse com um nfase curioso.  H coisas que tm mesmo de acontecer para as pessoas poderem crescer.
       Fiquei a olhar para ela. A velha Sra. Hayden entrou nesse momento, seguida de Gordon e Nora.
        Digam ao Charles que siga o meu carro  disse Gordon enquanto lhes abria a porta da rua.
        A que horas  que temos de estar no tribunal?  perguntou Nora quando iam a sair.
       O advogado olhou-a com ar interrogador.
        Hoje no vamos ao tribunal. Vamos simplesmente entregar de novo a pequena s autoridades que se ocupam da delinquncia juvenil.
        Ainda bem. No me sinto capaz de aparecer em tribunal. 
       Gordon no respondeu, limitou-se a fazer um aceno de cabea, enquanto ela se encaminhava para os carros.
        Faa favor, coronel  disse, delicadamente. 
       Charles estava a abrir a porta do Jaguar de Nora quando eu me aproximei. Um sorriso franziu-lhe a cara.
        Coronel Carey.
        Charles  sorri e estendi-lhe a mo.  Como  que tens passado?
        ptimo, meu coronel!  A voz dele tornou-se calorosa.  Apesar das circunstncias,  bom tornar a v-lo. 
        Fecha a porta, Charles  disse Nora de dentro do carro.
        Charles fez que sim com a cabea e fechou a porta. Deitou-me um olhar enquanto dava a volta ao carro, apressado, e sentou-se ao volante.
        Veio de carro, coronel?  perguntou Gordon. 
       Apontei para o pequeno Corvair de aluguer, um pigmeu entre dois gigantes, o Cadilac preto dele e o Jaguar cinzento de Nora.
 Nesse caso, vou dizer ao meu motorista que venha atrs de ns. 
        Pode fazer-lhe jeito o carro quando estivermos despachados.
       Fez um gesto com a mo e comemos a desfilar ao longo do caminho extenso, com os outros carros atrs de ns. O jardineiro abriu os portes e ns passmos. Havia um grupo de reprteres do lado de fora, mas dispersaram em direco aos respectivos carros, quando viram que no amos parar. Gordon. fez de novo sinal e voltmos para oeste, seguindo por Califrnia Street e passando em frente da Catedral da Graa.
       Ambos estendemos a mo ao mesmo tempo para o isqueiro do carro. Rimo-nos e apontmos um para o outro. Acendi o meu cigarro e depois segurei no isqueiro para ele acender o dele.
        Obrigado.  No olhou para mim.  Espero que no me guarde rancor por causa do nosso encontro anterior.
       Olhei para ele. Lembrava-me de uma fotografia que tinha visto uma vez, de Gene Tunney e Jack Dempsey, num jantar desportivo qualquer. Tunney sorria, mas no rosto de Dempsey havia uma fria negra. Compreendia agora o que ele sentia. Por muito remotos que sejam os factos, ningum gosta de se lembrar de uma derrota. Eu no era excepo. A ideia no me agradava, mas como toda a gente, tinha de aprender a viver com ela.
        Faa um trabalho igual pela minha filha, que eu no me queixo.
       No lhe escapou a maneira como eu fugi ao assunto, mas preferiu ignorar.
        ptimo! Pode ter a certeza de que fao. 
       Esperei at entrarmos em Gough Street, ento disse:
        Tudo o que sei  aquilo que me contou pelo telefone ou o que li nos jornais. Talvez me possa pr ao corrente.
        Claro.  Deitou-me um olhar curioso.  Creio que no deve ser preciso entrar em grandes pormenores sobre a ligao de Nora com Riccio?
       Sacudi a cabea. Conhecia Nora.
        Tinham passado o dia inteiro a discutir  disse.  segundo depreendi, Nora queria pr fim  sua ligao, tanto de negcios como pessoal. Pediu-lhe que sasse de casa imediatamente. Ele tinha descoberto uma mina e no pretendia larg-la.
        A Nora tinha outro?  perguntei. 
       Outra vez a mesma olhadela de lado. Encolheu os ombros.
        No sei e tambm no perguntei. A polcia j estava no local quando cheguei. No achei prudente fazer perguntas.
        Estou a ver  disse. 
       Voltmos novamente para oeste, para entrar em Market Street.
        Ao que parece, Riccio tinha ido atrs de Nora desde o quarto at ao estdio, sempre a discutir. Dani estava no quarto dela, a tentar estudar, quando ouviu a me gritar. Correu pela escada abaixo e viu Riccio avanar ameaadoramente para Nora. Pegando no cinzel de escultor que estava em cima da mesa, correu a pr-se no meio de ambos e acutilou Riccio no estmago. Quando Riccio caiu para o cho a sangrar, a pequena ficou histrica e comeou a gritar. Charles entrou no estdio a correr, seguido da criada de Nora. Nora disse a Charles que chamasse o mdico pelo telefone de casa e ligou para mim pelo telefone do estdio. Pedi-lhe que comunicasse  polcia e que cooperasse com eles, mas que no prestasse declaraes enquanto eu no chegasse. Pus-me l em cerca de vinte minutos. A polcia chegou, pelo menos, dez minutos antes de mim.
       Esmaguei o meu cigarro no cinzeiro.
        Agora a grande novidade.
        Que a Nora o tenha morto?  isso que est a pensar?
       Fiz que sim com a cabea. Gordon respondeu muito lentamente.
        No creio. Falei com ambas antes que fossem prestadas quaisquer declaraes. As histrias que me contaram separadamente corroboravam-se demasiado para poderem ser contestadas.
        Tiveram tempo de combinar essas mesmas histrias.
       Sacudiu novamente a cabea.
        Tenho demasiada experincia deste gnero de coisas para me deixar levar. Alm disso, nenhuma delas estava em estado de imaginar uma histria falsa. Estavam ambas quase histricas. Nunca teriam conseguido a coerncia necessria para fabricar uma histria.
        No houve mais testemunhas.
        Nenhuma.
        O que  que aconteceu a seguir?
        O Dr. Bonner, que chegou antes de mim, levou Nora para cima e deu-lhe uma injeco. Em seguida eu mandei o sargento Flynn ligar para si, enquanto fui  esquadra da polcia, com Dani, para ela prestar declaraes. Li-lhe depois o depoimento e, apesar dos meus conselhos, insistiu em o assinar. Da esquadra da polcia fui  seco de detidos juvenis, onde Dani foi entregue s autoridades competentes. Felizmente consegui persuadir o encarregado a ligar para o juiz do Tribunal de Menores que, depois de ouvir a recomendao do Dr. Bonner, mandou Dani passar a noite a casa. Levei-a para casa da av e foi de l que liguei para si.
       Estvamos agora em Portola Drive, subindo para as colinas. Olhei para trs. O Jaguar de Nora vinha mesmo atrs de ns. Para a esquerda via-se quase a cidade inteira estendida diante dos nossos olhos.  direita, vi os locais de construo bem meus conhecidos. Estvamos a aproximarmo-nos de um enorme cartaz: AQUI  DIAMOND HEIGHTS
       Era onde vinha comprar as rvores de Natal nos primeiros anos do meu casamento com Nora. Lembrava-me de ter pensado uma vez que poderia fazer ali a construo do meu primeiro projecto, mas tinha surgido um problema de escoras por causa das colinas e a municipalidade no tinha querido cooperar. Mas agora a terra era mais rara e mais valiosa. Aparentemente as autoridades tinham comeado a ver mais claro. Olhei para as casas com olho crtico. Estavam a fazer um bom trabalho. Voltei-me novamente para Gordon
        Precisamente o que foi que o levou a telefonar-me?
       Encolheu os ombros.
        No sei l muito bem. Deve ter sido assim uma espcie de inspirao. Tive o pressentimento de que voc devia ser a pessoa indicada para se ter  mo numa situao destas.
        Pensou isso, mesmo depois do que Nora disse da ltima vez que estivemos no tribunal.
       No respondeu logo. Quando chegmos ao cimo da colina, descrevemos uma curva apertada para entrar em Woodside Avenue. Uma srie de edifcios de um verde tristonho erguia-se  nossa direita. Metemos por um caminho particular, subimos e demos a volta para a traseira dos edifcios. Reparei numa pequena placa: SERVIO DE RECEPO DE CRIANAS. Gordon parou o carro e desligou o motor, depois voltou-se para olhar para mim. Falou em voz clara e olhando-me nos olhos:
        O que eu penso no importa. O que conta  aquilo que voc pensa. A responsabilidade  sua. Ou bem que  o pai ou bem que no .
       Abriu a porta e saiu. Ouvi um automvel aproximar-se atrs de ns. Olhei pelo retrovisor e vi o Jaguar de Nora. Lentamente, estendi a mo para o fecho da porta.
       Os reprteres e fotgrafos j estavam todos  nossa volta antes de o carro de Nora parar. Gordon fez um gesto em direco a uma porta que ficava por detrs dele.
        Faa-a entrar para ali o mais depressa que puder.
       Fiz que sim com a cabea e abri caminho at  porta do carro. Nora foi a primeira a sair. Segurei-lhe na mo para a amparar. Os flashes dispararam. Ela voltou-se e juntos ajudmos Dani a sair. As mos dela estavam frias como gelo; senti-as tremer nas minhas.
        No olhes para eles, querida. Vem comigo.  Dani acenou com a cabea, em silncio, e encaminhmo-nos para a porta. Os reprteres comprimiam-se de encontro a ns, forando-nos a parar.
        Parem um momento para tirar uma fotografia, se fazem favor!  gritou um deles.
       Senti a obedincia quase instintiva de Dani  voz da autoridade. Empurrei-a levemente para a frente.
        No pares, querida.
       Gordon conseguiu juntar-se a ns e fizemos um cordo apertado em volta de Dani, enquanto abramos caminho em direco  porta.
        Afastem-se, amigos  suplicou Gordon.  Deixem a pequena fazer o seu caminho!
         isso mesmo que ns queremos, Sr. Advogado!  disse uma voz rouca l do fundo, por detrs da multido.  Uma fotografia de primeira pgina da criminosa mais jovem que j lhe passou pelas mos!
       O rosto de Dani empalideceu e os joelhos fraquejaram-lhe. Passei-lhe um brao bem apertado em volta da cintura e brandi o outro no ar, furioso.
        Deixem-na em paz seno ainda dou cabo de uns quantos!  gritei.
       De repente, fez-se silncio. No sei se foi a minha fria ou o embarao deles perante aquela observao estpida, mas os que estavam mais perto de ns afastaram-se. Eu quase arrastei Dani pela porta dentro e Nora e Gordon seguiram-nos. Gordon. Voltou-se e fechou a porta.
       Dani estava cada de encontro a mim, com os olhos meio fechados. Estava to plida que a pouca maquilhagem que tinha na cara dava nas vistas, Puxei-lhe a cabea de encontro ao peito e apertei-a muito.
        Calma, minha filha. 
       Sentia-a tremer. Tentou falar, mas no lhe saiu nenhuma palavra. Tremia violentamente.
        Tem ali um banco, Sr. Carey  disse uma enfermeira de uniforme branco. 
       No a tinha visto chegar. Encaminhei Dani para o banco e sentmo-nos; ela sempre com a cara encostada ao meu peito. A enfermeira inclinou-se com um frasquinho de sais na mo.
        D-lhe isto a cheirar, Sr. Carey  disse com simpatia. 
       Peguei no frasco e passei-o sob as narinas de Dani. O odor levemente pungente chegou at mim. Dani aspirou e depois, tossiu. A enfermeira pegou no frasco e deu-me um copo de gua. Cheguei-o aos lbios de Dani. Ela bebeu um golo, depois outro, devagar. Levantou os olhos para mim. A cara dela j retomara um pouco a cor.
        Eu... eu estou bem, pap  murmurou com voz rouca.
        De certeza?
       Fez que sim com a cabea. Os olhos dela eram de um violeta profundo, como os da me, embora mais suaves e, de certa maneira, mais carinhosos. Mas agora tinham ficado, de repente, velhos, cansados e doridos.
        Eu habituo-me, pap. S vai ser preciso um pouco de tempo.
        Tu no precisas de te habituar a nada!  exclamei, furioso.
       Dani sorriu.
        No te preocupes, pap. No h problema. 
       Interceptei o olhar de Nora. Conhecia-lhe a expresso. Tinha-a visto muitas vezes, antigamente, quando olhava para Dani e para mim. Como se fssemos dois seres de outro planeta. Um lampejo do velho azedume atravessou-lhe o rosto.
        J te sentes com foras para vir ali  recepo, minha filha?  perguntou a enfermeira.
       Dani fez que sim com a cabea. Quando se ps de p, pegando o brao, ela empurrou-me a mo e eu percebi que tinha visto a expresso da me.
        Eu consigo, pap.
       Segui-a at  pequena mesa da recepo. Havia um letreiro na parede nua e pintada: ENTRADA DE RAPARIGAS. Parecia s um bocado com um hotel barato.
       Sob aquele letreiro, havia outro mais pequeno:
AS RAPARIGAS NO SO AUTORIZADAS A USAR MAQUIAGEM, 
A NO SER BATOM INCOLOR,
 TUDO O MAIS DEVE SER ENTREGUE NESTA RECEPO 
ANTES DE IREM PARA AS RESIDNCIAS.
       Uma mulher de ar calmo e cabelos grisalhos estava sentada por detrs da secretria.
        A sua filha no precisa de dar entrada outra vez, Sr. Carey. J deu entrada a noite passada. Agora s tem de entregar as coisas dela.
       Dani ps a carteira em cima da secretria.
        Posso ficar com um batom e um pente?
       A mulher fez que sim com a cabea. Dani abriu a mala e tirou um batom e um pente. Depois, tirou o relgio de pulso e p-lo dentro da carteira. Levantou os braos e tirou a enfiada de prolas que meteu tambm na carteira. Comeou a tirar o anel do dedo, mas ele no saa. Olhou para a mulher com ar interrogador.
        Tem de ser, Dani  disse a mulher com suavidade. 
       Dani chupou o dedo um momento. Por fim o anel saiu, deixando um crculo branco no dedo. Segurou-o um momento, hesitante, por cima da carteira aberta, depois voltou-se e deu-mo.
        Guardas-mo, pap? 
       Havia qualquer coisa na voz dela que me fez olhar para o anel. Senti apertar-se-me o corao. Como naquela tarde quente em La Jolla: ela tinha sado e eu gastara os meus ltimos quinze dlares num anel de ouro de catorze quilates para o aniversrio dela. Tinha-lhe mandado gravar as iniciais dela: D. N. C. Danielle Nora Carey. Reparei no stio onde tinha sido alargado, para ficar maior, com o passar dos anos. Por momentos, no consegui falar. Limitei-me a acenar com a cabea e a pr o anel cuidadosamente na algibeira. Nessa altura, a porta abriu-se de novo e a velha Sra. Hayden entrou.
        Aqueles malditos reprteres!  Enquanto se encaminhava para ns, olhou para Dani.  Como  que tu ests, minha filha?
        Estou bem, av.
        So horas de ir, Dani  disse calmamente a mulher dos cabelos grisalhos.  Miss Geraghty vai levar-te s residncias.
       De repente Dani pareceu muito s. Um ar de apreenso surgiu-lhe no rosto. Os olhos dela ensombraram-se e escureceram de medo. Miss Geraghty falou num tom tranquilizador.
        No tenhas medo, minha filha. Ns tratamos bem de ti.
       Dani respirou fundo. Foi at junto da me e estendeu os lbios para beijar Nora no rosto. Foi esse o momento escolhido por Nora para tomar uma atitude dramtica.
        Filhinha! Filhinha!  gritou.  No vou deixar que te tirem de junto de mim!
       Era tudo o que a pequenita precisava. Numa fraco de segundo estava a chorar histericamente nos braos da me. Num instante todos se juntaram em volta delas, soltando murmrios de simpatia. Era mais um dos talentos de Nora. A prpria enfermeira, que devia estar habituada a cenas como aquela, tinha lgrimas nos olhos.
       Com uma rapidez de profissional, a enfermeira separou-as e conduziu Dani, ainda a chorar, por outra porta. Por cima havia outro letreiro: PARA AS RESIDNCIAS DAS RAPARIGAS. 
       Nora voltou-se para Gordon ainda a chorar. Ele deu-lhe o leno e ela cobriu rapidamente os olhos, mas eu ainda vi de relance a expresso de triunfo que brilhava neles. Vi-os sair  porta e depois voltei-me para a velha Sra. Hayden. O rosto dela estava sombrio e triste. 
        Quer vir almoar l a casa, Luke? Temos tanto que conversar. 
        No, obrigado  disse.  Acho que vou voltar para o motel e descansar um bocado. No dormi nada a noite passada.
        Ento amanh? Jantar de domingo? Sem mais ningum. S ns dois.
       Fiquei a pensar qual seria a ideia dela. A velha nunca fazia nada sem uma razo.
        Veremos...  respondi.  Eu telefono-lhe. 
       Ficou a olhar para mim um momento, em silncio e depois respirou fundo.
        No precisa de ter medo de mim. Eu gosto a srio da pequenita, palavra!
       Havia uma espcie de splica nos olhos dela que me deu a certeza de que estava a falar verdade. Era a primeira vez que a via pedir que acreditassem nela.
        Eu sei que gosta dela, me Hayden  disse suavemente. 
       Olhou-me cheia de gratido.
        Telefone-me de qualquer maneira, por favor.
        Est bem, eu telefono. 
       Voltou-se e fiquei a v-la sair a porta. Esta fechou-se e depois dirigi-me  empregada de cabelos grisalhos que se tinha sentado  mquina de escrever.
        Quando  que posso visitar a minha filha?  perguntei. 
        A hora habitual das visitas  das duas e meia s trs, aos domingos. Mas, s vezes, abrimos excepes para quem acaba de chegar.
        Eu posso vir s horas normais.
        Passe pela recepo quando vier, Sr. Carey. Deixo l um passe para si.
        Obrigado. 
       Sa. O carro de Nora tinha desaparecido e a maior parte dos reprteres tinha-se ido embora, mas Gordon estava de p, junto do seu Cadilac negro, a falar com os dois que tinham ficado. Fez um gesto na minha direco e eu aproximei-me.
        John Morgan do Chronicle  disse Gordon indicando o mais alto dos dois  e Dan Prentiss, AP.
        Gostava de lhe pedir desculpa por aquele comentrio estpido, Sr. Carey  disse Morgan.  No queria que pensasse que somos todos iguais.
        O mesmo se passa comigo, coronel  disse o homem da AP rapidamente  tem a minha simpatia, Sr. Carey e se houver alguma coisa que eu possa fazer para o ajudar, no hesite em me telefonar.
        Muito obrigado, meus senhores.
       Apertmo-nos as mos e eles afastaram-se. Voltei-me para Gordon.
        O que  que se segue?
       Ele olhou para o relgio e depois novamente para mim.
        Tenho de ir ao meu escritrio. Vou ficar ocupado toda a tarde. Onde  que posso entrar em contacto consigo pelas seis?
        No motel.
        ptimo. Telefono-lhe para l e, depois, podemos combinar uma hora para acabar a nossa conversa.  De repente, sorriu.  Eu tinha razo, sabe. Voc  a pessoa indicada para se ter ao p quando h problemas. Portou-se muito bem h bocado.
        Eu no fiz nada.
        Isso  que fez. Teve a reaco indicada. Fez que tenhamos todos os verdadeiros reprteres do nosso lado.
       No pude deixar de notar a maneira como ele ps a questo.
        Verdadeiros? Que espcie de reprter  que fez aquele comentrio estpido?
       Gordon sorriu.
        No era reprter nenhum, era o meu motorista. Por momentos, receei que no chegasse c a tempo.
       Fiquei a olhar para ele de boca aberta. Devia ter pensado nisso. No era em vo que ele era o Sr. Advogado. Abriu a porta do carro.
        A propsito, aqui tem as chaves do seu carro. Est estacionado mais  frente. O meu homem est uns quarteires mais adiante. No quis correr o risco de algum o reconhecer.
       Peguei nas chaves que me estendia na mo aberta e fiquei a v-lo meter-se no carro. Aguardei ainda um momento at ele desaparecer do outro lado do edifcio depois, lentamente, encaminhei-me para o meu carro.
       Passei por uma vedao de arame atrs da qual havia uma srie de cabanas, verdes e alongadas, de tipo primitivo. Estendi a mo e toquei no arame, ficando um momento ali parado. Algures, no interior daquela vedao, estava a minha filha. Comecei a sentir-me cada vez mais vazio. Ela devia sentir-se to sozinha. Pus-me a pensar se Nora sentiria as mesmas coisas que eu a respeito de Dani. Depois, com aquela sua maneira insidiosa de me roubar os pensamentos, Nora instalou-se e eu fiquei a pensar no passado.
       As trs semanas que restavam da minha licena foram a nossa lua-de-mel. E, de certa maneira, acho que foram tambm o nosso casamento. Passaram quase dois anos antes de eu voltar. Nessa altura j a guerra tinha acabado havia um ano e nunca mais conseguimos retomar as coisas onde as tnhamos deixado.
       Quando parti, Nora no tinha ido ao aeroporto porque no gostava de despedidas. Nem to-pouco estava no aeroporto quando voltei. Mas a me estava. A velha senhora apareceu no meio da pista quando descia para o cais de desembarque. Esperar no terminal no era para ela. Estendeu-me a mo.
        Luke, bem-vindo.  bom saber que est de volta.
       Beijei-a na cara.
         bom estar de volta  disse.  Onde est Nora?
        Lamento muito, Luke, mas o seu telegrama s chegou ontem. A Nora est em Nova Iorque.
        Nova Iorque?
        Esta noite  a inaugurao da primeira exposio dela depois da guerra. No fazamos qualquer ideia de que voc fosse voltar agora.  Ela viu a decepo estampada no meu rosto.  A Nora ficou muito pesarosa quando lhe disse pelo telefone que tinha recebido o seu telegrama. Quer que lhe telefone logo que chegue a casa.
       Fiz um sorriso contrafeito. Tinha de ser. Alis era como tudo o mais que me tinha acontecido no ano anterior. Cada vez que eu pensava que me podia vir embora, surgia qualquer coisa e eu tinha de ficar. Teria sido melhor que nunca me transformassem em coronel de gabinete e no me tivessem transferido para o Estado-Maior. Todos os outros homens com quem eu voara j tinham regressado seis meses antes.
        Ela est bem?  perguntei. 
       Nora no tinha sido propriamente a correspondente mais fiel do mundo. J era uma sorte se eu recebesse, em mdia, uma carta dela por ms. Se no fosse a me, teria perdido completamente o contacto. A velha senhora escrevia-me regularmente, pelo menos uma vez por semana.
        Est ptima. Tem estado a trabalhar muito para se preparar para esta exposio. Mas j sabe como  a Nora.  Olhou-me com ar trocista.  Com ela no podia ser de outra maneira. Tem de estar sempre ocupada.
        .
       Pegou-me no brao.
        Vamos para o carro. O Charles trata da bagagem.
       Conversmos sobre uma poro de trivialidades no caminho para casa. Tive a impresso de que a velha senhora estava mais nervosa do que mostrava  superfcie. De certa maneira, era normal. Esta era, na realidade, a primeira oportunidade que tnhamos de testar a nossa nova relao. Eu prprio me sentia um tanto tenso.
        O nmero do Scaasi est em cima da secretria, na biblioteca, ao lado do telefone  disse, quando entrmos em casa.
       Seguiu o mordomo pela escada acima, com as minhas malas e eu fui direito  biblioteca. A folha de papel estava exactamente no stio que ela tinha indicado. Peguei no telefone e dei o nmero  telefonista. A chamada no se fez esperar.
        Galeria Scaasi  disse uma voz. Ao fundo, ouvia-se muito barulho de pessoas a falarem.
        Miss Hayden, se faz favor.
        Quem fala, por favor?
         o marido, de So Francisco  respondi.
        S um momento, se faz favor. Vou tentar localiz-la.
       Esperei o que me pareceu um tempo interminvel. Passado um bocado, a voz apareceu novamente na linha.
        Peo desculpa, Sr. Hayden, mas no consigo encontr-la.
       Sr. Hayden. Era a primeira vez que ouvia aquilo. E tambm no seria a ltima. Com o tempo acabaria por me aborrecer, mas de momento achei divertido.
        O meu nome  Carey  disse.  Sam Corwin est por ai?
        Vou ver.  s um momento.
       Passado um momento, Sam estava ao telefone.
        Luke, meu velho! Bem-vindo!
        Obrigado, Sam. Onde est a Nora?
        No sei  respondeu.  Estava aqui h um minuto.  espera da sua chamada. Sabe como so estas inauguraes. S saiu para ir comer qualquer coisa. No comeu em todo o dia. Tem sido uma loucura.
        Imagino. Como  que vo as coisas?
        Optimamente. Scaasi j tinha vendido quase todas as peas mais importantes antes de abrir a exposio. Ele est a trabalhar numas encomendas muito importantes para a Nora.
       No havia muito mais a dizer.
        Ela que me telefone logo que possa.  Olhei para o relgio. Eram seis horas. O que queria dizer que eram nove em Nova Iorque.  Eu vou ficar por aqui.
        Com certeza, Luke. Voc est em casa da me da Nora? 
        Estou sim.
        Logo que a encontre mando-a telefonar.
        Obrigado, Sam  respondi.  Adeus.
       Pousei o telefone e sai da biblioteca. A Sra. Hayden estava  espera na sala de fora.
        Falou com a Nora?
        No. Ela tinha sado para jantar.
       A minha sogra no pareceu surpreendida.
        Eu tinha-lhe dito que voc telefonava pelas seis. 
       Dei comigo a defender Nora.
        O Sam diz que ela teve um dia muito difcil. Sabe como so estas inauguraes em Nova Iorque.
       Pareceu-me que ela ia dizer qualquer coisa, mas depois foi como se tivesse mudado de ideias.
        Deve estar extenuado da viagem. Porque  que no vai l acima refrescar-se um bocado? O jantar vai ser servido daqui a pouco.
       Subi ao meu quarto enquanto ela se dirigia para a biblioteca, fechando a porta atrs dela. O que eu no sabia nessa altura era que tinha ligado imediatamente para Sam. Ele levantou o telefone com ar cansado, sabendo de antemo de quem se tratava.
        Sim, Sra. Hayden.
       A voz da velha senhora era incisiva e zangada.
        Onde est a minha filha?
        No sei, Sra. Hayden.
        Julgava que lhe tinha dito que fizesse tudo para a ter a  espera da chamada do marido.
        Dei o seu recado  Nora, Sra. Hayden. Ela disse que estaria. Quando fui  procura dela, j tinha desaparecido.
        Onde  que ela est?  repetiu a velha senhora.
        Eu j lhe disse. No sei.
        Ento, encontre-a. Imediatamente. E diga-lhe que eu quero que telefone imediatamente para casa.
        Sim, Sra. Hayden.
        E quero que ela apanhe o primeiro avio para aqui! Meta-a o senhor mesmo no avio. Compreendeu o que eu disse, Sr. Corwin?  A voz dela era fria e cortante como ao.
        Sim, Sra. Hayden.
       O telefone desligou-se com um estalido ainda na mo dele. Pousou-o lentamente. Ps-se a massajar as tmporas com ar cansado. Tinha todos os ingredientes necessrios para uma boa dor de cabea. Nora podia estar numa centena de stios diferentes.
       Abriu caminho por entre a multido e saiu para a noite. A Rua Cinquenta e Sete estava quase deserta. Olhou rua abaixo, rua acima, lanando em pensamento uma moeda ao ar. Passados momentos, decidiu-se. Atravessou a rua e comeou a descer para Park Avenue. J que tinha de comear por qualquer lado, mais valia comear por cima e ir descendo a pouco e pouco. El Morocco era uma possibilidade como qualquer outra.
       Entretanto as luzes vivas de um drugstore chamaram-lhe a ateno no momento em que atravessava Lexington por altura da Rua Cinquenta e Quatro. Levado por um impulso, entrou e ligou para um detective particular seu conhecido.
       Passava das duas da manh quando, finalmente, deram com ela, Num terceiro andar sem elevador, na Rua Oito, em Greenwich Village.
        Deve ser aqui  disse o detective. Cheirou o ar.  Basta uma pessoa respirar este ar para apanhar uma pedrada!
       Sam bateu  porta. Tinha de estar ali. Tinha encontrado o rapaz num bar da Oitava Avenida onde se costumavam juntar os actores sem trabalho. Sam ficou admirado quando soube que Nora se encontrava quase constantemente com ele desde que chegara a Nova Iorque. E ele que julgava que sabia onde ela passava praticamente todos os momentos do seu tempo.
       Passado um bocado, ouviu-se uma voz do outro lado da porta.
        Vo-se embora. Estou ocupado.
       Sam bateu outra vez. Desta vez a voz estava zangada.
        Ponham-se a mexer, j disse! Estou ocupado.
       O detective mediu a porta com os olhos. Depois ps o p em cheio sobre a fechadura. No deu a impresso de ter empurrado com muita fora, mas a porta abriu-se violentamente e com fragor. Um jovem lanou-se sobre eles, vindo da escurido. Mais uma vez o detective no pareceu mexer-se com grande rapidez, mas de repente apareceu entre Sam e o rapaz e este ficou estendido no cho. Olhou-os, furioso, esfregando o queixo com a mo.
        Nora Hayden est aqui?  perguntou Sam.
        No est c ningum com esse nome  disse rapidamente o jovem.
       Sam olhou para ele um momento, sem falar, depois passou por cima dele e encaminhou-se para a outra porta. Antes mesmo de ele l chegar, a porta abriu-se e Nora apareceu, completamente nua, com um cigarro entre os lbios.
        Sam, meu querido.  Riu-se.  Vieste juntar-te  festa? Aquilo l na cidade deve estar a ficar muito chato.  Voltou s costas e dirigiu-se novamente para o quarto.  Entra  disse por cima do ombro.  H aqui ch que chega para o exrcito mexicano em peso.
       Sam foi atrs dela, rapidamente, e f-la rodar sobre si mesma. Arrancou-lhe o cigarro da boca e atirou-o para o cho. Sentiu fortemente nas narinas o cheiro acre da maricaua.
        Veste-te... 
        Para qu?  perguntou com ar truculento.
        Tens de ir para casa.
       Comeou a rir-se.
        Lar, doce lar. Por mais humilde que seja, no h nada como o nosso lar.
       A mo de Sam estalou-lhe de encontro  cara. A bofetada f-la cambalear para trs.
        Vai-te vestir, j te disse! 
        Espere a!  O jovem estava agora de p. Enquanto avanava para Sam, ia puxando as calas pretas, muito justas.  No pode fazer isso! Voc  marido dela ou qu?
       Nora comeou outra vez a rir.
        Essa  boa. Meu marido?  s um co de guarda que a minha me contratou. O meu marido est a nove mil quilmetros daqui!
        O teu marido j voltou. Chegou esta noite. Tem estado a tentar falar contigo pelo telefone.
        H dois anos que ele est fora. Alguns dias a mais ou a menos no devem fazer diferena.
        Provavelmente no ouviste o que eu disse  ripostou Sam com toda a calma.  O Luke j voltou.
       Nora ficou a olhar para ele. 
        ptimo. Quando  a parada? 
       De repente comeou a ficar plida e largou a correr para a casa de banho. Sam ouviu-a arquejar e vomitar e depois o barulho do autoclismo e a gua a correr para a bacia. Saiu passados alguns minutos, apertando ainda uma toalha molhada de encontro  cara.
        Sinto-me mal, Sam, sinto-me mal. 
        Eu sei.
        No, no sabes nada  disse.  Ningum sabe. Sabes o que  ir sozinha para a cama, noite aps noite, a desejar o que no encontro l?
        No  assim to importante.
        Talvez no seja, para ti  disse zangada,  Mas quando eu acabo de trabalhar fico toda contrada, no consigo dormir. Tenho de fazer qualquer coisa para me descontrair!
        J alguma vez tentaste tomar um duche frio? 
        Muito engraado!  disse.  Julgas que todas essas coisas que eu fao saem daqui?  Tocou na testa.  Pois bem, no saem! Saem daqui!  Tocou no corpo nu.   daqui que elas vm e cada vez me sinto um pouco mais vazia. Tenho de receber alguma coisa que me encha de novo! Consegue perceber isso, Sr. Crtico de Arte?
       Sam fez um gesto para as roupas dela que estavam espalhadas em cima da cama desfeita.
        Veste-te. A tua me quer que telefones imediatamente ao Luke.
       Olhou para ele com um ar estranho.
        A me sabe?
       Sam olhou-a fixamente.
        A tua me sempre soube. Disse-mo no dia em que eu concordei em tomar conta de ti.
       Deixou-se cair em cima da cama.
        Ela nunca me disse nada.
        E se dissesse, teria servido de alguma coisa?
       Os olhos de Nora comearam a encher-se de lgrimas.
        No consigo  disse.  No posso voltar.
        Podes sim. A tua me disse-me que te metesse num avio, logo que telefonasses ao Luke.
       Levantou os olhos para Sam.
        Ela disse isso?
        Disse.
        E o Luke? Ele tambm sabe?
        Tanto quanto sei, no. Presumo que  a tua me que quer deixar as coisas assim.
       Nora ficou sentada um momento em silncio. Depois, respirou fundo.
        Achas que eu consigo? Agora que o Luke est em casa, j no vou ficar sozinha,  noite.
       Estendeu a mo para a roupa e comeou a vestir-se.
        Achas que me consegues arranjar um avio esta noite?  Falava como uma criana, ofegante e excitada.
        Meto-te no primeiro avio que sair.
       Agora estava feliz; sorria.
        Vou ser uma boa esposa para ele, vais ver-me!  Tendo os ombros no soutien voltou as costas para Sam.  Abotoa-me, por favor, Sam.
       Ele aproximou-se e apertou-lhe o soutien. Nora enfiou o vestido e dirigiu-se novamente  casa de banho. Quando saiu, passados alguns minutos, parecia to fresca e limpa como se acabasse de sair do duche matinal. Aproximou-se dele e, de repente, esticou-se e beijou-o na cara.
        Obrigado, Sam, por me teres encontrado. Estava com medo de voltar. Medo de o enfrentar. Mas agora sei que tudo vai correr bem. Eu queria que tu me encontrasses e encontraste mesmo.
       Ficou um momento a olhar para ela e depois encolheu os ombros.
        Se querias que eu te encontrasse, por que  que no deixaste recado?
        Tinha de ser assim  disse  seno no tinha significado. Algum, alm de mim, tinha de saber.
       Sam abriu a porta.
        Vamos.
       Ela atravessou o outro quarto e saiu pela porta de entrada, sem sequer olhar para o jovem que estava sentado numa cadeira.
       Charles ps o sumo de laranja em cima da mesa,  minha frente. Tinham passado alguns meses. Peguei no copo e comecei a beber, no momento em que a minha sogra entrou na sala. Sorriu-me.
        Bom dia, Luke.  sentou-se e desdobrou o guardanapo.  Como  que est ela hoje?
        Pareceu-me bem  disse.  Passou bem a noite. Acho que os enjoos matinais j acabaram.
       Fez que sim com a cabea.
        A Nora  uma rapariga forte e saudvel. No  natural que tenha problemas.
       Abanei a cabea em sinal de concordncia. Ainda no tinham passado mais de seis semanas sobre o meu regresso, quando Nora descobriu que estava grvida. Uma tarde tinha voltado do escritrio e tinha-a encontrado num acesso de histerismo. Estava estendida, atravessada em cima da cama no nosso quarto, a soluar furiosa.
        O que  que se passa? 
       J estava habituado a algumas das suas crises de humor como, por exemplo, quando as formas que ela pensava que deviam tomar vida com toda a facilidade se recusavam a faz-lo. 
        No quero t-lo! No acredito!  gritou, sentando-se na cama.
       Fiquei a olhar para ela.
        Calma. No queres ter o qu? 
        O diabo do mdico! Diz que eu estou grvida! 
       Pus-me a sorrir, mesmo sem querer.
         sabido que essas coisas podem acontecer.
        E o que  que tem de engraado? Os homens so todos iguais. Faz-te sentir grande, orgulhoso, viril, no ?
        No posso dizer que me faa sentir mal  admiti. 
       As lgrimas tinham desaparecido e toda a fria era, agora, dirigida contra mim.
        Ter uma criana no vai interferir com o teu trabalho. Ter uma criana no te vai deformar, no s tu que vais ficar grande, gordo, feio, de tal maneira que j ningum olha para ti.  Deitou-me um olhar furioso.  No vou t-lo!  gritou outra vez.  Vou-me ver livre dele. Conheo um mdico...
       Aproximei-me dela.
        No vais fazer nada disso.
        No me podes impedir!  gritou, saindo da cama e dirigindo-se para a porta.
       Agarrei-a pelos ombros e fi-la voltar para mim.
        Posso e vou mesmo faz-lo  disse calmamente.
       O olhar dela toldou-se de fria. 
        Tu no queres saber de mim para nada! No te interessa que eu viva ou morra. Tudo o que te interessa  a criana!
        Isso no  verdade. Quero saber de ti e muito. Por isso  que eu quero que tenhas a criana. Os abortos so perigosos.
       Lentamente a fria desapareceu dos olhos dela.
        Tu gostas de mim, no gostas?
        Sabes bem que gosto.
        E quando o beb nascer continuas a gostar mais de mim do que... do que dele?
        Tu s a nica coisa que eu tenho, Nora. O beb  uma coisa completamente diferente.
       Ficou um momento silenciosa.
        Vamos ter um filho.
        Como  que sabes?  perguntei.  Os bebs no so feitos num estdio, como as esttuas.
       Ergueu os olhos para a minha cara.
        Mas eu sei. Todos os homens querem ter um filho e tu vais t-lo. Eu encarrego-me disso.
        No te preocupes. Uma rapariga tambm est bem para mim. 
       Deslizou para fora dos meus braos e aproximou-se do espelho. Deixou cair o roupo para o cho e, voltando-se de lado, ficou a ver no espelho o reflexo da sua prpria nudez.
        Acho que j estou a ficar com barriga.
       Sorri. Estava lisa como uma tbua.
        Ainda  um bocado cedo para isso.
        No  nada! O mdico diz que h mulheres em quem se nota mais cedo. Alm disso, j me sinto mais pesada.
        No se nota.
        Ai no?  perguntou. Depois voltou-se e viu o meu sorriso.  J te mostro!
       Riu-se e atirou-se a mim por cima da cama, Camos juntos, ela por cima, beijando-me e apoiando todo o peso do corpo sobre mim.
        Pronto, o que  que te parece?
        Parece-me ptimo.
        Ah, parece-te ptimo!  Conhecia aquele tom repentinamente faminto que lhe velava a voz. Beijou-me outra vez; o corpo dela comeava a mexer-se.
        Espera um minuto  disse, cheio de cautela.  Tens a certeza de que no faz mal?
        No sejas tolo! O mdico disse-me que tudo devia continuar normalmente. S que no pusesse muito peso em cima de mim. Recomendou a posio da mulher superior.
        Mulher superior?  perguntei, fingindo-me ignorante.  Julgava que os homens  que eram superiores.
        Tu sabes. Quer dizer que a mulher fica por cima.
       Tomei o ar de quem est a aprender qualquer coisa de novo. Depois no consegui controlar-me. Atirei os braos e as pernas para o ar, num impulso esttico.
        Aqui me tens. Sou teu! 
       Camos ambos numa rajada de riso. Mas as manhs seguintes foram difceis. A partir da, sentira-se enjoada quase todos os dias.
        Como  que vai o trabalho no escritrio?  perguntou a minha sogra.
        Acho que vai bem. Ainda est a habituar-se a mim e eu estou a tentar perceber o que se passa. A verdade  que, por enquanto, tenho muito pouco que fazer.
        Estas coisas levam o seu tempo.
        Eu sei.  Olhei para ela.  Tenho estado a pensar que, se calhar, o melhor era eu dar uma volta l pela escola, para me pr em dia. Surgiram tantos conceitos novos enquanto estive fora. H todo um campo novo no que diz respeito ao uso do alumnio como componente estrutural. No sei nada sobre o assunto.
        No vale a pena ter pressa.
       Sabia o que queria dizer quando falava assim. Queria dizer que sabia qualquer coisa que eu ignorava. Mas no valia a pena fazer perguntas. Dir-me-ia quando estivesse pronta para isso. Ou talvez no me dissesse nada. Eu teria de descobrir por mim.
       Era uma mulher formidvel, aquela minha sogra. Tinha uma maneira muito prpria de fazer as coisas. Como naquela primeira manh em que eu tinha ido ao escritrio. Tinha-me chamado  biblioteca e tirado um sobrescrito da secretria, que depois me tinha passado, em silncio. Tinha-o aberto, cheio de curiosidade. Tinham cado de l algumas aces da companhia, cuidadosamente impressas. Apanhei-as do cho e olhei para elas. Representavam vinte por cento das aces da Hayden de Carruthers. Na parte de trs de cada uma tinha feito o endosso em meu nome. Pu-las de novo em cima da secretria.
        No ganhei nada disto. 
       Sorriu.
        Mas h-de ganhar.
        Talvez  respondi.  Mas, neste momento, no posso aceit-las. Sentir-me-ia como um idiota chapado. H pessoas naquele escritrio que trabalham l h anos. Ficariam ofendidas.
        J viu o jornal desta manh?
        No.
        Ento talvez fosse melhor olhar para ele  disse, estendendo-me o Chronicle.
       J estava dobrado na pgina financeira. Li um pequeno cabealho: HAYDEN de CARRUTHERS ESCOLHEM O SEU NOVO VICE-PRESIDENTE. Juntamente com a histria, vinha o meu retracto. Li rapidamente a noticia.
         realmente o que se chama comear por cima  disse, devolvendo-lhe o jornal.
        No h outra maneira de um Hayden comear.
       No valia a pena explicar-lhe que eu no era Hayden. O pensamento dela era muito ntido. No tinha perdido uma filha, tinha ganho um filho.
        S espero que a minha despromoo no seja igualmente rpida.
        Teria um estranho sentido de humor, Luke. 
        Quando  fcil chegar, tambm  fcil partir. 
        No fale dessa maneira!  depois sorriu.  Voc vai fazer um bom trabalho. Eu sei que vai.
        Espero que sim.
       Voltei-me e encaminhei-me para a porta. A voz dela deteve-me.
        Espere  disse.  Esqueceu-se das aces.
        Pode guard-las. Quando eu achar que j as ganhei, pode ser que venha pedir-lhas de volta.
       Uma expresso um tanto magoada surgiu nos olhos dela. No fora essa a minha inteno. Aproximei-me novamente da secretria.
        Por favor, veja se me compreende  disse.  No  que eu no d valor quilo que est a tentar fazer. S que me sentiria muito mais satisfeito se conseguisse isso por mim prprio.
       Ficou um momento a olhar-me, depois deixou escorregar novamente os papis para dentro da secretria.
        Compreendo. E aprovo de todo o corao.  assim mesmo que eu esperaria que um Hayden agisse.
       No tinha resposta para mais aquela.
        Boa sorte.
       Retribui-lhe o sorriso.
        Obrigado. 
       Nunca me tinha sentido  vontade quanto a essa questo. Quando Nora desceu, estvamos a acabar o caf. Vinha vestida para sair. Levantei uma sobrancelha. Ver Nora descer antes do meio-dia era um milagre. O rosto dela mostrava excitao.
        Tens de chegar cedo ao escritrio?
        Acho que no  respondi.  Mesmo que no aparecesse l durante um ano inteiro, duvido que algum desse pela minha falta.
        ptimo! Tenho uma coisa para te mostrar.
        O que ?
         uma surpresa.
        Diz-me  insisti.  J tive bastantes surpresas no pouco tempo que passou desde o meu regresso. No tenho a certeza de conseguir aguentar mais uma.
       Riu-se. 
        Desta vais gostar.  Olhou para a me e ambas sorriram.  Uma amiga minha quer que lhe remodeles a casa.
        Ah, bom  disse. Assim j era melhor. Finalmente tinha que fazer.  Onde  a casa?
        No  longe daqui. Podemos ir l ver e depois digo-te qual  a ideia dela.
        ptimo. Quando quiseres ir, estou pronto.
        Eu tambm estou pronta. Tomei o pequeno-almoo no quarto. 
       Era uma casa de sonho. Trs corpos e dezassete quartos, no cimo de Nob HilI, com vista para a baa. Havia uma magnfica escada de mrmore antigo que saa em curva da vasta sala de entrada. Os quartos eram tremendos, no tinham nada a ver com o que se constri hoje em dia. Na parte de trs havia uma garagem para trs carros, com quartos para os criados, na parte de cima. A casa era toda de pedra, magnificamente patinada pela idade, e o telhado era de uma telha azul que parecia beber a cor do cu.
         linda. Espero que no queiram mexer-lhe muito. S serviria para a estragarem.
        Acho que se trata, sobretudo, de modernizar as casas de banho e o sistema de aquecimento; talvez modificar alguns quartos.
        Isso est certo  disse, estudando a casa.  Vo precisar de um quarto para as crianas. De um estdio grande para ela, talvez na ala norte, para ter mais luz. E talvez uma mistura de gabinete de trabalho e escritrio para o marido, quando ele quiser trabalhar em casa.
       Eu no era assim to estpido.
        Afinal para quem  esta casa?
        Ainda no adivinhaste?
        Receio bem que sim. 
        Foi a me que a comprou para ns  disse Nora. 
        Acho ptimo!  explodi.  E sabes quanto  que custaria manter uma casa destas? Custava mais por ms do que aquilo que eu ganho num ano!
        E que importncia  que isso tem? No precisamos de nos preocupar com o dinheiro. S o meu rendimento da fundao  mais do que suficiente para ns.
        Julgas que eu no sei isso?  disse.  E nunca te deste ao trabalho de perguntar a ti mesma se, eu no gostaria de ser eu a manter a minha prpria famlia? Tu e a tua me no pensam. seno em dinheiro. Comeo a sentir que no passo de um gigol.
        Ests a portar-te como um idiota chapado! A nica coisa que me interessa  ter um stio decente para viver, uma casa capaz para criar o meu filho.
        Uma criana no precisa de uma casa com dezassete quartos em Nob Hill para ser criado como deve ser. Se queres uma casa tua, h muitas casas que ns podamos comprar. Casas que esto ao meu alcance.
        Com certeza  disse sarcstica.  S que eu no me posso arriscar a ser encontrada morta em nenhuma delas. Tenho a minha posio a defender.
        A tua posio? Ento e a minha posio?
        Tu prprio tornaste clara a tua posio quando casaste comigo  disse friamente.  E quando foste trabalhar para a Hayden de Carruthers. No que diz respeito a So Francisco, pertences aos Haydens. Quer isso te agrade, quer no, s um de ns.
       Fiquei a olhar para ela. A revelao caiu-me em cima como o choque da gua gelada. Aquilo que ela dizia era verdade. A guerra tinha acabado e, no que dizia respeito a todos os outros, tanto fazia que o coronel Luke Carey estivesse vivo como morto. A nica identidade que me restava estava associada  delas.
        Eu quero esta casa  disse Nora calmamente.  E se tu no quiseres remodel-la, eu arranjo um arquitecto que o faa.
       No precisei de olhar para ela para ver que estava decidida a fazer o que tinha dito. Tambm compreendi o que isso significaria para mim. Bem podia ir  procura de emprego como motorista de camionetas se deixasse que isso acontecesse.
        Est bem  disse com relutncia  eu fao a remodelao. 
        No te vais arrepender, querido.  Passou os braos  minha volta.  Quando toda a gente vir as coisas maravilhosas que vais fazer com esta casa, passas a ser o maior arquitecto de So Francisco!
       Mas no foi suficientemente rpida para esconder o brilho de triunfo que lhe incendiou o olhar. E naquela noite, pela primeira vez desde o meu regresso, no procurou os meus braos.
       Ao fim e ao cabo, no fui eu que transformei a casa. Os elogios foram todos para mim, mas isso foi uma questo tcnica. Na realidade, quem fez tudo foi Nora. Eu limitei-me a traduzir as ideias dela para os devidos conceitos arquitectnicos. Mas ela tinha razo numa coisa. A casa ficou um espectculo. Mal tnhamos acabado de nos mudar, a House Beautifid fez uma reportagem e no ms a seguir  publicao da revista, eu era o arquitecto falado da cidade.
       Na Costa, todas as pessoas que se podiam considerar algum queriam que eu lhes fizesse as casas. Podia ter ganho mais comisses do que uma agncia de bilhetes para espectculos. Sucesso imediato. Julgo que deveria ter ficado contente, mas a coisa incomodou-me. Creio que isso era visvel, porque a primeira vez que recusei um cliente, George Hayden veio ao meu gabinete.
       Levantei os olhos, surpreendido. George era um homem grande. Forte, corado, com um ar slido que inspirava confiana. Era a primeira vez que vinha procurar-me pessoalmente, em vez de me mandar chamar.
        Como  que vai isso, Luke?
        Ok, George  disse. Apaguei a luz do estirador.  Em que  que posso ser-lhe til?
        Pensei que talvez pudssemos conversar um bocado.
        ptimo. 
       Indiquei-lhe uma cadeira. Sentou-se.
        Estive agora mesmo a estudar o relatrio mensal. Tenho a impresso de que voc est com trabalho a mais.
        No me importo  disse com naturalidade.   uma mudana agradvel, depois de ter estado sem ter nada que fazer.
       Acenou com a cabea.
        Tenho estado a pensar que j  altura de ns lhe entregarmos uma seco. Sabe como , uns tipos que fazem todo o trabalho de rotina para voc poder ocupar-se das coisas mais importantes.
       Esta linguagem era minha conhecida. O exrcito falava da mesma maneira. Fiz de ignorante.
        Que coisas mais importantes, George? Eu s estou a fazer coisas midas.
        H uma grande margem no seu campo  disse.  Muito melhor do que nas coisas muito grandes.  por isso que eu detesto perder qualquer coisa s por voc estar demasiado ocupado. Se algum est decidido a construir e um arquitecto no pode faz-lo, essa pessoa arranja um que possa.
        Est a pensar na Sra. Robinson que saiu agora mesmo daqui?
        No estou a pensar na Sra. Robinson. H-de haver outras. Vm ter consigo por causa das suas ideias. No lhes interessa quem  que faz os desenhos.
        No estejamos a enganar-nos a ns prprios, George. Elas no vm ter comigo por causa das minhas ideias. A maior parte destas idiotas no reconheceria uma ideia arquitectnica nem que ela lhe fosse bater na cara. Vm ter comigo porque, de repente, eu estou na moda.
        E dai, Luke?  disse, olhando-me com ar astuto.  O mais importante  que continuam a vir.
        E quanto tempo  que voc pensa que isso vai durar? Apenas at descobrirem que as casas deles no vo aparecer na revista, como apareceu a minha. Nessa altura, vo comear a procurar outra pessoa.
        No tem de ser forosamente assim. Temos de manter as coisas vivas. Para isso  que temos um Public Relations.
        Oh, deixe-se disso, George  disse, enjoado.  Ambos sabemos que aquela  a casa da Nora.
       Ficou um momento a olhar para as mos, sem falar. Eram macias, brancas e bem cuidadas, Depois levantou os olhos para mim, sem pestanejar.
        Tanto voc como eu sabemos que no tenho metade da capacidade que tinha Frank Carruthers como arquitecto. Mas tenho conseguido agentar o negcio e manter a nossa reputao.
        Mas a casa dos Robinson no  o tipo de coisa que me interesse fazer. Estudei a planta. O terreno. Tudo. No  nada de especial. Faa-se o que se fizer,  apenas mais uma casa.
        No, no  apenas mais uma casa. Eles esto dispostos a gastar umas centenas de milhares. Isso significa, pelo menos, dez mil em honorrios e comisses num total de algumas semanas de trabalho.
        Mas no  o tipo de casa que eu estou interessado em construir  disse, teimoso.
         por isso que eu quero que voc fique  frente de um departamento. Nessa altura poder concentrar-se naquilo que lhe interessa. Mas o cliente tambm fica feliz, por saber que voc est ligado ao projecto.
       Peguei num cigarro. A ideia dele tinha mrito. Talvez resultasse. Havia uma coisa que eu queria tentar. Mais de acordo comigo.
        O que  que quer que eu faa?
        Primeiro, telefone  Sra. Robinson e diga-lhe que, apesar de ter o tempo muito ocupado, conseguiu arranjar tempo para a casa dela.  Ps-se de p. J tinha aquilo que viera procurar.  Depois, fale com a minha secretria para arranjarmos um dia para almoarmos e discutirmos os seus planos.
       Vi a porta fechar-se atrs dele. Sabia que se esperasse at ir almoar com ele era uma sorte se no morresse de fome antes.
       Dirigi-me para o meu estirador. Estava a trabalhar num esboo para uma casa de banho gigantesca e quarto de vestir, ao lado do quarto principal. A casa era para o presidente de um banco local. Tinha desenhado um quarto de banho de estilo finlands, com a banheira enterrada no cho; uma banheira enorme, de um metro e oitenta de largura e dois e meio de comprimento. Era suficientemente grande para conter a famlia toda de uma s vez e perguntei a mim mesmo se seria isso que a dona da casa tinha na ideia. Tinham tudo a dobrar, um duche para ele, outro para ela, bem como os lavatrios e os toilettes, tudo completo com torneiras em ouro. A nica coisa que faltava era um bid em prata macia, mas apenas porque ainda no se tinham lembrado disso. Ainda no.
       Ainda no. Essa era a palavra chave. De repente, toda a minha vida se me desenrolou diante dos olhos. Anos e mais anos de casas de banho como esta. O caminho para a fama. Carey constri as casas de banho mais espantosas. Era demais. Arranquei a folha do estirador, amachuquei-a. e dirigi-me para o escritrio de George. No valia a pena ficar  espera de um almoo que nunca chegaria a ter lugar, para saber o que ia acontecer.
       A secretria dele levantou a mo, num gesto de advertncia, quando entrei no gabinete exterior.
        O Sr. Hayden est ao telefone.
        No quero saber  disse, passando por ela e entrando para o gabinete de George.
       Este estava justamente a pousar o telefone. Olhou-me surpreendido.
        O que  que h, Luke?  disse com ar impaciente. No gostava que ningum entrasse sem se fazer anunciar.
        H bocado, estava mesmo a falar a srio?
        Claro, Luke,
        Ento por que  que no podemos falar agora mesmo?
       Sorriu-me.
        No  a altura indicada.
        Como  que sabe?  perguntei.  Nem sequer sabe o que  que eu tenho na ideia.
       Olhou-me fixamente. No tinha resposta para uma afirmao daquelas. Passado um momento, fez-me sinal para que me sentasse.
        E exactamente, o que  que tem na ideia?
       Deixei-me cair para uma cadeira, mas em frente dele e puxei de um cigarro.
        Casas a baixo preo. Produo em srie sobre um desenho bsico que podia ser usado de trs maneiras diferentes para quebrar a monotonia de uma urbanizao de grandes dimenses. As casas vender-se-iam na ordem dos dez, onze mil dlares.
       Acenou com a cabea, lentamente.
        Seria preciso uma rea considervel para tornar rendvel uma coisa dessas.
       Eu tambm j tinha pensado nisso.
        H uma extenso de oitenta acres junto  101, perto de Daly City. Seria o ideal para isso.
        Parece-me uma boa ideia  disse.  J tem um construtor? 
       Olhei para ele.
        Pensei que era uma coisa que ns poderamos fazer.
       Ficou um momento em silncio, brincando com um lpis que tinha na secretria  frente dele.
        Est a esquecer-se de uma coisa, no acha? 
        O que ? 
         que ns somos arquitectos, no somos construtores. 
        Talvez seja a altura de criarmos uma nova especialidade. H firmas que esto a fazer isso mesmo.
        No me interessa o que os outros esto a fazer  disse George.  No me parece que devssemos fazer uma coisa dessas. Como arquitectos estamos razoavelmente livres de riscos financeiros. Recebemos os nossos honorrios e acabou-se. O construtor  que tem as dores de cabea.
        Mas o construtor tambm  quem ganha mais.
        Deixe-os l  disse George.  Ns no somos gananciosos,
        Ento, se bem percebi, no est interessado?
        Tambm no disse isso. Apenas disse que, nas circunstncias actuais, no devamos faz-lo. Claro que se voc arranjar um construtor que esteja disposto a entrar num projecto desse tipo, teramos o maior prazer em trabalhar com ele.
       Pus-me de p. J sabia qual era a posio. Ele tambm. No havia um nico arquitecto no pas que recusasse um trabalho daqueles. S em honorrios devia atingir os cento e cinquenta mil.
        Obrigado  disse.  Eu j tinha pensado que a sua resposta ia ser mais ou menos essa.
       Ficou a olhar para mim. A voz dele era de uma suavidade enganosa.
        Acabo de ter uma ideia, Luke. Acho que voc devia tomar uma deciso sobre aquilo que quer ser... arquitecto ou construtor.
       Foi como se, de repente, as luzes se acendessem num quarto escuro. George tinha toda a razo. Lembrava-me porque  que tinha resolvido estudar arquitectura. Porque queria construir coisas. Depois, deixei-me envolver de tal maneira na prtica que esqueci a finalidade. Construir. Era isso mesmo. Construir casas onde as pessoas se pudessem permitir viver.
       George no compreendeu o meu sorriso repentinamente feliz. Provavelmente at pensou que eu estava a ser sarcstico, mas se teve esse pensamento, estava completamente enganado. Nunca tinha sido mais sincero em toda a minha vida.
        Obrigado, George  disse calorosamente.  Obrigado por ter tornado tudo to simples.
       A notcia chegou a casa antes de mim. A minha sogra e Nora estavam  minha espera.
        Vejo que o George no perdeu tempo  disse. A cara de Nora era glacial.
        Podias, ao menos, ter discutido o assunto connosco antes de te despedires.
       Dirigi-me ao aparador e servi-me de um bourbon.
        E o que  que havia para discutir? Eu j estava cheio. At aqui.
        E que efeito pensas tu que isso vai fazer?  perguntou Nora.
        No sei.  Encolhi os ombros e levei o copo  boca.  Que efeito achas tu que vai fazer?
        Vo achar que  um verdadeiro insulto que fazes  me e a mim  disse Nora, zangada.  Todos sabem o que tentmos fazer por ti.
        Talvez fosse por isso que a coisa no resultou.  Olhei para a me de Nora.  No tive a inteno de insultar ningum. A culpa foi minha. Deixei-me empurrar para l quando sa do exrcito. Devia ter esperado um bocado, ter procurado, decidir o que queria realmente fazer.
       Ela olhou-me calmamente.
        Foi por isso que recusou as aces?
        Talvez. Embora nessa altura no tivesse conscincia disso.
        O que  que vais fazer agora?  perguntou Nora.
        Procurar emprego. Arranjar trabalho numa firma de construes e aprender alguma coisa.
        Que espcie de emprego esperas arranjar?  perguntou, sarcstica.  setenta dlares por semana a guiar um buldozer?
        Tenho de comear por algum lado.  Sorri-lhe.  Alm disso, que diferena faz? No precisamos do dinheiro.
        Quer dizer que o que tu queres  ser um simples operrio? Depois de todo o trabalho que eu tive para esta casa ficar como deve ser, de maneira a firmar a tua reputao.
        Paremos de nos iludir, Nora. No era a minha reputao que tu tinhas em mente. Era a tua prpria.
       Ficou um momento a olhar para mim, depois levantou as mos num gesto desesperado.
        Desisto.  Voltou-se desajeitadamente e saiu da sala com ar pomposo.
       Fiquei a v-la sair. Apesar da gravidez no estava muito volumosa. Tinha tido todo o cuidado com a dieta; no ia permitir que a gravidez lhe estragasse a figura. Fui at junto do aparador e servi-me de novo. Quando me voltei, a minha sogra ainda l estava.
        No deve prestar demasiada ateno  Nora. As mulheres grvidas tm tendncia para se tornar mais emotivas do que lgicas.
       Fiz que sim com a cabea. Era uma desculpa como qualquer outra. Mas eu j conhecia suficientemente bem a minha mulher. Grvida ou no, queria levar a sua avante.
        O George mencionou que voc tinha uma ideia para um projecto de construo  disse.  Fale-me disso.
       Deixei-me cair numa cadeira.
        Para qu? Ele no vai aceit-lo.  contra a poltica da firma.
       A Sra. Hayden sentou-se  minha frente.
        Isso no quer dizer que no possa p-lo em prtica.
       Fiquei a olhar para ela,
        No pretendo enganar-me a mim mesmo. No tenho dinheiro para isso.
        Quanto  que voc tem?
       Era uma pergunta fcil de responder. Depois de pagar os sete mil do barco que tinha comprado em La Jolla, tinham-me ficado exactamente mil e novecentos. Mil e quinhentos eram do seguro do meu pai e o restante eram as economias que tinha feito com o que recebia do exrcito.
        Era capaz de investir todo o seu dinheiro num projecto desses?
        Claro. Mas seria apenas uma gota no oceano. S a terra deveria custar uns dois mil cada acre. S a so cento e sessenta mil dlares.
        O dinheiro no tem importncia  disse ela calmamente.  Eu podia arranjar o dinheiro.
        Hum, hum.  Levantei a mo.  No quero o seu dinheiro. Ia dar ao mesmo.
        Agora  voc que est a ser tolo, Luke. Se o dinheiro viesse de uma pessoa estranha, voc aceitava, no aceitava?
        Isso  diferente. Nesse caso, seria apenas um negcio. As relaes pessoais no estariam envolvidas.
        A nossa relao no tem nada a ver com o caso  disse rapidamente.  Voc acredita naquilo que pretende fazer, no acredita? Espera vir a ter um lucro considervel?
       Fiz que sim com a cabea. 
        Se a coisa funcionar como eu penso, pode haver um lucro da ordem do meio milho.
        No tenho nada contra a ideia de ganhar dinheiro.  Sorriu.  Por que  que havia de ter?
       A lgica dela era irrefutvel. Alm disso, como  que eu podia argumentar contra os meus prprios desejos? Comprei o terreno no dia seguinte. Dois dias depois, nasceu Danielle. Tive alguns momentos difceis, porque ela nasceu quase dois meses antes do tempo previsto. Mas o mdico disse-me que no havia razo para preocupaes, que a criana era absolutamente prefeita.
       No tinha visto muitos bebs antes, mas no pude deixar de concordar com ele. Dani era o beb mais bonito do mundo.
       Os sons da noite eram diferentes agora. Havia sempre o murmrio suave que parecia vir do quarto do beb, mesmo ao lado do nosso. Ocasionalmente, ela chorava de madrugada e ns ouvamos o mexer da ama a dar-lhe o bibero ou o arrulhar suave da voz dela ao segurar Dani nos braos, enquanto bebia at adormecer.
       Inconscientemente, entrei na rotina e comecei a ficar  escuta de todos os sons enquanto dormia, sentindo-me reconfortado com a sua regularidade, na certeza de que tudo estava normal. Com Nora era diferente.
       Nora veio do hospital tensa, nervosa e irritvel. O mais ligeiro som durante a noite acordava-a. Percebi que ia acontecer qualquer coisa, mas no sabia o qu. Sentia-o no estado de esprito dela. Percebi que havia qualquer coisa subjacente, muito prxima da superfcie,  espera da provocao final; e eu estava atento, decidido a no lha proporcionar.
       Atravessava os dias cautelosamente, esperando que, com o tempo, aquele estado de esprito viesse a passar. Mas estava apenas a enganar-me a mim prprio e tive conscincia disso no momento em que o candeeiro da mesa de cabeceira se acendeu uma vez s duas da manh.
       Tinha passado o dia de um lado para o outro com avaliadores de terrenos. O ar e a excitao tinham-me mergulhado num sono profundo, mas de repente fiquei bem desperto por detrs das minhas plpebras fechadas. Levantei-me, ainda a fingir-me meio adormecido.
        O que  que h? 
       Nora estava sentada na cama, com as costas encostadas s almofadas, a olhar para mim.
        O beb est a chorar.
       Fiquei um momento a olhar para ela, depois, sem lhe dar ainda a entender que estava completamente desperto, rodei os ps para fora da cama.
        Eu vou ver se est tudo bem.
       Pus os ps dentro das pantufas, vesti o roupo e atravessei a porta que dava para o quarto de Dani. A ama j l estava, com Dani nos braos, a dar-lhe um bibero. Olhou para mim, com um olhar sobressaltado na difusa luz nocturna dos aposentos da criana.
        Sr. Carey. 
        Est tudo bem, Sra. Holman?
        Claro! A pequenina, coitadinha, estava s com fome.
       Aproximei-me e olhei para Dani, J estava com os olhos fechados e bebia, contente, o seu bibero.
        A Sra. Carey ouviu-a chorar  disse. 
        Diga  Sra. Carey que no se preocupe. A Dani est ptima. 
       Sorri-lhe e acenei com a cabea.
        O que a Dani tinha era fome  disse, enquanto me metia novamente na cama e apagava a luz. 
       Voltei-me de lado, e fiquei assim uns minutos, deitado,  espera de que ela falasse. Mas Nora no disse nada e o sono tornou-me as pestanas pesadas. Depois a luz acendeu-se outra vez. Subi de novo a escada ardilosa do sono para a viglia.
        E agora o que  que h?
       Nora estava de p do outro lado da cama, com uma almofada e um cobertor apertados nos braos.
        Ests a ressonar.  Fiquei a olh-la sem responder. Senti-me como um lutador agachado que se tivesse felicitado a si prprio por ter conseguido evitar o adversrio e, de repente, desse consigo do lado mau de um directo. Agora j no havia maneira de evitar a luta. De repente, senti-me zangado.
        Ok, Nora  disse.  Vou desistir de dormir. Que mais queres?
        No precisas de ser desagradvel.
        Eu no estou a ser desagradvel. Tu  que andas a querer discutir h j muito tempo. Pronto, qual  a discusso afinal?
       Nora levantou a voz.
        Eu no ando a querer discutir! 
       Olhei em direco ao quarto de Dani.
        Vais acordar o beb.
        A est o que eu pensava!  exclamou, triunfante.  Pensas sempre primeiro no beb do que em mim. Todas as vezes que ela chora, vais logo a correr, todo preocupado. Mas nunca te preocupas comigo! Eu no conto, sou apenas a me dela. J servi para o que tinha a servir!
       No havia resposta para aquele tipo de disparate e eu cometi o erro de lho dizer abertamente.
        No sejas estpida! Apaga a luz e v se dormes. 
        No ests a falar com nenhuma criana!
       Ergui-me sobre um cotovelo.
        Se no estou  disse  ento pra de te portares como se fosses!
        Isso era o que tu querias, no era? No havia nada que te agradasse mais do que teres-me aqui todo o dia para vos servir a ambos sempre que lhes desse na cabea!
       Ri-me. A ideia era de tal forma ridcula.
        Eu sei que no sabes cozinhar  disse.  Como  que poderias servir-nos? Nunca te vi nem sequer aquecer o bibero da criana, quanto mais dar-lhe de comer.
        Tu tens  cimes! 
        Cimes de qu?
        Tens cimes por eu ser uma artista e ter a minha individualidade. O que tu queres  subjugar-me, pr-me numa posio secundria em relao a ti, como qualquer dona de casa vulgar.
       Recostei-me, fatigado.
        Tenho de admitir que h alturas em que essa ideia me parece atraente.
        Vs?  exultou, triunfante.  Eu tinha razo!
       Sentia-me exausto.
        Acaba com isso e vem para a cama, Nora. Eu tenho de me levantar cedo para ir para a obra.
        Eu vou para a cama  disse.  Mas no aqui! J no agento mais ouvir-te a ti a ressonar e o beb a chorar.
       Sempre agarrada  almofada e ao cobertor, dirigiu-se para a casa de banho. Antes que eu conseguisse mexer-me da cama, ouvi a porta do quarto de hspedes bater e fechar-se. Quando l cheguei, j ela tinha dado a volta  chave. Devagar, voltei para a minha cama. Talvez fosse melhor assim. Deix-la deitar fora o que quer que fosse que andava a incomod-la. Talvez na noite seguinte j tudo estivesse outra vez normal. Mas estava enganado. Quando cheguei a casa, na tarde seguinte, j os operrios estavam a refazer a decorao do outro quarto e Nora tinha retirado a roupa dela dos nossos armrios.
       Desci ao andar de baixo e Charles deu-me o recado que Nora tinha ido  cidade jantar com o Sr. Corwin e com alguns visitantes, crticos de arte do Leste. Jantei sozinho e trabalhei no meu gabinete at s onze e meia, estudando os acessos para a urbanizao. Depois subi e fui ver o beb, como sempre costumava fazer antes de ir dormir.
       Dani dormia, deitada de lado, com os olhos pequeninos muito fechados e o polegarzito encostado ao canto da boca. Ouvi barulho atrs de mim. Voltei-me. Era a ama com o bibero. Afastei-me e deixei a ama pegar nela. Dani encontrou a tetina do bibero sem sequer abrir os olhos.
        Deixe-me dar-lhe o bibero  disse de repente. 
       A Sra. Holman sorriu. Mostrou-me como devia segurar no beb e eu tomei Dani nos braos. Ela abriu os olhos um momento e olhou-me. Depois, chegando evidentemente  concluso de que podia confiar em mim, fechou-os outra vez e dedicou-se ao bibero.
       Meti-me na cama, um pouco depois da meia-noite e Nora ainda no tinha voltado para casa. Ca num sono desassossegado. Nunca cheguei a saber a que horas ela tinha vindo naquela noite. S a vi quando voltei do trabalho, no dia seguinte. Nessa altura j a disposio de Nora era completamente diferente. Recebeu-me  porta, a sorrir.
        Estive a preparar cocktails para ns na biblioteca. 
       Beijei-a na cara. Estava vestida com um elegante pijama de casa.
        Ests diferente  disse, seguindo-a at  biblioteca.  H convidados para o jantar?
        No, pateta. Eu  que fui ao cabeleireiro.
       Pareceu-me na mesma. Peguei no copo que ela tinha na mo.
        O dia correu-te bem?
       Levou o copo  boca, com os olhos a brilhar.
        Foi maravilhoso! Exactamente o que eu precisava. Sair e comear de novo a estar activa.
       Fiz que sim com a cabea, sorrindo. Pelo menos a tempestade tinha passado.
        Na noite passada jantei com o Corwin e com o Chadwinkes Hunt, o crtico. So de opinio que quanto mais depressa eu comear de novo a trabalhar, melhor. Scaasi disse ao Sam que eu devia fazer outra exposio, o mais tardar no outono.
        Achas que vais ter tempo de te preparar? 
        Mais do que tempo. Estive todo o dia a fazer esboos. Tenho milhares de ideias.
       Levantei o copo.
        s tuas ideias. 
        Obrigada.  Sorriu e beijou-me na cara.  No ests zangado por causa da outra noite? 
        No  disse com naturalidade.  Estvamos os dois um bocado enervados. 
       Beijou-me outra vez.
        Ainda bem. Pensei que pudesses no gostar que eu mudasse para o outro quarto. No sei porque  que no pensei nisso mais cedo. A me e o pai tiveram sempre quartos separados.  muito mais civilizado.
        Ah ?
        Claro! Embora as pessoas estejam casadas, continuam a ter direito a uma certa privacidade.  Olhou-me muito sria.  Alm isso, acho que  a forma de preservar aquele bocadinho de mistrio, que  to importante em todos os casamentos.
       Aquilo era novidade para mim. Nunca tinha ouvido os meus pais queixarem-se de falta de privacidade.
        E o que  que eu fao quando quiser ir para a cama contigo?
        Agora ests a ser grosseiro.  Depois, sorriu maliciosa  Basta assobiares.
        Assim?  perguntei, levando os dedos  boca.
        Pra com isso. O Charles vai pensar que endoideceste!
       Acabei a minha bebida.
        Vou dar um salto l acima, lavar as mos e espreitar a Dani.
        Podes lavar as mos aqui em baixo. A Sra. Holman j deitou a Dani.
       Olhei para ela. 
        Como  que ela esteve hoje?
        A Sra. Holman diz que foi um verdadeiro anjo. Vamos, agora despacha-te e vai lavar as mos. Mandei a cozinheira fazer uma roulade de vaca, mesmo como tu gostas e no quero que fique estragada. Depois do jantar, pensei que podias vir comigo ver se gostas do meu quarto. Mandei o Charles pr l uma garrafa de champanhe gelada.
       Comecei a rir-me. Ento, era assim que se fazia. Talvez ela no estivesse to longe como eu tinha pensado. Tinha de admitir que aquilo punha na situao um agradvel toquezinho de ilegalidade. 
       s vezes, a meio da noite, eu dizia:
        Os criados no iro achar um bocado esquisito que, tendo ns dois quartos, acabemos por usar s um?
        s tolo. Quem  que se preocupa com o que os criados pensam?
        Eu no, para dizer a verdade  respondi, puxando-a para mim.  Mas insisto que sejas minha convidada amanh  noite!
       Mas era sempre no quarto dela que fazamos amor, nunca no meu. Acabava sempre por ter de atravessar o cho frio da casa de banho que separava os nossos dois quartos. Aprendi a fazer rodar o puxador da porta muito devagarinho, para ela no me ouvir, pois havia alturas em que a porta estava fechada  chave. Houve alturas tambm em que eu caa atravessado em cima da minha cama, exausto do trabalho e no chegava a saber se a porta estava fechada ou no. Sentia-me como um indivduo que  obrigado a virar para uma rua de sentido nico, mas que ele sabe que no tem sada. Comecei a temer a rejeio daquela porta fechada. Umas boas goladas de bourbon antes de me despir pareciam sempre aliviar as tenses, de tal forma que no tinha desejo sequer de tentar a porta.
       Ca no hbito de dar a Dani o bibero da meia-noite e isso parecia que tambm ajudava. De qualquer forma, a suavidade dela enchia um vazio dentro de mim do qual eu nunca tivera sequer conscincia. Beijava-a, punha-a novamente no bero, depois ia para o meu quarto e encontrava o sono.  superfcie tudo estava normal. Nora e eu comportvamo-nos como qualquer outro casal. Saamos vrias vezes por semana, recebamos convites para festas, convidvamos os amigos para a nossa casa. Ela aparentava tudo o que uma jovem esposa deve ser. Apaixonada e carinhosa.
       Mas quando chegava a hora de ir para a cama, eu dava como desculpa que tinha um trabalho atrasado para pr em dia. Ia para o meu gabinete de trabalho, bebia qualquer coisa  pressa, para lhe dar tempo de adormecer e no ficar a saber se eu tinha tentado abrir a porta ou no.
       Se alguma coisa nisto tudo parecia esquisito a Nora, ela nunca disse uma palavra sobre o assunto. O tempo passava e parecia satisfeita com a maneira como corriam as coisas. Estava completamente absorvida pelo trabalho e ia a reunies sobre arte e a jantares, vrias vezes por semana. Nas outras noites ficava a trabalhar no estdio, de maneira que, eu nunca sabia se ela subia para o quarto ou se dormia no quartinho minsculo que tinha arranjado ao lado do estdio.
       A rotina  uma coisa fatal. Passado algum tempo, parecia-me que as coisas sempre se tinham passado e sempre se haviam de passar desta maneira. Sem jeito. O que eu no sabia era que Nora, no seu mundo prprio e cheio de sonhos, tinha quase tanto medo de mim como eu dela.
       Lembrava-se da dor. Aquela dor terrvel e dilacerante que, parecia descer-lhe do estmago quando o beb rasgou o caminho para sair dela. A dor e as luzes muito brancas e brilhantes olhando-a fixamente do tecto verde-claro da sala de partos. Todas as cores eram claras e ntidas. O sangue nas luvas de borracha branca do mdico. O mampulo negro do depsito de metal cinzento que estava ao lado do anestesista. Era sempre assim quando sonhava. At nisso era diferente das outras pessoas. Sonhava em technicolor.
       A voz do mdico sussurrou-lhe, tranquilizadora, ao ouvido.
        Faa fora, Sra. Carey. Faa fora que so s mais uns minutos.
        No posso!  tentou gritar-lhe, mas nenhum som lhe saiu dos lbios.  No posso, di demais!  Sentiu as lgrimas escorrerem-lhe dos cantos dos olhos. Sabia o efeito que deviam fazer ao rolar-lhe pelas faces. Eram como pequenos diamantes cintilantes.
        Tem de ser, Sra. Carey  sussurrou de novo o mdico. Quando se inclinava sobre ela, via-lhe as veias de um vermelho prpura ao lado do nariz.
        No posso!  gritou de novo  no posso agentar a dor. Pelo amor de Deus, faa qualquer coisa, ou endoideo! Corte-o aos pedaos e faa-o sair aos bocadinhos! Faa qualquer coisa para deixar de doer!
       Sentiu a agulha no brao. Levantou os olhos para o mdico, num pavor repentino. Acabava de lhe ocorrer que ele era catlico, e os catlicos acreditavam em deixar morrer a me e salvar a criana.
        O que  que est a fazer?  gritou-lhe.  No me mate a mim; mate a criana. Por favor, eu no quero morrer.
        No se preocupe  disse o mdico calmamente  ningum vai morrer.
        No acredito em si!  Debateu-se para se pr de p, mas havia mos que lhe agarravam os ombros, impedindo-a de se levantar.  Eu vou morrer. Eu sei. Vou morrer!
        Comece a contar para trs a partir de dez, Sra. Carey  disse o mdico calmamente.  Dez, nove...
        Oito, sete, seis...  Olhou para a cara dele. Os contornos estavam a ficar imprecisos. Como no cinema, quando o filme estava desfocado.  Oito, sete, seis, cinco, quatro, sete, cinco, trs.
       E veio a escurido. Uma escurido que rolava suavemente.
       Um rudo vindo do estdio, ao lado do quartinho onde ela dormia, acordou Nora. Sentou-se de repente na cama.
         voc, Charles? Os passos aproximaram-se da porta e esta abriu-se para dar passagem a Sam Corwin.
        O que  que ests a fazer aqui?  perguntou.  Ontem, estive a trabalhar at tarde.  Olhou para o relgio de pulso. Eram quase dez horas. Eram apenas cinco quando se tinha atirado para cima da cama, cansada de mais at para tirar a bata.  O que  que ests a fazer a p to cedo?
       Sam acendeu um cigarro.
        Tenho uma grande novidade para ti. 
       Ps-se de p, cansada. Passou os dedos pelo cabelo. Sentia-o spero e sujo.
        Qual  a novidade? 
        O teu estudo para as Naes Unidas foi aprovado. Vais ter a nica esttua feita por uma mulher na Praa das Naes Unidas em Nova Iorque.
       O cansao desapareceu, substitudo por uma euforia repentina.
        Quando  que soubeste?
        H uma hora. Scaasi telefonou-me de Nova Iorque. Vim logo para aqui.
       Sentiu uma onda de triunfo. Tinha razo. At o Luke ia ter de admitir isso. Olhou para Sam.
        J disseste a algum? 
       Sacudiu a cabea.
        No. Mas temos de dar a noticia esta manh. 
       Nora encaminhou-se para o estdio.
        Quero falar nisso ao Luke, antes que ele saiba de outra maneira qualquer.
        Bom  disse.  Esta tarde vai aparecer nos telegramas de Nova Iorque.
        Ento, vamos dizer-lhe j.
       Sam foi atrs dela pelo corredor fora at  sala de entrada. Charles vinha precisamente a descer as escadas.
        O Sr. Carey j saiu, Charles?
        Sim, minha senhora. Saiu pouco depois das oito com o beb e com a Sra. Holman.
        Elas foram com ele?  exclamou Nora surpreendida.  Mas para qu?
        Ele disse qualquer coisa que este era o seu grande dia, minha senhora. Que o primeiro grupo de casas ia ficar terminado e que ia haver uma cerimnia. Deixou um recado, sugerindo que a senhora aparecesse por l, se tivesse tempo.
        Obrigado, Charles. Ele j me tinha dito qualquer coisa, mas eu esqueci-me 
       O mordomo fez que sim com a cabea e afastou-se para os deixar passar. Sam foi atrs dela at ao quarto. Fechou a porta quando entraram.
        Tu no sabias de nada, pois no?
       Nora no respondeu. Sam olhou em volta. Percebeu, pela primeira vez, que aquele quarto no era dela e do Luke.
        Qual  a ideia de ficarem em quartos separados assim de repente? H alguma coisa que no corre bem entre ti e o Luke?
        No, no h nada.
        Espera a  disse ele suavemente.  Eu sou o teu velho amigo Sam, lembras-te? Podes sempre falar comigo.
       De repente, ps-se a chorar, encostada ao peito dele.
        Oh, Sam, Sam!  gritou.  No podes imaginar como tudo isto  horrvel! O Luke est doente. A guerra fez-lhe qualquer coisa. Ele no  normal.
        No entendo.
       As palavras saram-lhe dos lbios em catadupas, como se no pudesse guard-las por mais tempo.
        Sabias do ferimento dele, claro? Pois bem, isso leva-o a fazer toda a espcie de coisas malucas.
        O qu, por exemplo?
        Perversidades precoces? Obriga-me a fazer essas coisas. S assim  que ele se consegue excitar. De outra maneira  quase impotente! No sei o que  que hei-de fazer. s vezes, penso que vou endoidecer.
        No sabia que ele tinha tido esse ferimento. Sugeriste-lhe que procurasse um mdico?
        Supliquei-lhe. Mas ele, no ouve nada. Diz-me que me preocupe com o que me diz respeito. A nica coisa que ele quer  que eu tenha filhos, para provar que  homem!
       Nora afastou-se e tirou um cigarro de uma caixa que estava em cima da mesa. Sam estendeu-lhe um fsforo.
        Est sempre a fazer coisas para me aborrecer  disse.  Ele sabe que o pediatra nos disse que a Dani no devia sair de casa. Est constipada. E ele levou-a para l, para toda aquela lama, poeira e frio, s para me aborrecer.
        E o que  que tu pensas fazer?  Ficou a olhar para ele.
        Vou at l e trago-a de volta. Ela  minha filha e no vou consentir que ningum, nem mesmo ele, lhe faa mal.  Sentiu o vago sentimento de dvida que se apoderou de Sam.  No acreditas em mim, pois no?
        Acredito em ti.
        Talvez acredites, depois de eu te mostrar uma coisa. Voltou-se e conduziu-o atravs da casa de banho at ao quarto de Luke. Num gesto dramtico, abriu a porta da mesa de cabeceira que ficava ao lado da cama.
        Olha! 
       Os olhos de Sam seguiram-lhe o dedo que apontava. Havia duas garrafas de bourbon cheias e outra meio cheia, na prateleira. Olhou-a, surpreendido.
         todas as noites o mesmo. Bebe e depois vem ter comigo. Em seguida volta a beber at adormecer, meio narcotizado!
       Fechou a porta com o p e Sam foi atrs dela at ao outro quarto. Ficou um momento a observ-la em silncio.
        No podes continuar assim.
        E o que  que eu posso fazer?
        Divorciar-te dele.
        No.
       O mesmo vago cepticismo cresceu de novo dentro dele. De repente, tudo parecia demasiado conveniente, as coisas encaixavam demasiado bem.
        Por que no?
        Sabes to bem como eu que a me no acredita em divrcios e ficaria terrivelmente chocada se visse o nome da famlia arrastado para os tribunais.
        E alm disso? 
       Olhou-o bem de frente.
        A minha filha. J vi muitas crianas ficarem transtornadas por causa de um lar desfeito. No quero que acontea nada disso  Dani.
       Sam no sabia se havia de acreditar nela.
        Eu vou  urbanizao contigo  disse, de repente.
       Nora olhou-o, surpreendida. Tinha-se entusiasmado de tal forma com o drama que estava a criar que se tinha esquecido completamente de que tinha dito que iria buscar Dani.
        Para te trazer a ti e ao beb  disse Sam. 
       Nora sorriu-lhe, de repente. Sam acreditava nela. Sabia que ele acreditava. E por que no havia de acreditar? A verdade era bastante evidente. Ps-lhe a mo no brao.
        Obrigada, Sam. Vai at l abaixo e bebe uma chvena de caf enquanto eu me visto. S preciso de alguns minutos.
       Dani estava radiante. Os olhos escuros brilhavam-lhe e gritou de prazer quando a larguei e ela deslizou pelo escorrega para ir cair nos braos da Sra. Holman que a aguardavam. Quando peguei nela, ela contorceu-se nos meus braos, esticando-se em direco ao escorrega. Ri-me e pu-la de novo l em cima.
        Agente-a a um momento, coronel!  gritou um dos fotgrafos, levantando a mquina.  D uma fotografia magnfica.
       Dani ficou imvel, posando para a fotografia, como se no tivesse feito outra coisa nos seus oito meses de vida. A ama sorriu, orgulhosa.
       A mquina disparou e eu deixei-a escorregar de novo. Depois levei-a para os baloios.
       Prendi-a ao assento minsculo e empurrei. Gorgolejou de alegria, o sol brilhante faz ressaltar as rosas das faces. Parecia uma boneca com o seu fato de neve azul, que a mantinha bem quente. Estvamos no parque infantil que eu tinha instalado nas traseiras da casa-modelo, para mostrar todo o espao que havia para actividades de ar livre.
       Olhei, satisfeito, pela rua abaixo. Havia carros estacionados a todo o comprimento da nova rua e os vendedores estavam ocupados a mostrar as vrias casas. No era que cada uma delas fosse muito diferente. O mais importante era que pareciam s-lo. Cada uma era basicamente o mesmo, a estrutura convencional em T, com uma rea suplementar em gua-furtada, que poderia ser convertida num outro andar, se o comprador desejasse. Mas limitando a construo a quatro por acre e oito por bloco, conseguramos pr cada casa em posio diferente. Isto criava, na gria da construo, o aspecto "fora de srie".
       O preo tambm era atraente: 13990 dlares. No me perguntem por que  que no eram os 14000 dlares certos; era outro segredo do negcio. Acho que essa diferena de 10 dlares fazia o preo parecer uma pechincha. E a verdade  que o era.
       O preo de compra inclua circulao forada de ar quente e abrigo para o carro. Podia ser comparado, favoravelmente, com o de outras casas mais perto da cidade que custavam mais 3000 a 5000 dlares. E, embora tivssemos de ceder vinte e cinco acres para estradas e acessos por exigncia dos servios camarrios, mesmo assim ainda tnhamos um lucro lquido de 1500 dlares em cada casa.
       Dani riu alto quando empurrei o balouo ainda com mais fora. Sabia perfeitamente o que ela sentia. Era o seu mundo. Olhei para alm do balouo. Os buldozers j tinham comeado a trabalhar no bloco seguinte, nivelando e limpando o cho. Amanh, vinham as ps para abrir as fundaes, depois, as misturadoras. As estruturas comeariam a crescer num stio que anteriormente estava deserto. Era tambm o meu mundo. Senti uma mo no brao. A voz de Nora veio de trs de mim.
        Ests a divertir-te tanto que nem podes dizer ol  tua prpria mulher?
       Voltei-me, surpreendido. Embora tivesse deixado um recado a Charles, no esperava v-la aparecer. At quele momento, no mostrara qualquer interesse pela urbanizao.
        Que agradvel surpresa, Nora!
       Como por magia, os reprteres e fotgrafos, que tinham comeado a afastar-se em direco ao bar que tnhamos instalado na roulotte que nos servia de escritrio, voltaram todos de repente. No me iludi. Nora era a atraco principal. Nora Hayden era noticia. Especialmente na sua cidade natal.
        O que  que te trouxe aqui?  perguntei. 
       Os olhos dela fitaram os meus.
        Sam teve a amabilidade do me trazer at aqui para eu poder levar a Dani para casa.
        Para casa? Por qu? Ela est radiante. 
        Sabes que ela ainda est constipada. 
       Parou o balouo e comeou a desapertar o cinto de segurana. Sam vinha em direco a ns, observando-nos com uma expresso curiosa.
        Que constipao?  Voltei-me para a Sra. Holman.  No me disse que a Dani estava constipada.
       A ama olhou para mim, depois para Nora e depois para o cho. Murmurou qualquer coisa ininteligvel. No consegui ouvir o que ela disse. Dani no queria ir-se embora. Torcia-se e gritava nos braos de Nora. Um dos fotgrafos sorriu para Nora.
        As crianas so uma maravilha  disse num tom amvel  at o momento em que tentamos impedi-las de fazer o que querem.
       O rosto de Nora congestionou-se, depois, empalideceu. No lhe agradava a ideia de se mostrar com uma criana aos gritos nos braos. No era de todo assim que tinha imaginado a cena. As mes apareciam com crianas suaves e encantadoras que posavam graciosamente nos seus braos. Apertou mais Dani e comeou a afastar-se do balouo. Dani gritou ainda com mais fora. Nora voltou-se e atirou-a para os braos da ama.
        Leve-a para o carro do Sr. Corwin.  Depois, voltou-se para mim.  Vs o que fizeste?  disse, zangada.  Nunca ests satisfeito enquanto no me colocas numa posio embaraosa!
       Pelo canto do olho, vi os reprteres aproximarem-se. No sabia se eles a tinham ouvido ou no, mas eu, pela minha parte, no ia dar-lhes mais nada.
        Peo desculpa  disse, em voz baixa.  No sabia que a Dani estava constipada.
        Deix-la brincar no cho frio e no meio de toda esta lama e poeira. Vou direita com ela ao mdico.
       Sentia a fria crescer dentro de mim, mas consegui controlar a voz.
        No exageres, Nora. Ningum vai acreditar.
       No estava preparado para o olhar carregado de dio que lhe faiscou nos olhos cinzentos. No me deu resposta, mas aquele olhar disse-me que as coisas que estavam erradas entre ns tinham ido longe de mais para que alguma vez pudessem ser reparadas. No entanto, estvamos ali, num stio em que toda a gente nos podia ver e eu tinha de fazer que tudo parecesse bem, tanto por ela como por mim. Forcei-me a sorrir.
        Bom, j que aqui ests, podes dar uma vista de olhos por a. O que  que achas das casas?
        No tenho tempo  disse com ar de desprezo.  Tenho de ir levar a Dani a casa e depois tenho de fazer os preparativos para ir a Nova Iorque.
       Desta vez tinha-me apanhado desprevenido.
        Nova Iorque? 
        Sim, o meu esboo para as Naes Unidas foi aprovado. Querem que eu v ao Leste discutir o assunto com eles.
       Era novidade para mim. Mas at os reprteres da construo civil sabiam disso. Comprimiram-se, ao mesmo tempo em que avanavam com as suas perguntas. Momentos depois Nora estava em plena conferncia de imprensa. Quando me afastei para ir verificar um problema de desnvel que tinha surgido ao bulidozer, j ela estava descontrada e sorridente, feliz, por ser, uma vez mais, o centro das atenes.
       Tambm me senti mais  vontade. Pelo menos, tnhamos livrado de dizer mais coisas desagradveis um ao outro. Mas isso s durou at eu ler os jornais na manh seguinte. Andava mesmo dos trabalhos, quando veio uma chamada telefnica e um dos operrios foi-me chamar. Era Stan Barrous, o agente de compra e venda de propriedades que se encarregava das nossas vendas. Falou numa voz murmurada como se no quisesse que o ouvissem.
        V j ao Valley National Bank, Luke. Temos sarilho. 
        Que sarilho?  perguntei. O Valley National tinha feito as hipotecas da construo.  Eles no tm razo de queixa. Temos estado a trabalhar abaixo do oramento.
        No posso falar. V l imediatamente!
       E o telefone morreu-me nas mos. Ia ligar para ele, mas pousei o telefone. Se ele tivesse querido contar-me mais alguma coisa, t-lo-ia feito. Dirigi-me para o meu carro.
       J l estavam todos quando entrei no gabinete do presidente do banco. Eles no sabiam, mas eu fiquei mais admirado, por os ver a eles do que eles por me verem a mim. Olhei em volta. A minha sogra, George Hayden Stam, o presidente do banco, o vice-presidente encarregado da seco de hipotecas.
        No sabia que ia haver uma reunio  disse.  Algum se esqueceu de me prevenir.
       Pareceram-me pouco  vontade, mas ningum quis ser o primeiro a falar. Passado um momento, o vice-presidente deu o mergulho.
        J leu os jornais da manh, Luke?
        No  respondi.  Quando saio para o trabalho ainda  escuro. No chegam l acima to cedo.
        Nesse caso,  melhor ler isto. 
       Estendeu-me um exemplar, dobrado, do Chronicle. Olhei de relance para um artigo sublinhado a vermelho. Ao lado vinha uma fotografia de Nora.
       NORA HAYDEN FAZ ESTTUA PARA N. U.
       Levantei os olhos.
         muito interessante  disse.  Mas no vejo o que  que isso tem a ver connosco.
        Continue a ler.
       Continuei. Os primeiros dois pargrafos no tinham nada de especial. Falavam da esttua para as Naes Unidas. Os trs pargrafos seguintes  que eram o fim.
       Entrevistada na grande festa de abertura das Construes! Carey, uma urbanizao muito falada que est a ser dirigida pelo marido, coronel Luke Carey, antigo heri da guerra, Nora Hayden com sua franqueza habitual, expressou a sua opinio sobre as modernas casas americanas, os seus proprietrios e aqueles que as constrem.
       O construtor americano mostra um total desprezo pelos proprietrios e pelas donas de casa americanas. Destitudo de imaginao e de todo e qualquer sentido artstico, est a transformar a casa americana num cubo conformista e inspido e isso por razes econmicas puramente egostas que lhe permitem alcanar maiores lucros. Cada casa  exactamente igual  seguinte, sem quaisquer caractersticas individuais e qualquer mulher que permite que a levem a viver numa dessas caixas de fsforos s pode imputar responsabilidades a si prpria.
       Quando lhe perguntmos se aquela opinio era extensiva s Construes Carey, tal como s outras, teve esta resposta: Podem tirar das minhas palavras as concluses que quiserem. Por mim, no gostaria sequer de morrer numa estrutura to destituda de gosto e de estilo, quanto mais viver nela. Miss Hayden tenciona partir para Nova Iorque ainda hoje, para discutir com o Comit Artstico das Naes Unidas os planos para o trabalho que ir executar.
       Senti o estmago contrair-se; sentei-me quando acabei de ler o artigo. Atirei com o jornal para cima da secretria.
        Deve haver qualquer engano, Vou obrigar a Nora a fazer um desmentido.
        No vai servir de nada  disse George Hayden.  O mal est feito.
        Que mal?  disse, zangado.  O comprador mdio nem sequer l este tipo de idiotices.
        Est enganado, Luke  disse Stan Barrous calmamente.  O nosso livro de vendas indicava ontem ao fim do dia quarenta e sete definitivos e dezanove possibilidades. s dez horas desta manh, restavam apenas onze definitivos e trs possibilidades. Telefonei pessoalmente  maior parte das desistncias e, embora no admitissem ser essa a razo, todos disseram que tinham lido o artigo.
        Vou processar esse estuporado desse jornal! 
        E qual o motivo?  perguntou George Hayden, cheio de desprezo.  Esto apenas a repetir o que disse a sua mulher.
       No respondi. Tinha razo. Deixei-me cair numa cadeira e peguei num cigarro.
        Talvez se mudssemos o nome da urbanizao, se retirssemos o meu nome, servisse de alguma coisa.
        Duvido muito, Luke. Pode dizer-se que todo o projecto recebeu o beijo da morte.
       Acendi o cigarro sem responder. O meu sonho estava a desfazer-se no ar, como o fumo.
        Voc tem de compreender a nossa posio, Luke  disse o presidente do banco.  Investimos quase um milho de dlares e temos de o proteger. Vamos ter de exigir o reembolso.
        E do-me a oportunidade de tentar noutro lado?
        Claro, mas duvido que algum o aceite. Tentmos pelo menos uma dzia de bancos diferentes, para podermos repartir o emprstimo, mas todos recusaram. ramos o nico banco disposto a continuar ligado ao empreendimento, nem que fosse por cem mil dlares.
       Voltei-me para a minha sogra, que tinha estado calada todo o tempo.
        O que  que lhe parece? Sabe o que isto significa? Vamos ao ar e os seus trezentos mil estaro perdidos.
       Olhou-me fixamente.
        s vezes,  prefervel aceitar que perdemos e retirarmo-nos a tempo. Podamos vir a perder dez vezes mais a tentar salvar uma situao desesperada.
       Olhei em volta para todos eles.
        No consigo acreditar que isto v tudo por gua abaixo por causa de uns simples comentrios ocasionais.
       A minha sogra falou de novo.
        Talvez no fosse to importante se no tivessem partido da sua mulher.
       A deduo era ntida.
        No creio que a senhora alguma vez tenha conseguido impedi-la de fazer o que lhe vem  cabea  respondi.
        Seja como for, Luke, foi como sua mulher que ela falou, no como minha filha. A responsabilidade era sua.
        A Nora no  uma criana!  disse, zangado.  Sabia o que estava a dizer!
        A responsabilidade era sua!  insistiu, teimosamente, a velha senhora.
        E como  que eu podia t-la impedido?  perguntei.  Trancando-a no quarto, sem jantar?
         demasiado tarde para discutirmos o que j est feito.  O primo George voltou-se para mim.  Eu receava qualquer coisa deste gnero.  Era por isso que queria que esperasse at estar mais preparado.
        Para que esperar?  perguntei.  A ideia era boa. E continua a s-lo. Mas isso, agora, parece que j no conta. Todos tomaram j a sua deciso.
       Levantei-me e encaminhei-me para a porta.
        Luke!  A voz da minha sogra fez-me parar.
        Sim?
        No leve nada disto a mal. Eu vou fazer que voc receba o seu dinheiro.
       Fiquei a olhar para ela.
        Recusei-me a aceitar qualquer participao na casa que nos ofereceu. Recusei as aces da Hayden de Carruthers que quis oferecer-me. O que  que a leva a pensar que vou aceitar esta espcie de ddiva?
       O olhar dela tornou-se frio e duro, mas h uma coisa pela qual no posso deixar de lhe dar crdito: a voz dela no sofreu qualquer alterao.
        No seja tolo! H sempre uma oportunidade.
       Sorri amargamente.
        O que quer dizer  que eu posso sempre voltar para a Hayden de Carruthers, se resolver ser bom menino e fazer o que me mandam.
       No respondeu, mas os lbios dela comprimiram-se e formaram uma linha fina e dura.
        Obrigado, mas no, muito obrigado  disse amargamente.  No  a primeira vez que deso envolto em chamas; s que  a primeira vez que o fogo vem do meu prprio lado.
       Olhei em volta. Estavam todos silenciosos, de olhos fixos em mim.
        Hei-de sobreviver. Sa-me das outras, tambm me hei-de sair desta.
        Luke!  Agora a voz da minha sogra era dura e zangada.  Se voc sair aquela porta, no ter outra oportunidade, isso lhe garanto eu!
       De repente, senti-me cansado.
        J  tempo de deixarmos de nos iludir, me Hayden  disse, num tom fatigado.  Ambos sabemos que a nica possibilidade que eu tinha era fazer exactamente aquilo que a senhora e Nora queriam. Sei que foi uma loucura minha ter posto sequer a hiptese de conseguir aprender a viver dessa forma!
       Fechei a porta atrs de mim, fui a um bar e tomei umas quantas bebidas. Depois fui para casa, para dizer a Nora exactamente aquilo que pensava. Mas nunca tive essa possibilidade. Quando l cheguei, j ela tinha ido para Nova Iorque.
       Subi ao quarto de Dani. Ela ficou sentada no bero a olhar para mim. Aproximei-me, peguei-lhe e apertei-a de encontro ao peito. De repente, senti as lgrimas correrem-me pela cara. Encostei-lhe suavemente os lbios ao pescoozinho macio.
        Bom, minha pequenina Dani  murmurei  parece que o teu pai se transformou numa verdadeira bomba!
       Fui despedido por falncia no dia em que ela fez um ano.
       A vida entrou numa pausa gritante. Uma pessoa move-se atravs dos dias, mas  como se fosse um fantasma. As pessoas no nos vem. No as tocamos nem elas nos tocam.  quase como se nunca tivssemos existido e talvez isso fosse ptimo, excepto numa coisa. Vemos demasiado.
       Como a imensa fita amarela que nos abre caminho pelas entranhas, como uma serpente que nem sabamos que existia. O medo nem sempre  uma coisa fsica. Tem muitas caras. Uma delas comea quando se aceitam as mentiras de algum. Ento, ficamos amarrados pelo fio amarelo da nossa prpria aceitao.
       A me de Nora tinha cumprido bem a sua promessa. O meu nome estava na lama; todas as portas estavam fechadas e, passado algum tempo, deixei mesmo de tentar. Durante o dia havia sempre Dani.
       Vi-a aprender a andar no parque. Ouvi-a rir no jardim zoolgico e em Cliff House,  procura dos lees-do-mar que nunca l estavam. Mas do que ela gostava mais era de pr as moedas nos brinquedos mecnicos do velho Palcio de Cristal de Sutro.
       Havia um que lhe agradava especialmente. Era uma quinta e o fazendeiro mugia a vaca enquanto a mulher dava de comer s galinhas e o moinho de vento girava. Fizemos isso seis vezes no dia do segundo aniversrio dela.
        noite, havia sempre o bourbon para apagar o sabor amargo da decepo. Aos fins-de-semana, quando Nora estava geralmente em casa, ia para La Jolla e entretinha-me com o barco. Era a nica coisa que no tinha perdido na falncia e os fins-de-semana eram a nica altura em que me sentia um pouco til. Havia sempre qualquer coisa para fazer: pintar, betumar, reparar. s vezes, os dois dias passavam sem que eu tocasse na bebida. Mas, na segunda-feira  noite, j em casa, metia-me outra vez no lcool.
       Deviam dar uma medalha ao homem que inventou o uisque bourbon. O uisque escocs sabe a remdio, o gim cheira a perfume, o uisque de centeio azeda o estmago. Mas o bourbon  a nata de todos eles.  suave e macio e enche-nos de bem-estar. Nunca se fica bbado com bourbon. Apenas nos enche todos os buracos e faz-nos sentir outra vez grandes e fortes. E o sono chega sempre com maior facilidade.
       Mas nem mesmo o bourbon me conseguia fechar os olhos. Continuava a ver demais. Como naquela noite em que no conseguia dormir e fui l abaixo s trs da manh buscar outra garrafa. Nora entrou  porta precisamente quando eu cheguei ao fundo das escadas. Fechou-a atrs dela e ficmos ali, a olhar um para o outro, a medir-nos, quase como dois estranhos, tentando lembrar-nos de qualquer impresso vaga.
       Eu sabia bem qual era o meu aspecto, com o cabelo desgrenhado, o pijama amarrotado e o roupo atado descuidadamente. No estava nenhuma beleza. Especialmente com os ps descalos a aparecerem.
       Quanto a Nora, era quase como se a visse pela primeira vez. Envolvia-a aquele odor almiscarado a sexo. Tinha o rosto plido e em volta dos olhos violeta trazia aqueles crculos transparentes de um azul suave que sempre tinha depois, enquanto o sono no os apagava. No precisava que lhe dissessem que eu sabia.
       No aguentei ficar a olhar para aqueles olhos que sabiam e afastei-me. No disse nada. Havia um vago sorriso na voz dela.
        Se ests  procura do uisque, eu disse ao Charles que pusesse uma caixa no teu gabinete.
       No respondi.
        Tu bebes bourbon, no ? 
       Levantei os olhos.
        . 
       Era o que eu pensava. Passou a meu lado, em direco  escada. Quando j ia a meio caminho, voltou-se e olhou para mim.
        No te esqueas de apagar a luz quando subires. 
       Fui buscar a garrafa de bourbon e pensei em mil e uma coisas que devia ter-lhe dito, mas no disse. Sentia a tal fita amarela enrolar-se-me na barriga e atirei-lhe um bocado de bourbon para cima. "A minha filha precisava de mim", disse para comigo mesmo. Precisava de algum que lhe desse amor e que a levasse ao Sutro para brincar com os brinquedos mecnicos, para partilhar o sol e a gua e todas as outras coisas em que a me nunca pensava. Levei a garrafa comigo para o quarto e estendi-me em cima da cama. Tinha acabado de tomar a terceira bebida, quando ouvi a chave dar a volta na fechadura. Olhei na direco do quarto de banho. A porta estava aberta. Quase me pus de p, depois parei. Em vez disso, estendi novamente a mo para o uisque.
       Engoli rapidamente uma boa golada e apaguei a luz. Fiquei estendido em cima da cama, mas no dormi. Dei comigo  escuta, na escurido,  procura de um som vindo do quarto dela. No tive de esperar muito. O interruptor do quarto de banho deu um estalido e a luz invadiu o meu quarto, ao mesmo tempo que ela avanava, Ficou parada  porta, sabendo que eu a via, sem nada por baixo do neglig transparente. Falou em voz branda.
        Ests acordado, Luke? 
       Sentei-me na cama, sem responder. 
        Abri a porta  disse. 
       Continuei a no dizer palavra. Avanou at aos ps da cama e ficou parada a olhar para mim. De repente, com um encolher de ombros, fez cair o neglig at ao cho. 
        Lembro-me de teres dito uma vez que no querias ser o segundo.  Havia um vago tom de desprezo na voz dela.  Ainda pensas da mesma maneira?
       Peguei num cigarro e acendi-o. As mos tremiam-me. O desprezo tornou-se-lhe mais marcado na voz.
        Em tempos, cheguei a pensar que eras um homem. Agora vejo que estava enganada. Agora sou eu mais homem do que tu. Perdeste os tomates quando despiste o uniforme.
       Inalei o fumo do cigarro, deixando-o queimar-me at aos pulmes. Sentia o suor escorrer-me nos punhos cerrados.
         melhor voltares para o teu quarto, Nora  disse com voz tensa. 
       Ela sentou-se  beira da cama e tirou-me o cigarro da mo. P-lo nos lbios e tirou uma lufada rpida, depois, deu-mo outra vez. Senti na boca o perfume leve do batom.
        Talvez servisse de alguma coisa eu contar-te o que fiz esta noite.
        No abuses, Nora!  disse, em voz rouca. 
       No prestou ateno ao que lhe disse. Inclinou-se por cima de mim, com a cara muito perto da minha. Sentia-lhe os seios pequenos e quentes comprimirem-se-me de encontro ao pijama.
        Foi s uma vez  murmurou em tom de desafio.  Foi tremendo. Mas tu conheces-me. S uma vez  como a comida chinesa. Uma hora depois estou outra vez cheia de fome!
       A ira encheu-me o peito. No aguentava mais. Agarrei-a pelos ombros e sacudi-a violentamente. Uma expresso de excitao estranha surgiu nos olhos dela e senti-lhe a mo, quente e ansiosa, a procurar-me.
        Faz amor comigo!
        Nora!  gritei e rolei para cima dela. 
       Acabou quase antes de comear. Fiquei ali estendido, sentindo-me enjoado, ftil e mal adequado, a olhar para ela, enquanto apanhava o neglig do cho. Depois, olhou para mim e vi-lhe nos olhos um ar de triunfo gelado.
        s vezes pergunto a mim mesma o que foi que me fez pensar que eras suficientemente homem para mim  disse num tom de desprezo.  Qualquer rapazito saberia melhor do que tu o que fazer.
       A porta fechou-se ruidosamente atrs dela e eu estendi de novo a mo para a garrafa. Mas desta vez nem o bourbon conseguiu apagar do meu estmago a sensao de enjo.
       
       Eu estava no barco, em La Jolla quando ouvi pela rdio a noticia de que os Vermelhos tinham atravessado a linha na Coria. Fui a correr ao cais, ao telefone pblico, e liguei para Jimmy Petersem Im Washington. Tnhamos voado juntos no Pacfico. Ele tinha continuado no Exrcito depois da guerra e era agora, brigadeiro da fora Area.
        Acabo de ouvir a noticia  disse, quando ele apareceu.  Tens emprego para um tipo capaz?
        Claro. Mas agora estamos a usar jactos. Tens de fazer um novo treino e no tenho a certeza de que voltes a ocupar o mesmo posto.
        O posto que v para o diabo, Pete. Quando  que eu me apresento?
       Riu-se.
        Vai falar com o Bill Killiam ao Presidio, amanh de manh. Nessa altura, j tenho qualquer coisa pensada para ti.
        L estarei com todo o prazer, Pete. Obrigado.
        Talvez no me agradeas quando deres outra vez contigo em capito.
        Meu general  disse com sinceridade  ficar-lhe-ia muito grato se me aceitasse outra vez como soldado!
       Voltei para o barco onde Dani estava a dormir na sua cama de viagem porttil. Nessa altura, j tinha quase trs anos e abriu os olhos quando peguei nela com a cama.
        Onde  que vamos, pap?  perguntou, cheia de sono.
        Temos de ir para casa, querida. O pap tem de ir tratar de umas coisas.
        T bem  murmurou e fechou outra vez os olhos. 
       Amarrei a cama ao assento do carro, ao meu lado, e atirei com as nossas malas para o banco de trs. Olhei para o relgio. Eram quase oito horas. Se o trnsito no fosse muito, estaria em So Francisco por volta das quatro da manh. Dani fez a viagem toda sem abrir os olhos. No havia trnsito. As luzes estavam ainda acesas no estdio de Nora quando transportei Dani pelas escadas acima, s trs e meia e a pus no bero.
       Fui at ao meu quarto e depois, lembrei-me das luzes. S precisava de lho dizer de manh, pensei. Tambm podia faz-lo agora, j que estava acordada. Desci as escadas e entrei no estdio. As luzes estavam acesas, mas o estdio estava vazio.
        Nora  chamei. 
       Ouvi um rudo no quartinho ao lado do estdio. Encaminhei-me para l e abri a porta. Ia pronunciar novamente o nome dela, mas a voz morreu-me na garganta. Estavam ainda em cima da cama, grotescamente imobilizados nos braos um do outro. Nora foi a primeira a recompor-se.
        Sai daqui!  gritou.
       A minha cabea ficou como se eu estivesse quinze quilmetros acima das nuvens. Era o desenlace clssico e sentia-me desnorteado entre a fria de ter de enfrentar a verdade de forma to inesperada e o desejo louco de largar a rir perante o ridculo da situao. A fria levou a melhor. Aproximei-me da cama e arranquei o homem dos braos dela, agarrando-o pelo cachao. Fi-lo dar a volta e acertei-lhe no queixo, de lado. Foi cair de costas pela porta aberta, indo embater numa esttua. Ambos caram no cho com uma chinfrineira capaz de acordar os mortos. Fui novamente direito a ele, mas alguma coisa me agarrou o brao. Olhei para ele. O medo e o sentimento de culpa tinham-se combinado para o deixar indefeso. No passava de um rapazito. Deixei cair o brao ao longo do corpo.
Charles entrou no estdio, ainda a amarrar o roupo em volta do corpo. Vi a cozinheira e a criada de fora, atrs dele, a olharem para a porta. Voltei ao quarto, peguei nas coisas do rapaz e atirei-as para o estdio.
        Charles  disse  leve esse patifrio grosseiro daqui para fora!
       Fechei a porta atrs de mim e voltei-me para Nora. Estava plida de raiva e de dio.
        Ser melhor que te vistas tambm. Pareces uma puta barata, embrulhada nesse lenol.
        Para que  que tiveste de acordar os criados? Como  que eu vou ser capaz de olhar para a cara deles?
       Fiquei a olhar para ela. No a preocupava o facto de eu a ter encontrado na cama com outro homem. A nica coisa que a incomodava era o efeito que isso podia fazer nos criados. Sacudi a cabea, pensei que nunca ia deixar de aprender. De repente, pareceu-me que sabia todas as respostas.
        No creio que tenhas de te preocupar, Nora  disse, num tom quase amvel.  A verdade  que j no enganavas ningum. Excepto a mim.
        Tu nunca acreditaste em mim! Ouviste as histrias que contavam e acreditaste nelas!
         a que tu te enganas, Nora  disse.  Eu nunca ouvi nenhuma histria e continuo a no ter ouvido. No sabes que o marido , geralmente, o ltimo a descobrir?
        O que  que esperavas que eu fizesse? Nunca mais te aproximaste de mim depois do nascimento da Dani!
       Sacudi a cabea.
        J no d, Nora. Agora, j no d.  Comeou a chorar.  Isso j no me faz nada, Nora. As lgrimas tambm j no conseguem nada.
       Pararam to repentinamente como tinham comeado.
        Por favor, Luke  disse, saindo da cama e vindo direita a mim.  No volta a acontecer.
       Ri-me .
        Nisso tens razo. A mim j no me acontece. Vou-me embora.
        No, Luke, no!  Ps os braos  minha volta, agarrando-se a mim.  Eu fao-te esquecer tudo. Prometo!
        Por muito tempo que vivesses, no chegaria para isso! 
       Afastei-a de mim. Os olhos estavam muito abertos e assustados.
        O que  que tu vais fazer? 
       De repente, toda a dor, todo o sofrimento cresceram dentro de mim ao mesmo tempo.
        Uma coisa que j devia ter feito h muito. 
       As costas da minha mo assentaram-lhe de lado na cara e ela rodopiou at meio do quarto, falhou a cama e foi estatelar-se no cho. Sa do quarto antes que conseguisse levantar-se. Atravessei o estdio e segui ao longo do corredor. Via os rostos dos criados a olharem fixamente para mim. Quando cheguei junto das escadas, Charles vinha de volta da porta principal. O pobre homem no conseguia olhar-me de frente. A porta do estdio abriu-se e Nora apareceu no vestbulo, completamente nua.
        Filho da puta!  gritou.  Hei-de dizer ao mundo inteiro aquilo que tu s. Nem sequer s um homem. s um homossexual, um pervertido, um tipo esquisito!
       Olhei para Charles.
         melhor tratares dela. Chama o mdico, se achares que  preciso.
       Ele acenou com a cabea, em silncio. Nora continuava a gritar quando cheguei ao cimo das escadas. A Sra. Holman estava  porta do quarto, com os olhos muito abertos.
        A Dani est bem?  perguntei. 
       Fez que sim com a cabea, com o rosto ainda plido. Dirigi-me para o quarto da criana. Continuava a dormir, como um beb que era. Inclinei-me e beijei-a na face. 
        Graas a Deus pelo sono dos inocentes. 

       A minha sorte na Coreia foi mais ou menos a mesma que tinha sido durante a guerra. Dei boas provas nos jactos e voei numas nove misses, apanhando dois Migs antes de eles me apanharem a mim. A guerra no foi suficientemente grande para eu poder ir para o Estado-Maior depois de sair do hospital, por isso, dispensaram-me por razes clinicas e mandaram-me para casa.  chegada a So Francisco tive um acolhimento tumultuoso. A nica pessoa que estava  minha espera no aeroporto era um oficial de diligncias.
        Coronel Carey?
        Sim.
        Lamento  disse, metendo-me na mo um pedao de papel e afastando-se a toda a velocidade, como um rato com um co atrs.
       Abri o papel e li-o. 
       Estava datado daquele dia, 20 de Julho de 1951. Nora Hayden Carey contra Luke Carey. Aco de divrcio posta pela queixosa, Sr. Carey. Os fundamentos eram crueldade mental, abandono e falta de pagamento de alimentos.
        Bem-vindo a casa  disse para comigo mesmo, enfiando o papel na algibeira. 
       No h nada como uma boa recepo  antiga.































TERCEIRA PARTE

A Histria de LUKE
O fim-de-semana


       Olhei para o relgio enquanto subia no elevador, vindo da garagem. Era quase meio-dia quando cheguei ao motel, de volta do Tribunal de Menores. Queria dizer que eram duas horas em Chicago. Elizabeth devia estar  espera de noticias minhas.
       De repente, as minhas mos comearam a tremer. Precisava de uma bebida. Sa do elevador no andar principal e encaminhei-me para o bar. Pedi um Jack Daniels. S um. Bebi-o rapidamente e fui para o meu quarto. Atirei o casaco para cima de uma cadeira, sentei-me  beira da cama e pedi a chamada. Tirei a gravata e estendi-me, enquanto aguardava a ligao. A voz dela veio quente atravs do fio.
        Al. Elizabeth  disse. 
        Luke?  Havia um tom de preocupao na voz dela.  Ests bem?
       As palavras mal conseguiam sair-me da garganta.
        Estou, sim.
        As coisas esto assim to mal?  perguntou calmamente.
        Bastante mal  disse.  Nada mudou.  Tirei o mao de cigarros da algibeira da camisa.  A Nora continua a odiar-me.
        No esperavas que isso tivesse mudado, pois no? 
        Acho que no. S... 
        S o qu?
        Gostava de poder fazer qualquer coisa para que a Dani percebesse quanto desejo ajud-la.
        Ests a, no ests?  perguntou.
        Estou, mas...
        Ento pra de te preocupares  disse calmamente.  O mais importante  que ela no sinta que est s.
       Aquela frase fez-me cair um pouco em mim.
        Ento e tu? No te sentes sozinha? 
       Riu-se. 
        Eu no estou sozinha. O nosso amiguinho tem-me feito companhia. 
        Quem me dera que tu aqui estivesses.
        Talvez para a prxima vez  disse.  Vais ver que tudo vai correr bem sem mim. Amo-te  disse. 
        E eu tambm te amo, Luke. Para a prxima vez, pede para a chamada ser paga aqui. Assim s recebemos a conta no principio do ms.
        Bye, querida.
        Adeus, Luke. 
       Pousei o telefone. Sentia-me melhor. Parte da tenso tinha desaparecido. Elizabeth tinha sempre o mesmo efeito sobre mim. Fazia que tudo parecesse melhor. Fechei os olhos e pensei em como tinha sido no barco, havia muito tempo. A primeira vez. Quando a tinha levado a ela e ao patro no barco que tinham alugado.

       Tnhamos atracado em frente de Santa Mnica e o velho metera-se num txi para Los Angeles. Elizabeth tinha ficado no barco. O patro tinha-lhe dado o fim-de-semana livre. Tnhamos combinado tratar-nos todos uns aos outros pelo primeiro nome e depois de o velho ter seguido no txi, voltei-me para Elizabeth.
        Tenho um amigo aqui que me arranjava onde passar a noite, se voc preferir.
        E isso seria mais confortvel para si, Luke?  No havia artifcio nem coqueteria na voz dela.
        Estava s a fazer o meu papel de cavalheiro.
        Tenho a certeza disso.  Olhou-me com os olhos azuis e transparentes.  se tivesse dvidas, Luke, no teria concordado em ficar a bordo.
        Um comentrio simptico como esse d-lhe direito a ser convidada para jantar fora  disse.
        Aceito, se me deixar pagar.
        Ah, ah! Insisto. Voc  minha convidada para o fim-de-semana.
        No est certo. Isso vai-lhe baixar o preo do aluguer em cem dlares.
        O problema  meu  respondi, teimoso.
       Viu a expresso na minha cara e ps-me a mo no brao.
        Se  assim to importante. Por qu?
        Tive uma mulher que arranjou as coisas de tal maneira que era sempre ela quem pagava as contas. J me chegou.
       Retirou a mo, rapidamente.
        Estou a perceber  disse.  Bom, espero que esteja bem provido. Ns, os suecos, temos um apetite terrvel.
       Fomos ao restaurante onde se comia peixe, na auto-estrada da Costa, entre Malibu e Santa Mnica, e ela no ficou atrs do que tinha prometido. At eu desisti perante a abundncia das doses, mas ela limpou o prato. Depois, sentmo-nos em frente do caf, a olhar atravs da janela para as ondas que se vinham quebrar na praia, mesmo por baixo de onde ns estvamos, e conversmos. Estvamos  vontade e o tempo foi passando e j eram mais de onze horas quando voltmos para o barco.
        Estou morta  suspirou enquanto caminhvamos ao longo da doca.  Acho que no estou habituada a todo este ar do mar.
        Sim, deita uma pessoa abaixo.  Olhei para ela sob a luz pouco ntida e amarelada da nica lmpada suspensa  ponta do cais.  V se deitar. Se no se importa, eu vou um bocado at  praia. H um amigo que eu devia ir visitar.
       Olhou para mim de uma maneira especial e depois fez que sim com a cabea.
        V, sim. E obrigada pelo jantar. 
       Sorri-lhe. 
        Foi s uma amostra. Amanh  noite  que  a srio. Luzes suaves, toalhas brancas, msica.
        Obrigada pelo aviso. Vou passar fome todo o dia.
       Desceu para o barco e desapareceu no interior da cabina. Esperei um momento, depois voltei-me e segui ao longo do cais. Atravessei a porta do primeiro bar por onde passei e perguntei pelo meu amigo, pelo nome Jack Daniels.
       Embriaguei-me e j devia passar das trs quando entrei, cambaleante, no barco. Tentei de tal maneira no fazer barulho, que tropecei num cabo que estava enrolado no convs e estatelei-me ruidosamente no cho. Nessa altura, j estava demasiado cansado para ir at  cabina e deixei-me dormir no stio onde tinha cado. Acordei de manh com o aroma do caf e a fragrncia do bacon a fritar. Sentei-me mesmo antes de compreender que estava no meu beliche, vestido apenas com os shorts. Esfreguei a cabea com a mo. No me lembrava de ter ido at ali.
       Elizabeth deve ter-me ouvido mexer, porque deixou o pequeno fogo que havia na cozinha e trouxe-me um copo de sumo de tomate.
        Tome, beba isto. 
       Fiquei a olhar para ela, duvidoso.
        Beba. Faz desaparecer o nevoeiro; queima-o. 
       Automaticamente engoli o que estava no copo, Ela tinha razo. Aquilo queimou o nevoeiro, no h dvida, e queimou-me os dentes, a garganta, o estmago, tudo!
        Caramba!  arquejei.  O que  que estava no copo? Dinamite?
       Riu-se.
         um velho remdio sueco para a ressaca. Sumo de tomate, pimenta, molho ingls, tabaco e aguardente. O meu pai costumava dizer que uma pessoa ou morre ou fica curada.
        O seu pai tinha razo.  a morte repentina. Onde  que arranjou a aguardente escandinava?
        No mesmo stio onde se encontrou com o seu amigo ontem  noite. Acho que  o stio mais prximo, no ?
       Fiz que sim com a cabea.
        Esse seu amigo chegou-lhe bem.
        Estou destreinado  disse, na defensiva,  No bebi praticamente nada durante quatro dias. Como  que conseguiu meter-me na cama?
        No custou nada. O meu pai tinha quase dois metros e pesava cento e quinze quilos e eu costumava met-lo na cama. Fez-me lembrar os bons velhos tempos.  Tirou-me o copo vazio da mo.  Tem fome?
       Um momento antes eu teria vomitado s por ouvir falar em comida, agora sentia-me, de repente, esfomeado. Fiz que sim com a cabea.
        Ento, sente-se  mesa  disse, dirigindo-se novamente para a cozinha.  O servio no inclui pequeno-almoo na cama. Como  que gosta dos ovos?
        Mal passados.  Saltei do beliche e enfiei as calas.  Espere um minuto  protestei.  Voc no precisa de estar para a a cozinhar.
       Mas os ovos j estavam na frigideira. Havia pezinhos quentes e manteiga, compota e doce de laranja, quatro ovos e duzentos e cinquenta de bacon e uma cafeteira de caf fumegante. Eu estava a comer como um louco, quando Elizabeth trouxe a chvena para a mesa, a encheu e se sentou. Acendeu um cigarro. Limpei os ltimos bocadinhos de ovo com o que restava do ltimo pozinho e recostei-me com um suspiro.
        Estava bom.
        Gosto de ver um homem comer.
        Acabou de ver o trabalho de um profissional.  Enchi novamente a chvena.  Isto  que  caf.
        Obrigada.
       Acendi um cigarro e levei a chvena  boca. Sentia-me bem como h muito tempo no me acontecia.
        Voc tem uma filha?  Fiz que sim com a cabea.  Quantos anos  que ela tem?
        Oito. 
        O nome dela  Nora?  Sacudi a cabea.
        No, Dani. Abreviatura de Danielle. Nora era a minha mulher.
        Oh!
       Olhei para ela.
        Por que  que pergunta?
        No parou de falar delas enquanto o levei para a cama. Sente muito a falta delas, no sente?
        Sinto a falta da minha filha  disse com aspereza. Pus-me de p.  Por que  que no vai at l fora, saborear o ar puro? Eu lavo a loua.
        V voc para o convs com a sua chvena de caf. Durante o fim-de-semana, a loua  comigo.
       Sa e fui sentar-me numa das cadeiras de pescar. O nevoeiro da manh rolava em direco ao alto mar. O dia ia ser quente. Mal acabei o caf, ela surgiu por detrs de mim. Voltei-me para olhar para ela.
        Quer ir at  praia?
        Para qu ir para uma praia cheia de gente quando se pode dar uma volta no nosso prprio barco e ter um oceano particular?
        Voc  que  o comandante  disse, pondo-me de p.  Vou a terra arranjar umas coisas para o almoo. 
       Sorriu.
        J tratei disso. Incluindo uma dzia de latas de cerveja, para o caso de fazer muito calor. 
       Fui  popa para levantar ferro. A manh cumpriu a sua promessa. O sol estava pesado e ia-nos at aos ossos, de forma que at o alvio que encontrvamos na gua verde e fria no durava muito. Mas isso parecia no a incomodar. Continuava estendida no convs a absorver o sol. Havia quase uma hora que no se mexia. Eu estava estendido no banco, por detrs do volante de direco, debaixo do toldo. No estava interessado em ser cozido vivo. Empurrei o bon para cima, para destapar a cara, de maneira a poder v-la.
        H creme de bronzear na cabina, se quiser.
        No vale a pena. Eu no me bronzeio. Fico negra. Estava capaz era de beber outra cerveja. Estou seca.
       Fui ao frigorifico e voltei para cima com duas latas. Abri-as e avancei para o sol. Era como entrar numa fornalha. Rolou sobre si mesma e sentou-se, estendendo a mo para a lata gelada. Levou-a  boca e bebeu, sequiosa. Deixou escorrer um pouco de cerveja pelo canto da boca e o lquido foi escorrer-lhe pelos ombros bronzeados. No pude deixar de ficar a olhar. Biquinis e latas de cerveja.
       Era uma rapariga grande, pelo menos um metro e setenta e cinco, toda ela proporcionada. Sabia-se automaticamente que quem tivesse uma mulher assim tinha tudo ali; no havia outra mulher ao cimo da terra que se lhe pudesse comparar. Limpou a cara com a parte de cima do brao. Depois, deu comigo a observ-la. Sorriu.
        A minha me sempre disse que eu no sabia beber. Sou como o meu pai.
       Sorri-lhe tambm.
        Voc disse que estava com sede. 
       Apoiou as mos abertas no convs, atrs do corpo e encostou-se para trs, voltando a cara para o sol.
        Cus, como isto  bom! O sol e o oceano. Nunca pensei que sentisse tanto a falta da gua.
       Tive de me obrigar a desviar o olhar. Pela primeira vez compreendi aquela histria das raparigas altas e louras. At quela altura tinham sido apenas uma coisa que se via no cran ou nos corpos de baile em Las Vegas. Mas ver de perto uma verdadeira, agora j percebia porqu.
        Se sente assim tanto a falta da gua  perguntei  como  que se foi meter num stio como Sandsville?
       Tinha fechado os olhos por causa do sol.
        Vim para Phoenix com o meu marido. Era piloto da Fora Area. Enfiou o jacto pela vertente de uma montanha a novecentos quilmetros por hora. Quando tudo terminou, arranjei este emprego. E continuei por l.
        Desculpe  disse. Olhei para a gua. H tipos que nunca tm sorte. Nem uma vez.  H quanto tempo foi isso?
        Quatro anos. Voc tambm era da aviao, no era, Luke?
        Fui... em tempos. Mas isso foi quando ainda era muito novo.
        Tambm no  assim to velho.
        Tenho trinta e seis, mas j estou mais perto dos setenta.
         a bebida que o faz sentir assim. O meu pai era a mesma coisa...  Parou quando deu comigo a olhar fixamente para ela. Baixou os olhos.  Desculpe, saiu-me sem querer.
        Que idade tem voc?
        Vinte e quatro.
        Aos vinte e quatro anos  tudo muito fcil.
        Acha?  perguntou, olhando-me uma vez mais nos olhos.  To fcil como ficar viva aos vinte anos?
        Agora  a minha vez de pedir desculpa. 
        Esquea. 
       Estendi o brao e levei a cerveja  boca.
        Onde  que ouviu dizer que eu era da aviao? 
        J h muito tempo que sabia da sua existncia. Foi por isso que vim aqui  sua procura.
         minha procura? 
        Voc era o heri do Johnny. Um piloto de guerra. Coronel do Estado-Maior aos vinte e cinco anos. Johnny queria ser como voc. Senti que tinha de vir ver como  que ele teria sido... se no morresse.
        E agora?
        J no tenho mais perguntas a pr a mim mesma. Acho que nunca chegarei a saber. O Johnny era totalmente diferente de si.
        O que  que a leva a dizer isso?
        A noite passada quando o levei para a cama, voc estava a chorar. No consigo imaginar o Johnny a chorar pelo que quer que fosse a partir dos seis anos de idade. Era rpido e agressivo e, por vezes, spero e impaciente. Voc  exactamente o contrrio. Suave e, no fundo, gentil.
        A verdade  que eu nunca fui propriamente um heri  disse.  A guerra fora-nos a ser aquilo que no somos, se queremos sobreviver. Eu fui um perito em sobrevivncia.  Sorri, contrafeito.  Embora no consiga perceber para que  que estava a tentar sobreviver.
       Os olhos dela fixaram os meus.
        Acredito que a sobrevivncia possa vir a ter pouco significado para quem passa a vida a esconder-se num barril de uisque.
       Olhei-a bem fundo nos olhos durante um momento. Eram claros e orgulhosos e fitaram os meus de frente. Suspirei.
        A culpa  minha.  Olhei para o relgio.  Ainda tem tempo para dar mais um mergulho, antes de levantarmos ferro.
       Peguei na minha lata de cerveja e desci  cabina. Estava mais fresco l em baixo. Levei a lata  boca e pu-la em cima da mesa,  minha frente. Pela escotilha aberta, ouvi o barulho da gua quando ela mergulhou.

       O telefone, ao lado da cama, atirou comigo para o presente. Lutei para chegar  superfcie atravs do calor das recordaes.
        Sim  murmurei.
        Coronel Carey?
        Sim.
        Fala Harris Gordon.
       J estava acordado.
        Faz favor, Sr. Gordon.
        Desculpe telefonar-lhe to tarde. Mas no tive um momento livre.
       Olhei para o relgio. Passava das sete. Tinha dormido toda a tarde.
        No tem importncia.
        Acha que faria diferena se adissemos o nosso encontro at amanh de manh?  sbado  noite e acabo de saber que a minha mulher convidou algumas pessoas c para casa.
        Compreendo perfeitamente.
        Amanh de manh s nove?
	 ptimo  respondi.  Estarei  sua espera na entrada. 
       Pousei o telefone e voltei-me para olhar pela janela. Comeava a escurecer e o non acendia aqui e alm. So Francisco numa noite de sbado, e eu sem nada que fazer na minha velha cidade. Acendi um cigarro, recostei-me na almofada e pus-me outra vez a pensar em Elizabeth e em mim.

       Nessa noite, Elizabeth vestiu um vestido branco, muito simples.
       O cabelo caa-lhe sobre os ombros como fios de ouro sobre o chocolate cremoso da pele escurecida pelo sol. Todos os batoteiros de fim-de-semana desengonaram os pescoos a olhar para ela. No sul da Califrnia esto habituados a ver mulheres bonitas, especialmente l para os lados de Malibu, onde se encontra a gente do cinema, mas havia qualquer coisa nela que atraa todos os olhares.
       O chefe sabia o que estava a fazer. E reconhecia uma atraco quando ela lhe aparecia diante dos olhos. Deu-nos uma janela de canto, com vista para o oceano, onde todos nos podiam ver. Depois mandou-nos uma garrafa de champanhe e violinos. Elizabeth sorriu-me.
        Deves ser um homem muito conceituado c para estes lados.
        No sou eu.  Levantei o copo.  Tudo isto  para ti. Alis,  uma sorte ele no se lembrar de mim. A nica vez que c estive fui posto fora por estar bbedo.
       Elizabeth riu-se.
        Ele j muda de opinio quando me vir comer.
       Da a momentos, os violinos foram-se embora e a orquestra de dana comeou a tocar. Olhei para ela. Quando me fez sinal que sim com a cabea, avanmos para a pista de dana. Pus-lhe o brao em volta do corpo e, no stio em que a minha mo tocou nas costas nuas, senti toda a fora que tinha escondida, ali sob a pele. Desequilibrei-me, tentando encontrar o ritmo da msica. 
        J l vai muito tempo. 
        Para mim tambm.  Depois encostou a cara  minha e, ento foi fcil.
       Fiquei surpreendido quando a orquestra se calou, olhei para o relgio e vi que eram trs horas. Havia muito tempo que no tinha um sero que passasse to depressa. Paguei a conta e deixei uma boa gorjeta por terem sido to amveis connosco. Enquanto caminhvamos pela noite californiana cheia de estrelas, o cheiro das flores chegava at ns, vindo das montanhas. Misturado com o ar salgado, subia-nos  cabea.
        Quer ir pela borda de gua? 
       Fez que sim com a cabea e enfiou o brao no meu. Descemos o caminho que dava a volta por detrs do restaurante, passando em frente do pequeno motel que deitava para a praia. A noite estava muito calma. Da estrada que ficara l em cima, para trs de ns, no nos vinha qualquer som.
        Podia sugerir-lhe que ficssemos a ver passar os peixes  disse. 
        No sei nada de peixes. 
       Ri-me enquanto caminhvamos ao longo da praia em direco a uma rocha. Sentmo-nos e ficmos a olhar para o mar. No falmos. No era preciso. A noite estava cheia de uma paz rara. Atirei a minha beata e fiquei a olhar o rasto de falhas que deixou at chegar  gua. Ficmos sentados, muito juntos, a ver as ondas quebrarem-se na areia, sem nos tocarmos, mas mesmo assim muito prximos. Elizabeth voltou-se para mim.
        Luke.
       Beijei-a. Nada de mos, nenhum agarrar frentico, apenas os nossos lbios, tocando, provando, dizendo um ao outro como tinha sido antes. Como nos sentamos ss e como gostaramos que fosse. Passados momentos, ela afastou a boca da minha, ps-me a cabea no ombro e ficmos assim sentados bastante tempo. Depois suspirou levemente e levantou a cabea.
        Est a fazer-se tarde, Luke. Estou cansada. Voltemos para o barco.
       Fizemos o percurso de txi em silncio at Santa Mnica. Apenas os nossos dedos falaram, calmamente entrelaados. Descemos do cais para o barco e parmos do lado de fora da cabina. A voz dela era sossegada e calma.
        Eu no sou do gnero de procurar romances de fim-de-semana, Luke. Quando embarco  por muito tempo. Fao a viagem at o fim. No sou uma viva solitria a tentar encher um vazio que se sente na vida. No quero ser usada como um extintor, para apagar um fogacho. Olhei-a nos olhos.
        Eu compreendo. 
       Ficou um momento em silncio, enquanto procurava em mim a verdade.
        Espero que compreenda  murmurou suavemente.  Quero que voc compreenda.  Esticou-se e comprimiu os lbios de encontro aos meus.  D-me uns minutos antes de entrar. 
       Desapareceu no interior da cabina e eu acendi um cigarro. De repente, tinha as mos a tremer e estava com medo. No sabia de que  que tinha medo, mas tinha. Olhei em volta,  procura de qualquer coisa para beber, mas a nica coisa que havia eram algumas latas de cerveja. Abri uma e bebi-a rapidamente. J no estava fresca, mas senti-me melhor depois de a ter bebido. Atirei com o cigarro para a gua e entrei na cabina. Estava deitada no meu beliche, com o lenol puxado at ao pescoo e os cabelos de ouro espalhados na minha almofada.
        Apaga a luz, Luke. Eu sou um bocado envergonhada. 
       Estendi o brao e apaguei a luz. A claridade vinda do cais entrou pela vigia, emoldurando-lhe o rosto. Tirei rapidamente a roupa, ajoelhei-me ao lado do beliche e beijei-a. Passou-me os braos em volta do pescoo.
        Luke, Luke. 
       Levantei a cabea e, devagarinho, puxei o lenol para trs. Tinha os olhos abertos e estava a olhar para mim. Depois de alguns momentos de silncio, disse:
        Sou suficientemente bela para ti, Luke? 
       Tinha os seios cheios e altivos. A cintura era minscula ao afastar-se das costelas amplas, o estmago era liso e s ao aproximar-se da curva dos quadris sugeria um vago arredondado. As coxas eram fortes e as pernas compridas e direitas.
       A voz dela encheu novamente o silncio. 
        Quero ser bela para ti. 
        Minha deusa de ouro  murmurei, beijando-lhe a garganta.
       Os braos dela apertaram-se  minha volta. 
        Abraa-me, Luke. Ama-me. 
       Senti a paixo brotar dentro de mim. Beijei-lhe os seios. Gemeu suavemente e eu senti-lhe o calor abrir-se por baixo de mim. Depois, no houve mais nada a no ser o bater do meu corao e o rugir dentro do meu crebro. De repente, todo o uisque e toda a prostrao onde tinha procurado a fuga voltaram-se contra mim e arrebentaram num clique.
        Oh, no!  gritei, sentindo os braos dela ficarem paralisados em volta de mim, com a surpresa e o choque.  No, por favor!
       Mas j estava tudo acabado. Fiquei deitado um momento, imvel e depois, sentei-me lentamente e peguei num cigarro.
        Peo-lhe desculpa, Elizabeth, peo-lhe muita desculpa. Eu devia ter pensado. Acho que j no sirvo para nada. J nem sequer sei fazer amor decentemente.
       Fiquei sentado na borda do beliche, a olhar para o cho, sem ousar olhar para ela. Elizabeth ficou um momento em silncio, depois estendeu o brao e tirou-me o cigarro da boca. Pousou o cigarro e, com a outra mo, voltou-me a cara para ela. A voz dela era suave e generosa.
        Foi isto que ela te fez, Luke? Destruiu-te a este ponto?
        Eu  que me destrui a mim mesmo  disse amargamente.   como lhe disse, acho que no sirvo nem para fazer amor.
       Apertou-me a cabea de encontro ao calor dos seios e acariciou-a de mansinho.
        No  nada disso, Luke  murmurou.  O problema  que tu amas demasiado.
       Quando acordei de manh, ela tinha-se ido embora. Tinha deixado um bilhete e quatro notas de cem dlares. Abri o sobrescrito com os dedos a tremer.
       "Querido Luke, Desculpa eu ir-me embora desta maneira. Compreendo que pode no parecer leal, mas neste momento no consigo encontrar mais nada que eu pudesse fazer. Todos tm de levar a sua prpria cruz e lutar a sua prpria luta. Eu tive a minha quando o Johnny morreu. Tu ainda ests a lutar a tua.
       Se chegar a altura em que tiveres ganho o suficiente da tua batalha para sares do esconderijo e seres a espcie de homem que s na realidade, talvez possamos fazer aquela longa viagem juntos. Porque  isso que eu na realidade quero, isto , se tu o quiseres tambm. Sei que o que estou a dizer no faz sentido, mas eu nunca consigo dizer coisa com coisa quando estou a chorar.
Carinhosamente,
Elizabeth."

       Durante trs meses tentei esquecer o que ela tinha escrito at que, numa manh, acordei no depsito de bbedos. Tinha perdido tudo. O barco, o meu crdito, o pouco respeito prprio que me restava, tudo. Deram-me trinta dias num campo de trabalho, por no ter com que pagar a multa. Ao fim dos trinta dias, quando me deram outra vez o fato, descobri que ainda tinha o bilhete de Elizabeth numa algibeira. Tirei-o e li-o outra vez. Depois, olhei para mim mesmo no espelho. Os meus olhos viam claro, pela primeira vez h muito tempo. Absolutamente claro. Conseguia ver-me a mim prprio.
       Pensei em Elizabeth e em como seria bom voltar a v-la. Mas no assim. No queria aparecer-lhe com ar de vagabundo. Arranjei emprego como operrio numa obra. Sete meses depois, quando o trabalho terminou, j tinha conseguido um lugar de ajudante de capataz. Tinha seiscentos dlares no bolso das calas de ganga e um velho calhambeque a que podia chamar meu. Meti-me no carro, e segui sem parar at Phoenix. A fui informado de que ela tinha ido para Tucsom onde o patro estava precisamente a comear uma obra nova. Mais tarde, nesse mesmo dia, cheguei a Tucson. O escritrio ficava fora da cidade, na auto-estrada e a primeira coisa que vi, quando entrei no parque de estacionamento, foi o letreiro: ADMITEM-SE PEDREIROS Abri a porta e entrei. Uma rapariga de cabelos escuros estava sentada no gabinete de entrada. Levantou os olhos para mim.
        Faz favor?
        O letreiro l fora diz que esto  procura de homens. 
       Fez que sim com a cabea. 
        Estamos sim. Tem alguma experincia?
        Sim.
        Sente-se, por favor. Miss Andersen vai j atend-lo.  Pegou no telefone e murmurou qualquer coisa. Depois, deu-me um impresso.  Enquanto espera, preencha isto. 
       Mal acabei, o telefone tocou e a rapariga indicou-me o gabinete interior. Elizabeth no levantou os olhos quando entrei. Estava a olhar para uma folha com nmeros.
        Tem experincia?  perguntou, sempre sem levantar os olhos. 
        Sim, minha senhora.
       Continuava com os olhos pregados na secretria. 
        Que espcie de experincia?
        Todas as espcies, minha senhora.
        Todas as espcies?  perguntou, impaciente.  No  uma resposta l muito ob...  Levantou os olhos e as palavras morreram-lhe na garganta.
       Parecia mais magra, com os ossos da cara mais salientes.
        Mas no foi por isso que eu vim aqui, minha senhora  disse, olhando-a nos olhos.  A verdadeira razo por que eu vim aqui... foi  procura de algum que disse que talvez quisesse fazer uma longa viagem comigo.
       Durante um momento que parecia interminvel, ficou a olhar para mim, depois, levantou-se da cadeira, deu a volta  secretria e veio direita aos meus braos. Eu beijava-a e ela chorava e repetia meu nome, sem parar.
        Luke... Luke... Luke... 
       A porta do outro lado do gabinete abriu-se e o velho patro entrou. Viu-nos e ia a sair, mas voltou-se para olhar segunda vez. Tossiu. Meteu a mo no bolso do casaco e tirou uns culos. Olhou para mim outra vez e pigarreou de novo.
        Com que ento  voc?  disse.  J no  sem tempo. Talvez ela agora deixe de andar para a como um fantasma e se consiga trabalhar.
       Saiu de rompante do escritrio, fechando a porta atrs dele e ns voltmo-nos um para o outro e largmos a rir. Ao ouvir-lhe o riso, compreendi que me ia sentir sempre melhor, s por saber que ela estava perto. Sempre, mesmo neste momento em que eu estava em So Francisco e ela em Chicago,  minha espera, numa solitria noite de sbado.

       Harris Gordon estava no trio de entrada quando desci na manh seguinte, s nove horas. Fomos at  cafeteira onde no encontrmos nada, a no ser mesas vazias. Era uma manh de domingo. A criada ps-nos o caf em cima da mesa e eu pedi-lhe uma dose de panquecas e salsichas. Gordon sacudiu a cabea.
        J tomei o pequeno-almoo.
       Quando a criada se afastou, perguntei-lhe:
        O que  que se segue?
       Pegou num cigarro.
        Numa coisa temos sorte. No temos de enfrentar um julgamento por homicdio.
        Ah no?
        No  respondeu.  Pela lei da Califrnia, um menor que cometeu um delito grave no  tratado da mesma maneira que um criminoso adulto. Isto aplica-se especialmente aos menores com menos de dezasseis anos.
        Ento como  que eles determinam a culpa e o castigo para uma criana?
        Pois bem,  a que a lei funciona a nosso favor. No existe punio para uma criana. Na Califrnia afirma-se que uma criana no pode ser considerada responsvel pelos seus actos, mesmo que seja provada a sua culpa. Em vez disso, o menor  submetido a uma audincia, sob custdia do Tribunal de Menores, para determinar a melhor soluo relativamente  reabilitao e eventual reintegrao na sociedade.  Sorriu.  Nota-se muito que sou advogado?
       Sacudi a cabea.
        At aqui entendi. Continue.
       A criada voltou com o meu pequeno-almoo. Gordon esperou que ela se fosse embora outra vez, antes de continuar.
        O Tribunal tem de determinar sob a custdia de quem podero ser servidos os melhores interesses e bem-estar da criana. Um ou ambos os pais; conforme o caso um lar adoptivo, uma escola de recuperao, como Los Guillicos; mesmo um hospital ou uma casa de sade para tratamento psquico, se necessrio. Mas s depois de se ter procedido a uma investigao completa. Caso o Tribunal decida mant-la sob a sua custdia, Dani poder ser enviada para o Centro de Recepo da Direco de Menores da Califrnia, em Perkins, para ser submetida a um estudo psicolgico e psiquitrico em profundidade.
        O que  que isso quer dizer?
        Uma coisa  certa  disse, rapidamente   que se tem alguma ideia de obter a custdia de Dani, o melhor  tirar da a ideia. O Tribunal nunca permitir que ela saia deste Estado.
       Ficmos a olhar um para o outro. Pelo menos, sabia em que p estava. Acontecesse o que acontecesse, Dani nunca me seria confiada. A minha voz manteve-se impassvel.
        Portanto, no vou ficar com ela  disse.  E quem fica? Francamente duvido que o Tribunal a entregue novamente a Nora. O que nos deixa trs possibilidades: a av, uma casa adoptiva escolhida pelo Tribunal ou Los Guillicos. Acho que podemos eliminar a casa adoptiva. A av de Dani oferece maiores vantagens.
        Ento, a coisa decide-se entre a velha senhora e uma instituio?
       Fez que sim com a cabea. Acabei a ltima panqueca e pedi mais caf.
        Qual lhe parece mais provvel? 
        Quer que lhe fale com franqueza?  Fiz que sim com a cabea.  As hipteses so de dez contra uma a favor de Los Guillicos. 
       Ficmos um momento em silncio. A ideia de Dani a passar meses, talvez anos, por detrs de grades, era mais do que eu podia suportar.
        Como  que se consegue que eles nos dem uma hiptese?  Gordon olhou-me, fixamente.
        Teramos de provar que lhe podamos dar tudo o que uma instituio lhe pode dar. E isso significa vigilncia apertada, escola, educao religiosa, psicoterapia, anlise se necessrio. E contacto constante com o funcionrio escolhido para a vigiar e orientar.
        E para que seria isso necessrio, estando Dani com a av?
        Porque s lhe ser confiada a sua guarda. Dani continuar sob a responsabilidade do Tribunal at que este esteja completamente satisfeito em como ela no poder causar mais problemas  sociedade.
        E quanto tempo levar isso?
        Baseando-me na minha experincia, penso que ela continuar sob a tutela do Tribunal at ter, pelo menos, dezoito anos.
        Isso  muito tempo para algum viver sob um microscpio. At mesmo uma criana.
       Ele olhou-me de uma forma estranha.
        Ela matou um homem  disse.  Isso  para sempre.
       Era suficientemente claro. At mesmo para mim.
        O que  que eu posso fazer para ajudar?
        Acho que  importante que fique em So Francisco at acabarem as sesses no Tribunal.
        Isso  impossvel  disse.  Os julgamentos nunca mais acabam.
        Isto no  um julgamento no sentido corrente, coronel. No h nenhum jri para avaliar ou determinar a culpa.  apenas uma audincia perante um juiz, estando apenas envolvidas as pessoas interessadas. O processo no envolve sequer a polcia ou o procurador da Repblica, a menos que a sua presena seja solicitada para responder a questes especificas relacionadas com o bem-estar e o comportamento da criana. O assunto tem de ser resolvido rapidamente. A prpria lei protege a criana de uma deteno desnecessria. Se a criana ficar mais de quinze dias sob custdia sem que se realize a audincia, ter de ser libertada.
        Sem rodeios  perguntei  quanto tempo?
        A audincia relativa  deteno ter lugar na tera-feira. A sesso no Tribunal ser uma semana depois. De tera-feira a uma semana, aproximadamente dez dias.
        Dez dias!  explodi.  A minha mulher pode ter a criana a todo o momento! Por que  que temos de esperar at tera-feira por essa audincia?
         assim, coronel  explicou Gordon pacientemente.  A audincia da deteno est marcada para tera-feira porque  esse o dia em que o juiz se ocupa dos casos de raparigas menores. A audincia final est marcada para uma semana mais tarde porque, como lhe disse antes, o funcionrio encarregado da vigilncia e orientao do menor tem de ter tempo para fazer uma investigao minuciosa. E essa investigao  to importante para ns como para o Tribunal.  segundo o relatrio que vai ser feito nesse meio tempo que o juiz toma geralmente a sua deciso, a menos que ele seja inconclusivo, o que o levar a exigir que o estudo seja prosseguido em Perkins. O nosso papel  convencer esse funcionrio de que ser do interesse tanto de Dani como do Estado que ela seja entregue  guarda da av.
        E para que  que precisam de mim aqui? No h nada que eu possa fazer para convencer algum de que a velha senhora devia ficar com a Dani.
        No concordo, coronel. H muita coisa que o senhor pode fazer, apenas dando a entender que acha que isso seria o melhor para a sua filha.
        Sim  respondi, sarcstico.  A minha palavra vale muito, mas no chegava para lhe oferecer uma cerveja, se no mostrasse logo o dinheiro para a pagar.
       Olhou para mim.
        No est a dar o devido valor  sua pessoa, coronel. A sua palavra vale muito. No  fcil as pessoas esquecerem os servios que prestou ao pas.
        Est a querer fazer reviver a velha histria do heri de guerra?
        Com toda a fora. Ela j est a agir a nosso favor.
        O que  que quer dizer com isso?
       Gordon fez sinal a uma das empregadas de mesa para que lhe trouxesse os jornais da manh. Logo que os jornais ficaram abertos em cima da mesa, Gordon apontou para uma primeira pgina onde se via uma fotografia e o respectivo titulo. Na fotografia estava eu com o brao em volta de Dani entrando para o centro de deteno. O titulo era simples: HERI DE GUERRA CORRE EM DEFESA DA FILHA
        Muito respeitvel, no acha? Os jornais j esto do seu lado. No h qualquer referncia ao facto de voc se ter enfurecido com os reprteres. Qualquer outra pessoa teria sido crucificada por agir daquela maneira. Mas no o senhor, coronel.
       Olhei-o com ar interrogador.
        As pessoas que esto a decidir do destino da sua filha so seres humanos. O prprio juiz l os jornais dirios e, quer o admita quer no,  influenciado. Gordon recostou-se na cadeira.  Se o prolongamento da sua estada aqui depende de uma questo financeira, a Sra. Hayden garantiu-me que est disposta a colaborar.
        As minhas finanas no tm nada a ver com o caso. J lhe disse que a minha mulher est quase a ter uma criana.
        A opinio pblica muda da noite para o dia  acrescentou Gordon.  Neste momento, h uma grande simpatia por si e pela sua filha. Se se for embora antes de ser decidido a quem  que ela fica entregue, as pessoas podem concluir que a sua filha  uma incorrigvel e que nem aos seus prprios olhos merece que tentem recuper-la.
       Olhei-o furioso. No se podia negar que era esperto. Tinha-me bem encostado  parede. Quer fosse, quer ficasse, estava tramado.
        No se esquea de uma coisa, coronel. Que a Dani passe os prximos quatro anos da vida dela numa casa de correco, estatal ou em casa da av, pode muito bem depender da sua deciso..
        De repente a responsabilidade  toda minha  disse, furioso.  Por que  que o Tribunal no pensou nisso quando entregou Dani  me? O Tribunal tinha provas suficientes para se aperceber de como era a Nora. Onde  que estava a justia nessa altura? E onde  que estava a velha senhora quando esse tipo foi viver para casa da Nora? Devia saber do que se estava a passar. No deve ter ficado cega de repente. Por que  que no tomou medidas para tirar de l a Dani, antes que tudo isto acontecesse? Eu nem sequer l estava. No me era permitido. No, eu no prestava nem sequer para me aproximar meio metro da minha filha. Eu no servia nem sequer para ser pai dela. E agora, vem-me dizer que a responsabilidade  minha?
       Gordon olhou-me um momento, em silncio. Acho que havia uma espcie de compreenso nos olhos dele. Falou com brandura.
        Sem negar a veracidade de tudo o que est a dizer, coronel, temos de admitir que nada disso altera as circunstncias presentes. O que temos de enfrentar agora  o presente amargo, no o passado amargo.  Pediu a conta.  No tome qualquer deciso precipitada. Espere, pelo menos, at tera-feira, depois da audincia de deteno, para decidir o que vai fazer.  Ps-se de p.  Talvez que se estiver presente amanh  autpsia isso o ajude a chegar a uma concluso.
        Autpsia? A Dani vai estar presente?
       Gordon sacudiu a cabea.
        No, mas o depoimento dela vai ser lido no Tribunal. E a Nora tambm estar l para contar a sua histria.
        E o que  que isso pode provar?
       Encolheu os ombros.
        Nada, talvez, que no saibamos j. Mas pode ser que ajude a convenc-lo de que  importante que fique.
       Pedi mais uma chvena de caf, enquanto ele saa do restaurante. No valia a pena ir a casa da velha senhora naquele momento. J no tinha tempo antes de ir ver Dani. O Jaguar de Nora estava no parque de estacionamento, atrs do Centro de Deteno de Menores, quando l cheguei. Tinha acabado de sair do carro e dirigia-me para a entrada, quando a voz de Charles me fez parar.
        Coronel!
       Voltei-me.
        Ol, Charles.
        O senhor  capaz de me fazer um favor? Tenho aqui uns embrulhos que Miss Hayden me pediu para entregar a Miss Dani.
        Onde  que est Miss Hayden?
       Charles no ousou fitar-me nos olhos.
        Ela no est... no est a sentir-se l muito bem. O Dr. Bonner aconselhou-a a ficar na cama e a descansar. Ela tem andado muito incomodada.
        Imagino  respondi secamente.  Est bem, eu levo-os.
        Muito obrigado, Sr. Coronel.  Voltou-se e abriu a porta do carro. Tirou de l uma mala pequena e dois embrulhos, um dos quais parecia ser uma caixa de doces.
        No os quiseram aceitar, foi?  perguntei.
        Aceitavam, sim. Mas disseram-me que o senhor vinha c e que seria mais agradvel se os levasse pessoalmente a Miss Dani.
       Quando me encaminhava j para o edifcio, Charles veio atrs de mim.
        Posso esperar que o senhor saia? Gostava muito de saber como est Miss Dani.
        Claro, Charles. Quando sair venho ter contigo.
        Muito obrigado, Sr. Coronel. Eu espero no carro.
       Voltou-se e dirigiu-se de novo para o parque de estacionamento, enquanto eu entrava no edifcio. Era a mesma mulher de cabelos grisalhos, que estava na recepo. Sorriu quando me viu.
        O seu passe de visitante est pronto, coronel.
        Obrigado  disse. Viu a mala e os embrulhos.  D-me licena, coronel?  uma regra aqui.
       A principio no sabia o que ela queria dizer. Depois, percebi. Talvez aquilo no se chamasse uma priso, mas havia regras semelhantes. Primeiro, abriu a mala. Ao de cima, havia algumas blusas e saias. Tirou-as para cima da secretria. Por baixo havia dois weaters, alguns pares de meias, roupa interior, dois pares de sapatos e uma pilha de lenos de assoar. A mulher introduziu-lhe as mos por baixo e depois pelos lados, com todo o cuidado. Sorriu-me enquanto punha tudo novamente na mala, fechando-a em seguida. Depois, foram os dois embrulhos. Eu tinha razo. Um deles era uma caixa de doces. O outro continha vrios livros, do gnero que as raparigas daquela idade devem ler. A empregada olhou-me, como que a pedir desculpa. 
        Parece que est tudo em ordem. No faz ideia das coisas que algumas pessoas tentam fazer passar.
        Eu compreendo  disse.
       Passou-me uma folha de papel e apontou para uma porta.
        Entre por ali e v at ao fundo do corredor. Depois, suba um lano de escadas e siga as indicaes que esto na parede. Vai encontrar uma passagem fechada. Mostre o passe  enfermeira de servio. Ela leva-o at junto da sua filha.
        Obrigado. 
       Os corredores eram de um asseio clnico, com as paredes pintadas de um verde-claro de hospital. Subi as escadas e cheguei a um corredor exactamente igual quele de onde acabava de sair. Um sinal, na parede em frente, indicava: RESIDNCIAS DAS RAPARIGAS. Segui naquela direco at chegar a uma vedao de arame. Era um arame forte que ia desde o cho at ao tecto. No centro, tinha uma porta com caixilho de ao, feita tambm na mesma rede grossa. Tentei abri-la, mas estava fechada  chave. Sacudi-a e as reverberaes ecoaram pelo corredor vazio. Abriu-se uma porta e uma mulher grande, negra, acorreu apressada, ainda a abotoar a parte da frente do uniforme branco.
        Entrei agora mesmo, desculpe.
       Mostrei-lhe o passe. Leu-o rapidamente e fez que sim com a cabea. Tirando uma chave da algibeira do uniforme branco, deu a volta  fechadura. Entrei e ela fechou a porta atrs de mim. Seguimos ao longo do corredor at uma vasta sala de recepo. Havia cadeiras espalhadas em volta e, de um lado, junto das janelas, na parte que no era visvel do corredor, havia uma mesa e vrias cadeiras.
       Um grupo de raparigas estava reunido em volta da mesa, escutando um pequeno rdio. Outras duas danavam, uma branca e uma negra. A msica era rock and roll. Levantaram os olhos quando cheguei. Havia na expresso delas um ar de curiosidade que era, ao mesmo tempo, estranhamente desinteressado e que se apagou rapidamente quando viram que no as vinha visitar.
        Em que quarto  que est a Dani Carey?  perguntou a enfermeira.
       Olharam-na com ar parado.
        A rapariga que veio de novo.
        Sim, a que veio de novo.  Foi a rapariga de cor que respondeu.  Est no doze.
        Por que  que ela no est aqui com voc? No a convidaram?
        Sim, convidmos. Mas ela no quis vir, Miss Matson. Quis ficar no quarto. Ainda est envergonhada, acho eu.
       A enfermeira fez que sim com a cabea e samos da sala, seguindo depois ao longo do corredor. As portas sucediam-se a pouca distncia umas das outras. A enfermeira parou em frente de uma delas e bateu.
        Tens uma visita, Dani. 
        Ok  respondeu Dani do interior. 
        Quando a visita acabar, eu aviso-o  disse a enfermeira.
        Obrigado  respondi, enquanto ela se afastava pelo corredor fora.
        Pap!  exclamou Dani e atirou-se para os meus braos. 
        Ol, minha querida.  Tentei equilibrar os embrulhos e beijei-a.
       A porta estava agora aberta para trs e eu podia ver o quarto de Dani. Era pequeno e estreito, com dois leitos estreitos junto s paredes, um em frente do outro. L em cima, na parede do meio, havia uma janela pequena. Uma mulher ainda nova estava sentada numa das camas. Ps-se de p quando eu entrei.
        Esta  Miss Spicer, pap  disse Dani.  Miss Spicer, este  o meu pai.
       Miss Spicer estendeu-me a mo.
        Tenho muito prazer em conhec-lo, coronel Carey.
       O aperto de mo dela foi firme e cheio de cordialidade.
        Eu sou Marian Spicer, a funcionria encarregada de acompanhar a Dani.
       Fiquei a olhar para ela. Estava convencido de que essa funo iria ser desempenhada por um homem de cara dura. E tinha agora  minha frente uma mulher ainda nova, que teria no mximo vinte e oito anos de idade, de estatura mdia, cabelos castanhos cortados em caracis que lhe emolduravam o rosto e olhos castanhos muito vivos. Acho que mostrei, pelo menos em parte, a minha surpresa, porque o sorriso dela tornou-se mais aberto.
        Muito prazer, Miss Spicer.
       Creio que devia estar habituada a este tipo de reaco porque se limitou a ignor-la. Olhou para os embrulhos.
        Estou a ver que o teu pai te trouxe aqui umas coisas, Dani.  Que bom! 
       Dani olhou-me com ar interrogador. Compreendi que estava a reconhecer a mala.
        Foi a tua me que as mandou  disse. 
       Uma espcie de vu toldou os olhos de Dani.
        A me no vem?
        No. Ela no est a sentir-se bem...
       A sombra que lhe velava o olhar adensou-se ainda mais, tornando-o impenetrvel.
        Eu tambm no estava a contar com ela, pap.
        O Dr. Bonner aconselhou-a a ficar na cama. Eu sei que ela queria...
       Dani interrompeu-me.
        Como  que sabes, pap? Falaste com ela? 
        No  respondi.
        Ela deve ter mandado o Charles e ele  que te deu os embrulhos. Foi ou no foi, pap?  Os olhos dela desafiavam-me a contradiz-la.
       Fiz que sim com a cabea. Voltou-se num gesto quase zangado.
        Vou deixar-te com o teu pai, Dani  disse Miss Spicer calmamente.  Volto l mais para a tarde.
       Dani encaminhou-se para a outra ponta da cama e sentou-se de cara voltada. Percorri novamente o quarto com os olhos. Tinha no mximo, dois metros por um e meio; o nico mobilirio, alm das duas camas estreitas, era uma cadeira e uma pequena cmoda aos ps de cada uma das camas. As paredes tinham sido verdes em tempos e, posteriormente, tinham sido pintadas de creme, mas sem grande sucesso. Estavam muito riscadas. Olhei mais de perto e vi que os rabiscos eram, na sua maioria, nomes de rapazes e datas. Aqui e alm parecia haver nmeros de telefones. Ocasionalmente um convite lascivo, no gnero dos que se encontram nas paredes das casas de banho pblicas. Olhei para Dani.
       A mulherzinha, j meio adulta, que tinha descido as escadas na vspera de manh, tinha desaparecido completamente. Em vez dela era uma garotinha que estava ali sentada na cama. A nica maquiagem que trazia era um batom incolor; no cabelo s tinha um rabo de cavalo preso com elstico, usava sua saia e blusa e parecia ter ainda menos de catorze anos. Procurei um cigarro.
        D-me um, pap.
       Fiquei a olhar para ela.
        No sabia que fumavas.
        H muita coisa que tu no sabes, pap  disse impaciente. 
       Estendi-lhe um cigarro e depois o fsforo. No havia dvida de que estava habituada a fumar. Vi-o pela maneira como inalava o fumo, puxando-o bem para dentro das narinas quando o expelia.
        A tua me sabe que tu fumas?  perguntei.
       Fez que sim com a cabea, deitando-me novamente um daqueles olhares de desafio.
        No me parece que seja assim uma grande ideia. Ainda s muito nova...
       Interrompeu-me rapidamente.
        No comeces agora a armar nesse gnero de pai.  um bocado tarde demais.
       De certa maneira, tinha razo. Havia muitos anos que eu andava afastado. Tentei mudar de assunto.
        No queres ver as coisas que a tua me te mandou?
        Eu sei o que  que me mandou  ripostou.  Doces, livros, roupas. So as coisas que ela me manda sempre quando estou fora. Desde o primeiro vero em que ela me mandou para um campo de frias.  De repente, os olhos encheram-se-lhe de lgrimas.  Ela deve pensar que isto  outro acampamento. Mandava-me sempre qualquer coisa, no h dvida. Mas tu nunca me ia ver, nem mesmo no Dia dos Pais.
       Tinha vontade de estender os braos para ela, de a abraar e consolar, mas havia qualquer coisa na maneira como estava ali sentada, muito direita, que me paralisava os movimentos. Passados alguns minutos parou de chorar.
        Por que  que nunca me ias ver, pap?  perguntou com voz fraca.  J no gostavas de mim?

       O jri dos casos de homicdio j estava reunido quando entrei na pequena e apinhada sala do tribunal, na manh seguinte. Os nicos lugares eram na frente e estavam reservados s testemunhas. Harris Gordon viu-me, de p, ao fundo da sala e, levantando-se, acenou-me . Encaminhei-me para ele e indicou-me, com um gesto, um lugar vago ao lado de Nora. Teria preferido ficar noutro stio, mas senti os olhos dos reprteres postos em mim. Sentei-me .
        O Charles disse-me que te viu ontem  sussurrou Nora.  Como  que est a Dani?
       Tinha o rosto plido. Trazia uma maquiagem muito ligeira e vestia com simplicidade.
        Ficou muito decepcionada por no teres podido ir  disse.
        Tambm eu. Eu queria ir, mas o mdico no me deixou sair de casa.
        Foi o que me disseram. J te sentes melhor?
       Fez que sim com a cabea.
        Um pouco.
        Afastei o olhar, sentindo na boca um gosto amargo, vagamente reminiscente. No havia nada que a fizesse mudar, que a tocasse, nem mesmo naquela ocasio. Acontecesse o que acontecesse, havia sempre uma palavrinha delicada; as pequenas mentiras; o contornar cuidadoso da verdade. Na vspera, no tinha estado mais doente do que eu.
       Ouviu-se a pancada de um martelo, vinda da pequena bancada mais alta, atrs da qual estava sentado o juiz de instruo. Fez-se silncio na sala quando foi chamada a primeira testemunha, o mdico legista. Testemunha experiente, fez o seu relato com rapidez e eficincia. Tinha autopsiado o corpo de Anthony Riccio, falecido, e descobrira que a morte tinha sido causada pela ruptura violenta da aorta, provocada por um instrumento aguado. Calculava tambm que o momento da morte no devia ter ocorrido mais de quinze minutos aps a dita ruptura e muito provavelmente at mesmo antes.
       A testemunha seguinte foi outro mdico, o cirurgio da polcia. Igualmente testemunha experiente, declarou que tinha comparecido no local em resposta a uma chamada feita pela prpria polcia e que tinha encontrado a vitima j morta. Para alm do exame superficial necessrio para o preenchimento da certido de bito, nada mais tinha feito, alm de providenciar para que o corpo seguisse para a morgue.
       Retirou-se e o oficial de diligncias chamou a testemunha seguinte: "Dr. Alois Bonner."
       Levantei os olhos no momento em que o Dr. Bonner se ps de p na outra extremidade do banco das testemunhas. Havia muito tempo que no o via. No tinha mudado muito com os anos. Mantinha o mesmo ar distinto, que lhe vinha dos cabelos grisalhos, e aquela maneira importante e cheia de distino, que ganhara com a clientela mais rica de So Francisco. Fez o juramento e sentou-se na cadeira das testemunhas.
        Nas suas prprias palavras, Dr. Bonner  disse o juiz  conte ao jri exactamente o que se passou na tarde de sexta-feira ltima.
       O Dr. Bonner voltou-se para o jri e a sua voz melflua com que costumava sussurrar  cabeceira dos doentes rolou em toda a sua beleza, pela ergia sala do tribunal.
        Preparava-me para sair do meu consultrio, um pouco depois das oito, quando o telefone tocou. Era o mordomo de Miss Hayden, Charles, que me informou de que tinha havido um acidente l em casa e me pediu que fosse o mais depressa possvel. Como o meu consultrio fica apenas a um quarteiro da casa de Miss Hayden, cheguei l apenas uns cinco minutos depois da chamada. Fui imediatamente conduzido ao estdio de Miss Hayden, onde vi o Sr. Riccio estendido no cho, com a cabea no regao de Miss Hayden. Ela segurava-lhe junto ao corpo uma toalha empapada em sangue. Quando lhe perguntei o que tinha acontecido, disse-me que o Sr. Riccio tinha sido apunhalado. Ajoelhei-me no cho ao lado dele e levantei a toalha. Havia um ferimento grande, com mau aspecto e que sangrava abundantemente. Voltei a pr a toalha no mesmo stio e tomei o pulso ao Sr. Riccio. Estava muito fraco e irregular. Percebi que estava num grande sofrimento e a afundar-se rapidamente. Abri a mala com a inteno de lhe dar uma injeco de morfina que lhe aliviasse a dor, mas ele apagou-se antes de eu lha poder dar.
       Voltou-se e olhou para o juiz. O juiz ficou tambm a olhar para ele, por um momento, pensativo e depois voltou-se para o homem que estava sentado ao lado do estengrafo do tribunal.
        Tem alguma pergunta a fazer, Sr. Carter?
        Carter pertence ao gabinete do procurador distrital  murmurou Gordon enquanto o homem fazia que sim com a cabea e se punha de p.
        Dr. Bonner, em algum momento, durante o exame a que procedeu, antes da morte, a vitima disse alguma coisa ou fez qualquer observao?
        Fez sim.
        E o que foi que disse?
        Repetiu duas vezes a mesma frase: "Ela apunhalou-me.
        Dr. Bonner, quando o Sr. Riccio fez aquela observao, ficou com alguma ideia a quem ele se estava a referir?
        Na altura no  respondeu o mdico com firmeza.
       Pelo canto do olho, vi o brilho de satisfao nos olhos de Gordon e compreendi que j tinha falado com o bom do mdico.
        Quando o senhor entrou, havia mais algum na sala, alm de Miss Hayden e da vitima?
        Tambm l estava a filha de Miss Hayden  respondeu o mdico.
        Ela ficou l durante todo o tempo que o senhor esteve ocupado com a vitima?
        Sim, ficou.
        Muito obrigado, Dr. Bonner. 
       O ajudante do procurador distrital voltou para o seu lugar e sentou-se.
        Pode retirar-se, Dr. Bonner  disse o juiz.  Muito obrigado.
        Inspector Gerald Myrer  chamou o oficial de diligncias.
       Um jovem bem-constitudo, vestido discretamente, sem nada que desse nas vistas, levantou-se de um lugar  ponta da fila em que estvamos. Avanou, fez o juramento e sentou-se.
        Queira fazer o favor de dizer o seu nome e ocupao para informao do jri.
        Inspector Gerald Myrer, da Polcia de So Francisco, Seco de Homicdios.
        Agora, por favor, queira informar-nos das suas actividades em relao ao caso que temos perante o tribunal, na noite da morte do Sr. Riccio.
       O inspector retirou da algibeira um bloco de apontamentos e abriu-o.
        Recebemos a chamada nos Homicdios, cerca das 8h. e 25m. da noite, vinda do carro que respondeu, em primeiro lugar,  chamada. Chegmos a casa de Miss Hayden s 8 e 37. J l estavam dois carros-patrulhas e o polcia que se encontrava  porta disse-me que tinham morto um homem no estdio. Entrei directamente para l. A vitima estava estendida no cho. Estavam tambm na sala Miss Hayden, a filha, Dani Carey, o Dr. Bonner, e o mordomo, Charles Fletcher. O Sr. Harris Gordon, o advogado, que chegara poucos minutos antes de mim, segundo informao do polcia de sentinela, tambm l estava. Comecei imediatamente as minhas investigaes.
       Pigarreou e olhou em volta.
        Essas investigaes revelaram que Miss Hayden e a filha eram as duas nicas pessoas presentes quando foi dado o golpe de que resultou a morte da vitima. O interrogatrio feito a Miss Hayden e  filha deram-me a entender que esta tinha agredido a vitima com um cinzel de escultor, durante uma discusso entre Miss Hayden e a vitima. O cinzel foi encontrado no cho, junto do corpo da vitima. Enviei-o para o laboratrio da polcia para ser examinado.
        Desculpe-me a interrupo, inspector Myrer  disse o juiz.  Pode informar-nos agora dos resultados desse exame?
       O polcia fez que sim com a cabea.
        Posso sim. O laboratrio da polcia informou-me de que o sangue encontrado no cinzel era do tipo O, o que corresponde ao tipo de sangue da vitima. Informaram-me tambm de que havia trs grupos diferentes de impresses digitais no cabo do cinzel: de Miss Hayden, da filha e da vitima. Algumas estavam um pouco apagadas ou sobrepostas, mas havia o nmero suficiente de impresses bem separadas e ntidas para se poder concluir claramente que cada uma dessas trs pessoas tinha manipulado o cinzel.
        Obrigado, inspector. Queira prosseguir.
        Depois de completar as investigaes, levei a filha, Danielle Carey,  esquadra da polcia. Acompanhou-nos o advogado, Sr. Gordon cuja presena j anteriormente referi. Na polcia, Miss Carey ditou um depoimento ao estengrafo, que depois lhe foi lido na presena do Sr. Gordon e assinado por ela. Depois, como determina a lei, conduzi-a ao Centro de Deteno de Menores em Woodside Avenue, onde a coloquei sob custdia do funcionrio de vigilncia que estava de servio. O Sr. Gordon tambm nos acompanhou at l. 
        Tem consigo alguma cpia do depoimento de Miss Carey?
        Sim, Sr. Dr. Juiz.
       O juiz voltou-se para o jri:
        Segundo a lei do Estado da Califrnia, nenhum menor pode aparecer em qualquer tribunal em que possa estar em perigo por ter cometido delito grave. O nico tribunal em que o menor pode comparecer  o Tribunal de Menores; no entanto  permitido, uma vez que a nossa nica finalidade  determinar a causa fsica da morte da vitima, ler ao jri o depoimento prestado pela menor em questo.  Voltou-se de novo para o polcia.  Quer fazer o favor de ler o depoimento, inspector Myrer?
       O inspector Myrer retirou da algibeira interior do casaco uma folha de papel dobrada. Abriu-a e comeou a lerem voz alta, num tom monocrdico e inexpressivo:
       Depoimento de Miss Danielle Nora Carey, menor.
       "O meu nome  Danielle Nora Carey e vivo com minha me, Nora Hayden, em So Francisco. Estava no meu quarto, no primeiro andar, a estudar para os exames de frequncia, quando ouvi vozes vindas do estdio da minha me, no andar de baixo. Sabia que a minha me e Rick tinham andado todo o dia a discutir por causa de qualquer coisa. Geralmente quando eles comeavam a discutir eu ficava no meu quarto, porque era sempre muito desagradvel. Mas desta vez a discusso tinha piorado ao longo do dia e eu comeava a recear pela minha me. J anteriormente, no meio de uma discusso, Rick a tinha agredido e ela tinha estado trs dias sem poder sair porque tinha um olho negro e a minha me no era capaz de aparecer em pblico com um olho negro.
       As vozes eram cada vez mais altas. Depois, pareceu-me ouvir a minha me dar um grito e o Rick berrar: "Eu mato-te." Sa do meu quarto a correr e precipitei-me para o estdio. Estava muito assustada por causa da minha me e, quando abri a porta do estdio, vi que Rick lhe tinha agarrado o brao e o torcia para trs, obrigando-a a recuar em direco  mesa. Agarrei no cinzel que estava em cima da mesa ao p da porta e corri em direco a eles. Gritei-lhe que deixasse a minha me em paz. Rick largou-lhe o brao e voltou-se. Deu um passo em direco a mim e disse-me que fosse para o diabo e sasse dali. Esqueci-me de que tinha o cinzel na mo e dei-lhe um murro no estmago com o punho cerrado.
       Ficou um momento parado, depois levou as mos ao estmago e disse: Santo Deus, Dani, por que  que fizeste uma estupidez destas? Nessa altura, vi o cinzel espetado entre as mos dele e o sangue a sair-lhe em volta. Corri para a minha me, a gritar: Eu no queria fazer aquilo. A minha me empurrou-me para o lado e foi direita a Rick. Ele voltou-se para ela, arrancou o cinzel e deixou-o cair na mo dela.
       O sangue pareceu jorrar de dentro dele e a me deixou o cinzel cair no cho. Rick deu um passo em direco a ela e caiu. Eu no conseguia olhar mais para aquilo tudo, por isso, tapei a cara com as mos e comecei a gritar. Nessa altura, Charles e Violet entraram e Violet bateu-me na cara e eu parei de gritar. Depois, veio o Dr. Bonner e disse-me que o Rick estava morto. Acho que  tudo, a no ser que eu fiz aquilo sem querer. 
       Li o presente depoimento, que prestei de livre vontade e declaro que  um relato verdadeiro e pormenorizado dos incidentes nele descritos.
       O polcia olhou para o jri. Continuava a falar na mesma voz monocrdica e sem expresso.
        Est assinado, como  evidente, por Danielle Nora Carey.
       O juiz voltou-se para o ajudante do procurador distrital.
        Quer fazer alguma pergunta, Sr. Carter?
       Carter sacudiu a cabea.
        Obrigado, Sr. Inspector. Pode retirar-se.
       O oficial de diligncias ps-se de p, no momento em que o polcia passava junto dele.
        Nora Hayden.
       Levantei-me enquanto Nora se punha de p e deslizava pela minha frente para o corredor. Tinha o rosto plido e crispado, os lbios muito apertados. Pela primeira vez, reconheci um pouco a me na figura dela. Estava muito direita, com o queixo levantado. Mostrava-se senhora de si. Fez o juramento e encaminhou-se para a cadeira das testemunhas. Harris Gordon sentou-se ao lado do ajudante do procurador distrital. A voz do juiz encheu-se de simpatia e amabilidade. O nome Hayden ainda tinha muito peso naquela cidade.
        Miss Hayden, queira fazer o favor de contar ao jri, aquilo que sabe sobre os acontecimentos j aqui descritos.
       A voz dela era baixa, mas ouvia-se distintamente. Pelo menos, no stio onde se encontrava o jri e nas filas da frente da assistncia. Senti o esforo dos espectadores que estavam atrs de mim para ouvirem o que ela dizia.
        O Sr. Riccio e eu tnhamos estado a discutir. Havia alguns anos que ele dirigia os meus negcios, mas os seus servios tinham deixado de me agradar e eu despedira-o. Ele no estava satisfeito com a importncia que eu pretendia pagar-lhe e fez durar a discusso durante o dia inteiro. Finalmente, naquela noite entrou no meu estdio enquanto eu estava a trabalhar e foi muito inconveniente. Disse-lhe que me deixasse em paz, que no podia trabalhar, pois ele no permitia que eu me concentrasse e que estava a fazer que eu estragasse a escultura em que estava a trabalhar. Nesta altura, ele agarrou-me pelos ombros e comeou a sacudir-me violentamente, dizendo que no se ia deixar levar com desculpas daquelas. Tentei afast-lo de mim, mas ele agarrou-me pelo brao e torce -mo para trs, fazendo-me cair de encontro  mesa e magoando-me bastante. Nessa altura a porta abriu-se e Dani entrou a correr e a gritar com ele. Voltou-se para Dani e disse-lhe que sasse. Vi-a desferir o golpe contra ele. Lembro-me de que fiquei muito surpreendida. Nunca tinha visto Dani voltar-se contra ningum. Sempre fora uma menina calma e boazinha, sossegada e cheia de autodomnio. Quando no estava visvel, nem se dava pela presena dela em casa. Nessa altura, o Sr. Riccio voltou-se e vi o sangue. Dani veio a correr direita a mim, gritando que no tinha querido fazer aquilo. Disse-lhe que se afastasse enquanto eu tentava auxiliar o Sr. Riccio. No me apercebi do que tinha acontecido enquanto no o vi com o cinzel na mo. Ele... ele deu-mo e... vi que estava cheio de sangue. Larguei-o. Ento ele comeou tambm a cair. Tentei segur-lo, mas ele j estava no cho.
       Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. Meio sufocada, tentou continuar a falar, mas faltou-lhe a voz. Depois, comeou a chorar. Mas como uma senhora. Com o leno delicadamente encostado aos olhos. No se ouvia outro som na sala do tribunal, quando o juiz falou, com a sua voz suave e cheia de simpatia.
        Por favor, tragam um copo de gua para Miss Hayden.
       O escrivo encheu um copo com o jarro que tinha em cima da mesa e levou-lho. Nora bebeu delicadamente.
        Gostaria de fazer um pequeno intervalo, Miss Hayden?  perguntou o juiz.
       Nora deitou-lhe um olhar grato.
        No... no creio. J estou bem. Obrigada. 
        No precisa ter pressa, Miss Hayden. 
       Nora levou novamente o copo aos lbios e comeou outra vez a falar. A voz dela era tensa e fraca, mas conseguia fazer-se ouvir.
        Dani gritava e o mordomo entrou no estdio. Disse-lhe que telefonasse para o mdico, enquanto eu avisava a polcia. Depois, fui para junto do Sr. Riccio e tentei faz-lo sentir-se mais confortvel.  As lgrimas vieram-lhe novamente aos olhos.  Mas j no havia nada que eu pudesse fazer. No havia nada que ningum pudesse fazer. Eu sei que a Dani no queria fazer-lhe mal. Foi um acidente. A Dani  incapaz de. fazer mal a uma mosca.
       Ficou, um momento, silenciosa. Via-se que estava a lutar para se controlar; depois levantou a cabea e olhou de frente para o jri.
        Acho que foi tudo culpa minha  disse, corajosamente.  Devia ter sido uma me melhor. Mas, alis, acho que todas as mes dizem isso para consigo mesmas.
       Foi verdadeiramente o retoque final. Havia cinco mulheres no jri e todas estavam a chorar com ela. Nora voltou-se e olhou para o juiz.
        Bom, acho que no tenho mais nada a dizer.
       O juiz pigarreou.
        Tem alguma pergunta a fazer, Sr. Carter?
       O Sr. Carter ps-se de p.
        Miss Hayden disse-nos que mandou o mordomo chamar o mdico enquanto a senhora avisava a polcia e que depois foi em socorro do Sr. Riccio, no  verdade?
       Nora fez que sim com a cabea.
        , sim.
        No entanto, quando o inspector Myrer chegou, o Sr. Gordon seu advogado, j l estava. Quando  que lhe telefonou?
        Depois de ter falado para a polcia, segundo creio. No sei dizer ao certo. Estava to perturbada que no me lembro exactamente de quando foi.
       Perguntei a mim mesmo se Carter se estaria a dar conta de que Nora estava a mentir. Tal como eu conhecia Nora, tinha a certeza de que ela no tinha conscincia disso. Aparentemente, Carter resolveu deixar passar.
        Que espcie de relao tinha com o Sr. Riccio?
        Geria os meus negcios  respondeu Nora.
        Mas ele vivia na sua casa, no  verdade?
        Sim. 
        E isso  habitual na sua profisso?
        No sei  respondeu Nora.  Mas no meu caso era necessrio. Era mais do que um trabalho a tempo inteiro.
        Com essa sua afirmao pretende dizer que entre si e o Sr. Riccio havia uma relao muito mais pessoal do que uma simples ligao de negcios?
       Gordon ps-se de p.
        Protesto, Sr. Dr. Juiz! A pergunta  irrelevante e nada tem a ver com a finalidade deste interrogatrio.
        O protesto  aceite.
        A senhora e o Sr. Riccio tencionavam vir a casar-se?  perguntou o ajudante do procurador distrital.
        Protesto! Solicito com todo o respeito a este tribunal que o ajudante do procurador distrital seja orientado no sentido de se limitar s perguntas que estejam ligadas  finalidade desta investigao.
        Aceite  respondeu o juiz. A voz dele demonstrava aborrecimento ao dirigir-se a Carter.  Queira limitar as suas perguntas em conformidade.
       Carter olhou para Nora.
        Viu a sua filha pegar no cinzel com o qual se alega que atacou o Sr. Riccio?
        No, no vi.
        Sabia que esse cinzel estava em cima da mesa, ao p da porta?
        Acho que sim. 
        Costuma deix-lo naquele stio? Com certeza j se tinha dado conta de que um instrumento de tal maneira aguado podia ser potencialmente perigoso?
        Deixava sempre o cinzel no stio onde calhava estar a trabalhar com ele. Neste caso, estava em cima daquela mesa porque eu tinha estado a trabalhar numa figurinha de pau-rosa.  Falava agora com voz firme.  Estava no meu estdio. Alm daquele cinzel, havia por l muitas outras ferramentas do meu oficio, incluindo um maarico de acetileno. Sou escultora e interesso-me exclusivamente por aquilo que estou a criar, no pelo stio onde ponho as minhas ferramentas. Alis, nunca considerei nenhuma delas como sendo potencialmente perigosa. So elas a base da minha arte.
        No tenho mais perguntas  disse Carter, sentando-se.
       Nora desceu do estrado com a cabea bem levantada. A sua arte era o seu escudo e ela erguera-o bem alto, de forma que nada no mundo pudesse tocar-lhe. Sentia-se s e salva por detrs dele.
       S havia mais uma testemunha: Charles. O testemunho dele foi uma simples confirmao de tudo o que j tinha sido dito, o que me levou a concluir ser essa a razo por que Violet no fora chamada. Em seguida, o juiz entregou o caso ao jri. Estiveram fora menos de cinco minutos. O primeiro jurado anunciou o veredicto.
         opinio deste jri que a vitima, Anthony Riccio, encontrou a morte em consequncia de um golpe desferido por um instrumento aguado que se encontrava nas mos de Danielle Nora Carey, menor, que agiu justificadamente em defesa da me.
       Houve um burburinho na sala. Voltei-me para ver os reprteres precipitarem-se para fora da sala, enquanto o juiz batia com o martelo na mesa. Afastei-me para o lado para que Nora e Gordon sassem  minha frente. Saram a porta e eu vi os clares dos flashes quando as cmaras dispararam. Resolvi esperar que os fotgrafos se fossem embora e sentei-me de novo.
       A sala do tribunal estava, agora, quase vazia. Olhei para o outro lado da sala. Uma mulher ainda nova estava sentada, a tomar notas num pequeno livro. Fechou-o, levantou os olhos para mim e acenou-me com a cabea. Correspondi ao aceno, quase automaticamente, antes de a ter reconhecido. Era a funcionria encarregada do caso da Dani. Pus-me de p.
        Como est, Miss Spicer?
        Coronel Carey  respondeu calmamente.
        Viu a Dani esta manh?
       Fez que sim com a cabea.
        Como  que ela est?
        Ainda se sente um bocadinho perdida, mas  s uma questo de tempo para se habituar.  Ps-se de p.  Tenho de ir andando.
        Claro  respondi.
       Afastei-me para o lado e fiquei a v-la sair apressada.  s uma questo de tempo para se habituar, tinha dito. Como se isso fosse uma coisa ptima. Habituar-se a estar na priso. Quando me encaminhei para a sada, os corredores estavam vazios. A luz do sol batia-me nos olhos e s consegui ver Harris Gordon quando ele estava mesmo em frente de mim.
        Bom, coronel Carey. O que  que acha?
       Olhei-o, franzindo os olhos.
        Quer lhe chamemos julgamento, quer no, todos trabalharam bem para enterrar a Dani.
        Homicdio justificvel  muito diferente de assassnio  disse, acertando o passo com o meu.
        Sim  respondi secamente.  Devemos agradecer os pequenos favores.
        H uma coisa que no foi dita e que eu acho que o senhor devia saber.
       Olhei para ele.
        O que ?
        O que Dani disse depois de assinar o depoimento na esquadra da polcia.
        E por que  que a deixou fazer um depoimento? 
        No podia fazer outra coisa, ela insistiu. E depois, quando queria impedi-la de o assinar, insistiu tambm nesse ponto.
       Fiquei um momento em silncio.
        O que foi que ela disse?
       Gordon olhou para mim.
        "Agora vo levar-me para a cmara de gs?", depois comeou a chorar. Disse-lhe que no iam fazer nada disso, mas no quis acreditar em mim. Quanto mais tentava acalm-la mais histrica ficava. Liguei de l para o Dr. Bonner e ele veio e deu-lhe uma injeco. O Dr. Bonner foi connosco ao Centro de Deteno de Menores, mas mesmo isso no serviu de nada. Dani estava mais histrica do que nunca. Foi essa a razo principal por que a deixaram ficar  minha guarda durante a noite, Continuou histrica at que a av se lembrou de lhe dizer a nica coisa que conseguiu finalmente acalm-la.
        E o que foi?
        Que o senhor vinha a caminho, coronel  disse  e que no ia permitir que lhe acontecesse nada de mal.















QUARTA PARTE

 Parte do Livro
Acerca de DANI


       Quando Dani era ainda muito pequena e no queria ficar s escuras, olhava para mim, da camita dela e dizia na sua voz pequena: 
        Pap, apaga a noite. 
       E eu acendia uma luzinha pequena no quarto dela e ela fechava os olhos e adormecia, sentindo-se em segurana no seu mundo familiar. Quem me dera que as coisas fossem assim to fceis agora. Mas j no havia nenhuma luzinha que se acendesse, para apagar a noite. Os jurados tinham-se encarregado disso.
       Fiquei a ver Gordon meter-se no carro e ir-se embora. Voltei-me e fiquei um momento a olhar para a sala do tribunal. Depois, encaminhei-me para o estacionamento de Golden Gate Avenue, onde tinha deixado o carro.
       A velha cano infantil no me saa da cabea: Humpty Dumpty estava sentado num muro, Humpty Dumpty deu um grande tombo. Pela primeira vez, compreendi como  que os homens do rei se deviam ter sentido quando no conseguiram juntar todos os bocadinhos do Humpty Dumpty. Uns idiotas chapados. Antes de mais, nunca deviam t-lo deixado cair. Como eu tambm no devia ter deixado cair a Dani.
       Talvez a culpa fosse minha. Ainda me lembrava quando estava sentado, ontem  tarde, no quartinho dela, no Centro de Deteno de Menores, a tentar explicar-lhe porque  que eu no podia ir visit-la. Lembrava-me tambm do efeito produzido pelas minhas palavras. Mesmo sendo verdade, e eu sabia que era, a coisa parecia difcil de acreditar. E Dani ainda era uma criana, apesar do cigarro que fumava com tanta destreza. O que  que ela pensava de tudo aquilo? No sabia. Mas percebi que ela queria acreditar em mim, ter confiana em mim. Contudo, no estava muito certa se o devia fazer. J me tinha ido embora uma vez, podia ir-me embora de novo.
       No o disse dessa maneira. Com tantas palavras. Mas estavam l na mesma sob a superfcie dos pensamentos dela, das suas aces. J era demasiado crescida para o dizer em voz alta e era demasiado jovem para o esconder de mim. Havia tantas coisas que tnhamos de dizer um ao outro, mas o tempo no chegava. As palavras no pronunciadas envolveram-nos como uma nuvem invisvel no momento da despedida.
        Venho ver-te amanh.
        No  respondeu.  No autorizam visitas durante a semana. Mas vejo-o na tera-feira. Miss Spicer disse-me que havia uma audincia.
        Eu sei.
        A me tambm vai?
       Fiz que sim com a cabea.
        E a tua av tambm.  Inclinei-me e beijei-a.  S boa menina e no te preocupes com nada, gatinha.
       De repente passou-me os braos em volta do pescoo. Apertou-me muito a face de encontro  cara.
        Agora j no tenho medo de nada, pap  disse com veemncia.  Desde que o pap voltou.
       S quando me encontrei outra vez c fora  luz do dia  que compreendi o que ela queria dizer. Mas eu no tinha vindo para ficar. Era s uma visita.
       Eram quatro horas quando voltei ao motel. A luz vermelha acendia e apagava, prevenindo-me de que tinha um recado. Peguei no telefone. A luz no parava de acender e apagar enquanto eu no ligasse para a telefonista. Dei-lhe o meu nome e nmero de quarto.
        Telefonou a Sra. Hayden.  muito importante que ligue para ela assim que chegar.
        Obrigado.  Desliguei e depois marquei o nmero que a telefonista me tinha dado. Foi uma criada que atendeu, mas a velha senhora apareceu imediatamente em linha.
        Est sozinho?  perguntou num tom cauteloso.
        Estou.
         muito importante que cheguemos  fala.
        Sobre qu?
        No quero falar nisso pelo telefone  disse.  Mas acredite, Luke,  muito importante, ou eu no lhe teria telefonado.  A voz dela mostrou uma certa tenso.  Pode vir jantar? Arranjo tudo para que estejamos ss.
        A que horas?
        s sete?
        ptimo, l estarei.
        Obrigada, Luke.
       Pousei o telefone e comecei a despir-me. Um duche quente ajudar-me-ia a descontrair um pouco os msculos. Perguntava a mim mesmo o que quereria a Sra. Hayden. Se estava preocupada em que eu lhe desse o meu apoio no tribunal no dia seguinte, no valia a pena. No ponto a que tnhamos chegado, no tinha alternativa.
       Apesar de a noite no estar muito fria, o lume crepitava na lareira quando a criada me fez entrar na biblioteca da vasta residncia. A velha senhora estava sentada numa das poltronas que ficavam de frente para o lume.
        Sirva-se de uma bebida, Luke.
        Obrigado. 
       Dirigi-me para o aparador e deitei um pouco de bourbon sobre alguns cubos de gelo e acrescentei-lhe gua. Voltei-me para a minha ex-sogra.
         sua sade.
        Obrigada.
       O uisque era forte e macio ao engolir. Havia muito tempo que eu no tinha dinheiro para um bourbon daqueles. Bebi lentamente. No era preciso tomar grandes golos.
        O que  que h?  perguntei. 
       A velha senhora olhou para mim.
        A criada j saiu?  Fiz que sim com a cabea.  Veja se a porta est fechada.  Atravessei a sala e verifiquei a porta. No havia ningum na sala ao lado. Voltei para junto dela.
        Por qu todo este mistrio? 
       Em silncio pegou na carteira e abriu-a. Tirou de l um sobrescrito e estendeu-mo. Era-lhe dirigido a ela. Olhei-a com ar interrogador.
        Leia. 
       Pousei o copo e abri a carta. Estava escrita  mquina em papel branco, simples.

       "Prezada Sra. Hayden, Sei que no me conhece, mas eu sou, desde longa data, amiga do Tony. H algumas semanas ele entregou-me um mao de cartas, que me disse serem muito importantes e me pediu que guardasse. Tambm me disse que estava a ter muitos problemas com a sua filha e que, quando fosse altura de ela entrar em contas, estas cartas lhe garantiriam o que tinha a receber. Abri o mao e espreitei as cartas. H umas da sua filha e outras da sua neta. As desta ltima datam de h apenas dois meses. A polcia devia ach-las muito interessantes e os jornais ainda mais, uma vez que ambas estavam apaixonadas pelo Tony. Mas, agora o Tony est morto e eu seria a ltima pessoa a querer arranjar mais problemas do que aqueles que as pessoas j tm. Portanto, se est interessada nas cartas, ponha o seguinte anncio na coluna pessoal do Examiner, mais tardar quinta-feira  VOLTA PARA CASA; TUDO EST PERDOADO; TIA CECELIA. Nessa altura, entrarei em contacto consigo, antes de ir a outro lado com elas. Mas no se esquea, nada de advogados, nem de chus, seno, nada feito."

       A carta no tinha assinatura. Olhei para a Sra. Hayden.
        Ento, o que  que acha?  perguntou.
        Pode tratar-se de uma fantasia qualquer. J tenho ouvido falar em gente doida que escreve cartas s pessoas cujos nomes vm nas noticias.
        No creio, Luke. Telefonei  Nora e perguntei-lhe se alguma vez tinha escrito cartas ao Riccio e ela disse-me que sim. Perguntei-lhe o que  que tinha escrito nessas cartas e ela respondeu-me que eu no tinha nada com isso. Depois, perguntei-lhe se sabia que a Dani tambm lhe tinha escrito e ela ficou furiosa e desligou-me o telefone.
        Isso  tpico da Nora. Quando surge qualquer coisa que ela no quer enfrentar, esquiva-se. Acha que h alguma coisa de verdade, nesta carta?
        Talvez no haja  respondeu.  Mas eu  que no quero correr o risco de a ignorar.
        Isto no passa de uma reles chantagem. Mesmo que lhes pague, no tem maneira de saber se no vo ficar com algumas cartas para outra operao. No seu lugar, entregava o caso  polcia.
        Acha que os jornais ainda no falaram o suficiente? Quer mais?
       Fiquei a olhar para ela.
        No acha que j fez mais do que o suficiente para proteger o bom nome dos Hayden?  atirei-lhe, em tom sarcstico.  Acha que h alguma coisa que ainda possa fazer a Nora parecer-se menos com um anjo do que aquilo que j parece? Acha que as pessoas so to estpidas que ainda no perceberam o que se tem estado a passar em casa dela?
        No, as pessoas no so estpidas. Mas voc .  Meteu outra vez o sobrescrito na carteira, furiosa.  J deixou de me interessar aquilo que escrevem ou dizem acerca de Nora. No posso fazer nada para modificar isso nem, francamente, tenho qualquer inteno de tentar. Mas se calhar voc no leu a carta.
        Li sim.
        Leu a parte em que diz que tambm h cartas da Dani e que ela tambm estava apaixonada pelo Riccio?  disse a velha senhora, num tom irascvel.
        Li, mas no liguei. A Dani no passa de uma criana.
        Afinal voc ainda  mais estpido do que eu pensava. A Dani pode ser uma criana na idade, mas j olhou bem para ela? Fisicamente j atingiu a maturidade; atingiu-a com pouco mais de onze anos.  exactamente a me. Nora teve a sua primeira experincia sexual quando ainda mal completara treze anos; fez o primeiro aborto com pouco mais de quinze. Houve pelo menos mais dois, que eu saiba, antes de casar consigo!
       Fiquei a olhar para ela.
        Sabia tudo isso?
       Baixou os olhos.
        Sabia  admitiu em voz baixa.  Mas tinha esperanas que se tornasse um facto do passado, se ela casasse consigo. Que Nora crescesse e visse os disparates que tinha feito.
        Mas continuou a defend-la. No deixou de a proteger. 
        Sou me dela  disse simplesmente a velha senhora.
       Havia nela uma espcie de dignidade cheia de orgulho.
        Nunca foi propriamente o nome dos Hayden que me preocupou. O que me preocupava era a minha filha. Tal como no  o nome que me preocupa neste momento.  a Dani. No quero que ela se perca antes de ter uma oportunidade. No quero que ela seja como a me. Quero ajud-la.
        A Nora disse que eu nem sequer era pai da Dani  ripostei.
        Sei muito bem o que a Nora disse. Acho que, agora, j tenho idade para aceitar a verdade. E voc? Ser que tem?
       Pousei o copo.
        Ponha-me  prova.
       Os olhos dela mantinham-se fixos nos meus.
        No creio que a prpria Nora saiba se voc  pai da Dani ou no.
       Fiquei silencioso.
        Portanto, est a ver  prosseguiu suavemente.  Tudo recai sobre si. Sobre aquilo que sente em relao  Dani.
       Peguei novamente no copo e levei-o  boca. Os cubos de gelo tinham se derretido e o gosto agradvel do uisque perdera-se na gua. Tudo parecia recair sobre mim. Harris Gordon tinha dito a mesma coisa no sbado, talvez de forma um tanto diferente, mas na essncia era a mesma coisa. Ou bem eu era pai dela ou no era.
       Voltei-me para o aparador e acrescentei um pouco mais de uisque ao meu copo. Pensei no beb que tinha amado antes de saber o que Nora viria a dizer um dia. Depois, pensei na criana com quem tinha brincado no barco, em La Jolla, depois de Nora dizer que eu no era pai dela. Sabia que amava essa criana, tanto quanto tinha amado o beb. E amava-a tanto naquele momento como a amara ento. Voltei-me de novo para a minha ex-sogra.
        Acho que  preciso mais do que um acto da natureza para fazer um pai  disse.  Tambm  necessrio um acto de amor.
       Os olhos dela, muito vivos, brilharam.
        A nica coisa que  precisa, Luke,  o acto de amor. A outra coisa, na realidade, no conta.
       Bebi um pouco de uisque e sentei-me.
        Bom, e o que  que vai fazer quanto  carta?
        J tomei providncias quanto ao anncio. Vai aparecer na quinta-feira.
        Hoje  segunda-feira, Temos trs dias para descobrir onde esto as cartas e quem  que as tem. Amanh e quarta-feira; o dia de hoje j l vai e amanh vamos passar uma boa parte do dia no tribunal. Nem sequer sei por onde comear. No sei absolutamente nada acerca do Riccio. Nem ao menos quem eram os amigos dele.
        Sam Corwin deve saber.
        Sam?  perguntei, perplexo.
       Tinha pensado em todos, menos em Sam. Era estranho ter-me esquecido dele. Ele e Nora tinham-se casado cerca de um ano depois do nosso divrcio. Tinha-o visto vrias vezes l em casa quando ia levar Dani de volta das visitas que ela me fazia. Sempre se mostrara delicado e cordial.
        Sim, o Sam. Coitado do Sam. Sabia bem como era a Nora quando se casou com ela, mas pensou que conseguiria modific-la. No entanto, depois de ela ter conhecido o Riccio, acho que o Sam desistiu. Foi por causa do Riccio que o Sam se divorciou dela e conseguiu impor uma rigorosa diviso de bens.
        Isso quer dizer que o Sam devia saber qualquer coisa sobre ela?  perguntei.
        Ele sabia qualquer coisa sobre ambos. 
       A porta por detrs dela abriu-se e a criada entrou na sala.
        O jantar est servido, minha senhora.
       Pusemo-nos de p e a velha senhora sorriu-me .
        Quer dar-me o seu brao, Luke?  Retribui-lhe o sorriso.
        Ser uma honra.
       
       Pela primeira vez aproximei-me da entrada principal do edifcio.
       O parque de estacionamento estava cheio e tinha-me visto forado a deixar o carro a alguns quarteires de distncia. Segui pelo caminho ondulante que levava desde a rua  entrada. Um jardineiro, com o seu fato de trabalho, estava ocupado a cortar as sebes cuidadas que ladeavam o caminho. Levantou os olhos para mim quando passei. Vi-lhe na fronte as pesadas gotas de suor provocadas pelo sol da manh. Olhei para as portas de vidro. Tinham uma inscrio em letras douradas.
ESTADO DA CALIFRNIA MUNICPIO DE SO FRANCISCO
Tribunal de Menores, Departamento de Recuperao
Direco da Juventude Californiana
       Entrei e dei comigo num vasto trio cheio de reprteres e fotgrafos. Alguns flashes dispararam e vrios reprteres se comprimiram  minha volta, Estavam muito menos impetuosos do que da vez anterior.
        Pode dizer-nos alguma coisa sobre os projectos para a defesa da sua filha, coronel Carey?
       Sacudi a cabea.
        No, no posso. Segundo estou informado, pelas leis deste Estado, no existem julgamentos para menores. Esta ser apenas a primeira de uma srie de audincias para decidir a quem ela dever ser entregue.
        Tenciona tentar que seja entregue ao senhor?
         ao tribunal que compete decidir. Tenho a certeza de que vo tomar em considerao, antes de mais, os interesses da minha filha.
        J esteve com ela?
        Visitei-a no domingo  tarde.
        A me dela acompanhou-o?
        No, encontrava-se doente.
        E a me j lhe fez alguma visita?
        Ignoro. Mas sei que lhe enviou vrias coisas.
        O qu?
        Roupa, livros, doces.
        De que  que falou com a sua filha durante a visita?
        Nada de especial. Acho que foi uma conversa normal entre pai e filha.
        Ela contou-lhe mais alguma coisa sobre o que se passou na sexta-feira  noite?
       Olhei para o homem que me tinha feito a pergunta.
        No tocmos no assunto.
        Soube de alguma coisa que pudesse lanar nova luz sobre o caso?
        No  respondi.  No sei de nada para alm do que ouvi, ontem, no tribunal. Julgo que os senhores tambm l estiveram, pelo menos, a maioria. E agora, se quiserem ter a bondade de me deixar passar...
       Abriram caminho.
       O Tribunal de Menores ficava  esquerda do trio de entrada. Segui a seta ao longo de um corredor comprido, que flectia mais adiante. Outra seta indicava uma escada que descia. Desci as escadas e dei comigo em frente de uma sala de espera toda envidraada. Atravessei a sala de espera e abri a porta que dava para o Tribunal de Menores. A sala era pequena e tinha um estrado ao fundo. Em frente da mesa do juiz, havia uma mesa comprida com vrias cadeiras  volta. Um pouco mais ao lado, entre a mesa e o banco, havia uma pequena secretria e uma cadeira. As paredes estavam pintadas nos tons de castanho que lhe davam um ar oficial e havia quatro grandes janelas na parede mais comprida. O resto do espao era ocupado por mais cadeiras e bancos. Quando ainda me encontrava de p junto da entrada, um homem apareceu, vindo de uma das portas que havia por detrs da mesa do juiz. Quando me viu, parou.
         aqui que vo fazer a audincia da Dani Carey?
        , mas ainda  cedo. O tribunal s se rene s nove. Pode esperar l fora na sala de recepo. Depois, chamam-no.
        Obrigado.
       Havia diversos bancos na sala de espera. Olhei para o relgio. Oito e trinta e cinco. Acendi um cigarro. Alguns minutos depois, entrou outro homem. Olhou para mim, acendeu um cigarro e sentou-se.
        O juiz ainda no chegou?
       Sacudi a cabea.
        Raios partam!  disse.  At aposto que vou perder mais meio dia de trabalho. Cada vez que aqui venho, perco dinheiro. Nunca tratam do meu caso a no ser j l para o fim.
        Tem c alguma filha?
        Tenho  disse, sacudindo a cabea. A cinza do cigarro caiu-lhe na camisa de trabalho suja. No se importou.  Tm c a minha pequena. Ela no passa de uma prostituta,  o que . Eu j lhes tinha dito que quando voltassem a apanh-la podiam ficar com ela. Mas no, tinham de me fazer c vir outra vez.
       Ps-se a olhar para mim.
        Olhe, a sua cara no me  estranha  disse.  J nos tnhamos encontrado aqui?
 No.  a primeira vez.
        E est servido. Nunca mais param de o chamar, at voc concordar em levar a rapariga outra vez para casa. Foi o que me fizeram a mim. Ela s tem quinze anos e meio, foi o que eles disseram. Tem de lhe dar uma oportunidade, disseram. Eu fiz isso. E sabe o que  que aconteceu? Dois dias depois, ela estava instalada num hotel, a receber quem lhe aparecesse na disposio de pagar cinco dlares. A polcia apanhou-a e c estou eu outra vez.  Olhou-me piscando os olhos por causa do fumo do cigarro.  Tem a certeza de que no nos encontrmos por aqui antes?
       Sacudi a cabea. Ficou mais uns momentos a olhar para mim e depois deu um estalo com os dedos.
        J estou a conhec-lo! Vi o seu retrato nos jornais. Voc  o pai da mida que deu cabo do amigo da me!
       Fiquei calado. Inclinou-se para mim enquanto a voz se lhe tornava num murmrio confidencial.
        No  uma merda? As coisas em que a miudagem se mete hoje em dia! O tipo se calhar tambm andava enrolado com ela, no? No me admirava nada. Os jornais no contam nem metade.
       Senti os punhos crisparem-se-me. Obriguei os meus prprios dedos a descontrarem-se. No valia a pena enfurecer-me. Era uma situao a que eu tinha de me habituar. Senti como que um aperto no corao. Dani tambm ia ter de se habituar. O que ainda era pior.
       Entraram duas mulheres. Tinham ar de mexicanas e dialogavam em espanhol, muito excitadas. Quando nos viram, calaram-se de repente, dirigiram-se para um banco e sentaram-se. A mais nova parecia estar grvida.
       Passados momentos, entrou uma mulher de cor, depois, um homem e uma mulher. O rosto da mulher estava inchado, apresentava equimoses e tinha um olho negro. O homem tentou pegar-lhe no brao, para a encaminhar para um assento, mas ela afastou-lhe o brao com uma sacudidela furiosa e foi sentar-se do outro lado, sem olhar para ele.
       A mulher de cor falou para uma das mexicanas.
        Achas que lhe vo dar outra vez a pequena, filha?
       A grvida fez o gesto clssico do desconhecimento.
        No sei  disse, com o seu sotaque vagamente espanhol.  A assistncia  que quer que elas fiquem aqui, filha. Tenho a certeza. Se ela ficar c s lhes vai custar quarenta por ms. Se a deixarem lev-la para casa, tm de lhe dar setenta.  s por causa do dinheiro, filha.
       A grvida encolheu os ombros. Disse qualquer coisa em espanhol para a outra mulher e ela acenou violentamente com a cabea, em sinal de assentimento. A mulher que tinha o olho negro e que se tinha sentado no banco que estava encostado  outra parede, comeou a chorar em silncio.
       Mais pessoas desceram as escadas e da a pouco todos os bancos estavam ocupados. As pessoas que vieram a mais ficaram no corredor, do lado de fora da sala de espera. s cinco para as nove, Harris Gordon apareceu, seguido de Nora e da me. Levantei-me e fui ao encontro deles. Harris Gordon olhou atravs do vidro.
        Parece que temos por c muita gente.
         verdade  respondi.  Parece que no somos os nicos a ter problemas.
       Gordon olhou-me de uma maneira especial.
        As pessoas com problemas  raro estarem ss. Esperem aqui. Vou falar com o funcionrio, para ver se sei quando  que o juiz pensa chegar  nossa vez.
       Desapareceu corredor fora. Voltei-me para Nora.
        Como  que ests?  perguntei com delicadeza.
       Fez que sim com a cabea, enquanto procurava com o olhar qualquer sinal de sarcasmo no meu rosto.
        Estou bem. Ontem, depois de sair do tribunal, fui para casa e meti-me na cama. Estava completamente exausta.
        Compreendo. O que fizeste no foi fcil.
        Portei-me bem? S queria dizer o estritamente indispensvel. No sentia coragem para fazer qualquer depoimento, mas no tinha outro remdio, pois no?
         um facto. No tinhas outro remdio. 
       Gordon voltou.
        No vamos ter de esperar muito  disse.  Somos o terceiro caso da lista. O funcionrio disse-me que os dois primeiros no devem levar mais de um quarto de hora.
       Acendi um cigarro e encostei-me  parede. A porta da sala do tribunal abriu-se e ouvi chamar um nome. Voltei-me e vi as duas mexicanas levantarem-se. A porta fechou-se atrs delas. Eram exactamente nove horas. No ficaram l dentro mais de dez minutos. A mulher grvida vinha a chorar quando passaram. O funcionrio chamou outro nome. Era o homem que tinha entrado logo atrs de mim. Saiu passados menos de dez minutos, com uma expresso de satisfao presumida no rosto. Parou  minha frente, antes de chegar s escadas.
        Desta vez vo tomar definitivamente conta dela. Disse-lhes que, pela minha parte, podiam deitar fora a chave!
       No respondi. O homem deu meia-volta e foi escada acima a bater com os ps. Ouvi a voz do oficial de diligncias atrs de ns.
        Carey.
       Atravessmos a sala de espera e entrmos no tribunal. O oficial de diligncias indicou-nos os assentos junto da mesa que ficava em frente da secretria do juiz e ficou a observar-nos com ar aborrecido.
         a primeira vez que aqui vm?
       Fizemos que sim com a cabea.
        O juiz saiu por um momento. Ele volta j.
       Mal acabou de pronunciar estas palavras, a porta atrs dele abriu-se.
        Ponham-se todos de p e de frente para o tribunal  disse em voz alta o oficial de diligncias.  Saibam que o Tribunal de Menores do Estado da Califrnia, Municpio de So Francisco, presidido pelo Meritssimo Juiz Samuel A. Murphy, d incio  sesso.
       O juiz era um homem alto, de pouco mais de sessenta anos. Tinha o cabelo branco e ralo e os olhos vistos atravs dos culos com aros de chifre, eram azuis e penetrantes. Vestia um fato castanho e amachucado, camisa branca e gravata castanho-escura. Sentou-se e pegou num papel que tinha em cima da secretria,  frente dele. Fez um aceno para o oficial de diligncias. Este levantou-se e encaminhou-se para uma porta que ficava  direita. Abriu-a.
        Danielle Carey.
       Dani entrou e olhou em volta, hesitante. Depois, viu-nos e correu para ns. Nora ergueu-se ligeiramente da cadeira e caram nos braos uma da outra. Dani chorava.
        Me, me, est bem?
       No consegui perceber o que Nora balbuciava. Desviei os olhos por momentos. At eu sentia a mesma emoo e no acreditava em metade do espectculo que Nora sempre representava. Uma nova figura apareceu  porta. Era Miss Spicer, a funcionria encarregada de vigiar e orientar Dani. Ficou parada  porta a observar Dani e Nora.
       Levantei os olhos para o juiz. Tambm ele as estava a observar. Tive a sensao de que isto era uma coisa importante que o juiz tinha preparado com todo o cuidado.
       Outra porta se abriu do mesmo lado da sala e um funcionrio de uniforme entrou no tribunal. Tinha os cabelos castanhos e era de estatura mdia. A aplicao azul e dourada que trazia no ombro tinha o distintivo do xerife do Municpio de So Francisco. Fechou a porta e encostou-se a ela
       Dani tinha deixado Nora para ir beijar a av e depois veio direita a mim. Os olhos brilhavam-lhe. Beijou-me na cara.
        A me veio, pap! A me sempre veio! 
       Sorri-lhe.
        Eu tinha-te dito que ela vinha.
       Miss Spicer entrou na sala do tribunal e encaminhou-se para a ponta da mesa.
        Senta-te aqui ao p de mim, Dani.
       Dani deixou-me e foi sentar-se. Olhou para Harris Gordon.
        Ol, Sr. Gordon.
        Ol, Dani.
       O juiz pigarreou.
        Estamos numa audincia muito informal. Assim, agradecia que fizessem o favor de se apresentarem, para eu saber quem so.
        Permite-me, Excelncia?
       O juiz fez que sim com a cabea.
        Faa favor, Sr. Gordon.
         minha esquerda est Nora Hayden, a me da menor.  minha direita, a Sra. Cecelia Hayden, av da menor pelo lado da me. A seu lado, o coronel Luke Carey, pai da menor.
        E o senhor  o advogado da menor?
        Sim, Excelncia  disse Gordon  e, ao mesmo tempo, conselheiro jurdico da famlia.
        Compreendo. Penso que todos conhecem j Miss Marian Spicer, funcionria designada para acompanhar Dani.
        Sim, Excelncia.
        Nesse caso, creio que podemos comear.  Pegou na folha de papel que estava em cima da sua mesa.  Na noite de sexta-feira passada, a polcia, agindo sob a orientao da Seco 602 do Tribunal de Menores da Califrnia, entregou uma tal Danielle Nora Carey, menor, para ficar detida. Os fundamentos eram o facto de a dita menor ter cometido um acto de homicdio, acto considerado criminoso no Estado da Califrnia. Desde essa altura, com excepo da primeira noite, em que a menor foi entregue  vigilncia do Sr. Harris Gordon advogado, por conselho de um mdico e com a finalidade de proteger a sade e bem-estar da dita menor, a mesma tem estado detida no lar de deteno juvenil, como determina a lei. Estamos aqui esta manh para ouvir uma petio apresentada pela seco de orientao e vigilncia no sentido de a menor continuar sob a sua guarda e vigilncia, at que lhe seja possvel investigar devidamente todos os factos que levaram a que a menor comparecesse perante este tribunal.
       O juiz pousou o papel e olhou para Dani. A voz dele era suave e gentil.
        Apesar de toda esta linguagem legal e oficial, Danielle, no se trata aqui de um julgamento nem tu ests perante qualquer procedimento criminal. Ests aqui porque cometeste um acto, errado, muito errado, mas ns no estamos aqui para te punir. Queremos ajudar-te, se pudermos, para que nunca mais faas nada mal feito. Compreendes isso, Danielle?
       Os olhos de Dani estavam muito abertos, apreensivos no seu rosto branco.
        Acho que sim  respondeu, hesitante.
        Sinto-me contente por tu compreenderes, Danielle.  importante para ti que compreendas que, embora no vs ser punida criminalmente pelo que fizeste, no podes escapar a certas consequncias resultantes das tuas ms aces. A lei exige que eu te informe dessas possveis consequncias e dos direitos que tens perante este tribunal. Ests a compreender?
        Sim, senhor. 
        Este tribunal tem o direito de te retirar de tua casa e pr-te numa casa estatal para jovens, ou reformatrio, at atingires a maioridade, Ou ento, pode pr-te num hospital estatal para observao. Pode at entregar-te a uma famlia adoptiva, se achar que no  do teu interesse seres entregue  tua famlia mais prxima ou a quaisquer outros parentes. Pode tambm, em qualquer altura, enquanto estiveres sob a jurisdio deste tribunal, pr-te sob vigilncia, de modo que, estando a viver com quem estiveres, continues em contacto com o funcionrio escolhido para o efeito, at que o tribunal determine o contrrio ou que tu atinjas a maioridade. Mas h uma coisa que eu quero que tenhas sempre presente. Seja o que for que o tribunal decida, no haver nessa deciso qualquer carcter punitivo, mas apenas a preocupao de ir ao encontro dos teus melhores interesses. Compreendes isso, Danielle?
       Dani fez que sim com a cabea. Olhei para a mesa que estava em frente dela. Vi as mos torcerem-se-lhe nervosamente.
        Durante qualquer das sesses que decorrerem neste tribunal  continuou o juiz  tens o direito de trocar ideias. Tens o direito de convocar testemunhas a teu favor e o direito de interrogares quaisquer testemunhas que possas considerar prejudiciais aos teus melhores interesses. Compreendes isto, Danielle?
        Sim, senhor.
        Devo ainda informar os teus pais de que eles tm os mesmos direitos: a troca de ideias, testemunhas e interrogatrios. Vamos agora dar inicio  audincia com base na petio. Miss Spicer, quer fazer o favor de apresentar as suas razes para solicitar ao tribunal a deteno desta menor?
       Miss Spicer ps-se de p. Falou numa voz suave e clara.
        Esse pedido fundamenta-se em duas razes, Excelncia. Primeiro, a natureza do acto cometido pela criana indica uma perturbao emocional bastante mais profunda do que aquilo que seria possvel determinar num exame preliminar de ordem psicolgica e psiquitrica. Tendo em vista a sade e o bem-estar da criana, solicitamos o tempo necessrio para completar tais exames em profundidade. Em segundo lugar, tambm precisamos de tempo adicional para investigar mais a fundo o ambiente da criana e a sua vida familiar para que isso nos ajude a recomendar o que foi mais indicado para os futuros cuidados e tratamento a prestar  criana.
       Sentou-se. O juiz voltou-se para ns.
        Tm alguma objeco a apresentar a esta petio?
       Harris Gordon ps-se de p.
        No, Excelncia. Temos a maior confiana na experincia e espirito de discernimento do Departamento de Vigilncia e Orientao e na sua capacidade para avaliar e determinar correctamente todos os factores deste caso.
       A voz do juiz mostrou-se ligeiramente divertida. Sabia que Gordon no podia dizer outra coisa, que no tinha qualquer alternativa. As peties de deteno eram sempre aceites.
        Agradecemos a confiana que demonstra, Sr. Gordon. Esperamos mostrar-nos dignos dela.  Baixou os olhos por momentos e depois continuou:   a deciso deste tribunal que a petio do Departamento de Vigilncia e Orientao em Danielle Nora Carey, menor, seja deferida e ainda, que ela fique transitoriamente sob a tutela deste tribunal at que seja tomada uma deciso final. Fixarei a data para a audincia completa sobre esta questo para de hoje a uma semana. Espero que, nessa altura, todas as partes presentes voltem aqui e que todas as provas e observaes pertinentes a este caso me sejam apresentadas. Espero igualmente que todos os planos para a futura tutela e bem-estar desta criana me sejam apresentados por escrito com uma antecedncia no inferior a vinte e quatro horas da data da audincia.  Bateu vivamente com o martelo na mesa.
       Baixou novamente os olhos para Dani e a sua voz tornou-se outra vez suave e gentil, muito diferente do tom oficial que usara antes.
        Isto significa que vais voltar para o lar, Danielle, enquanto investigamos o teu caso. S boa menina e colabora com Miss Spicer e com as outras pessoas e tudo ser muito mais fcil e melhor para todos ns. Compreendes?
       Dani fez que sim com a cabea.
       O juiz voltou-se para Miss Spicer.
        Pode levar Danielle e os pais aos meus aposentos, antes de a levar de novo para o lar.
       A funcionria fez que sim com a cabea e ps-se de p. Levantmo-nos tambm.
        Obrigado, Excelncia  disse Gordon.
       O juiz acenou com a cabea e ns seguimos Miss Spicer atravs da porta que ficava atrs do estrado.
       Os aposentos do juiz eram constitudos por duas pequenas salas, sendo a mais pequena a do escrivo e a maior a do prprio juiz. Miss Spicer conduziu-nos  sala maior. Uma das paredes estava coberta com livros de direito; nas outras havia fotografias e diplomas emoldurados. Uma mesa simples e algumas cadeiras completavam a moblia.
        Instalem-se  disse Miss Spicer delicadamente.  Tenho de ir ao meu gabinete por uns minutos. Volto j.
       Quando a porta se fechou atrs dela, Nora voltou-se para Dani.
        Ests magra. Por que  que no vestiste aquele vestido to bonito que eu te mandei? Que impresso  que tu achas que isso fez no juiz? Vai pensar que ns nem sequer nos importamos o suficiente para te vestir como deve ser. Onde  que arranjaste essas coisas horrveis? Nunca te tinha visto com isso.
       Olhei para Dani. Surgiu-lhe no rosto uma pacincia curiosamente cheia de tolerncia. Esperou que Nora acabasse a preleco e depois surgiu-lhe na voz uma vaga nota de sarcasmo.
        Isto aqui no  a Escola de Miss Randolph, me. Tenho de usar o que todas usam. So eles que nos do a roupa.
       Nora ficou a olhar para ela.
        Tenho a certeza de que, se pedisses, te deixavam usar as tuas coisas. Provavelmente fazem isso porque a maior parte no tem nada para vestir.
       Dani no respondeu. Puxei de um cigarro. Ela olhou para mim. Atirei-lhe o mao e ela apanhou-o com destreza.
        Dani!  A voz de Nora mostrava-se chocada.
        Oh, cala-te, Nora!  A voz da velha Sra. Hayden traa-lhe o aborrecimento.  Escusas de representar agora, Nora. No tens pblico. Sabes muito bem que ela fuma. Pedi-te muitas vezes que a fizesses parar. Mas tu dizias que no vias mal nenhum nisso.  Olhou para Dani.  Chega aqui, minha filha. 
       Dani aproximou-se dela.
        Sim, av.
        Esto a tratar-te como deve ser?
        Sim, av.
        Do-te comida suficiente?
       Dani sorriu.
        Mais do que suficiente. Eu  que no tenho muito apetite.
        Tens de comer para no enfraqueceres. No calha nada que vs agora ainda por cima adoecer.
        No adoeo, av.
        H alguma coisa que eu te possa mandar?
       Dani sacudiu a cabea.
        No, av, obrigada.
       A velha senhora beijou-a na testa.
        Faz o que o juiz te disse, Dani. S boa menina e colabora e vais ver que te pomos c fora no tarda.
       Dani levantou os olhos para ela e fez que sim com a cabea. Havia nos olhos dela uma estranha sabedoria Como se soubesse melhor do que a av o que lhe ia acontecer. Mas no disse nada. Voltou-se ento para mim.
        Ainda tem aquele barco em La Jolla?
       Sacudi a cabea.
        No, Dani.
         pena  disse.  Ainda gostava de l voltar consigo.
        Talvez um dia, Dani. Quando sares daqui.
       Fez que sim com a cabea e percebi que tambm no acreditava nisso.
        Uma das enfermeiras disse-me que viu uma fotografia da sua mulher no jornal. Tambm disse que ela  muito bonita.  Olhou-me nos olhos.  O jornal dizia que a razo por que ela no veio consigo foi porque vai ter uma criana.
         verdade, Dani.
        Quando?
        Muito em breve  disse.  O mdico pensou que era melhor ela no viajar nesta altura.
       Um sorriso atravessou-lhe repentinamente o rosto.
        Ento sempre  verdade o que os jornais disseram? Estou contente.
         verdade, sim  sorri-lhe.  Achas que ela tinha qualquer outra razo para no vir?
       Dani olhou para Nora pelo canto do olho. Nora pintava-se com o batom, visivelmente entediada com a nossa conversao.
        No sei  disse Dani em voz baixa.  A principio, julguei que ela no viesse porque me odiava.
       Ri-me.
        Onde  que foste buscar essa ideia?
       Novamente o olhar furtivo para Nora.
        No sei. Foi s uma ideia.
       A porta abriu-se e Miss Spicer entrou de novo na sala. Atravs da porta aberta vi a figura de uma enfermeira,  espera.
        Agora tens de vir, Dani.
       Ela beijou a av e depois aproximou-se de Nora. Nora ps os braos em volta da filha. Olhou Dani nos olhos.
        Sabes que eu te amo, no sabes, Dani?
       Dani fez que sim com a cabea.
        Mais do que qualquer outra pessoa?
       Dani fez que sim com a cabea.
        Quanto, minha querida?
       Percebi que estavam a fazer um jogo que j tinham jogado muitas vezes. Se ele representava verdadeiramente qualquer coisa para Nora, no seria capaz de o dizer.
        Mais do que ningum, me.
       Nora olhou-me de soslaio, para ver se eu tinha ouvido a resposta. Ri-me. Dani voltou-se e olhou para mim, com um ar sobressaltado. Aquilo a que chamam telepatia deve querer dizer qualquer coisa, porque eu tive a certeza de que Dani sabia de que  que eu me estava a rir. Voltou-se e beijou a me.
        Adeus, me.
       Nora olhou para mim. Tinha o rosto congestionado e furioso. Comeou a dizer qualquer coisa, mas mordeu o lbio e ficou silenciosa.
        Enquanto esto todos aqui  disse suavemente Miss Spicer, depois de ter fechado a porta atrs de Dani  pensei que talvez pudssemos combinar quando  que nos encontramos. Facilitaria as coisas.  sentou-se atrs da secretria.  ser que posso ir procur-la amanh  tarde, Miss Hayden?
        Quinta-feira seria melhor  disse Nora.   o dia de sada dos criados e poderamos ficar ss. Teramos tempo para falar.
        Seria prefervel que os criados estivessem tambm  disse Miss Spicer.  Tambm gostaria de falar com eles acerca de Dani.
       Nora olhou para Gordon.
        No sei  hesitou.  A ideia de discutir os meus assuntos com os criados no  muito do meu agrado. Parece-me que, neste momento, eles apenas podero contar as suas coscuvilhices. No lhe vo dizer nada de interesse.
         minha obrigao tentar descobrir tudo o que for possvel acerca da sua filha, Miss Hayden. Pode ter a certeza de que usarei de toda a discrio.
       Nora olhou novamente para Gordon. Ele fez que sim com a cabea. Nora voltou-se para a funcionria.
        Acha que poderia ser amanh de manh? 
         tarde seria melhor. Tenho de ir  Escola de Miss Randolph, de manh.
        Ento, quarta-feira  tarde, seja  concordou Nora com petulncia.  s duas.
        Muito bem, s duas.  Miss Spicer olhou para a me de Nora.  Quinta-feira, convm-lhe?
       A velha senhora fez que sim com a cabea.
        s nove da manh,  muito cedo?
        Eu levanto-me cedo  respondeu a Sra. Hayden.
       Miss Spicer voltou-se para mim.
        Quando  que seria uma boa ocasio para si, coronel?
        Em qualquer altura. Diga-me quando.
        No conheo os seus planos, coronel Carey  disse.  Sei que a sua mulher est grvida. No tinha a certeza se o senhor no quereria ir at Chicago e voltar depois para a audincia. Posso arranjar as coisas segundo as suas convenincias.
       Tinha esperado propositadamente que a audincia terminasse, na esperana de que se viesse a provar que a minha estada era desnecessria. Mas no valia a pena esperar mais. J sabia que tinha de ficar. Ia ter de telefonar a Elizabeth naquela tarde e dizer-lhe que no ia voltar conforme estava planeado.
        Vou ficar por c, Miss Spicer  disse.  Escolha a ocasio que lhe convier.
        Obrigada, coronel Carey. Sexta-feira, s quatro da tarde, no seu motel?
        ptimo.
        J nos podemos ir embora?  perguntou Nora.
        S mais uma coisa, Miss Hayden.
        Sim?
        O juiz pediu-me que obtivesse a sua autorizao para arranjar uma cpia do processo de divrcio entre a senhora e o coronel Carey.
       Nora explodiu.
        Isto  perfeitamente ridculo! No vejo qualquer razo para andarem a vasculhar o meu passado! Francamente! Dani no passava de um beb quando obtivemos o divrcio.
        O tribunal tem o direito de procurar toda e qualquer informao que lhe parea relevante para o bem-estar da sua filha. Acho que a senhora deveria facultar tal documento. Eles tm o direito de a intimar a apresent-lo. No acha que seria mais fcil cooperar?
        Est a ameaar reter a minha filha at a obteno de tais papis?  perguntou Nora, num tom glacial.
       Miss Spicer no se sentiu minimamente intimidada. Olhou calmamente para Nora.
        No estou a fazer qualquer ameaa, Miss Hayden  disse calmamente.  Estou apenas a inform-la dos poderes deste tribunal. Se tem algum interesse pelo bem-estar da sua filha, far tudo o que estiver ao seu alcance para cooperar. Acha que me exprimi correctamente, Sr. Gordon?
        Sem dvida, Miss Spicer.  Harris Gordon voltou-se para Nora.  A Dani ficou temporariamente sob tutela do tribunal. Isto quer dizer que o tribunal tem poder absoluto sobre ela. Sugiro que d a autorizao solicitada.
        Julguei que era meu advogado!  disse Nora, furiosa.  Afinal a nica coisa que fez no tribunal foi concordar com o juiz. Agora concorda com esta... esta mulher!  preciso eu continuar aqui para ser humilhada desta maneira? Temos de continuar neste tribunal idiota? Como  que eles ho de saber lidar com gente da nossa espcie, depois de lidarem com o gnero de gente que aqui vem normalmente? No podemos apelar para um tribunal superior ou fazer qualquer coisa assim?
        A Dani  menor.  este o nico tribunal em que ela pode aparecer legalmente.
       Nora olhou-o furiosa, com os olhos a chisparem.

        Nesse caso, para que diabo preciso eu de si?
        Eu no falei para si, Miss Hayden  disse Gordon numa maneira calma e cheia de dignidade.  A senhora  que me telefonou. Estou pronto a retirar-me logo que queira.
       Nora olhou para ele um momento mais e depois afastou-se.
        Oh, que v tudo para o diabo! Faa o que quiser. Quero l saber!
       Saiu de rompante do gabinete, fechando estrondosamente a porta atrs dela.
       Gordon voltou-se para Miss Spicer.
        Peo-lhe desculpa em nome da minha cliente. Esta histria horrvel deixou-a num estado de grande tenso.
        Eu compreendo, Sr. Gordon.
        Tenho no meu escritrio uma cpia do processo de divrcio. Se quiser passar por l, ponho-a  sua disposio.
        Muito obrigado, Sr. Gordon.  Marian Spicer ps-se de p.  Acho que  tudo, por agora.
       Voltmo-nos e encaminhmo-nos para a porta. A velha senhora foi a primeira a passar. Gordon seguiu-a, depois fui eu. A voz da funcionria fez-me voltar atrs.
        Coronel Carey, posso roubar-lhe s mais um instante?
       Voltei-me e aproximei-me dela.
        Faz favor, Miss Spicer.
       Ela fez um ligeiro sorriso.
        Estou contente por o senhor ficar, coronel. E tenho a certeza de que a Dani tambm se vai sentir muito feliz. Estava muito preocupada com a ideia de que o senhor talvez no pudesse ficar.
         o menos que eu posso fazer. At mesmo um desconhecido no teria coragem de voltar as costas a uma criana numa altura destas.
       Olhou-me por momentos, de um modo especial e depois baixou os olhos.
        Tambm acho, coronel.
       Quando sa, a minha ex-sogra estava  espera no assento traseiro do seu Rolls. Fez-me sinal e eu aproximei-me.
        Onde est a Nora?  perguntei.
        Foi-se embora  disse a velha senhora.  Quando eu sa, j ela tinha ido.  Olhou para o caminho.  Onde  que tem o carro?
        Alguns quarteires mais adiante.
        Venha. Eu levo-o at l.
       Instalei-me e o enorme carro rolou majestosamente para o meio do trnsito.
        Telefonou ao Sam Corwin?
        No. Pensei telefonar-lhe esta tarde.  Olhei pela janela, tristemente.
        Voc parece-me deprimido  observou, perspicaz.  Foi alguma coisa que a Miss Spicer lhe tenha dito e que no nos dissesse a ns?
       Olhei para ela.
        No. Que razo teria ela para fazer uma coisa dessas? Apenas me disse que a Dani ia ficar contente quando soubesse que eu ficava.
        Ento  isso. E ainda no disse nada  sua mulher?
        No.
        Acha que ela vai ficar aborrecida?  perguntou. Sem esperar pela minha resposta, continuou.  Sou mesmo uma velha tola. Claro que vai ficar aborrecida. Eu tambm ficava.  espera de uma criana de um momento para o outro e sozinha em casa.
       O imenso Rolls parou junto ao passeio. No era s isso, pensei. Era, por exemplo, se tnhamos ou no dinheiro que chegasse para a minha estada.
        Posso fazer alguma coisa? Talvez falar com ela ao telefone e explicar-lhe como  importante voc ficar.
       Sacudi a cabea.
        No, obrigado. Tenho a certeza de que Elizabeth compreende. 
       Abri a porta e sa. A Sra. Hayden inclinou-se na direco da porta.
        Telefone-me logo  noite. Diga-me se conseguiu saber alguma coisa.
        Est bem, eu telefono. 
       Fiquei a ver o carro ir-se embora. Depois meti-me no meu carro e fui para o motel. Era mais ou menos meio-dia quando pedi a chamada.
        Ol  disse  J almoaste?
        Claro  respondeu Elizabeth.  Como  que correram as coisas?
       Comecei a falar-lhe da audincia da autpsia, mas, ela interrompeu-me .
        Acabo de ler isso tudo nos jornais. O que foi que decidiram a respeito da Dani?
       Tentei ser o mais sucinto possvel. Depois, falei-lhe da carta. Quando acabei fez-se silncio.
        Elizabeth  disse-lhe  ouviste o que eu disse?
        Ouvi muito bem  respondeu. Falava em voz muito baixa.
        Sentes-te bem?  perguntei.
        Estou bem  disse.  Nunca me senti to bem em toda a minha vida. Gosto imenso de estar sozinha. Penso que queres ficar por ai at  prxima semana.
       Respirei fundo.
        Gostava de ficar, se tu no te importasses.
        Mas o que  que tu esperas conseguir ainda?  perguntou.
        Se eu me for embora neste momento, a Dani vai pensar que estou, mais uma vez, a voltar-lhe as costas.
        Mas tu tambm no lhe voltaste as costas da outra vez!  disse Elizabeth.  No lhe explicaste isso?
        Sim, expliquei  disse.  Mas ela no passa de uma criana. No creio que tenha percebido bem. 
        Tambm eu  disse Elizabeth.  Como  que pensas que eu me sinto? Com todos os vizinhos a olharem para mim e a perguntar como  que tu ests? Lem os jornais tal como eu. Sabem que tu a vs todos os dias!
       Percebi o que queria dizer.
        Isso  uma estupidez.
        Ser?  perguntou.  Tens a certeza de que a Dani  a nica razo que te faz ficar?
        Claro que , tenho a certeza  gritei.  Que diabo de outra razo podia eu ter?
        No  s por causa da Dani que ests preocupado com as cartas  reagiu.  Tu prprio j me disseste que no lhe podem fazer nada. A lei protege-a. Tu ests  a tentar proteger a Nora. Tu prprio perceberias isso, se te desses ao trabalho de seres honesto contigo mesmo! 
       Ouvi interromper a ligao do outro lado da linha. Liguei para a telefonista e disse-lhe que a comunicao tinha sido cortada. Depois ouvi o telefone a tocar.
        Al.  A voz dela era como se tivesse estado a chorar.
        Elizabeth  disse.  Desculpa. Vou tratar de tudo para voltar.
        No voltas nada  fungou.  Vais ficar a at que toda essa trapalhada esteja resolvida.
        Mas...  protestei.
       Interrompeu-me.
        No, no. Vais ficar a at te libertares de tudo isso. Quando voltares para casa no quero que venhas preocupado com nada. Quero o meu marido de volta inteiro, no quero aquele fantasma cheio de culpas recalcadas que conheci em La Jolla.
        E o dinheiro?  Perguntei.
        No te preocupes  disse.  Acabo de receber o teu cheque. So cento e quarenta dlares, chega-nos para uma semana. Posso sempre arranjar mais duzentos com o meu anel, se for preciso.
        Elizabeth!  disse, num tom surpreendido. Ouvi-a fungar. 
        O que ? 
        Elizabeth  disse.  Amo-te.
       A galeria Scaasi Corwin tinha um edifcio prprio em Post Street, no muito longe do Gumps. Era um edifcio antigo e estreito, entalado entre dois edifcios maiores, com uma fachada nova em tijolo mediterrneo. A entrada era por uma pesada porta envidraada, ao lado de uma pequena montra incrustada no tijolo como uma moldura. L dentro, como uma jia sobre fundo de veludo azul, via-se uma pequena escultura abstracta em bronze soldado, que brilhava em tons de vermelho e azul, sob um foco mbar.
       O nome do artista figurava em pequenas letras negras sobre um carto branco; as letras da porta estavam pintadas num dourado respeitvel: SCAASI CORWIN Tquio, So Francisco, Nova Iorque, Londres, Paris
       Abri a porta e entrei. Um jovem com uma barbicha  Van Dyke, cuidadosamente aparada, avanou para mim e, com um sotaque que condizia com o corte ingls do fato, inquiriu:
        Em que posso ser-lhe til?
        Tenho hora marcada com o Sr. Corwin.
         o elevador da esquerda, se faz favor. Os escritrios so no quarto andar.
        Obrigado  disse e dirigi-me para o elevador. Quando me aproximei, a porta abriu-se como por magia.  Quarto andar, se faz favor.
        Quarto andar  repetiu o ascensorista, fechando a porta.
        Muito obrigado.
       Olhei para ele de relance e senti-me quase imediatamente envergonhado do meu velho fato de sessenta dlares, com os seus trs botes. At o rapaz do elevador usava roupas de corte ingls. Sa do elevador para uma luxuosa sala de recepo. Por detrs da secretria, estava outro Van Dyke.
        Tenho hora marcada com o Sr. Corwin.
        Nome, por favor.
        Luke Carey.
       Fez que sim com a cabea.
        Obrigado.
        Se quiser ter a bondade de se sentar, vou ver se o Sr. Corwin est livre.
       Sentei-me e tirei uma revista da mesinha assimtrica posta em frente do sof. Ralits. Condizia. Mas era em francs. Podia olhar para as gravuras. Voltei as pginas. Havia uma fotografia de Brigitte num barco em St. Tropez. Pus-me a estud-la, Qualquer revista que tinha uma fotografia de Brigitte em biquini no podia ser inteiramente m. Uma sombra caiu sobre a pgina. Levantei os olhos.
        Coronel Carey?  perguntou a jovem loura e atraente.
       Fiz que sim com a cabea.
        O Sr. Corwin vai receb-lo. Queira fazer o favor de vir comigo.
       Pus-me de p. A rapariga sabia o efeito que fazia vista de costas e esforava-se por o valorizar. Era a primeira coisa agradvel que me acontecia em todo o dia. Era ainda melhor do que a revista.
        Obrigado  disse, atravessando a porta que ela abria para eu passar.
       O escritrio de Sam era igual ao resto, mas ainda mais. Paredes forradas a madeira de rvore de fruto. Dois Matisse cheios de cor; um Modigliani com olhos de abrunho num delicioso tom de amndoa; um Picasso que eu pensei que estivesse pendurado de pernas para o ar. E o bronze de Nora, Mulher na Rede, que lhe tinha conquistado o Prmio Eliofheim, colocado sobre um pequeno pedestal, a um canto, sob a luz brilhante de um nico foco.
       Sam entrou por uma outra porta, aberta na parede em frente. Veio em direco a mim de mo estendida.
        Luke.
       Retribui o cumprimento. Gostava dos seus apertos de mo: firmes, mas nem efusivos nem excessivamente cordiais. Agradavam-me.
        Como est, Sam?
        No estou mal. Com um pouco de cabelo a menos, mas mais nada. 
       Olhou para mim.
        Acho-o com bom aspecto.
        Boa vida  respondi.  E a mulher certa.
        Ainda bem.  Passou para trs da secretria.  Sente-se, Luke. 
       Deixei-me cair na cadeira em frente dele. 
        Fiquei muito chocado, quando soube o que se passou com a Dani.
       No respondi, mas pareceu-me que estava a ser sincero.
        Eu gostava da garota  disse.  Era uma criana simptica. Tenho pena que tivesse de lhe acontecer uma coisa destas. De qualquer maneira, era fatal como o destino.
        Por que  que diz isso?
       Encolheu os ombros.
        Nora.
        Conheceu o Riccio?  perguntei.
        Conheci.  Teve um sorriso amarelo.  Fui eu que os apresentei.
        Como  que foi?
       Riu-se.
        Viu os meus rapazes?
        Com os Van Dykes e os casacos?
       Fez que sim com a cabea.
        Claro que vi. Nem sabe como fiquei aliviado quando vi a sua secretria.
       Riu novamente.
        Ideia do Scaasi.  que aqui so sobretudo as mulheres que compram obras de arte. Funciona bastante bem.
        Como  que isso nos leva ao Riccio?
        H cinco anos, quando abri a galeria, ele era o principal empregado. E era muito bom. As mulheres adoravam-no.
        Com o Van Dyke e isso tudo?
        Sim, acentua o aspecto artstico  disse.  Assim uma espcie de beatnik asseado.
        Estou a ver.
        A Nora tambm viu  disse Sam com azedume.  Ele usava calas de estilo italiano... apertadas em volta do sexo, como as de um bailarino. Nora no conseguia tirar os olhos dele.  Abriu uma caixa de cigarros que tinha em cima da secretria e empurrou-a para mim.  J sabe como . O que a Nora deseja, a Nora tem de ter.  O olhar dele cruzou-se com o meu, cheio de candura.  S que, desta vez, ela teve mais do que aquilo que desejava.
        Explique-se melhor  disse, pegando num cigarro.  O que  que isso quer dizer?
        Ele no era melhor do que ela. Metia-se com tudo o que lhe passava pela frente. Mais de uma vez esteve quase a meter-se em sarilhos com clientes, mas conseguiu sempre safar-se.
        Por que  que no corria com ele?
        Era um bom empregado. Era o melhor vendedor que alguma vez tivemos. E era um tipo conhecedor.
	 Como  que o descobriu?
       Sam ficou a olhar para mim.
        Por qu tantas perguntas sobre o Riccio?
        Quero ver se descubro alguma coisa a cerca dele. Talvez, assim, pudesse convencer o tribunal de que no foi grande prejuzo.
        Estou a ver  acenou com a cabea, lentamente.  No h muita coisa, mas talvez ajude.
         o que eu penso. O que  que sabe acerca dele? Tinha alguns amigos de quem se lembre?
       Ficou um momento a pensar, depois pegou no telefone que tinha em cima da secretria.
        Traga-me o dossier da seco de pessoal sobre Tony Riccio. 
       Passados momentos, a porta abriu-se e a secretria de Sam entrou. Ps o dossier em frente dele, olhou para mim e saiu. Notei como os olhos de Sam a seguiam.
        Saudvel  disse, voltando-me para Sam.  Muito saudvel. No sei como  que eu teria aguentado o choque se voc no viesse em meu auxlio. 
       Riu-se e abriu o dossier. 
        Tony trabalhou para Arlene Gately antes de vir trabalhar para mim. Passou para c ao mesmo tempo que ela.
        Ela ainda trabalha para si?
        A Arlene morreu h dois anos. Num desastre de avio.
        Oh!  disse.  E amigos dele?
        No me lembro de nenhum. Dedicava-se todo s senhoras. Nunca soube que tivesse uma camaradagem estreita com qualquer homem.
        E quanto  famlia?
        Esto aqui em So Francisco. O pai tem uma venda de peixe no cais. Parece-me que os irmos tm um barco.
        Tem o endereo deles?
       Puxou de uma folha de um bloco e escreveu um endereo. Peguei na folha de papel.
        Gostava de me lembrar de mais qualquer coisa.
        H uma coisa  respondi.  Mas se no quiser no precisa de me dizer.
        O que ?
         sobre a Nora e o Riccio. A Sra. Hayden disse-me que voc a levou a fazer um acordo. Como  que conseguiu isso?
       Hesitou um momento.
        Eu sabia o que se estava a passar. Foi s uma questo de tempo at conseguir arranjar fotografias. Ela berrou, mas pagou.
        Ainda as tem?
       Sacudiu a cabea.
        Dei-lhas quando tudo ficou arrumado. No queria nada daquilo. Tinha recordaes que me chegassem.
       No disse nada. Ele olhou para mim.
        Foi um acordo leal. No toquei em nada que fosse verdadeiramente dela. Limitmo-nos a dividir o que fizemos em conjunto.
        No estou a criticar nada.
        Espero que consiga alguma coisa. Lembro-me muitas vezes da Dani quando era pequenina. Durante uns tempos, quando voc deixou de aparecer, ficou assim como que perdida.
        No foi por minha vontade  disse.  A Nora  que quis.
        No sabia  disse num tom cheio de surpresa.  A Nora disse-me que voc  que tinha decidido, um belo dia, que no voltaria a aparecer.
       Fiquei a olhar para ele.
         mesmo da Nora.
        Olhe, julgava que sabia tudo, mas afinal...  Esmagou o cigarro e acendeu outro.  Houve uma vez uma coisa que eu nunca hei-de esquecer.
        O que foi?
	 Foi h cinco anos. A Dani tinha quase dez anos e falou que gostava de fazer uma festa de anos. Nora foi aos arames. Disse  criana que parasse de chamar a ateno para a idade, que j era suficientemente crescida para compreender que se andasse por a a falar na idade isso se tornaria muito embaraoso para a me. Dani no compreendeu. Por isso levantou os olhos para a me e perguntou: "No queres que eu cresa, mam?" Nora ia responder. Depois, viu que eu estava a olhar para ela e afastou-se, deixando a criana ali especada, com uma expresso de desgosto.
       Tirou uma fumaa do cigarro.
        Sinceramente, estou convencido de que Nora tinha cimes da Dani. Da juventude dela, de a ver crescer. De tudo o que se relacionava com ela. Mas eu no podia fazer nada. Nora sempre me tornara bem claro que eu no era pai dela e no tinha o direito de interferir.
       Ficou um momento a olhar para a secretria, depois levantou os olhos para mim.
        Suponho que pergunta a si prprio porque  que eu, sabendo tudo o que sabia acerca de Nora, casei com ela?
        Pensei nisso algumas vezes.
        Talvez no consiga compreender  disse calmamente.  Eu era crtico de arte num jornal de uma terra pequena. Digam o que disserem, no mundo da arte, So Francisco  uma terra pequena. Descobri qualquer coisa de grande. Isso acontece talvez uma vez na vida, com um pouco de sorte. Mas s com um pouco de sorte. Eu descobri Nora Hayden e, seja ela o que for, na sua arte  das maiores. Aquilo que ela faz em escultura  a verdade. To verdade que nem paramos para pensar que ela se gasta toda no seu trabalho e no lhe fica nada para si prpria ou para dar aos outros como ser humano. Eu sabia como ela era, mas pensei que podia faz-la mudar. Pensei que podia fazer que parte daquela verdade que eu via no trabalho dela passasse para a prpria vida. Mas estava errado, completamente errado. O que eu no vi foi que a nica verdade de que ela  capaz  a que pe no seu trabalho. Mais nada, mais ningum conta. E ainda havia outra coisa.
        O qu, Sam?
       Olhou para mim.
        Amava-a  disse simplesmente. Depois, teve um sorriso sombrio.  Mas veja para onde foi o amor. No tenho mais nada a mostrar do que me ficou dele, a no ser alguns quadros na parede e umas esttuas. Voc tem alguma coisa. Por muito ms que as coisas paream agora, ter sempre qualquer coisa para mostrar para onde foi o amor.
       Sabia o que ele queria dizer. Pus-me de p.
        Voc foi mais do que amvel, Sam.
       Levantou-se tambm.
        Gostava de mandar qualquer coisa  Dani. Acha que posso?
        Tenho a certeza de que ela havia de gostar, Sam.
       Estendeu-me a mo.
        D-lhe todo o meu carinho.
        Com certeza, Sam  disse.
        Obrigado. 
       Post Street estava efervescente com todas as pessoas que saam de tarde a fazer compras. A luz do Sol dava-me em cheio nos olhos, depois da obscuridade fresca e protegida da galeria. Sentia o suor brotar-me da pele dentro da roupa e dirigi-me para um bar,  procura de fresquido. Pedi uma garrafa de cerveja. Dois turistas entraram e ficaram ao meu lado. Tambm mandaram vir cerveja.
        Cus, est um calor!  disse um deles.
        Disso  que no restam dvidas  disse o outro, enquanto levava aos lbios o copo coberto de espuma.  Mas pensa como o calor  mais intenso para os pobres tipos que esto l naquela rocha no meio da baa. Aposto que davam tudo por uma cerveja fresca num dia como o de hoje.
       Olhei-os de soslaio e pensei na rocha de que estavam a falar. Alcatraz. Havia outras rochas. A minha filha, tinha uma s para ela. E no passava de uma criana.
       Perguntei a mim mesmo o que  que ela estaria a fazer para se refrescar naquela tarde de calor. Perguntava a mim mesmo, o que estaria Miss Spicer a descobrir acerca dela. Coisas provavelmente que eu nunca viria a saber. Nunca poderia saber.
       Marian Spicer reconheceu os sapatos mesmo antes de ouvir a voz. Estavam to bem engraxados que quase conseguia ver neles a prpria imagem, embora soubesse que, se o p se levantasse, a parte de cima se afastaria ligeiramente da parte de baixo, pondo a descoberto a meia branca, Ergueu a cabea das folhas de apontamentos que tinha espalhadas por cima da mesa.
        Ah, ser que a gentil Marian vem jogar com Robin Hood e passar o tempo nalguma vereda sombria de Sherwood Forest nesta tarde de cancula?
       Ela tossiu.
        Senta-te, Red, antes que entornes o caf por cima dos meus papis.  uma sorte eu conhecer-te, Nem o xerife de Nottingharn seria capaz de entender a tua linguagem.
       Ficou parado a sorrir, com os olhos azuis franzidos e o cabelo ruivo desgrenhado como sempre. Tinha uma chvena de caf em cada mo.
        Parece-me que ests a precisar de atestar  disse, pondo uma das chvenas em frente dela.
        Obrigada.
       Olhou em volta. A cafeteria estava quase sem ningum.
        Algum tem de tomar uma medida drstica. Os empregados no esto a aproveitar devidamente o intervalo do caf.
       Numa das outras mesas, um funcionrio de vigilncia e orientao estava sentado com uma rapariguita e a me. A rapariguita tinha quinze anos, estava grvida e embezerrada. A me falava sem parar para o funcionrio que abanava a cabea pacientemente. Marian j sabia o que a me devia estar a dizer. Tinha ouvido a mesma conversa muitas vezes.
        Eu nem sabia, nunca desconfiei... A minha prpria filha... Fiz essa miudagem com quem ela...
       Era sempre a mesma coisa. A miudagem metia-se em sarilhos e os pais ficavam sempre admirados, Nunca davam por nada. Estavam sempre demasiado ocupados com outras coisas. Algumas delas eram vlidas, outras no, mas todas levavam ao mesmo Tribunal de Menores.
        Por onde  que andaste, durante todo o dia?  perguntou, arrumando cuidadosamente os papis.
       Red sorveu ruidosamente o caf.
        O que  que te parece? Andei por a  procura daquele diabo.
       Marian sabia de quem ele estava a falar. Um rapaz de dezasseis anos que os pais tinham despachado para o Colgio Militar para fazer dele um homem, depois de ele ter sido apanhado numa rusga da polcia, seis meses antes. Passados quatro dias, tinham recebido a noticia de que ele tinha fugido do Colgio.
        Encontraste-o?
        Encontrei, sim. Mesmo no stio onde tinha pensado que ele devia estar. Na retrete de um bar de travestis em North Beach.
        No percebo porque  que precisaste de quatro dias para isso.
        Sabes quantas espeluncas dessas existem?  perguntou indignado. Depois, viu o sorriso dela e recostou-se na cadeira.  Devias ter visto o mido quando dei com ele. Ainda estava com o uniforme do Colgio. Parecia que tinha dormido vestido durante aqueles quatro dias. Quando me viu, ficou histrico. A espernear, aos gritos, a querer arranhar. Tive de chamar um carro-patrulha para me ajudar a traz-lo.  Olhou para ela e fez um sorriso maldoso.  mesmo assim no posso dizer que o dia me tenha corrido mal. Recebi cinco propostas e uma delas de uma mulher. O que naquele stio  uma verdadeira proeza. Ela deve ter pensado que eu era um tipo esquisito.
        Preveniste os pais? 
       Red fez que sim com a cabea.
        Vm amanh.  Encolheu os ombros.   a vida. Rapazes que querem ser raparigas.
        Pobre garoto!
       Aquele era dos tais casos que no lhes agradavam nada. Sentiam-se completamente inteis. No havia nada de construtivo que pudessem fazer. A nica possibilidade era entregar o caso aos psiquiatras. E havia ocasies, estava convencida disso, em que tambm eles no sabiam que fazer.
        Ests muito atarefada. Em que  que ests a trabalhar? No caso Hayden?
        O nome da pequena  Carey.
        Eu sei. Mas todos os jornais falam do caso Hayden. Por causa da me, que  a coqueluche desta cidade.  Bebeu mais uma golada de caf, ruidosamente.  O que  que h com a mida?
       Marian olhou-o, pensativa.
        No sei l muito bem. Ainda no consegui perceb-la bem. No tem nada a ver com as outras crianas com quem tenho lidado.
       Red levantou o sobrolho com ar interrogador.
        Consegue dar-te a volta, hem? Esses so os relatrios preliminares?  Ela fez que sim com a cabea.  Deixa-me dar uma vista de olhos.
       Ficou a v-lo ler a primeira pgina, Era o relatrio do mdico que a tinha examinado. Todas as raparigas que davam entrada eram submetidas a um exame fsico rigoroso, antes de serem enviadas para as residncias. Dani tinha sido examinada no sbado anterior, mas os resultados do exame psicomtrico s tinham sido processados na segunda-feira, porque a seco fechava durante o fim-de-semana.
       Marian tinha a sensao de que, algures, havia qualquer coisa que lhes escapava, qualquer coisa de muito importante que se relacionava com a criana, mas no conseguia descobrir o que era. Red era muito bom. H muitos anos que fazia aquele trabalho. Talvez lhe ocorresse alguma coisa que pudesse ajudar.
       Acabou de ler o relatrio mdico e deitou-lhe uma olhadela cheia de cinismo.
        Estou contente por verificar que, pelo menos, a pequena  normal.
       Sabia o que ele queria dizer. A ruptura himenal  completa e a cicatriz encontra-se sarada e  de idade indeterminada. No entanto, h sinais de irritao nas paredes vaginais e um ligeiro inchao do clitris, o que aponta para a probabilidade de um alto nvel de actividade sexual durante o perodo que precedeu imediatamente este exame.
        Comeo a acreditar que, em So Francisco, no existem virgens com catorze anos de idade.  Olhou-a e teve um sorriso.  Apenas de um ponto de vista histrico Marian, ainda era virgem aos catorze anos?
        Deixa-te de gracejos, Red. No deixes que o trabalho te distora os pontos de vista. As crianas bem comportadas geralmente no vm para aqui.
        Quem era ele? O tipo que ela matou?
       Marian olhou-o fixamente.
        Recusa-se a falar. Quando se toca nesse assunto, fecha-se completamente. No fala, no diz nada. L o exame psicomtrico que j vs por ti prprio.
       Viu-o erguer fortemente as sobrancelhas quando chegou a meio da pgina. Sabia do que se tratava.
        Esta mida tem um coeficiente de inteligncia de 152. 
         verdade. Temos perante ns um nvel invulgar de inteligncia e percepo.  por isso que se torna to difcil perceber o que se segue. L.
       Continuou a ler em voz baixa. Percorreu rapidamente as pginas seguintes e em seguida pousou o relatrio.
        Ela est a brincar connosco. No percebo. Por qu?
         exactamente isso que eu sinto. Leste o que ela disse  psiquiatra, no fim da sesso? Que admitia perfeitamente que procedera mal, que compreende que no devia ter feito aquilo, que est perfeitamente disposta a discutir tudo o que diga respeito  sua m aco, mas que no est interessada em discutir mais do que isso. Que o resto da sua vida , ao mesmo tempo, pessoal e privado e que no se sente disposta a revelar nada a esse respeito, por no ser pertinente com aquilo que fez.
         uma bela tirada.
       Marian fez que sim com a cabea.
        No sei quando, durante este fim-de-semana, ficou novamente senhora de si. Foi uma pena no termos conseguido tirar qualquer coisa dela no sbado, quando chegou. Nessa altura, estava nervosa e perturbada.
        Achas que algum lhe ensinou o discurso?
        A nica pessoa com quem falou foi o pai. Ele nunca pensaria numa coisa dessas. Para ele, ela continua a ser uma criana. A ltima vez que a viu, tinha ela cerca de oito anos de idade e, embora se d conta de que est maior, no creio que j tenha percebido que tambm est mais velha.
        Como  que ele ?
        Parece um homem muito simptico.
        Com a folha de servio que teve na guerra?  a voz de Red era incrdula.
         a que est o paradoxo. No posso deixar de sentir pena do tipo. Pelo fato que usa, v-se bem que no est l muito  vontade de dinheiro. No entanto, fez a viagem de Chicago at aqui para ver se podia ser til em alguma coisa. E a mulher, l em Chicago, est  espera de criana de um momento para o outro e ele est perfeitamente dividido. Quer fazer o que for melhor, mas no sabe l muito bem como.
        E Miss Hayden?
        Nora Hayden sabe o que quer. Sempre. Pode ser uma artista de renome, mas tambm  uma verdadeira filha da puta. Sinto pena da mida, a viver com ela todos estes anos. No deve ter sido fcil...
        No me parece que gostes dela.
        No, no creio. Mas isso no altera o problema bsico. Como  que se entra em contacto com a mida, o que  que a pode fazer abrir?
        s vezes, o melhor  ignor-las. Talvez quando ela ganhar um pouco mais de confiana em ns compreenda que a queremos ajudar e se aproxime de ns.
        Talvez desse resultado, se tivssemos tempo. Mas o Murphy s nos deu uma semana. Tenho a impresso de que o esto a pressionar fortemente para despachar as coisas e ele no vai deixar ultrapassar o limite legal de quinze dias.
       Marian pegou na chvena. O caf estava frio, mas bebeu na mesma.
        Tenho a sensao estranha de que no estamos de todo perto da verdade no que diz respeito a este caso. A julgar pela maneira como a pequena se controla, no consigo acreditar que ela matasse algum.
        Ento quem  que achas que o matou? A me?
         muito mais provvel, segundo me parece.
        Mas todas as provas so contra ela. Leste todos os depoimentos. Ouviste o relatrio do mdico legista e ouviste a leitura dos depoimentos. Tudo aponta para que tenha sido a pequena.
        Exactamente.  o mesmo que quando eu entro em casa, e vejo tudo muito arrumado. Sei logo que h qualquer coisa que no est bem.  demasiado perfeito. Alm disso, h uma nica testemunha.
        A me?
       Fez que sim com a cabea. Red ficou um momento a olhar para ela, pensativo.
        No deixes que o facto de no gostares da me te leve a exagerar. Sinto geralmente a mesma coisa quando me dou conta da estupidez da maior parte dos pais. Preferia, sem dvida, pr as culpas neles em vez de as pr nas crianas. Mas no  bem assim.
       Ps-se de p, foi at  cozinha e voltou com mais duas chvenas de caf.
        Onde  que est a criana, neste momento?
        Psiquiatria. Talvez a Jennings consiga estabelecer o contacto com ela hoje.
        A Sally Jennings  muito boa. Se ela no conseguir, mais ningum consegue.
        Espero que sim. Entretanto, tenho de me pr a mexer. O juiz Murphy quer que eu leia o processo de divrcio dos pais. Tenho de ir buscar uma cpia ao escritrio do advogado.
       Marian empurrou a cadeira para trs.
        Como  que esto a Anita e os pequenos?
        O costume. A Anita quer arranjar um part-time para ganhar algum dinheiro, mas j lhe disse que s por cima do meu cadver. Estou farto de ver o que  que acontece aos midos cujos pais tm empregos em part-time.
       Ela acenou com a cabea, em sinal de compreenso. Havia alturas em que perguntava a si mesma como  que, alguns dos homens que eram casados se agentavam com o que ganhavam. Tambm percebia porque  que os sapatos de Red estavam sempre pelo menos h dois meses a precisar de ser arranjados.
       Red suspirou.
        O Stevie, o mais velho, anda a chatear-nos porque quer uma scooter. Diz que todos os midos l na escola tm scooters.
        Vais comprar-lhe uma?
         Se conseguir arranjar uma, em segunda mo e em bom estado, por cinquenta dlares.  Baixou os olhos para a mesa.  Acho que me estou a enganar a mim mesmo. No se arranja nada por esse preo.
        Talvez tenhas sorte, Red.
        Eu no perco a esperana. Mas, s vezes, tenho medo.
        O que  que queres dizer com isso?
        O Stevie  bom rapazinho, e tudo isso, mas no posso deixar de pensar em todas as coisas de que ele tem de abdicar. Sabes o que quero dizer. Talvez no valha a pena conhecer tanta coisa.
       Ela fez que sim com a cabea.
        s vezes acordo a meio da noite  disse.  A sonhar que estou em servio e que me trazem um mido e que  o Stevie. E quando eu lhe pergunto porqu, ele diz-me: O que  que tu esperavas, pai? Que eu continue a acreditar que a lua  feita de queijo fresco?"
       Marian ficou um momento a olhar para ele. Era o que acontecia  maior parte deles. Viam de mais e sentiam de mais. Ps-lhe a mo amiga em cima do ombro.
        Esteve muito calor hoje e tu j trabalhaste bastante. Porque  que no descansas o resto da tarde e vais para casa?
       Estendeu o brao e deu-lhe uma pancada na mo, em sinal de reconhecimento.
        Para qu?  perguntou, sorrindo.  Para a Anita ficar toda preocupada, a pensar que estou doente ou qualquer coisa assim?
       
       O diploma que estava emoldurado na parede por detrs da pequena secretria cheia de papis, no cubculo de vidro, igualmente minsculo, era de um doutoramento em Psicologia pela Universidade de Wisconsin. O nome escrito a letra gtica no diploma era o de Sally Jennings. A data era junho de 1954.
       Sally Jennings tinha trinta e oito anos quando recebeu o diploma. Para trs dele havia quinze anos de trabalho como funcionria do tribunal, na vigilncia e orientao de menores, ao mesmo tempo em que estudava e fazia economias para atingir a sua finalidade. Depois de ter acumulado cuidadosamente o dinheiro necessrio, pediu uma licena sem vencimento por um perodo de dois anos e, quando voltou, trazia o diploma. Mais dois anos se tinham passado antes que surgisse uma vaga no departamento em que trabalhava actualmente.
       Tinha um rosto jovem, cabelos grisalhos, uma maneira calma e agradvel e um jeito especial para lidar com as crianas que chegavam at ela. Na maioria dos casos, as crianas sentiam-no e correspondiam-lhe. Uma vez por outra, aparecia uma que escapava  sua atraco intangvel. Esta era uma dessas ocasies.
       Olhou atravs da secretria para Dani. A pequena estava sentada, em silncio, a face muito composta, as mos graciosamente cruzadas no regao. Sally j tinha reparado anteriormente que a pequena tinha as unhas cuidadosamente arranjadas. O controlo era perfeito. Estendeu a mo para um cigarro e notou que os olhos da pequena a seguiam.
        Queres um cigarro, Dani?  perguntou delicadamente, estendendo-lhe o mao.
       Dani hesitou.
        No faz mal, Dani. Aqui podes fumar.
       Dani aceitou o cigarro e o lume.
        Obrigada, Miss Jennings.
       A psicloga acendeu o seu prprio cigarro e recostou-se na cadeira. Expeliu o fumo lentamente e ficou a v-lo vogar ao acaso em direco ao tecto.
        Gosto de ver o fumo pairar no ar  disse com naturalidade.  Parecem nuvezinhas minsculas no cu, tomando toda a espcie de formas e feitios.
        Havia um jogo parecido que ns fazamos na Escola de Miss Randolph. Chamvamos-lhe o Rorschach Instantneo.  Sally Jennings olhou de repente para Dani. Havia nos olhos da pequena uma expresso ligeiramente divertida.  Ficava admirada se soubesse o que algumas das raparigas viam. Algumas iam bastante longe.
        Sabes bastante de psicologia para a tua idade.
        Li muito sobre o assunto. A certa altura, pensei que gostaria de ser psicloga, mas mudei de ideias.
        E por qu, Dani? Penso que serias capaz de te sair muito bem.
        No sei. Talvez me desagradasse a ideia de bisbilhotar o esprito das pessoas. Ou talvez apenas por eu no bisbilhotar. S isso.
        Achas que eu estou a bisbilhotar, Dani?
       Dani olhou para ela.
         esse o seu trabalho, no ?  perguntou sem rodeios.  Ver o que  que consegue tocar-me?
        Esse  s um aspecto, Dani. O menos importante. O principal  encontrarmos uma maneira de te ajudar.
        E se eu no quiser ajuda?
        Acho que todos queremos, de uma maneira ou de outra, quer o queiramos admitir perante ns prprios ou no.
        A senhora, Miss Jennings, precisa de ajuda?
        Acho que sim. H alturas em que me sinto desesperada.
        E, nessas alturas, vai a uma psicloga?
       Sally Jennings fez que sim com a cabea.
        H anos que ando a fazer psicanlise. Desde que percebi que tinha de me conhecer melhor a mim prpria antes de conseguir fazer o meu trabalho como deve ser. Pelo menos uma vez por semana. s vezes mais, quando tenho tempo.
        A minha me diz que s as pessoas doentes  que fazem psicanlise. Diz que  um substituto para a confisso dos catlicos.
       Sally Jennings olhou para Dani.
        E a tua me tem sempre razo em tudo o que diz?
       Dani olhou para ela sem responder. A psicloga viu a muralha erguer-se nos olhos da criana. Mudou rapidamente de assunto.
        O mdico que te examinou disse-me que te tinhas queixado de que te doam os seios. J h muito tempo que te doem?
       Dani fez que sim com a cabea, em silncio.
        H quanto tempo?
       Dani hesitou.
        Isto no  bisbilhotar o teu esprito.  apenas uma pergunta de carcter mdico.
        H alguma coisa que no est bem?  perguntou Dani, com uma voz subitamente preocupada.
       Sally viu as mos da criana pousarem-se-lhe involuntariamente no peito e sentiu um sobressalto na conscincia por lhe ter reacendido o medo.
        No, est tudo bem, mas os mdicos gostam sempre de saber as razes de tudo.
        Quando comecei a crescer, costumava apertar os seios. Depois comearam a doer-me e deixei de ligar. Desde a, doem-me um bocado, de vez em quando.
       Sally riu-se.
        Mas por que  que tu fizeste uma coisa dessas?  uma ideia um bocado fora de moda. J h muitos anos que as raparigas deixaram de fazer isso.
        Ouvi a minha me falar nisso a uma amiga. Dizia que as gueixas, no Japo, fazem assim para terem um ar jovem e para no crescerem.
        E tu no querias crescer, Dani? 
        Claro que queria!  disse Dani rapidamente. 
        Ento por que  que fizeste isso?  repetiu Sally.
       A pequena no respondeu.
        Foi por pensares que isso agradaria  tua me?
       Viu a verdade daquela hiptese reflectida nos olhos de Dani que ficaram, de repente, muito abertos. Obrigou o corao a fechar-se-lhe e continuou a falar.
        Foi por isso, no foi, Dani? Apertaste os seios at eles te doerem porque pensaste que a tua me ficaria satisfeita se tu no crescesses? Por que  que fizeste isso, Dani? Alguma vez a tua me te disse que a fazias sentir velha por estares a crescer?
       De repente a criana comeou a chorar, com a cara escondida nas mos. Com suavidade, a psicloga desprendeu o cigarro dos dedos de Dani e esmagou-o no cinzeiro. 
        A maior parte das mes no querem que os filhos cresam, Dani. Gostam que eles continuem pequenos, porque isso as faz sentir mais importantes, mais teis e tambm mais jovens.
        A minha me gosta muito de mim  soluou Dani por entre os dedos.  A minha me gosta muito de mim.
        Claro que gosta, Dani. Mas isso s por si no impede que uma me, muitas vezes, cometa erros.
       A pequena levantou os olhos, brilhantes de lgrimas.
        No quero, no quero continuar a falar, Miss Jennings. Posso voltar para o meu quarto?
       Sally ficou um momento a observ-la, depois fez que sim com a cabea.
        Claro, Dani  disse, carregando num boto que tinha em cima da secretria, para chamar uma enfermeira.  Amanh voltamos a falar.
       Atravs das portas envidraadas do gabinete ficou a ver Dani avanar ao longo do corredor. Suspirou, cansada. O dia tinha sido comprido. Tinha conseguido avanar um pouco. Talvez amanh conseguisse mais.
       O som da msica vinda da televiso chegava ao quartinho de Dani atravs da porta fechada. Inconscientemente, os ps de Dani comearam a acompanhar o ritmo. Passados alguns minutos, cedeu  atraco da msica, abriu a porta e saiu para o corredor. Aqui a msica era mais forte e ela seguiu-a at  sala de recreio onde as raparigas estavam reunidas em frente do aparelho de televiso. A msica parou e o rosto macio e liso de Dick Clark encheu o cran. A voz dele saiu com naturalidade do altifalante.
        Bem-vindos ao Palco Americano, E para lanar aos quatro ventos a nossa sesso de hoje, o nosso primeiro disco ser do inconfundvel Chubby Checkers que nos vai cantar o seu imortal Let's Twist Again!
       Dani ficou a olhar, enlevada, enquanto a cmara recuava para deixar ver a pista de dana apinhada. A maior parte dos rapazes vestia casacos desportivos e as raparigas vestiam igualmente sem qualquer formalidade. Houve um momento de silncio e de expectativa e depois o disco fez-se ouvir bem sonoro. A voz roufenha e ritmada do cantor encheu a sala.
       Let's Nist again... Lak pve did last Sum muh... Let s Im ist a gain... Lak we did last Yeuh.
       Algumas das raparigas formaram pares e puseram-se a danar em frente da TV. Na outra extremidade da sala, uma enfermeira observava-as, batendo igualmente o ritmo com o p.
        Sabes danar o Twist, Dani?
       Dani voltou-se. Era a rapariga que ficava sentada ao lado dela  mesa. Fez que sim com a cabea.
        Sei sim, Sylvia.
       A rapariga sorriu.
        Ento, vamos mostrar-lhes como ?
       Dani retribuiu-lhe o sorriso.
        Vamos a isso.
       As duas raparigas puseram-se em posio, arredondando os ombros e exibindo na cara uma expresso exttica, ao mesmo tempo em que apanhavam o ritmo. Enquanto giravam para trs e para a frente, parecendo grudadas ao cho, nem uma s vez olharam para a cara uma da outra. Cada uma delas tinha os olhos fixos mais ou menos  altura dos joelhos da companheira.
       Passados alguns momentos de silncio, em que cada uma punha  prova a percia da outra, comearam a falar.
        Danas muito bem  disse Sylvia.
        Mas no to bem como tu.
        Adoro danar!  disse Sylvia.  Eu quero ser profissional.
        J podes ser considerada uma profissional.
       Sylvia sorriu, orgulhosa. Era ligeiramente mais alta do que Dani, um ano mais velha, tinha os cabelos castanhos quase louros e olhos azuis.
        Vamos tentar algumas variaes.
        Ok.
        Hidly-Gully. Dan!  sorriu e seguiu-lhe os passos.  Agora o Madison.
       Sylvia rodou para fora e Dani girou em volta dela, depois Dani rodou para fora, enquanto Sylvia girava em volta dela. Sylvia riu em voz alta.
        Agora vamos arras-las com o Watusi!
       Os passos quase primitivos de uma dana da selva tomaram vida quando ela se ps em posio para acompanhar a msica. Dani seguiu-a, enquanto a msica entrava num crescendo para ir morrer num estampido, enquanto o ltimo lamento do cantor se perdia no ar. As duas raparigas ficaram paradas, a respirao pesada, olhando uma para a outra.
         demais!  disse Sylvia.
        D-se tudo  disse Dani.
       A msica voltou. Sylvia olhou para Dani.
        Experimentamos outra? 
       Dani sacudiu a cabea.
        Os cigarros deram-me cabo do flego. Desta vez, fico na pista de aterragem.
       Sylvia sorriu.
        Ainda tenho aqui uma moeda para uma cola. Dividimos.
        Obrigado. 
       Dani tambm podia ter comprado uma, mas no seria delicadeza. Comprava para a prxima vez. Sylvia dirigiu-se para a mquina e tirou uma cola. Havia palhas numa mesa ao lado. Enfiou duas na garrafa e voltou para junto de Dani.
        Vamos sentar-nos ali.
       Sentaram-se num stio de onde podiam ver a televiso e beber a cola. Veio um anncio e seguiram-no ainda com maior ateno do que ao prprio programa.
        Este anncio da pastilha elstica  o fim. 
       Dick Clark apareceu de novo e depois a msica. Sylvia voltou-se para Dani.
        Hoje vais outra vez aturar a lavagem ao crebro?
       Dani fez que sim com a cabea.
        Quem  que te calhou? A Jennings?
        .
        Essa, enfim, ainda se pode suportar. Mas aquele velho, o patro. Parece mesmo o Thriller quando se pe a olhar para a gente com aqueles olhos de peixe.
        No sei quem   disse Dani. 
       Ficaram uns momentos a ver os pares que danavam no cran. A cmara aproximou-se de um deles. O rapaz era alto e bem-parecido, com o cabelo cortado e penteado segundo a ltima moda. A rapariga trazia uma camisola larga e uma saia. Perceberam que a cmara os estava a focar e resolveram dar espectculo.
        Aquele rapaz  um espanto. Faz-me lembrar o meu namorado.
         um bocado parecido com o Fabian  disse Dani.
        O meu namorado  um grande admirador do Fabian  disse Sylvia orgulhosa.  Foi a primeira coisa que me atraiu nele. Eu acho que o Fabian  o maior!
        Eu gosto mais do Rickie e do Frankie Avalon. Metem-no num chinelo a cantar.
        O Elvis tambm. Mas eu no estou a falar das vozes. O Fabian tem qualquer coisa. Basta ele olhar para mim que eu derreto-me toda.  Olhou para Dani.  Tens namorado?
        No.
        Mas tinhas?
       Dani sacudiu a cabea.
        No propriamente. Nada de fixo.
        Aquele tipo no era teu namorado. O tal...
       Dani sacudiu a cabea.
        Julgava que era  disse Sylvia.  Como te puseram aqui connosco. Costumam pr as virgens noutro lado. Ento foi outro tipo? Queres falar nisso?
        No quero.
       Sylvia recostou-se na cadeira.
        Sinto a falta do meu namorado.
        Onde  que ele est?
       Sylvia sacudiu o dedo na direco da janela.
        Na residncia dos rapazes.
        O que  que ele est l a fazer?
        Trouxeram-nos ao mesmo tempo  disse Sylvia.  Rickie pediu um carro emprestado para ns darmos uma volta. E fomos at Golden Gate Park. Foi a que os chus nos deitaram a mo.
        No percebo. Por que  que eles vos foram chatear?
       Sylvia riu-se.
        No te armes em esperta. J te disse que o Rickie tinha um carro emprestado. Alm disso, eram duas horas da manh e ns estvamos no banco de trs a fazer j sabes o qu.  Bebeu o resto da Cola.  Rapazes, aquilo estava um sonho. No sei se ests a ver?  Suspirou.  O carro descapotvel, a lua, msica do rdio. amos mesmo a entrar em rbita quando os Intocveis apareceram. Foi uma trapalhada.
        Vou buscar outra Cola  disse Dani.
       Quando voltou, Sylvia estava a observar um jovem cantor que aparecia como convidado.
        Ele no est a cantar  disse Sylvia.  Est s a mexer os lbios ao som do playback.
        Como  que sabes? 
        No se v a orquestra, pois no? Alm disso, ele est a cantar com eco. Isso s se consegue num estdio de gravao.  Ficou um momento a ver um grande plano do cantor.  Mas ele  girssimo, embora no to giro como o Fabian. Tiveste correio hoje?
       Dani sacudiu a cabea.
        No, mas tambm no estava  espera.
        As outras tiveram correio. Eu estava  espera de carta do Rickie, mas no recebi nada. Ele disse que me escrevia todos os dias.  A voz dela tomou um tom de preocupao.  A no ser que essas olheiras me estejam a ficar com as cartas. O que  que achas?
        No, no me parece.
        Se no recebo noticias dele amanh, morro!
        No te preocupes, vais ver que tens noticias dele  disse Dani, tentando consol-la.
       As duas raparigas ficaram ali sentadas a partilhar a Cola.

       Cheguei s docas um pouco antes da hora do jantar. Os vendedores estavam atarefados a arrumar as suas bancas. Dispunham artisticamente as santolas abertas em cima do gelo picado, enfeitando o rebordo dos carrinhos com alegres taas de vidro, cheias de camares cor-de-rosa, acabados de cozer. Havia pilhas de po saloio acabado de sair do forno e de pezinhos, e por toda a parte se sentia o cheiro forte a mercado de peixe.
       Passei pelo Tarantino em direco ao Museu Martimo. Os barcos de pesca estavam amarrados para a noite, balanando ligeiramente com o movimento da gua. E, ao longo do cais, havia mais bancadas de vendedores. Uma delas, quase no meio do quarteiro, estava coberta com um toldo, desbotado. Tinha pintado o nome RICCIO. Parei. Um homem que estava a trabalhar na banca ao lado, dispondo as santolas com mos hbeis, disse pelo canto da boca:
        Eles hoje esto fechados.
        Sabe onde  que os posso encontrar?
       Pousou as santolas e dirigiu-se a mim.
        O senhor  reprter?
       Fiz que sim com a cabea.
        Esto na casa funerria. O funeral  amanh de manh. Veio entrevistar a famlia?
        Mais ou menos.
        O rapaz no valia nada  disse o homem.  Quando era mido nunca vinha ajudar na venda. Nunca quis sujar as mos com o peixe, como os irmos. Era superior para isso. Eu disse ao pai que o rapaz ia acabar mal.
        Qual  a casa funerria?  perguntei.
        Mascogani.
        Onde  que fica? 
        Sabe onde  o Bimbo?  perguntou.
       Fiz que sim com a cabea.
        Fica do outro lado da rua, cerca de um quarteiro mais abaixo.
        Obrigado.  Encaminhei-me para o stio onde estacionara o carro. Encontrei um espao para estacionar no Jacksom perto da casa funerria. Era um edifcio com a fachada em mrmore e pedra branca. Abri as portas e entrei. Fiquei parado no vestbulo, at os meus olhos se habituarem  luz difusa e depois aproximei-me do quadro de instrues, coberto de vidro, que estava pendurado na parede. Logo a seguir, um homem vestido de escuro surgiu por detrs de mim.
        Em que posso ser-lhe til?  perguntou numa voz abafada.
        Riccio?
        Por aqui.
       Segui-o at ao elevador. Carregou num boto, e a porta abriu-se.
        No sei se a famlia ainda l est. So capazes de ter ido jantar, mas pode assinar o seu nome no livro que est mesmo atrs da porta. Sala A.
        Obrigado.
       A porta fechou-se. Quando se abriu de novo, sa. A sala A ficava mesmo do outro lado do corredor. Olhei pela porta aberta. Atravs de um arco que havia ao fundo da sala, vi o caixo sob um manto de flores. Enquanto me encaminhava para l, os meus passos no se ouviam por causa da alcatifa espessa. Parei ao lado da urna e baixei os olhos.
       Este era, ento, o homem que a minha filha tinha morto.  primeira vista parecia estar apenas adormecido. Os cangalheiros tinham trabalhado bem. Era um homem bem parecido, com cabelos negros e espessos a sarem-lhe de um bico no muito acentuado a meio da fronte alta. O nariz era direito, e forte, a boca firme, embora mesmo agora, parecesse ligeiramente sensual. Tinha as pestanas quase to compridas como as de uma rapariga. Senti crescer dentro de mim um sentimento de piedade. No devia ter muito mais de trinta anos.
       Ouvi um suspiro atrs de mim, quase um gemido. Voltei-me sobressaltado.
       Um homenzinho de idade estava sentado num canto da sala, ao lado do arco, numa cadeira pequena de espaldar direito. No tinha reparado nele ao entrar, embora tivesse com certeza passado mesmo em frente do stio onde se encontrava. Olhou para mim, com os olhos escuros a brilhar  luz das velas.
        Sou o pai  disse.  Conhecia o meu filho? 
       Sacudi a cabea. Aproximei-me dele.
        Os meus sentimentos, Sr. Riccio.
        Grazine  disse num tom pesado, perscrutando-me o rosto com os olhos cansados.  O meu Tony no era to mau como eles dizem  afirmou.  O seu nico mal foi querer demais.
        Acredito, Sr. Riccio. Ningum consegue ser to mau como as pessoas geralmente dizem.
       Vozes vieram do outro lado do arco.
        Pap! Com quem  que est a falar? 
       Voltei-me e vi um jovem e uma rapariga debaixo do arco. O jovem era muito parecido com o homem que estava no caixo, embora tivesse as feies ligeiramente mais pesadas e grosseiras. A rapariga estava vestida de preto, aquele preto que s as mulheres italianas conseguem em momentos de luto. Tinha o cabelo coberto com uma mantilha de renda, o rosto era paciente e mostrava uma espcie de beleza triste e cansada.
        Este  outro dos meus filhos, Steve  disse o velho.  E esta  a fidanzata do meu Tony, Ana Stradella.
       O jovem olhava-me atentamente, com um ar profundamente chocado.
        Pap!  disse com voz spera.  Sabe quem  este homem?
       O velho sacudiu a cabea.
         o pai da rapariga! No pode falar com ele. Sabe o que disse o advogado.
       O velho olhou para a minha cara. Depois, voltou-se novamente para o filho.
        Quero l saber do que disse o advogado! Olho para a cara deste homem quando ele tava ali ao p do caixo. E vejo a mesma dor que eu tenho no meu corao ali na cara dele!
        Mas, pap  protestou o jovem  o advogado disse para no falarmos com ele se vamos pr um processo. Podamos prejudicar a nossa causa!
       O Sr. Riccio levantou a mo.
        Alto!  disse com firmeza e com uma estranha espcie de dignidade.  Mais tarde os advogados podem brigar. Ns somos iguais. Dois pais cujos filhos lhes causaram desgosto e vergonha.  Voltou-se novamente para mim.  Sente-se, Sr. Carey. Perdoe ao meu rapaz. Ele ainda  novo. 
        Obrigado, Sr. Riccio.
	O jovem virou-se, zangado, e saiu da sala. A rapariga ficou a olhar para ns. Puxei duas cadeiras que estavam encostadas  parede e ofereci-lhe uma. Hesitou um momento, depois sentou-se. Sentei-me na outra.
        Os meus sentimentos, Miss Stradella.
       Acenou com a cabea, sem dizer palavra, com os olhos muito escuros no rosto branco.
        A sua pequena?  perguntou o Sr. Riccio.  Como  que ela est?
       No sabia o que dizer. At que ponto seria cruel da minha parte responder-lhe "est bem", quando o filho dele estava ali estendido num caixo a poucos centmetros de ns? 
       Ele adivinhou os meus sentimentos.
        Pobre criana!  disse mansamente.   ainda um beb.  Olhou-me na cara.  Por que  que veio aqui, Sr. Carey?
        Para saber alguma coisa acerca do seu filho.  Vi os olhos dele abrirem-se muito.  No para o envergonhar  acrescentei rapidamente  mas para aprender tambm alguma coisa acerca da minha filha.
        Obrigado pela sua compreenso. Bom, o que  que quer saber?
        O seu filho tinha alguns amigos mais chegados?
       Encolheu os ombros.
        Amigos?  perguntou.  No. No tinha amigos. Ana, que ia casar com ele, teria sido sua amiga. Os irmos, o Steve e o John tambm teriam sido amigos dele. Mas Tony  que no queria nada com eles. Queria... queria ser um homem da alta sociedade.
       O velho sorriu amargamente, enquanto os olhos se lhe enevoavam com a lembrana.
        Quando o Tony era mido, disse para mim: Pai, pai, levanta os olhos do cais. Olha l para cima, para o alto de Nob Rifi. Um dia vou viver para ali. L em cima, onde no chega o cheiro a peixe! Eu ri-me. Tony, disse para ele, vai estudar as tuas lies. Joga baseball, como um bom menino. Talvez um dia sejas como os irmos Di Mag e ento arranjas um grande restaurante para o teu pai, aqui na doca. Deixa-te de sonhos! Mas o Tony estava sempre a sonhar. Quando acabou a escola, nada de querer ser jogador de baseball como os irmos Di Mag. Queria era ser artista. Deixou crescer a barba e comeou a andar a pelos cafs. Vinha para casa tarde, todas as noites e levantava-se tarde todas as manhs. Nada de ir no barco com os irmos. Tinha as mos macias demais. Quando fez vinte anos arranjou emprego com uma negociante de arte. Uma senhora gorda. Um ano depois arranjou outro emprego. Desta vez era uma coisa grande, Ao p do Gump's. Um dia apareceu na minha banca com uma senhora muito bonita. " a mulher do meu patro", disse. Comeram camaro e santola e riram como duas crianas. Passado pouco tempo, li no jornal que o patro e a mulher se divorciaram. Fiquei ralado, por causa do emprego do meu Tony e ento, um dia ele veio  banca num carro novinho em folha. Caro. E no traz um carro americano. Estrangeiro.
       Pai, disse ele. Consegui! Agora trabalho para a mulher do patro. Ela  fantstica. Muita massa. E sabe onde  que eu vivo? No, disse eu, onde  que tu vives, Tony? Ele apontou para a colina. L mesmo em cima, pai, disse ele. L mesmo em cima, em Nob Hill, onde eu sempre disse que havia de ir viver. E sabe uma coisa, pai?  verdade. L em cima no se sente o cheiro do peixe!
       Olhou para o caixo e depois outra vez para mim.
        Ali o Tony tambm no sente o cheiro do peixe. Ali no sente cheiro absolutamente nenhum.
       Fiquei um momento sentado, em silncio. Depois, pus-me de p.
        O senhor foi muito amvel em ter querido falar comigo, Sr. Riccio. Peo desculpa de o ter incomodado numa altura destas.
       O velho levantou os olhos para mim e acenou com a cabea; o olhar dele j estava distante. Olhou novamente para o caixo, mexendo os lbios em silncio.
        Vou rezar pela sua filha  disse  e pelo meu filho tambm. 
       Olhei para a rapariga.
        Miss Stradella.
       Olhou para o velho, mas ele continuava a fixar o caixo. Os olhos tornaram-se-lhe, de repente, muito vivos.
        Espere por mim l fora!  murmurou. 
       Fiquei um segundo a olhar para ela, depois fiz que sim com a cabea e atravessei a sala. Passei pelo filho mais novo, na sala exterior. Deitou-me um olhar furioso quando passei e dirigiu-se para a cmara funerria. No esperei pelo elevador. Desci as escadas e sai para a rua. Encostei-me ao carro,  espera. A rapariga saiu e percebi que estava  minha procura.
        Miss Stradella!  chamei. 
       Encaminhou-se apressadamente para o carro. Quando chegou ao p de mim, olhou para trs, por cima do ombro, para a casa funerria.
         melhor metermo-nos no carro. O Steve e o pai vo sair no tarda. No quero que me vejam a falar consigo!
       Abri a porta e ela entrou. Depois, fechei-a e dei a volta ao carro. Entrei e pus o motor em andamento.
        Para onde vamos?
        Para qualquer lado  disse nervosa.  Qualquer lado, longe daqui.
       Meti-me no meio do trnsito e afastei-me do embarcadouro. Fizemos um bom quilmetro antes que ela voltasse a falar. A voz dela era spera e tensa.
        Anda  procura das cartas?
       Deitei-lhe um olhar surpreendido. Nunca pensara que fosse to fcil.
         voc que as tem?
       No respondeu.
        A chantagem  uma coisa muito feia  disse.  Ainda pode apanhar mais anos de cadeia do que aqueles que tem para viver.
        Eu no as tenho, Sr. Carey, Mas sei quem as tem.  Depois, os olhos dela encheram-se de lgrimas.  Diabos levem o Tony e mais a alma dele!  praguejou, zangada.  Nunca devia ter-lhe dado ouvidos. Eu devia era ter queimado aquele raio daquelas cartas logo que ele me deu!
       Encostei o carro  berma e desliguei o motor.
        Quem  que as tem?
       Limpou os olhos com um leno. No olhou para mim.
        O meu irmo.
        Onde  que ele est? Quero falar com ele.
       Continuou a no olhar para mim.
        No sei. Dei-lhas na sexta-feira  noite. No voltei a v-lo. 
        Deu-lhas?
        Sim. Ele apanhou-mas. Passou no meu apartamento, s dez e meia e disse-me que o Tony lhe tinha pedido para ir buscar as cartas. Eu dei-lhas, claro. At fiquei satisfeita por me ver livre delas. Depois, s onze horas, ouvi o noticirio na TV e fiquei a saber o que  que ele ia fazer.
        Como  que ficou a saber?
       Olhou-me.
        O Lorenzo era tal e qual como o Tony. Sempre com o olho na massa. Ele estava no meu apartamento quando o Tony me deu as cartas. Ouviu o que o Tony disse. Nessa altura, eu quis queim-las, mas o Tony no me deixou. "Essas cartas so a nossa aplice de seguros", foi o que ele disse. Disse tambm que quando chegasse a altura de se ver livre da velha, essas cartas eram a garantia de que teramos dinheiro bastante para o resto das nossas vidas. O Tony conseguia sempre convencer-me. Era a sua especialidade. Era sempre uma grande oportunidade. O amanh. Quando foi trabalhar para a sua mulher, disse que era s uma questo de tempo. No podia com ela, disse. Ficava doente s de lhe tocar, mas ela estava doida por ele e, quando chegasse a altura, ia haver dinheiro. Sempre o dinheiro. Costumava vir a minha casa para fugir dela.
        Leu as cartas?
       Sacudiu a cabea.
        No. Ele deu-mas num grande sobrescrito de papel pardo. Estava fechado.
        Ele alguma vez lhe falou na minha filha?
        No. Espere. Falou, sim. Uma vez, h cerca do um ano. Disse que a pequena estava a crescer depressa e que, se a me no tivesse cuidado, ia haver uma verdadeira beleza na famlia. E que a velha dama no ia gostar nada disso.
        Nunca disse mais nada?
        No, mais nada.
        H mais algum, alm de si e do seu irmo, que saiba da existncia das cartas? Os irmos do Tony?
        Tony e os irmos eram como o co e o gato. Eles achavam que o Tony no prestava e ele achava-os uns palermas. Nunca lhes contava nada.
       Puxei de um cigarro.
        O Renzo telefonou-lhe?  perguntou a rapariga.
        No. Mandou uma carta  minha ex-sogra. Disse que tinha lido as cartas e que se ela as quisesse, ia ter de as pagar por bom preo.  Olhei para ela.  Onde  que vive o seu irmo? Talvez o possamos encontrar l.
       Riu-se.
        Julga que eu no tentei? Fui l  procura dele. A dona da casa disse que se tinha mudado na sexta-feira  noite, j bastante tarde. No sabe para onde  que ele foi.
        Ele tem alguma namorada?
       A rapariga sacudiu a cabea.
        Anda sempre por a, mas eu no conheo nenhuma das raparigas com quem ele anda. Quando a mam morreu, h dois anos, Renzo saiu de casa. S o vejo quando precisa de dinheiro.
        Vive sozinha?  perguntei.
       A rapariga fez que sim com a cabea. Comeou a chorar.
        Sempre pensei que o Tony ia voltar, um dia.
       E tinha voltado, pensei, mas no da maneira que ela pensava.
        Lamento muito, Miss Stradella.
        No vale a pena. No estou a chorar por causa do Tony. Isso j l vai h muito tempo. Eu sabia, embora o pai no soubesse. Agora talvez o Steve arranje coragem para falar. Nunca teria ousado, enquanto o Tony estivesse vivo.
       Pensei no jovem de olhar furioso que tinha visto na casa funerria. Tinha pensado na possibilidade de haver alguma coisa entre ambos, a julgar pelo ar protector com que lhe segurava no brao.
        Tenho a certeza de que ele vai falar.
       Secou novamente os olhos.
        O que  que vai fazer com o Renzo?
        Nada  disse  se conseguir localiz-lo e obter as cartas antes de quinta-feira.
        E se no conseguir? 
       A minha voz tornou-se spera.
        Na quinta-feira, a Sra. Hayden vai negociar com ele. Quando se encontrarem para trocar as cartas pelo dinheiro, eu estarei l com a polcia.
       Ficou um momento em silncio.
        Onde  que eu posso entrar em contacto consigo amanh  tarde?
        Vou andar s voltas.  melhor ser eu a telefonar-lhe.
        Mas...
       Tirou da carteira um pequeno livrinho de notas e escrevinhou um nmero de telefone. Arrancou a pgina e deu-ma.
         o nmero de minha casa. Fale-me para l s quatro. Vou ver se consigo localizar o Renzo.

        O que  que acha, Sally?  perguntou Marian Spicer, pondo os dois recipientes de caf m cima da secretria, no meio das duas.  A pequena est realmente perturbada?
       A psicloga abriu um dos recipientes e bebeu um pouco de caf.
        Claro que ela est perturbada. Se no fosse isso, no estaria aqui. At que ponto, no entanto,  difcil dizer. Se o que quer saber  se a perturbao  de carcter violento, se tem tendncias, digamos, para desenvolver uma parania, no creio. Pelo menos nenhuma que eu tenha conseguido descobrir at agora. Claro que h sempre a possibilidade de esses casos s se revelarem mais tarde.
        Ela continua a no falar?
        Mais ou menos. Mas j consegui perceber uma coisa, mesmo assim.
       Marian olhou-a com ar interrogador.
        No  grande coisa. Mas j  um ponto de partida. A Dani parece ter uma forte necessidade de que lhe garantam que a me gosta dela.
        Isso parece apontar para um sentido de culpa em relao  me.
       A psicloga sorriu.
        Oh, Marian, essa no parece sua. A tirar concluses precipitadas dessa maneira. Um certo sentimento de culpa em relao aos pais  sempre inevitvel.
        Estou a falar de culpa quanto a um acto especifico.
        O que voc quer mesmo dizer  que a Dani se sente culpada por ter roubado o amante  me.
        Sim. Primeiro, sexualmente, depois fisicamente, por meio da morte.
       Sally Jennings acendeu um cigarro e bebeu mais um golo de caf.
        Em parte, aquilo que diz est certo, claro. Mas so factos recentes e no necessariamente conclusivos. O que ns procuramos  qualquer coisa de bsico. Qualquer coisa que esteja enterrada no interior de Dani e que ela sente relutncia em nos dar a conhecer. Se consegussemos arrancar-lhe isso, teramos uma ideia do caminho a seguir.
        O juiz Murphy mandou-me arranjar uma cpia do processo de divrcio dos pais.
        Oh?  Sally arqueou as sobrancelhas.  E o que foi que descobriu?
        Nada de especial. Sabe como so essas coisas. Tudo  combinado antes de comparecerem no tribunal. Mas h uma coisa. Mesmo no fim, a me de Dani tentou cortar ao coronel Carey todos os privilgios quanto a visitas.
        De certa maneira, isso  normal. Todos os pais mostram um cime recproco.
        Mas ela deu um diabo de uma desculpa. Disse que o coronel Carey no era o verdadeiro pai de Dani.
       Sally ficou um momento sentada, a pensar.
        Em que  que est a pensar, Sally?
        No propriamente nisso.  uma coisa que no me surpreende. J nada do que possa acontecer quando um casal se encontra no tribunal para um processo de divrcio me surpreende. O que eu pergunto a mim mesma  se a Dani saber disso?
        Acha que  provvel?
        As crianas tm uma maneira de descobrir os segredos mais escondidos. Se ela sabe, podemos muito bem estar a seguir uma pista completamente falsa.  Sally olhou para Marian.  se ao menos ela se abrisse, j saberamos o que havamos de recomendar.
        E se isso no acontecer?
        Sabe a resposta to bem como eu, Marian. Vou ter de a mandar para Perkins, para ficar em observao durante noventa dias.
       Marian no respondeu.
        No posso fazer mais nada. No podemos estar a correr riscos. Temos de ter a certeza de que a criana no tem nenhuma perturbao grave, talvez mesmo uma parania, antes de a deixarmos retomar qualquer coisa que se parea com uma vida normal.
       Marian sentiu a frustrao na voz da psicloga.
        Talvez isso no seja preciso. Talvez ela comece a falar esta tarde.
        Espero que sim  disse Sally com fervor.  Quando  que voc vai falar com a me da Dani?
        Esta tarde. O melhor  ir andando.
       Nessa mesma tarde, Marian seguiu o mordomo, atravs da entrada espaosa, passou uma bela escadaria circular de mrmore. Atravessou um vestbulo que levava a outra ala da residncia. Era uma casa muito bonita, pensou, no como as que visitava geralmente durante as suas investigaes. Tudo nela reflectia o sentido artstico da proprietria. Ao fundo do vestbulo, o mordomo abriu uma porta.
        Faa favor de entrar. Miss Hayden espera-a.
       O estdio era espaoso e soalheiro e a parede norte era uma placa de vidro macio. Atravs dela Marian via o porto, uma das pontes e, mais alm, Oakland. Nora trabalhava em frente da janela. Na mo, tinha um arco de soldador, cuspindo chamas. O rosto estava protegido com uma pesada mscara e culos. Vestia um velho fato-macaco, manchado e desbotado, e luvas grossas. Deitou um olhar a Marian.
         s um momento  disse numa voz que a mscara tornava abafada.
       Marian fez que sim com a cabea e ficou a olh-la. Trabalhava com finas tiras de metal, soldando-as rapidamente a uma estrutura bsica. O contorno geral era ainda demasiado indefinido para que Marian pudesse determinar qual viria ser o resultado final. Voltou-se e percorreu o estdio, com os olhos.
       Havia diversas esculturas e esttuas, espalhadas sobre as mesas, todas elas em diferentes fases de acabamento. Madeira, pedra, metal, arame. Todo e qualquer material que se prestasse a ser moldado pela mo humana. Numa parede ampla, havia uma srie de fotografias e desenhos emoldurados. Marian aproximou-se para os ver melhor.
       Havia um grande esboo a carvo, o desenho original da esttua O Homem Moribundo, que se encontrava agora no Museu Guggenheim de Nova Iorque Ao lado, estava uma fotografia de A Mulher na Rede, que valera a Nora o Prmio Eliofheim. Mais acima, na mesma parede, havia uma gigantesca fotografia mural do baixo-relevo em pedra Pacifico  o Mundo de Uma Mulher, encomendado pelas Naes Unidas. Havia tambm esboos e fotografias de outras obras, mas essas trs eram as que Marian reconhecia.
       Ouviu um som metlico e voltou-se. Nora apagava a chama do maarico. Esta desapareceu no meio de um sopro azulado e Nora pousou o instrumento. Empurrou a mscara para cima da cabea e tirou as luvas.
        Desculpe t-la feito esperar, Miss Spicer. Mas h coisas que no se podem interromper.
       Marian no respondeu. Esperou pela pergunta seguinte. A pergunta inevitvel: Como est a Dani? Mas ela no veio. Em vez disso, Nora tirou a mscara, deixando com a mo, uma mscara dela na cara.
        Estou muito atrasada com o meu trabalho. Esta histria tem sido o diabo para o meu esquema de produo.
        Vou tentar no lhe tirar muito tempo  disse Marian. 
       Nora olhou para ela e Marian perguntou a si mesma se no era um certo sarcasmo que sentira subjacente s palavras:
        Vamos tomar ch enquanto conversamos.
	Carregou num boto que havia na parede, ao lado da mesa de trabalho. O mordomo abriu a porta quase instantaneamente.
        Faz favor, minha senhora.
        Vamos tomar ch, Charles.
       O homem fez que sim com a cabea e fechou a porta. Nora atravessou em direco a um pequeno sof que formava um recanto juntamente com algumas cadeiras e uma mesinha de caf.
	 Sente-se, por favor.
       Marian sentou-se em frente dela.
        Suponho que quer que eu lhe fale da Dani.
       Marian fez que sim com a cabea.
        A verdade  que no sei muito bem o que hei-de dizer.  Nora tirou um cigarro de uma caixa que estava em cima da mesinha.  Dani  uma criana perfeitamente normal.
       Marian no conseguiu ter a certeza se Nora dizia isto em tom de aprovao ou de reprovao. Quase parecia que considerava o facto como uma espcie de falha.
        "Normal"  um conceito que varia de criana para criana  disse.  J ficmos a saber, pelos exames que fizemos, que Dani  uma criana com um alto nvel de inteligncia e percepo.
       Nora olhou para ela.
        Ah sim? Fico contente em saber.
        Parece admirada.
        E estou, de certa maneira  admitiu Nora.  Mas tambm creio que os pais nunca tm verdadeiramente conscincia das capacidades dos prprios filhos.
       Marian no respondeu. Os pais que se interessavam tinham sempre conscincia.
        Fale-me do comportamento de Dani em casa, em geral. J tenho uma ideia bastante ntida de como ela se portava na escola.
       Nora olhou para Marian com curiosidade.
        Esteve esta manh na Escola de Miss Randolph?
       Marian fez que sim com a cabea.
        Parece que gostam muito dela. Tanto os professores como as colegas de Dani parecem achar que  uma criana muito simptica.
       No acrescentou que achavam estranho que Dani nunca tivesse mostrado muito interesse nas actividades que as raparigas habitualmente desenvolviam l na escola. De facto era conhecida como solitria. Parecia preferir a companhia dos adultos  das pessoas da sua prpria idade, embora nas festas e bailes se relacionasse muito bem com eles.
        Fico contente em saber isso  disse Nora.
       O mordomo entrou e ambas ficaram silenciosas enquanto o ch era servido. Quando Charles se retirou, com uma reverncia, Nora olhou para Marian.
        Por onde quer que comece?
        Por onde quiser. Quanto mais soubermos acerca de Dani, tanto mais preparados estaremos para a ajudar.
       Nora fez que sim com a cabea.
        Aqui em casa, Dani tinha uma vida perfeitamente normal. At h poucos anos, teve uma ama... uma preceptora que estava com ela desde beb. Depois achou que j estava crescida demais e eu deixei que a preceptora se fosse embora.
        Achou?  perguntou Marian.  Refere-se  Dani?
        Sim. Achou que j no era nenhuma criana. 
        Quem tomava, ento, conta dela?
        A Dani sempre foi muito independente. A Violet, a minha criada de quarto, tratava da roupa dela, tal como tratava da minha. Fora isso, Dani no parecia precisar de qualquer ateno especial.
        Ela saa muito?  perguntou Marian.  Quero dizer, se saa com raparigas e rapazes da mesma idade?
       Nora ficou um momento a pensar.
        No, que eu me lembre. Mas tambm tenho andado to ocupada... No segui l muito bem a vida social da Dani. Lembro-me de como me aborrecia a minha me estar sempre a perguntar-me onde  que eu tinha estado. No queria que a Dani passasse pelo mesmo. H uns meses, ela chegou a casa, vinda de uma festa e eu perguntei-lhe como  que tinha corrido. Disse que tinha corrido bem, mas quando lhe perguntei o que  que tinham feito, respondeu-me que eram as coisas do costume. Danar e fazer jogos. Depois olhou para mim de uma maneira esquisita e disse, numa voz irritada: "Sabe como , me, jogos de crianas.  to aborrecido, e to infantil! Estou farta." Eu sabia o que ela queria dizer. Sentia o mesmo, quando tinha a idade dela.
        Que tal  que ela se entendia com o Sr. Riccio?  perguntou Marian.
       Nora deitou-lhe um olhar curioso.
        Muito bem  disse rapidamente. 
       Demasiado rapidamente, pensou Marian. Um certo tom evasivo apareceu na voz dela.
        Ela gostava muito do Rick. Alis, parecia sempre gostar muito mais dos meus amigos do que dos dela.
        Refere-se a amigos homens?
       Nora hesitou. Depois fez que sim com a cabea.
        Acho que sim. Eu tambm praticamente no tenho amigas, por causa do meu trabalho.
        Acha que a Dani teria desenvolvido qualquer sentimento especial em relao ao Sr. Riccio?
       Houve novamente uma ligeira hesitao.
         possvel. A Dani sempre pareceu preferir os homens. Lembro-me de como ela gostava do meu segundo marido. Quando o Rick apareceu c em casa,  possvel que ela tenha transferido esse sentimento para ele. Acho que era assim uma espcie de figura paternal.
       Marian fez que sim com a cabea.
        O pai deixou de vir visit-la quando a Dani tinha cerca de oito anos Isso custou-lhe muito. Apesar de eu ter tentado explicar muitas vezes porque  que ele no vinha.
        Tenho pensado nisso  disse Marian.  Qual foi exactamente a razo que ele deu para interromper as visitas?
        Na realidade, no sei. Nessa altura, ele, bebia muito. Divorcimo-nos por ele beber demais. E nos anos imediatamente a seguir, parece ter piorado. Bebia mais do que nunca e vivia em La Jolla, num barco com o qual fazia servios de aluguer. Penso que a certa altura, se lhe deve ter tornado incmodo vir a So Francisco para ver a Dani.
        Estou a ver  disse Marian  E o que foi que disse  Dani?
        Que o pai estava muito ocupado e no conseguia arranjar tempo fora do trabalho para vir v-la. Que outra coisa  que eu podia ter dito?
        A Dani alguma vez mencionou algum rapaz ou rapazes em quem estivesse particularmente interessada?
       Nora sacudiu a cabea.
        No me parece.
        Algum homem, talvez?
       Pareceu a Marian que o rosto de Nora empalideceu ligeiramente.
        Exactamente, onde  que est a querer chegar, Miss Spicer? 
       Marian olhou-a fixamente.
 Estou a tentar descobrir com quem  que ela pode ter tido relaes sexuais.
       O rosto de Nora estava agora definitivamente plido.
        Quer dizer...?
       Marian fez que sim com a cabea.
        Meu Deus!  Nora ficou um momento silenciosa.  Ela no est...
        No, no est grvida.
       Nora soltou um suspiro de alvio. Teve um sorriso forado.
        Ao menos podemos estar gratos por isso. 
       Marian notou-lhe um vago ameao de lgrimas nos cantos dos olhos. Pela primeira vez, comeou a sentir pena da mulher que tinha na sua frente.
        Cr que possa ter sido o Sr. Riccio?  perguntou.
        No!  disse Nora, num tom incisivo. Depois hesitou.  Quer dizer, nem sei o que pensar. O facto em si j  um choque tal...
         sempre.
       A voz de Nora era quase outra vez normal.
        Tambm acho.  sempre uma surpresa quando descobrimos que os nossos filhos esto muito mais crescidos do que ns julgamos.
       Era uma boa maneira de pr a questo, pensou Marian. Nada de histerias ou de condenaes, nenhuma acusao. Apenas muito mais crescida.
        Ela costumava ficar muitas vezes sozinha com o Sr. Riccio?
        Acho que sim. Alis, ele vivia aqui, no ?
        Mas no tinha ideia de que se estivesse a passar qualquer coisa entre ambos?
        No  disse Nora em tom definitivo.  De maneira nenhuma.  Olhou para Marian com uma preocupao sbita no olhar.  Mas... a Dani disse alguma coisa?
       Marian sacudiu a cabea.
        A Dani recusa-se a falar. Essa  uma das coisas que torna tudo muito mais difcil. A Dani no quer falar de nada, absolutamente, nada.
       Pareceu-lhe que o rosto de Nora tinha recuperado um pouco a cor.
        Mais ch, Miss Spicer?  perguntou Nora, enquanto a voz retomava o tom de delicadeza.
        No, muito obrigada.
       Nora encheu de novo a chvena.
        O que  que pensa que vo fazer com a Dani?
         difcil de dizer  respondeu Marian.  Depende inteiramente do tribunal. Neste momento h boas hipteses de ela ser mandada para o Centro de Recepo da Califrnia do Norte, em Perkins, para ficar em observao. Os psiquiatras aqui no conseguem chegar at ela o suficiente para fazer qualquer recomendao.
        Mas a Dani no est louca!
        Claro que no  disse Marian Spicer rapidamente.  Mas a verdade  que ela matou um homem. Pode ser um sinal de parania.  Ficou a olhar atentamente para Nora.
        Isso  ridculo! A Dani no est mais louca do que eu!
       Podia muito bem ser verdade, pensou Marian para consigo mesma. Quase imediatamente, censurou-se a si prpria. No tinha o direito de fazer aquele tipo de criticas.
        Vou mandar alguns mdicos escolhidos por mim  disse, de repente, Nora.
        Est no seu direito, Miss Hayden. E talvez seja til. Talvez um mdico escolhido por si possa conquistar mais facilmente a confiana de Dani.

       Nora pousou a chvena do ch. Marian compreendeu que a entrevista tinha terminado.
        H mais alguma informao que eu lhe possa dar, Miss Spicer?
       Marian sacudiu a cabea.
        No creio, Miss Hayden.  Preparou-se para se levantar.  H mais uma coisa.
        Diga.
        Posso ver o quarto da Dani?
       Nora fez que sim com a cabea.
        Vou mandar o Charles mostrar-lho.
       Marian subiu a escada de mrmore circular atrs do mordomo.
        Como  que est Miss Dani, minha senhora?  perguntou Charles por cima do ombro.
        Est bem.
       Chegaram ao cimo das escadas e seguiram pelo vestbulo. O mordomo parou em frente de uma porta.
        Este  o quarto de Miss Dani.
       Abriu a porta e Marian entrou. No momento em que Charles entrou para o quarto, atrs dela, a voz de Nora fez-se ouvir pelo intercomunicador instalado na parede.
        Charles.
        Faz favor, minha senhora.
         capaz de pedir  Violet que mostre o quarto da Dani a Miss Spicer? Preciso que me faa um recado.
        Imediatamente, minha senhora.  O mordomo voltou-se para a porta no momento em que a criada de cor apareceu.  Ouviste o que disse a senhora?
       Violet fez que sim com a cabea.
        Sim, senhor. 
       Charles fez uma reverncia e saiu. A criada entrou e fechou a porta atrs dela. Marian parou no meio do quarto e olhou em volta. Era um quarto muito bonito. Havia uma cama com baldaquino e quatro colunas colocadas em cima de uma pequena plataforma e encostada  parede do fundo. Televiso, rdio e gira-discos formavam um conjunto, encostado  parede em frente. Marian no precisou de olhar para ver que podiam ser comandados pelo controlo,  distncia, situado  cabeceira da cama.
       As cortinas eram de chita amarelo-viva, a colcha no mesmo material, a condizer. Perto da janela, havia uma secretria em cima da qual se via uma mquina de escrever porttil e alguns livros. Havia ainda um toucador, uma cmoda e vrias cadeiras.
       Marian voltou-se para a criada.
        A Dani no tinha fotografias nem recortes nas paredes?
       A criada sacudiu a cabea.
        No, minha senhora, a Dani no ligava a essas coisas.
        O que  que est ali?  perguntou Marian apontando para uma porta dupla na parede em frente.
         um armrio. O quarto de banho dela  por aquela outra porta.
       Marian abriu a porta do armrio e olhou para dentro. Logo que a porta se abriu, acendeu-se uma luz. Havia filas de vestidos cuidadosamente pendurados, e sapatos numa grande circular giratria. Fechou as portas e ouviu o estalido quando a luz interior se apagou.
        Onde  que a Miss Dani tem as suas coisas pessoais? 
        No toucador.
       Marian abriu a gaveta de cima e olhou. Tambm ali estava tudo cuidadosamente arranjado, lenos e meias em compartimentos diferentes. O mesmo acontecia com as outras gavetas. Soutiens, cuecas, tudo cuidadosamente dobrado.
       Marian aproximou-se da secretria e abriu uma gaveta. Lpis, canetas, papel, tudo arrumado nos seus lugares. Perguntava a si mesma onde estava a habitual desordem de adolescente. No parecia o quarto de uma rapariguinha. Olhou para a criada.
        Ela tem sempre o quarto assim arrumado? 
       Violet fez que sim com a cabea.
        Sim, minha senhora. Ela  muito arrumada. No gosta de ter as coisas desarranjadas.
        O que  que ela tem ali?  perguntou Marian apontando para a cmoda.
        Ela chama-lhe a arca do tesouro. Tem-na sempre fechada  chave.
        Voc tem a chave? 
       A rapariga sacudiu a cabea.
        E a me?
        No, minha senhora. Miss Dani  que sempre guardava.
        E sabe onde ela est?  A rapariga olhou um momento para Marian. Depois fez que sim com a cabea.  Pode emprestar-ma, por favor?
       A criada hesitou.
        Miss Dani no vai gostar. 
       Marian sorriu. 
        No faz mal. Pode perguntar a Miss Hayden.
       A rapariga mostrou-se duvidosa durante alguns momentos, depois, aproximou-se da cabeceira da cama e meteu a mo pela parte de trs. Tirou de l uma chave que estendeu a Marian.
       Marian deu a volta  fechadura. Todos os recortes e fotografias estavam ali. Talvez no houvesse nenhum nas paredes, mas Dani tinha tudo guardado. Folheou-os rapidamente: havia fotografias do pai, tiradas havia anos, quando ainda andava fardado. E da me, uma delas na capa da revista Life, datada de 1944. Havia vrias fotografias dela prpria, sozinha e com os pais; fotografias de um barco. Marian conseguiu distinguir o nome escrito na popa branca. A Pequenina Dani.
       A segunda gaveta estava cheia de recortes de jornais referentes  me. Dani tinha-os ordenado cuidadosamente, de maneira a formarem a histria cronolgica da carreira da me.
       A terceira gaveta continha exactamente as mesmas coisas que a segunda. S que o assunto era o pai. Marian percorreu rapidamente todo o material, pensando que a pequena devia ter passado bastante tempo a compilar tudo aquilo. Uma boa parte datava de uma poca em que ela nem sequer era nascida. A principio, a gaveta do fundo parecia s conter lixo. Havia brinquedos partidos. Brinquedos de criana. Um ursinho de l, gasto e desbotado, ao qual faltava um dos olhos de vidro. E uma caixa de couro verde. Marian tirou-a para fora e abriu-a.
       Continha apenas uma fotografia brilhante, catorze por dezoito, de um jovem sorridente e bem arrumado. No canto, havia uma inscrio a tinta preta: "Para a Minha Pequenina, com Amor". Estava assinada Rick. Quando Marian pegou na fotografia para a observar, reparou numa pequena caixinha de metal que estava por baixo. Chamaram-lhe a ateno as letras escuras e ntidas: "Os melhores da Amrica". No precisou abrir a caixa para saber o que estava l dentro. J tinha visto muitas. Parecia ser a marca preferida dos adolescentes. Compravam-nos em quase todos os toilettes pblicos do pas inserindo uma moeda de cinqenta cntimos numa mquina automtica.
       
       Sally Jennings levantou os olhos da secretria quando Dani entrou no pequeno gabinete.
        Senta-te, Dani.  Empurrou o mao dos cigarros em direco a ela.  So s uns minutos. Tenho de acabar este relatrio.
       Dani pegou num cigarro e acendeu-o. Ficou a ver a caneta da psicloga voar por cima do papel de apontamentos, amarelo e com linhas. Passados momentos, cansou-se e ps-se a olhar pela janela. Era ao fim da tarde e o sol forte comeara a tomar uns vagos tons alaranjados. De repente desejou estar fora dali. Perguntou vagamente a si prpria qual seria o dia da semana. Tinha perdido a noo do tempo. Olhou para o calendrio que estava na parede. Quarta-feira. Tinha entrado no sbado. Aquele era, portanto, o seu quinto dia. Mexeu-se na cadeira, inquieta. Parecia que j tinha passado muito tempo.
       Olhou para o cu. Devia ser agradvel estar l fora. Perguntava a si prpria como  que estaria do outro lado na rua. Se andaria por l muita gente; se o trnsito seria muito intenso; at mesmo qual seria a sensao de sentir o empedrado dos passeios de encontro s solas dos sapatos. Desejou poder ver a rua. Mas no podia. Era impossvel, de qualquer daquelas salas. As janelas eram pequenas e colocadas muito alto.
       Olhou novamente para Miss Jennings, mas ela continuava a escrever, com as sobrancelhas franzidas num gesto de concentrao. Dani perguntou a si mesma quanto tempo teria de ficar ali sentada, antes que a psicloga acabasse o que estava a fazer. Olhou novamente para o cu. Havia pequenas nuvens cor de laranja, voando, l muito alto. Lembrava-se de umas nuvens como aquelas, uma vez em Acapulco. Muito altas no cu, por cima dos rochedos, no stio onde os rapazes saltavam  noite para o mar, com tochas a arder nas mos.
       Havia l um rapaz. Sorrira-lhe, com os dentes brancos a brilharem-lhe no rosto escuro. E ela tinha-lhe devolvido o sorriso. Rick ficara zangado. Dani tinha olhado para ele, com aquela expresso inocente, de olhos muito abertos, que o punha ainda mais furioso. Sabia que ele pensava que isso a fazia ficar mais parecida do que nunca com a me.
        Por que no?  tinha perguntado.  Parece um rapaz to simptico.
        No conheces estes rapazes. No so como os outros. Vo andar atrs de ti. No sabem que tu ainda s uma criana.
       Fez um sorriso cheio de doura.
        Por qu, Rick?  Tinha visto os olhos dele pousarem-lhe rapidamente no fato de banho branco. Rick corou. Ela sabia o que  que o tinha feito corar. J o tinha apanhado muitas vezes a olhar para ela.  Por qu, Rick?
        Porque tu no pareces uma criana,  s isso  disse zangado.  No pareces ter s treze anos.
        Que idade  que eu pareo ter, Rick? 
       Viu-o olhar de novo. Era quase involuntrio da parte dele.
        Ests muito crescida. Dezassete, ou talvez mesmo dezoito. 
       Sorriu-lhe. Depois voltou-se para olhar para o rapaz, porque sabia que isso poria Rick ainda mais furioso. A me tinha chegado naquele momento.
        Que chatice, Rick. O Scaasi quer que eu tome o avio para So Francisco esta noite, para assinar os tais contratos.
        Tens mesmo de ir?
        Tenho.
        Ento vou fazer as malas  disse Rick, pondo-se de p.
        No, no  preciso irmos todos. Tu e a Dani podem ficar. Eu estou de volta amanh,  hora do almoo.
        Vou contigo at ao aeroporto.
       Dani ps-se de p.
        Eu tambm vou, me.
       Quando voltaram do aeroporto, depois de o avio ter levantado vo, passaram por uma loja de souvenirs, uma dessas lojas para turistas que vendem tudo, desde jias baratas a saias e blusas camponesas. Dani ficou a olhar para as saias que estavam na montra.
        Queres uma?  perguntou Rick. 
       Tinham entrado e ele tinha-lhe comprado uma saia e uma blusa. Usara-as nessa noite para o jantar, com o cabelo cado, sobre os ombros, como uma espcie de pajenzinho mexicano. Viu-o abrir muito os olhos. 
        O que  que achas?  perguntou. 
        Acho que ests uma beleza. Mas...
        Mas o qu?
        A tua me. No sei o que  que ela vai achar.
       Dani riu-se.
        A me no vai gostar. Ela preferia que eu ficasse eternamente criana, mas isso no  possvel.
       Foram jantar fora e o criado tinha-lhe perguntado se queria um cocktail, tal como se fosse uma pessoa crescida. E mais tarde quando a orquestra comeou a tocar, tinha pedido a Rick que danasse com ela. Tinha sido um verdadeiro sonho. No era como danar com os rapazes l da escola. Agradava-lhe o cheiro dele, com um leve toque de colnia, o aroma ligeiro do uisque na respirao. Comprimiu o corpo de encontro ao dele. Gostava de lhe sentir os braos fortes a segur-la. Dani suspirou e moveu os lbios sensualmente ao ritmo da msica Catana. De repente ele falhou um passo, praguejou e, em seguida, afastou-a com brusquido.
        Acho melhor irmo-nos sentar. 
       Obediente, deixou que ele a conduzisse de novo para a mesa. Rick pediu outra bebida e levou-a  boca rapidamente. No disse nenhuma palavra. Passados momentos, Dani falou.
        No te sintas embaraado. J vi acontecer-te a mesma coisa quando estavas a danar com a me.
       Olhou-a de maneira especial.
        s vezes penso que vs coisas a mais.
        Estou satisfeita por isso ter acontecido. Agora tenho a certeza de que j sou crescida.
       Ele corou e olhou para o relgio.
        Passa das onze. J devias estar deitada.
       Dani ficou estendida em cima da cama, ouvindo os rudos da noite que entravam pelas janelas abertas. Os luxuriantes sons tropicais, de pssaros e grilos, estalidos de rvores e roar de palmeiras. Depois ouviu o telefone tocar no quarto dele. Passados momentos, fez-se de novo silncio.
       Abruptamente, saltou da cama e atravessou a sala da sute em direco  porta do quarto de Rick. Ficou um momento  escuta. No havia barulho nenhum do outro lado. Deu a volta ao puxador, suavemente e entrou. Na escurido viu que a porta para o quarto da me na parede do outro lado estava aberta. Depois olhou para a cama dele.
        Foi a minha me que telefonou? 
       Ele voltou-se de lado, com o lenol puxado at  cintura.
        Foi. 
        O que  que ela queria?
        Nada. Disse que estar de volta amanh. 
       Aproximou-se mais da cama e ficou a olhar para ele.
        Ela estava era a vigiar-te. A me no gosta de correr riscos. Foi uma sorte estares no quarto.
        Eu fao aquilo que quero  disse, zangado. 
        Claro  disse. 
        Com certeza. 
        No achas que era melhor ires outra vez para a cama?
        No tenho sono.
        No podes continuar aqui. No tenho nada vestido por baixo do lenol.
        Eu sei  disse Dani.  Mesmo s escuras j tinha visto.
       Rick sentou-se na cama. Ela via-lhe os msculos dos braos e do peito contrarem-se quando se mexia. A voz dele estava rouca.
        No sejas tola. Tu no passas de uma criana. 
       Aproximou-se mais e sentou-se na beira da cama. 
        No foi isso que pensaste esta tarde quando aquele rapaz sorriu para mim. Ficaste cheio de cimes.
        No fiquei nada. 
        E tambm no pensaste que eu era uma criana quando andvamos a danar. 
       Abriu a parte de cima do pijama. Viu os olhos dele dirigirem-se-lhe para os seios, como que atrados por um m. Sorriu. 
        Achas que pareo uma criana? 
       Ficou a olhar para a cara dela, sem falar. Dani ps a mo em cima do lenol.  Ele agarrou-lha com fora.
        O que  que ests a fazer?  perguntou numa voz quase chocada.
        De que  que tens medo?  O olhar dela tomou uma expresso de desafio.  A me nunca h-de vir a saber.
       Olhou-a nos olhos, enquanto ela lhe encostava a mo aos seios.
        Vou magoar-te  sussurrou. 
        Eu sei. Mas isso  s a primeira vez. 
       Rick parecia incapaz de se mexer.
        Ainda s pior do que a tua me! 
       Ela riu-se e, de repente, deixou deslizar a mo para debaixo do lenol.
        No sejas pateta, Rick. Eu j no sou uma criana. Sei muito bem que tu me amas. Tenho visto a maneira como olhas para mim.
        Eu olho para muitas raparigas  disse.
       Os dedos dela acariciavam-no suavemente.

        Dani.  A voz de Miss Jennings interrompeu-lhe o sonho.  Dani.
       A jovem voltou-se para a psicloga.
        Faz favor, Miss Jennings.
       A mulher de cabelos grisalhos sorriu.
        Estavas muito longe daqui. Em que  que estavas a pensar?
       Dani sentiu a cor subir-lhe  cara.
        Estava... estava a pensar em como deve estar bom l fora.
       A psicloga olhou para ela. Dani sentiu que Miss Jennings, sabia em que  que ela tinha estado a pensar e ficou ainda mais corada.
        Se tivesse de estar sempre aqui, tambm pensava o mesmo! 
       Sally Jennings fez que sim com a cabea.
        Acho que sim  disse, pensativa.  Mas eu no tenho de estar sempre aqui. Tu  que tens.
        Tambm no vai ser por muito tempo! S at a semana que vem. Depois j posso voltar para casa!
        Ests mesmo convencida disso, Dani?
       Dani ficou a olhar para ela. Pela primeira vez, comeou a sentir dvidas.
        Foi o que todos me disseram.
        Quem?  A voz de Miss Jennings era muito calma.  Os teus pais?
       Dani no respondeu.
        Parece que no deste muita ateno ao que o juiz Murphy te disse no tribunal. Isso no depende dos teus pais. O juiz  quem decide o que tu vais fazer. E ele tanto pode fazer que fiques aqui, como mandar-te para Perkins para ficares em observao ou mandar-te para casa. Ele  que decide o que  melhor para ti.
        Ele no pode obrigar-me a ficar aqui! ripostou Dani.
        O que  que te faz dizer isso, Dani?  perguntou Miss Jennings.  No achas que a razo que levou a que viesses para aqui  suficiente, s por si, para te obrigar a permanecer c?
       Dani baixou os olhos para o cho.
        Mas eu no fiz aquilo por querer  disse num tom sombrio.
        O simples facto de dizeres que no foi por querer no chega para convencer o juiz Murphy de que deve mandar-te para casa. Todas as crianas que so trazidas para aqui dizem a mesma coisa.  Miss Jennings pegou num cigarro.   Tens de lhe mostrar, por aces, que se ele te deixar ir para casa, no vais arranjar novos problemas.  Afastou os papis que tinha em cima da mesa.  Estou precisamente a encerrar o processo de uma rapariga que j aqui esteve vrias vezes. Desta vez o juiz vai mand-la para outro lado. No se mostrou digna de confiana.  Olhou para Dani.  Creio que a conheces. Est no quarto ao lado do teu.
        Est a falar da Sylvia? 
       Miss Jennings fez que sim com a cabea.
        Por qu?  perguntou Dani.   muito boa rapariga.
        Talvez seja para ti. Mas est sempre a meter-se em sarilhos.
        O nico problema que ela tem  ser doida por rapazes. 
       Miss Jennings sorriu.
        Esse  apenas um dos problemas  disse.  Ela  promiscua.  a terceira vez que aqui vem parar. De cada uma delas foi apanhada com um rapaz diferente e tinha convencido qualquer deles a roubar um carro para poderem ir dar uma volta. No s no tem grandes escrpulos quanto ao seu comportamento pessoal, como exerce m influncia sobre quem est em contacto com ela.
        E o que  que lhe vo fazer?
        Provavelmente, vai ser mandada para uma casa de correco at fazer dezoito anos.
       Dani ficou em silncio.
        Tentei ajud-la, mas ela no me deixou. Pensava que sabia tudo. Mas afinal no sabia, no achas?
        Acho que no  admitiu Dani.
       Miss Jennings empurrou a resma de papis para o lado e pegou noutra folha de papel, que segurou de maneira a que Dani pudesse ler o que estava escrito nela.
        Tenho aqui um relatrio de Miss Spicer  disse, carregando com o joelho no boto do gravador que estava instalado na secretria.  Esteve hoje na Escola de Miss Randolph e depois foi falar com a tua me.
        Ah, sim?  disse Dani delicadamente.
        Os professores e os teus colegas parecem ter uma ptima opinio a teu respeito. Dizem que te davas bem com toda a gente.
        Ainda bem.
        A tua me ficou muito surpreendida quando soube que estavas a ter relaes sexuais com o Sr. Riccio.
       A voz de Dani encheu-se de fria.
        Quem  que disse isso?
         verdade, no ?
        No, no  verdade!  retorquiu Dani.  Quem quer que foi que disse uma coisa dessas  um mentiroso!
        Ento para que era isto?  Miss Jennings tirou uma caixinha de metal da secretria.  Encontraram isto dentro de uma caixa, por debaixo da fotografia dele.
       Dani deitou-lhe um olhar furioso.
        Foi a Violet!  disse, zangada.  Ela sabia onde  que eu tinha a chave!
        Quem  a Violet?
         a criada da minha me. Anda sempre a bisbilhotar tudo o que eu fao!
        No ests a responder  minha pergunta, Dani  disse Miss Jennings com voz spera.  se no foi o Sr. Riccio, ento quem era?
        Por que  que tem de ser algum?  ripostou Dani.  S por eu ter isso dentro de uma gaveta?
        Ests a esquecer-te de uma coisa, Dani. Foste examinada por uma mdica quando chegaste.  Pegou noutra folha de papel.  Queres que te leia o relatrio dela?
        No  preciso  disse Dani num tom sombrio.  Isso tambm podia ter acontecido a andar a cavalo.
        Isso no parece teu. Essa j  muito velha.  Inclinou-se para a frente.  Estou apenas a tentar ajudar-te, Dani. No quero que o juiz te mande para longe, como a Sylvia.
       Dani ficou a olhar para ela, em silncio.
        O que foi que aconteceu? Ele violou-te?  Sally olhou para Dani com uma expresso muito sria.  se foi isso, diz-me. Talvez ajude o juiz a compreender porque  que fizeste o que fizeste. Levaria isso em conta quando chegasse a altura de tomar uma deciso.
       Dani ficou um momento em silncio, a olhar para os olhos da mulher.
        Sim  admitiu por fim, em voz baixa.  Ele violou-me.
       Sally Jennings, por sua vez, ficou a olhar para ela. No disse nada.
        Ento?  perguntou Dani.  No era isso que queria que eu dissesse?
       A psicloga recostou-se na cadeira com um suspiro de frustrao.
        No, Dani. Queria era que me dissesses a verdade. E no  isso que ests a fazer. Ests a mentir.  Carregou novamente desta vez para desligar o gravador.  Se me mentes, no te posso ajudar.
       Dani baixou os olhos.
        No quero falar nesse assunto, Miss Jennings. No quero sequer pensar no que quer que seja que tenha acontecido antes. S quero esquecer tudo.
        No  assim to fcil, Dani. A nica maneira que tens de te livrar do que te incomoda  traz-lo  luz do dia e encar-lo de frente. Ento compreenders porque  que fizeste o que fizeste e sabers como evitar que acontea de novo.
       Dani no respondeu. A psicloga carregou na campainha para chamar uma enfermeira.
        Pronto, Dani  disse em voz cansada.  Podes ir.
       Dani ps-se de p.
        Amanh  mesma hora, Miss Jennings?
        No creio, Dani. Acho que j chegmos at onde podamos chegar. No vale a pena prolongarmos as discusses, pois no?
       Dani olhou para ela.
        Acho que no, Miss Jennings. 
        Claro que eu estarei aqui, caso venhas a querer falar comigo. 
        Sim, Miss Jennings. 
       Algum bateu na porta de vidro. A psicloga ps-se de p.
        Boa sorte, Dani.
        Obrigada, Miss Jennings.  Dani encaminhou-se para a porta. Depois, voltou-se para trs.  Miss Jennings?
        O que , Dani?
        Com respeito  Sylvia  disse.  No acha que ela no se teria metido em sarilhos, se todos os rapazes que conheceu tivessem carro?
       Miss Jennings disfarou um sorriso involuntrio. Era uma cura como qualquer outra para certos tipos de delinquncia juvenil. Dar a cada um o seu prprio carro.
        No creio  disse, mantendo-se to sria quanto possvel...  Compreendes que aquilo que Sylvia fez estava errado. Se no fossem os carros que ela queria que os rapazes roubassem, teria sido outra coisa. O que Sylvia estava realmente a tentar era faz-los provar que eram dignos dos seus favores. Sentia que, se eles fizessem qualquer coisa de verdadeiramente errado, j no sentiria tanto o peso daquilo que ela prpria estava a fazer. Era uma compensao para o seu prprio comportamento.
        Estou a ver  disse Dani, pensativa. Olhou para a psicloga.  Provavelmente ainda falamos antes de eu me ir embora, no?
        Quando quiseres, Dani  respondeu Miss Jennings.  C estarei.

       A Costa Brbara no passa de uma srie de edifcios cinzentos e sujos, usados agora principalmente como armazns e pequenas fbricas. Perdido no meio deles encontra-se, ocasionalmente, um night club, lutando pela sobrevivncia,  custa dos pecados e do custo de um passado j muito remoto. Os melhores ficam em lojas de rs-do-cho e a sua especialidade  o jazz. Alguns so locais modernos, outros esto dentro do estilo de Chicago e Nova Orleans.
       Atraem os aficcionados e os estudantes, que se sentam por l, como que perdidos numa espcie de sonho, a ouvir os sons estrangeiros produzidos em nome de uma nova forma artstica. Os piores entre eles so simples imitaes do que de mais reles existe l para North Beach. Hungry's de segunda categoria ou Cebolas Roxas maduras de mais.
       A rvore das Patacas pertencia  segunda categoria. Olhei para o relgio quando parei  porta. Era quase meia-noite. Havia uma fotografia comprida e estreita de cada lado da porta. Ambas exactamente iguais. Uma mulher j de idade avanada, pesada e de olhar furtivo, vestindo um fato de noite bordado a lantejoulas, muito justo, de um tamanho que estava quatro nmeros abaixo para a figura fortemente espartilhada e com a boca cheia do que de mais moderno havia em dentaduras. Por cima das fotografias havia uma inscrio em letras bem grandes, L DENTRO: MAUD MACKENZIE!
       Se eu andasse  procura de um espectculo que me atrasse, aquela fotografia seria a ltima coisa no mundo que me poderia seduzir. Mas no andava. Era ali que Ana Stradella trabalhava e eu tinha combinado encontrar-me com ela depois do ltimo espectculo. Ana era o fotgrafo do clube.
        Entre, meu caro  disse o porteiro.  O espectculo est quase a comear.
       Olhei para ele.
        Acho que  isso que vou fazer. 
       Abriu a boca num sorriso e piscou-me o olho.
        Se se sentir nervoso ali sentado, sozinho, s escuras  disse  basta dizer ao criado que o Max mandou ele tomar conta de si.
        Obrigado  disse e entrei.
       Tal como a rua c fora estava escura, l dentro estava escuro a valer. At as nossas prprias mos parecia que pertenciam a outra pessoa. O peitilho branco da camisa do chefe de mesas brilhava na escurido.
        Tem reserva? 
       Sorri para comigo mesmo. Via toalhas brancas que chegavam para fazer um bom anncio na TV.
        No, mas no faz mal. Eu sento-me no bar.
        Desculpe  disse o homem com brandura  no servimos no bar a no ser nos fins-de-semana.
       No havia dvida de que os clientes eram pressionados. O negcio no devia ser l muito e os trs dlares extras que cobravam pelas toalhas eram assim to importantes.
        Tenho uma boa mesa, mesmo  frente.
       A nica coisa que ele tinha eram boas mesas, mesmo  frente. Talvez umas dez mesas num total de sessenta estavam ocupadas.
       O criado segurou na cadeira enquanto eu me sentava, depois ficou por ali  espera do po. Dei-lhe uma moeda e ele desfez-se. Talvez no tivesse ficado muito satisfeito, mas sempre era melhor do que ser ignorado.
       O criado caiu-me em cima e eu pedi bourbon. No precisei de lhe acrescentar gua. Pelo visto, punham na garrafa. Levei o copo  boca e olhei em volta. No vi Ana Stradella em parte alguma. Tinha-lhe telefonado naquela tarde, como ela me tinha dito.
        Encontrou o seu irmo?  tinha-lhe perguntado.
        Ainda no. Mas espero saber alguma coisa, ainda esta noite.
        Posso telefonar-lhe mais tarde.
        Chego a casa de madrugada. Talvez fosse melhor ir-me buscar ao stio onde eu trabalho. A, se eu j tiver alguma informao, podemos comear logo a fazer qualquer coisa.
        Ok, onde ?
        rvore das Patacas.  um night club na...
        Eu sei onde   respondi. 
       A surpresa na minha voz deve ter sido mais do que evidente.
        Sou o fotgrafo da casa. Trabalho para o concessionrio. Das cinco as oito, fao a hora do jantar num dos restaurantes da doca. A partir das nove, estou no clube.
        A que horas  o ltimo espectculo?
        Esta noite s h dois espectculos: as dez e a meia-noite. O ltimo deve acabar uns minutos depois da uma.
        Vou l busc-la a essa hora.
        ptimo. O melhor  entrar. Se ainda no souber nada, digo-lhe isso mesmo e escusa de perder tempo. 
        Ok.
        E no entregue o carro ao porteiro. Pregam-lho com dois dlares a mais pelo servio.  uma verdadeira armadilha. Um quarteiro mais abaixo tem muito espao para estacionar.
        Obrigado.
       Depois de pousar o telefone, tinha marcado o nmero da minha ex-sogra.
        A rapariga ainda no sabe onde  que ele est. Ficou combinado eu ir ter com ela, mais tarde. Se j souber alguma coisa nessa altura, leva-me at junto dele.
        Entretanto, j tero sado os jornais da manh. O anncio ter sido publicado. Ele vai saber que estamos dispostos a pagar.
        O que  que tenciona fazer?  perguntei.
        Quero essas cartas. Faa um acordo com ele, se for necessrio. No podemos arriscar-nos a que caiam nas mos erradas.
        J esto nas mos erradas.
        No faa nada que agrave a situao.
        No, no farei.
        O que  que faz amanh  tarde?
        Nada, que eu saiba  respondi.
        A Nora e o Gordon vm c. Temos de apresentar ao tribunal um plano em relao  Dani. O Dr. Bonner e o director da escola da Dani tambm vm. Pensei que tambm deve querer vir.
        A que horas?
        Trs e meia.
        L estarei.
        Informa-me do que se passar esta noite? Telefone-me, seja a que horas for.
        Est bem, eu telefono.
       Passou mais de meia hora antes que Maud Mackenzie entrasse em cena. Entretanto tinham aparecido mais alguns anjinhos e a casa estava mais ou menos a um tero. Maud Mackenzie correspondia exactamente s fotografias que estavam do lado de fora. Entrou para a luz branca do foco, percorreu a sala com os olhos, contando as pessoas e depois sentou-se ao piano e declarou que era assim mesmo que ela gostava de trabalhar: em pequenas festas intimas. Com a idade que tinha j no agentava coisas muito grandes, como no circo. O pblico riu-se, mas eu percebi que estava decepcionada. Devia estar a trabalhar  percentagem e aquilo era o mesmo que trabalhar de graa.
       Lanou-se imediatamente numa cano acerca dos bons velhos tempos e do como tinha conseguido chegar  Costa Brbara num carro fechado. Olhei para a velha saca de batatas a transpirar sob a luz do foco e pensei em como teria sido melhor se os ndios a tivessem apanhado.
        Quer uma bonita fotografia sua, cavalheiro? 
       Voltei-me e, na penumbra do foco, Ana Stradella parecia sada de um filme italiano. O fato minsculo e o colante preto de rede davam-lhe um aspecto completamente diferente. Os ombros largos, o peito fundo, a cintura estreita e os quadris largos e confortveis. La Dolce Vita. Sophia Loren pelo caminho mais difcil. Pus-me a abanar a cabea. Sorriu-me.
        Deixe-me fotograf-lo.  Depois, num tom abafado, sussurrou rapidamente.  O patro est a olhar. Tenho de ter uma razo, para continuar a falar consigo.
        Ok  respondi.  Mas espero que saia coisa capaz.
       Sorriu e fez qualquer coisa com a mquina. Levou-a  cara, ps-se a mexer no visor. Inclinou-se sobre mim. Agora j percebia o que era que as raparigas italianas faziam com toda aquela pasta
        Volte a cadeira, assim  disse em voz alta, empurrando-me para a esquerda. Verificou novamente o visor.  Assim est melhor.
       Recuou e encostou a mquina fotogrfica  cara. O flash disparou e eu pestanejei para afastar as luzes verdes e vermelhas. Ana aproximou-se novamente da mesa.
        Vou escrever na parte de trs da fotografia o stio onde deve ir-me buscar  murmurou.
        Encontrou-o?
       Ela fez que sim com a cabea e endireitou-se. Vi-a pestanejar e pressenti, mais do que vi, o homem que passou por ns.
        Est muito bem. Daqui a quinze minutos tem a sua fotografia.
       Deu meia volta e afastou-se. Fiquei um momento a olhar para ela. Era o ltimo emprego que eu poderia imaginar que tivesse quando a vi, pela primeira vez, na casa funerria. Mas a verdade  que nunca se sabe, no ?
        Deseja outra bebida?  perguntou o criado. 
       Levantei os olhos e fiz que sim com a cabea. Que raio, metade era gua! O resto do espectculo foi to mau como a primeira cano.
       Maud Mackenzie no era uma Pearl Williams, nem uma Belle Barth, mas tinha a mesma dureza. E os clientes que l estavam no pareciam importar-se. Engoliram tudo. Afinal devia ser melhor do que o programa da televiso, numa noite livre de quarta-feira.
       Era uma e quarenta e cinco quando meti o carro no quarteiro oitocentos da Jacksom. e estacionei debaixo de um candeeiro. Desliguei o motor e olhei outra vez para a fotografia. No estava m, se pensssemos onde tinha sido tirada. Virei-a. O recado tinha sido escrito com lpis macio, daqueles que os fotgrafos usam para retoques. As palavras tinham sido rabiscadas  pressa Quarteiro 800 - Rua Jacksom.
       Pousei a fotografia no assento, ao meu lado, e acendi um cigarro. Ela apareceu passados cerca de dez minutos, saindo de um txi, na esquina, atrs de mim. Olhei para o retrovisor quando ouvi o bater da porta. Localizou imediatamente o carro e veio em direco a mim. Trazia o estojo da mquina fotogrfica pendurado ao ombro numa correia de couro comprida a bater-lhe de encontro ao corpo enquanto andava. Inclinei-me e abri a porta.
        O que foi que conseguiu descobrir?  perguntei, depois de ela entrar.
       O olhar da rapariga estava perturbado.
        No gosto desta histria, Sr. Carey. O Renzo no est metido nisto sozinho. Talvez fosse melhor ns no interferirmos.
        J descobriu onde  que ele est a viver?  perguntei, impaciente.
       Fez que sim com a cabea. Liguei o motor.
        Ento vamos. Para onde ?
        O Renzo tem um apartamento por cima de um saloon perto de Giff House.
       Engrenei o carro e arrancmos. Olhei-a de relance. A cara dela continuava a ter a mesma expresso perturbada.
        Por qu tanto mistrio?
        J lhe disse, o meu irmo no est metido nisto sozinho. Por detrs dele, h pessoas muito importantes.
        Quer dizer que achou que era caa grossa demais para ele?  perguntei sarcstico.
        Sim. Foi ter com um amigo dele que era tambm um grande amigo do Tony.
        Quem  o tipo?
        Charley Coriano. 
       Olhei-a de relance. O rosto dela estava impassvel. Se aquilo era verdade, o rapaz tinha comeado a jogar forte. Charley Coriano tinha fama de estar metido em tudo o que de ilegal se fazia em So Francisco. Claro que nunca ningum tinha conseguido provar nada, assim como tambm nunca tinham conseguido apanhar Mickey Cohen em nada de mais vulto do que uma fuga aos impostos. Mas a fama estava l.
        Onde  que ouviu isso?
        No trabalho. Foi uma das raparigas que me disse.
        E como  que ela sabia?
        Porque anda com um dos homens do Coriano.
        E o que foi que a levou a contar-lhe?
       Olhou para mim.
        Ela julgava que eu tambm estava metida nisso. Coriano  o concessionrio da companhia em que eu trabalho.
        Afinal quem  que tem as cartas? Coriano ou o seu irmo?
        No sei.
        Bom, s h uma maneira de ficarmos a saber.
        No quero que acontea nada de mal ao meu irmo.
        Isso  com ele  respondi.  No fui eu que lhe escolhi os amigos, a escolha foi dele.
       Havia muito tempo que eu no ia para aqueles lados. Desde que tinha levado a Dani ao Sutro para ver os brinquedos mecnicos, quando ela no passava de um beb. Lembrava-me de como ficara entusiasmada. Meti o carro num parque de estacionamento e olhei em volta. Nada mudara. As mesmas barracas a vender cachorros quentes, as pizzarias e bares baratos. S que agora a cerveja e os cachorros custavam o dobro. Ana indicou-me um saloon.
        Vamos ali primeiro. Ele pra muito por l.
       Segui-a at ao saloon. Era tarde e no havia muita gente no bar. Uma parelha de casmurros a saborearem a sua ltima bebida e alguns rapazotes a beberem cerveja. O barman aproximou-se, sacudindo o bar com a toalha.
        Ol, Ana. 
        Ol, Johnny. O Renzo esteve por c hoje? 
       Os olhos dele pousaram-se um momento em mim e depois dirigiram-se de novo para ela.
        Sim, esteve c mais cedo. Mas j saiu.
        Obrigada, Johnny. 
       Voltou-se para sair, mas ele chamou-a.
        Lamento o que aconteceu ao Tony. Era um tipo catita. Sempre gostei dele.
        Obrigada, Johnny  disse outra vez.
       Sa atrs dela.
        E agora?
        Vamos por esta rua e subimos as escadas nas traseiras do edifcio.
       Encaminhei-me na direco indicada, mas a mo dela no meu brao fez-me parar.
        No vamos  disse, olhando-me nos olhos.  O barman quis avisar-nos.
        O que  que a leva a dizer isso?
        Deu-me a entender quando falou do Tony daquela maneira. Sei muito bem que ele o detestava. Uma vez brigaram e ele quase matou o Tony.
       Fiquei a olhar para ela.
        O saloon tambm pertence ao Coriano?
       Fez que sim com a cabea.
        Talvez seja melhor deix-los tratar disto  maneira deles.  Continuava com a mo pousada no meu brao.  Voc  um homem simptico. No gostava que lhe acontecesse nada de mal.
         o futuro da minha filha que eles tm nas mos. No precisa de vir comigo, se no quiser. Pode esperar no carro.
        No  disse, nervosa, puxando com a mo a tira de estojo da mquina.  Eu vou consigo.
       Olhei para ela.
        Por que  que no deixou isso no carro? No vale a pena andar por a com uma mquina to pesada s costas.
        Roubam tudo, aqui nestes stios  disse.  Esta mquina custou-me duzentos dlares.
       Era uma escada de madeira que se erguia no exterior do edifcio. Os nossos passos tinham um som cavo, enquanto subamos at acima. Uma faixa de luz era visvel atravs da parte de baixo de uma porta de madeira. Bati. Ouviu-se um arrastar de passos atrs da porta.
        Quem ? 
       Olhei para Ana.
        Sou eu, Ana  disse a rapariga.  Deixa-me entrar, Renzo. 
       Ouvi um praguejar abafado e a porta comeou a abrir-se.
        Como raio  que tu descobriste onde  que eu estava?  perguntou com aspereza. 
       Depois, viu-me e preparou-se para fechar de novo a porta. Pus o p na abertura e empurrei. Ele desequilibrou-se e recuou aos tombos. Ficou a olhar para mim, com os olhos escuros a pestanejar. Tinha o mesmo tipo de beleza da irm, s que nele no ficava bem. Dava-lhe um ar demasiado brando. Vestia umas calas escuras e apertadas,  europeia, e uma t-shirt.
        Quem  este tipo? 
         o Sr. Carey, Renzo  disse Ana.  Veio por causa das cartas. 
       Ouviu-se uma voz de rapariga, vinda do quarto do fundo.
        Quem , querido? 
         a minha irm, com um amigo.
        Um amigo? J l vou.
        No tenhas pressa  disse num tom sombrio. Olhou para mim.  De que cartas  que ela est a falar?
       Fechei a porta atrs de mim com o p.
        As cartas que estavam dentro daquele sobrescrito de papel pardo que ela lhe deu na noite em que o Tony Riccio foi morto.
        Ela s diz disparates. No sei de cartas nenhumas.
       Olhei para uma mesa que estava atrs dele. Aberto, em cima da mesa, havia um exemplar do Examiner da manh seguinte.
        Voc sabe de que cartas  que estou a falar. As mesmas acerca das quais escreveu  Sra. Hayden.  Num canto, da sala, vi uma mquina de escrever.  Escreveu-lhe naquela mquina.
       Uma rapariga saiu do quarto do fundo. Tinha o cabelo de um ruivo-alaranjado e um quimono azul de Grant Street amarrado na cintura com uma faixa vermelho-vivo.
        Apresenta-me os teus amigos, querido.
       Renzo olhou para ela e depois novamente para mim.
        Nunca escrevi carta nenhuma nessa mquina.
       Atravessei a sala e peguei na mquina de escrever. Meti-a debaixo do brao e dirigi-me para a porta.
        Eh!  gritou a rapariga.  Onde  que vai com a minha mquina?
        A polcia sabe comparar os tipos  disse.  Se eu tiver razo, a pena por prtica de chantagem  de dez a vinte anos.
        Bem te disse para no usares a minha mquina!  gritou-lhe a rapariga.
        Cala-te!  Voltou-se novamente para mim.  Espere a  disse.  Est comprador?
       Pousei a mquina e olhei para ele.
        Talvez  respondi.
       Os olhos dele tomaram uma expresso astuta.
        Foi a velha que o mandou?
        Se no fosse assim, como  que eu podia saber? 
        Quanto  que ela est disposta a pagar?
        Depende daquilo que voc tiver  disse.  No vamos comprar nada s cegas.
        So genunas.
       De repente, tive uma ideia.
        Voc no  o nico que est a tentar apanhar alguma coisa. Pareceu perturbado. 
        Quer dizer que h outros? 
        A sua carta foi a quarta que ns recebemos.
       Comeou a mostrar-se preocupado.
        Como  que ns podemos saber que as suas so verdadeiras?  perguntei.  Tenho de ver qualquer coisa primeiro.
        No pensa que eu sou to parvo que tenha as cartas aqui? Tenho scios a trabalhar comigo. As cartas esto em lugar seguro.
       Peguei novamente na mquina de escrever.
        Nesse caso, eu falo com os seus scios, quando eles aparecerem com a mercadoria.
        Espere a! Eu pensei que podia acontecer qualquer coisa deste gnero. Tirei umas cartas do sobrescrito, para o caso de serem precisas.
       Pousei a mquina de escrever.
        Assim j o entendo. Vamos l ver essas cartas.
       Renzo olhou para a rapariga.
        Veste-te e vai l abaixo pedir ao Johnny que te d o sobrescrito que eu lhe entreguei.
        No precisa de se incomodar.  Olhei para Ana que estava de p, em silncio, a observar-nos.  No se importa?
       Sacudiu a cabea. O irmo, fez um sorriso irnico.
        Quanto  que ele te paga para andares a fazer recados, Ana? Espero que te pague bem, porque no vais ter trabalho por muito mais tempo.
        No lho pago nada, seu palerma. A nica coisa que ela quer  impedir que voc v parar  cadeia.
       Ana saiu. Renzo voltou-se para mim.
        J agora tire esse peso de cima dos ps. Sente-se e beba qualquer coisa.
        No, obrigado. 
       Foi a um armrio e tirou uma garrafa. 
        Arranja-me um bocado de gelo, filha.
        Vai tu busc-lo!  disse. a rapariga com ar carrancudo.
       Renzo encolheu os ombros.
        Mulheres  disse, com ar enjoado.
       Dirigiu-se para o recanto que servia de kitchenette e abriu o frigorifico. Despejou alguns cubos que estavam numa bandeja e p-los num copo. Depois voltou e juntou-lhes um bocado de uisque. Sentou-se  mesa  minha frente. 
        Aquele Tony sabia o que fazia.
       No respondi. Levou o copo  boca.
        Tinha tudo ao jeito. A minha irm. A sua ex-mulher. A sua filha. No precisava de falhar uma noite, a menos que quisesse.
       Consegui controlar a irritao. Estava a comear a habituar-me quela maneira de falar.
        A sua mida estava doida por ele. Espere at pr os olhos nas cartas. O calor  tanto que o papel at crepita. Ele deve t-la ensinado bem; estava doidinha por ele. E no tinha vergonha nenhuma de pr tudo no papel... o que gostaria de lhe fazer quando estivessem juntos.
       Rangi os dentes, No tinha ido ali  espera de encontrar os Sonetos de Cames.
        A sua mulher tambm no era m  continuou  embora no se sasse assim a dizer coisas como fazia a mida. Mas no h dvida de que era ciumenta. Numa das cartas diz que no hesitava em o matar se visse que ele a enganava. Mas a mida batia-a aos pontos, no acha?
       Continuei a no responder.
        E a estpida da minha irm, como uma idiota,  espera que o Tony voltasse.  Riu-se.  Ele s voltava quando lhe apetecia comer um bocado de spaghetti e fazer amor  boa velha maneira italiana. Era como se se cansasse de todas aquelas coisas arrebicadas que tinha l em cima. Um tipo precisa de comer carne e batatas de vez em quando, dizia-me, s vezes. Uma pessoa cansa-se de caviar e pat de foie gras. Caramba, aquele Tony era o fim!
       Ouvi passos do lado de fora, na escada de madeira. Renzo tambm os ouviu. Ergueu o copo para mim, numa espcie de sade.
         sorte.
       Ouvi a porta abrir-se atrs de mim, mas no me voltei. Depois uma dor aguda explodiu na parte de trs da minha cabea e mergulhei na escurido que avanava para mim, vinda do cho. 

       No parava de ver luzes a brilharem-me diante dos olhos. Uma aps outra e, entre uma e outra, sentia-me empurrado para um lado e depois para o outro. Gemi e tentei pr-me de p, mas o nevoeiro rodeava-me por todos os lados e eu no conseguia. Depois vi dispararem-se mais algumas luzes, que foram as ltimas. S me ficara a dor na cabea.
       A gua gelada fez-me voltar a mim ao mesmo tempo que tentava cuspir. Sacudi a cabea e abri os olhos. Johnny e Lorenzo estavam inclinados sobre a minha cara. Baixei os olhos para mim mesmo. Estava sentado numa cama, completamente nu.
       Ouvi um roar de tecido e voltei-me, com a dor a estoirar-me na cabea por todos os lados. A rapariga de cabelo ruivo-alaranjado estava a enfiar, de novo, o quimono de Grant Street.
       Tentei evitar que a dor me arrancasse o alto da cabea. Fechei os olhos com fora, apertando- os muito e abri-os rapidamente. Pareceu-me que fiquei um pouco melhor. S nesse momento  que comecei a perceber o que tinha acontecido. Tinha cado que nem um patinho.
        A sua roupa est ali em cima da cadeira  disse Renzo.  Vamos deix-lo enquanto se veste.
       Saram, fechando a porta atrs deles. Sentei-me na cama, a ouvir o som abafado das vozes deles atravs da porta fechada. Estendi o pescoo e voltei a cabea. Doa como o diabo. No tinha nada a ver com os Mickey Spillanes. Nada de Cloud Nine ou de violentos sonhos erticos. Apenas uma dor dos diabos. Desci da cama a cambalear, entrei na casa de banho, abri a torneira do duche da gua fria e meti a cabea debaixo do jacto. Era como agulhas, mas deu o efeito desejado. Lentamente a dor comeou a desaparecer. Levei a mo  parte de trs da cabea e encontrei um pequeno ovo. Era uma sorte eu ter um crnio to forte.
       Virei a torneira para a gua quente, depois outra vez para a fria e a sensao dolorosa que tinha no pescoo e nos ombros desapareceu. Puxei de uma toalha suja, que foi a nica que consegui encontrar e sequei-me. Depois, vesti-me.
       Estavam sentados em volta da mesa a tomar uma bebida, quando sa do quarto.
        Est com ar de quem precisa de uma bebida  disse Renzo. Despejou um bocado de uisque para um copo e empurrou-o para mim. Peguei-lhe e emborque-o. O calor invadiu-me as entranhas e comecei a sentir-me melhor.
        Onde  que est a Ana?
        Mandei-a para casa  respondeu Renzo.  J fez o que tinha a fazer.  Empurrou uma fotografia em direco a mim.  Belo trabalho, no acha?
       Peguei na fotografia e pus-me a olhar para ela. Era uma Polaroid de dez segundos. S naquele momento  que reparei que o estojo que Ana levara com ela no era suficientemente grande para a Speed Graphic que ela estava a usar no clube. A fotografia era aquilo que eu esperava. Eu estava nu e o mesmo acontecia com a rapariga do cabelo ruivo-alaranjado. A posio era oriental clssica. Devolvi-lhe a fotografia.
         um bocado magra de mais para o meu gosto.
        Fique com ela  disse Renzo cheio de bonomia.  Tirmos um rolo inteiro.
        O que  que se segue?
        Sente-se e espere. Vem a mais algum.
       Enfiei a fotografia na algibeira.
        No, no creio. Acho que j me diverti o suficiente para o meu gosto.
       Dirigi-me para a porta e Johnny ps-se de p rapidamente. Avancei em direco a ele.
        Se fosse a si no fazia isso  disse Renzo com naturalidade.  Ele foi campeo de pesos plumas da costa do Pacfico. 
       Avancei novamente e Johnny atirou-me uma direita que parecia vir l de Los Angeles. Passei-lhe por baixo facilmente. No se passa uma boa parte do nosso tempo a trabalhar com a malta da construo sem fazer um bocado de exerccio. Deixei que o punho dele me passasse por cima do ombro e fiz-lhe um golpe de jud ao esterno. Johnny dobrou-se para a frente e eu apliquei-lhe um cutelo, de lado, no pescoo, que foi o melhor golpe de karate que jamais apliquei. O outro foi-se abaixo como se tivesse ficado electrocutado. O meu instrutor da Fora Area ter-se-ia sentido orgulhoso de mim.
       Voltei-me mesmo a tempo para ver Lorenzo avanar direito a mim. Agarrei-o e empurrei-o de encontro  parede. Obriguei-o a ficar ali, a espernear. A rapariga comeou a gritar quando lhe pus a mo, com a palma bem esticada voltada para baixo junto ao pescoo.
        Bom, onde  que esto as outras cartas?
       O terror estampou-se nos olhos de Renzo. Sacudiu a cabea. Bati-lhe ao de leve com a mo na ma-de-ado. O suficiente para ele sufocar um pouco.
        Se eu fizer isso com a fora toda, vais dormir para o mesmo campo de margaridas que o teu heri Riccio.
        No as tenho  arquejou com voz rouca.  Dei-as ao Coriano. 
       Fiz um gesto de ameaa.
        Palavra! 
        As fotografias  disse. 
         o Johnny que as tem. 
       Renzo tremia, aterrorizado. Bati-lhe com a mo aberta na cara e deixei-o cair pesadamente no cho. Ficou sentado a gemer. A rapariga correu para ele.
        Renzo, meu querido! Ele magoou-te? 
       Aproximei-me de Johnny. Comeava a mexer-se um pouco. Fi-lo rolar at ficar de costas, satisfeito por no o ter morto. Ajoelhei-me no cho e comecei a revistar-lhe as algibeiras. Acabava de encontrar as fotografias, quando a porta que ficava atrs de mim se abriu.
       A primeira coisa que vi, quando me voltei, foi o cano do uma calibre 38. Estava apontada em cheio  minha barriga e do stio onde me encontrava, parecia-me um canho de cinqenta milmetros. Logo a seguir reparei no homenzinho gorducho que estava por detrs da arma, com os olhinhos redondos quase perdidos nos rolos de gordura que os circundavam.
        Eu fico com as fotografias, se no se importa  disse.
       Estendi-lhas sem falar.
        Ponha-as em cima da mesa e recue at  parede.
       No se discute com um canho. Fiz o que me mandaram.
        Agora volte-se, apoie as mos contra a parede, com os braos esticados para cima e encoste--se bem. Sabe o que eu quero dizer.  como fazem na televiso.
       Eu sabia o que ele queria dizer.
       Ouvi-o aproximar-se da mesa. Depois um barulho de papel.
        Pode voltar-se, coronel.
       Voltei-me.
        Voc  que  o Coriano?
       Fez que sim com a cabea. Olhou para Johnny e depois para Lorenzo. Sorriu com ar amvel.
        Esteve a divertir-se um bocado com os meus rapazes?
        Eles foram muito cooperativos  disse.
        So duas bestas sem miolos. Mas no tem importncia. J negociei as cartas com a sua ex.
       Puxou de uma cadeira e sentou-se.
        No h nada de pessoal nisto, coronel, compreende  disse.   apenas uma questo de negcio.
       Olhei para o homenzinho atarracado. Parecia to satisfeito, ali sentado, que o menos que eu podia fazer era aban-lo um bocado.
        Quanto  que ela lhe deu?
       Sacudiu o revlver no ar, num gesto cheio de negligncia.
        Vinte e cinco.
        Foi levado. A me dela teria ido at aos cem mil.
       Ficou um momento a olhar para mim, fixamente. Depois encolheu os ombros.
         a vida  disse filosoficamente.  A minha sorte  sempre a mesma. As aces sobem depois de eu as vender.
        E as fotografias?  perguntei.
        Questo de segurana, coronel. Para mim e para a senhora que comprou as cartas.  Olhou-as de relance.  Esto boas, no esto?
       Passei por ele em direco  porta. Coriano continuava com os olhos postos em mim; o mesmo acontecia com Renzo e a namorada. O nico que no me olhava era Johnny. Esse estava estendido ao comprido, de costas, no cho. Sacudi a cabea tristemente, como que a compartilhar do desgosto dos outros e sa. O meu carro continuava onde o tinha deixado. Preparava-me para abrir a porta quando ouvi a voz de Ana.
        Sr. Carey?  Sentei-me no carro ao lado dela.  Est bem?
        Acho que sim  respondi.
        No pude evitar nada, Sr. Carey.  Comeou a chorar. Eles obrigaram-me a fazer aquilo. Coriano estava no bar quando vim c abaixo.
        Claro, Ana, claro.  Bati com a mo no estojo de couro da mquina fotogrfica, que estava pousado em cima do banco no meio dos dois.  Foi por acaso que trouxe a Polaroid consigo?
         verdade! Coriano viu a mquina e foi ela que lhe deu a ideia. Disse que isso evitaria que o senhor desse  dica com os chus. Tive o cuidado de lhe tirar as fotografias enquanto estava com os olhos fechados, assim pelo menos pode provar que estava inconsciente.
       Voltei-me para olhar para ela. Provar que estava inconsciente? Tretas. O meu ar era de profundo deleite.
        No pude deixar de fazer aquilo, Sr. Carey  disse muito sria.  se no o fizesse, o Coriano nunca mais me deixava trabalhar.
        Est bem, Ana  disse.  Agora d-me a sua morada que eu levo-a a casa.
       Deixei-a em casa e quando cheguei ao meu quarto, quase uma hora depois, o indicador do telefone acendia e apagava a sua luz vermelha. Peguei no aparelho. A Sra. Hayden acabava de telefonar e pediu-me que ligasse para ela. Marquei o nmero. A voz dela estava bem desperta e o tom era incisivo.
        Ento, Luke?  perguntou.  Conseguiu-as? 
        No.
        O que  que quer dizer com isso?  perguntou, zangada.
        No havia nada para comprar. A Nora apanhou-as antes de ns.
        A Nora?  A voz dela mostrou surpresa.
        Quem  que havia de ser?
       Soltou uma risada.
        Eu devia ter pensado nisso. A Nora no ia querer que as cartas nos viessem parar s mos. Bom, pelo menos j no precisamos de nos preocupar.
        Claro  respondi e desliguei. 
       Ningum a no ser eu. Mal tinha foras para me despir e meter-me na cama. Tinha sido uma noite comprida.
       
       A enfermeira abriu a porta do quarto de Dani.
        A tua me est aqui, para te ver. 
       Dani saltou da cama.
        Onde  que ela est? 
        Est  espera na cafeteria.
       Dani seguiu a enfermeira ao longo do corredor e atravessou o porto de ao. Desceram no elevador at ao piso onde ficava a cafeteria. Eram apenas umas trs horas e a cafeteria estava quase vazia. Um homem desconhecido e Miss Jennings estavam sentados com a me. Nora ergueu a cara para o beijo de Dani.
        Ol, querida.
       Dani olhou para Miss Jennings e depois para o homem.
        Ol, me. Ol, Miss Jennings. 
       Sally Jennings ps-se de. p.
        Ol, Dani.  Voltou-se para os outros.  Bom, tenho de voltar para o meu gabinete.
       Fizeram que sim com a cabea e ela saiu.
        No fiques a de p, Dani  disse Nora, com uma certa aspereza.  Senta-te. 
       Dani sentou-se, obediente.
        O que  que ela queria?
        No queria nada. Ns  que queramos falar com ela.
        Sobre qu?  A voz de Dani mostrava desconfiana.
        Sobre ti. Parece que ests a causar muitos problemas.
       Dani olhou fixamente para a me durante alguns momentos, depois para o homem.
        Quem  ele?  perguntou, sem rodeios.
        Dani!  A voz de Nora mostrava-se chocada.  Sabes comportar-te como deve ser.
       A voz de Dani era impaciente.
        Aqui no, me. Aqui no h tempo para pensar nessas coisas. Quem  ele?
       Nora deitou ao homem um olhar cheio de eloquncia.
        Este  o Dr. Weidman, Dani. Pedi-lhe que te examinasse.
        Para qu? 
        Para teu bem! Ao que parece eles aqui no conseguem descobrir qual  o teu problema.
        Mais um para me dar cabo da cabea?
       A voz de Nora mostrou-se zangada.
        O Dr. Weidman  psiquiatra, Dani.
        No quero falar com ele.
        Tens de falar!  insistiu Nora.
        Por qu, me? Achas que h alguma coisa em mim que no funciona bem?
        Aquilo que eu penso no importa, Dani. O que conta  aquilo que eles pensam. Podem mandar-te para longe durante muito tempo.
       Dani continuava a fitar o rosto da me.
        Aquilo que tu pensas  importante para mim, me. Achas que h alguma coisa em mim que no funciona bem?
       Nora fitou-a tambm, depois respirou fundo.
        Claro que no, querida  disse.  Mas...
        Ento no quero falar com ele.
       O mdico ps-se de p. Sorria.
        No creio que tenhamos razes para nos preocuparmos, Miss Hayden. Miss Jennings tem uma excelente reputao, e acho que podemos confiar inteiramente nas suas opinies.  Voltou-se para Dani.  No fazia mal nenhum, minha filha, que tivesse um pouco mais de confiana em Miss Jennings. O pior que ela pode fazer  ajud-la.
       Fez uma espcie de vnia e deixou-as. Ficaram sentadas, a olhar uma para a outra, em silncio.
        Tem moedas, me? Queria ir buscar uma Cola.
       Nora olhou-a, distradamente. Dani sabia que a me estava a pensar noutra coisa. Era sempre assim, quando se punha com aquele ar.
        Uma moeda, me?  repetiu suavemente. 
       Nora abriu a carteira.
        Achas que me podias arranjar um caf?
        Claro, me.
       Dani levantou-se e foi at  porta da cozinha.
        Eh, Charley! Arranjas-me uma chvena de caf para a minha me?
       Um rosto escuro e luzidio apareceu  porta.
        Com certeza, Dani.
       Dani levou o caf para a mesa e foi buscar a Cola. Quando voltou e se sentou, Nora acendeu um cigarro. Dani olhou para ela e Nora empurrou o mao em direco  filha, com um suspiro cheio de relutncia. A pequena pegou num cigarro e acendeu-o.
        Julguei que no acreditavas em psiquiatras, me.
        J no sei em que  que hei-de acreditar.
       Dani olhou para a me, curiosa. No parecia dela. Tinha sempre ideias bem definidas sobre tudo.
       Nora levou o caf  boca e fez uma careta. Dani sorriu.
        No se parece nada com o caf l de casa, pois no, me?
        L isso  verdade  disse Nora. Olhou para a filha.  A comida tambm  assim to m?
        A comida  boa.
        Vi as cartas que escreveste ao Rick  disse Nora em voz baixa.  Por que  que no me tinhas falado nelas?
       Dani sentiu o rosto a escaldar.
        No pensei mais nisso. Esqueci-me.
        Se tivessem ido parar  mo de outra pessoa, teria sido muito pior. Eu... eu no sabia que isso j durava h tanto tempo  disse Nora, sem jeito.
       Dani sentiu a garganta apertar-se-lhe. Fitou a me, em silncio. Nora baixou novamente os olhos.
        Quando foi que comeou? 
        Foi daquela vez em Acapulco. Lembra-se, me? Quando teve de apanhar o avio para ir a So Francisco? Foi nessa altura que isso aconteceu.
        Devias ter-me dito, Dani. O que foi que ele te fez?
        Ele no me fez nada, me  disse Dani com firmeza.  Eu  que lhe fiz a ele.
       As lgrimas subiram aos olhos de Nora.
        Por qu, Dani, por qu? 
        Porque eu quis, me. Estava to cansada de fingir que era uma criana.
       Ficou silenciosa, ao mesmo tempo que olhava fixamente para a me, de cigarro na boca.
        Acho que no temos assim muito mais de que falar, pois no, me?
       Nora sacudiu a cabea.
        Acho que no.
       Havia muitas coisas para elas falarem, mas Dani no conseguia conversar com ela e ela no conseguia conversar com Dani, tal como tambm no fora capaz de conversar com a prpria me. Cada gerao era, por si s, uma ilha.  Fez mais uma tentativa.
        Dani  disse, muito sria.  Por favor, fala com a Miss Jennings. Ela talvez te possa ajudar; ajudar-nos a ns.
        No ouso, me. Com ela, nem sempre se consegue parar onde se quer. Uma coisa leva a outra e antes que uma pessoa d por isso, j ela ter ficado a saber a verdade sobre o que aconteceu naquela noite. E eu no desejo que ningum saiba, tal como a me tambm no deseja.
       Nora olhou para a filha. Era nisto que tudo se resumia, pensou. A nica coisa que podiam partilhar era um erro comum.
       Dani levantou os olhos para o relgio de parede. Eram quase trs e meia.
        Tenho de ir  disse, hesitante.  Tenho uma aula.
       Nora fez que sim com a cabea. Dani levantou-se da cadeira, deu a volta  mesa e beijou a face da me. Nora passou imediatamente os braos em volta dela.
        No se preocupe, me. Tudo vai correr bem.
       Nora conseguiu sorrir.
        Claro que vai, querida. Vemo-nos no domingo.
       Viu a enfermeira levantar-se e seguir atrs de Dani at ao corredor. Depois as portas de mola fecharam-se e no viu mais nada. Baixou os olhos para o cinzeiro. O cigarro que tinha acendido ainda estava a arder. Esmagou-o devagarinho e depois pegou na carteira. Puxou do espelho, retocou ligeiramente a maquiagem e saiu.
        A tua me  muito bonita, Dani  disse a enfermeira enquanto se encaminhavam para o quarto.
       Dani olhou de relance para a enfermeira. Era o que diziam sempre as pessoas que viam a me pela primeira vez, depois, quando a viam a ela, quase sentia a decepo que experimentavam.
        Que linda criana!  diziam. Mas Dani sabia o que sentiam na realidade.
       Entrou para o quarto e fechou a porta. Ficou um momento a olhar para as paredes riscadas e escritas a lpis. Depois, estendeu-se em cima da cama. 
       Bela e talentosa. Era assim a me. Tudo aquilo que ela no era. Lembrava-se de como costumava entrar furtivamente no estdio, quando a me estava fora, para tentar copiar algumas das peas maravilhosas que a me esculpia. Mas tudo o que fazia saa mal e ela acabava por deitar tudo fora, para ningum ver. De repente, deu consigo a chorar baixinho. Passados momentos as lgrimas pararam e Dani levantou-se da cama e ps-se a olhar para si prpria no pequeno espelho. Mesmo depois de ter estado a chorar, a me continuava bela! O olhar lmpido, a pele clara e luminosa. Nada disto: os olhos empapados e vermelhos, a cara inchada.
       Tirou uma toalhinha hmida e perfumada da embalagem que a me lhe tinha mandado e rasgou o invlucro de alumnio. Comprimiu-a de encontro  cara, sentindo a humidade fresca e ligeiramente mentolada suavizar-lhe a pele.
       Lembrou-se de como Rick costumava faz-la arreliar por ela gostar tanto daquelas toalhinhas. Trazia sempre algumas na carteira. Uma vez, depois de terem estado juntos, quando Rick tinha ficado estendido ao lado dela, de olhos fechados, tinha pegado numa, com a ideia de o refrescar. Mas ele tinha saltado quase at ao tecto, quando lhe tocara com a toalhinha.
        Pelo amor de Deus, mida, o que  que ests a fazer? 
        S queria que te sentisses melhor  respondera. 
       Tinha-se rido e tinha-a puxado de encontro a ele. Sentira-lhe o ligeiro arranhar da barba, enquanto lhe escondia a cara no pescoo.
        Sabes uma coisa, s uma mida louca!
       Depois, tinha-a abraado e as mos dele tinham-lhe feito todas aquelas coisas maravilhosas que a faziam sentir o quanto era necessria.
       Sentiu as lgrimas virem-lhe de novo aos olhos. Pestanejou para as afastar. Agora j no valia a pena chorar. No tinha ningum a quem recorrer. Dantes, quando se sentia triste, como agora, podia sempre ir ter com ele. Rick sorria, tocava-lhe e a tristeza desaparecia. Mas agora acabara-se.
       Cuidadosamente, riscou os dias no calendrio. Sylvia tinha sido mandada embora na vspera. O que queria dizer que hoje era sexta-feira. O funeral de Rick j devia ter sido. Descuidadamente perguntou a si prpria se a me teria mandado flores. Provavelmente, no. O mais provvel era que no tivesse mandado, se  que Dani a conhecia. A me j o tinha esquecido completamente. Alm disso, bem l no fundo ainda se sentia demasiado ciumenta.
       Lembrava-se de como a me tinha ficado zangada ao encontr-la no quarto de Rick. Tinha gritado e os dedos dela tinham deixado marcas vermelhas de fria nos ombros nus de Rick. Pensara que a me o ia matar.
        No, me, no!  tinha gritado. 
       Depois a me tinha-a arrastado, nua, pelo vestbulo e tinha-a atirado para o quarto dela. Lembrava-se de ter ficado ali, dobrada sobre si prpria, tremendo e chorando alternadamente, enquanto a briga entre os dois ressoava por toda a casa.
       No, naquele momento tinha a certeza de que a me no lhe tinha mandado flores. Mas tambm tinha a certeza de que a me no tinha esquecido Rick. Sentia os olhos secos a arderem. Pegou noutra toalhinha e ps-se a bater com ela ao de leve na cara. Depois, amarrotou as duas e atirou-as para o cesto dos papis.
       De repente, sentiu-se muito s. Como se as toalhinhas que tinha deitado fora representassem o elo que a ligava ao passado e esse elo "tivesse agora quebrado". S o Rick a tentara compreender e agora j no havia ningum. Ningum. Comeou a chorar outra vez.
       Sally Jennings levantou os olhos para o relgio. Era um quarto para as seis. Impaciente, baixou os olhos para a secretria. Tinha tantos relatrios para mandar. Comeou a arrum-los cuidadosamente na pasta. Talvez conseguisse trabalhar em alguns deles quando chegasse a casa, depois do teatro. Tinha esperado muito tempo para arranjar bilhetes para esta pea e, desta vez, nada ia impedi-la de a ver. O tempo de chegar a casa e vestir-se, voltar ao centro; no tinha tempo para mais do que para meter qualquer coisa na boca antes de subir o pano.
       Ouviu-se uma pancada hesitante na porta.
        Sim?  respondeu, impaciente. 
       A principio, apenas viu o uniforme branco de uma enfermeira, por detrs da porta de vidro. Depois a porta abriu-se e Dani entrou. Dani ficou parada  porta.
        Miss Jennings  perguntou numa vozita fraca e quase imperceptvel  posso falar-lhe?
       A psicloga ficou um momento a olhar para ela. A criana tinha estado a chorar, era bem visvel, mas havia nela um certo ar de abandono que nunca lhe tinha visto antes.
        Claro, Dani.
       Dani olhou para a pasta aberta.
        Se estava para sair, Miss Jennings, eu posso c voltar amanh de manh.
       Sally Jennings fechou a pasta e p-la no cho atrs da secretria.
        No. A verdade  que eu tencionava ficar a trabalhar esta noite.
       Dani avanou um pouco mais.
        No queria incomod-la. 
       Miss Jennings sorriu-lhe e quando sorriu pareceu de repente muito jovem.
        Vamos fazer uma coisa. E se ns jantssemos juntas na cafeteria? Vai ser agradvel ter algum com quem falar, para variar.
       Dani olhou por cima do ombro para a enfermeira, que continuava  espera, do lado de fora.
        Acha... acha que me vo deixar?
       Sally Jennings pegou no telefone e ligou para a chefe do Departamento de Vigilncia e Orientao. Cobriu o bocal com a mo.
        Acho que vou conseguir.
       Talvez no fosse alvio nem gratido que a psicloga viu nos olhos de Dani, mas, de repente, pareceu-lhe que aquele ar de abandono lhe tinha desaparecido do rosto. E, de repente, a pea que andava h tanto tempo com vontade de ver, deixou de lhe parecer importante.
        A primeira vez que me dei conta de que as pessoas no eram para sempre, foi quando o meu pai deixou de me ir ver.  Dani olhou para Miss Jennings, do outro lado da secretria. Tinham vindo de jantar.  Percebe o que quero dizer? Quando se  pequeno,  como se fssemos o centro do mundo, mas  medida que vamos crescendo, descobrimos que no  assim. Chorei todos os dias durante um ms. Depois habituei-me  ideia.
       O tio Sam, o Sr. Corwin era muito simptico. A me casou-se com ele depois de se divorciar do meu pai. Acho que ele tinha um bocado de pena de mim. Costumava sair comigo, como o meu pai fazia antes. Aos parques e ao jardim zoolgico. Uma vez levou-me mesmo a andar de barco. Mas no era como o pap. Quando eu estava com o pap, era como se ele no pensasse em mais nada seno em mim. Com o tio Sam era diferente. No era que ele no tentasse, mas eu era apenas uma das muitas coisas em que ele pensava. Mesmo assim, eu gostava dele. E um dia foi-se embora. Lembro-me muito bem desse dia.
       Dani ficou silenciosa, a olhar para o cigarro que lhe ardia entre os dedos.
        Continua, Dani  encorajou a psicloga.  Lembras-te desse dia. O que foi que aconteceu que te faz lembr-lo?
       
       A carrinha azul e branca com as palavras Escola de Miss Randolph delicadamente escritas na porta entrou no caminho, que levava  casa de Dani e parou. O condutor, com o seu elegante uniforme cinzento, saiu e abriu a porta. Dani saiu a correr, com os cabelos compridos e escuros a esvoaarem atrs dela, a blusa branca e a saia pregueada azul-escura a brilharem  luz do sol. Dani subiu a correr os degraus que levavam  entrada principal.
        Bom fim-de-semana, Dani ! gritou-lhe o condutor.
        J da porta, lanou-lhe um sorriso luminoso.
        Para si tambm, Axel.
       Deixou cair os livros na mesa da entrada e, com a ficha do colgio na mo, passou como uma flecha junto  escada circular, avanou pelo corredor e chegou ao estdio. Empurrando a porta, correu para dentro da sala, a gritar:
        Me! Me! Tive um Muito Bom em Arte! 
       J estava mesmo no meio do estdio, com a ficha bem espetada na mo, quando se apercebeu de que no estava l ningum. Dirigiu-se ao quartinho que ficava mesmo  sada do estdio. A porta estava fechada. Bateu ao de leve.
        Me, me, est a? 
       Ningum respondeu. Cuidadosamente, abriu a porta e espreitou para dentro. O quarto estava vazio. Lentamente, fechou a porta. Estava confusa. quela hora, a me estava geralmente a trabalhar. Voltou  sala de entrada. Apanhou os livros que estavam em cima da mesa e comeou a subir as escadas. Charles vinha a sair do quarto do tio Sam.
        Boa tarde, Miss Dani. 
       Levantou os olhos para ele.
        Onde  que est a me?
       O mordomo pareceu pouco  vontade.
        Saiu, Miss Dani.
        Disse quando voltava?  Dani mostrou-lhe a ficha.  Tive um Muito Bom em Arte. Quero que ela veja.
        Isso  ptimo, Miss Dani.  Depois a voz dele mudou.  Madame no disse quando voltava.
        Oh!  disse Dani, num tom cheio de decepo. Encaminhou-se para o quarto dela, depois parou e olhou para trs.  Quando ela chegar, diz-me, Charles. Quero que ela veja.
        Claro, Miss Dani.
       A Sra. Holman estava a pendurar alguns vestidos no armrio, quando Dani entrou no quarto. Quando viu a pequena, espalhou-se-lhe no rosto um enorme sorriso.
        Vejo que j chegaste. Estava a perguntar a mim mesma quando  que tu vinhas. Conseguiste?
       Dani sorriu.
        O que  que lhe parece?
        Deixa-me ver  disse a velha preceptora.  No posso esperar mais.
       Num gesto de traquinice, Dani escondeu a ficha atrs das costas.
        No lho vou mostrar, Nanny, enquanto no cumprir a sua promessa!
        O bolo j est feito.
        Ento, est bem!  Dani estendeu-lhe o carto.
        Tenho de pr os culos  disse a Sra. Holman.  Estou to excitada que no consigo ler!
       Encontrou-os numa algibeira do uniforme e p-los na cara. Depois baixou rapidamente os olhos para o carto.
        Oh, Dani!  exclamou  um Muito Bom em Arte!  A preceptora puxou Dani para ela.  Sinto-me to orgulhosa de ti  disse com entusiasmo. Beijou Dani na face.  A tua me tambm se vai sentir muito orgulhosa quando souber.
        Onde  que est a minha me? No estava no estdio. 
       A mesma expresso que ela tinha visto nos olhos de Charles apareceu no rosto da preceptora.
        A tua me teve de se ausentar de repente, numa viagem de negcios. Na segunda-feira j est de volta.
        Oh.  Ultimamente, a me tinha feito muitas destas viagens de negcios inesperadas,nos fins-de-semana. Tirou a ficha da escola da mo da preceptora.  Espero que ela volte a tempo de assinar a minha ficha. Tenho de a levar de volta na segunda-feira.
        Tenho a certeza de que ela vai voltar a tempo. E agora, porque  que no vamos at  cozinha e pedimos  cozinheira que nos d o bolo e o leite? Vamos fazer uma festinha, as trs.
       Dani olhou para a velha preceptora. Estava cansada de fazer festas com ela. Seria agradvel, para variar, que a me aparecesse numa das festas dela.
        No estou com disposio para festas.
        Vamos, faz o que a Nanny te diz  atalhou a preceptora, com uma severidade pouco convincente. Sabia o que Dani estava a pensar.
        Ok.
       Dani voltou-se e saiu. Encontrou o tio Sam e Charles no vestbulo. Cada um deles levava vrias malas.
        Tio Sam!  gritou Dani, correndo para ele. 
       Corwin voltou-se para esperar por ela. Charles continuou a descer com as malas.
        O que , Dani? 
        Tive um Muito Bom em Arte!
        Que maravilha, Dani! 
       Havia qualquer coisa na voz do tio Sam que a fez levantar os olhos para a cara dele. Tinha um ar cansado e Dani sentiu nele uma espcie de tristeza. Deitou uma olhadela aos sacos.
        Tambm vai passar o fim-de-semana fora? Vai ter com a me? 
        Vou viajar, Dani. Mas no vou ter com a tua me. 
        Oh, pensei que se a visse, lhe podia dizer.
       Parecia estar a pensar noutra coisa qualquer.
        Dizer-lhe o qu?
        Que eu tive Muito Bom em Arte.
        Eu no vou estar com ela, Dani.
        E na segunda-feira j est de volta? 
       Ficou um momento com os olhos postos nela, em silncio, depois pousou a bagagem.
        No Dani, na segunda-feira no estou de volta. Eu no volto mais.
        Nunca mais?  perguntou, numa voz espantada. 
        No. Vou-me embora de vez. 
       De repente, os olhos dela encheram-se de lgrimas. Tal e qual como o pap. Um dia foi-se embora e passado algum tempo, deixou mesmo de a ir ver.
        Por qu? J no gosta de ns? 
       Sam viu as lgrimas nos olhos da pequena e sentiu-lhe a preocupao na voz. Pegou-lhe na mo.
        No  nada disso, Dani. No  por causa de voc. Mas, s vezes, as coisas no correm como deviam. A tua me e eu vamos divorciar-nos.
        Como a me e o pap?
       Ele fez que sim com a cabea. 
        Isso quer dizer que j nunca mais me vem ver?  Comeou a chorar.  Agora nunca mais ningum me vem ver.
       Ps o brao em volta dela, com ar constrangido.
        Eu gostava de te vir ver, Dani. Mas no posso.
        Por qu?  perguntou.  A me da Susie Colter j se divorciou cinco vezes e todos os pais dela vo visit-la. Eu sei, porque ela fica sentada ao meu lado na escola e ela mostra-me sempre os presentes que eles lhe levam.
        A tua me no ia gostar. 
        Por que  que no pode ser ela a sair quando se divorcia?  perguntou Dani, que comeava a ficar zangada.  Por que  que tem de ser sempre o pap a sair?
        No sei. 
       Impulsivamente, passou os braos em volta dele.
        No v, tio Sam! Vou sentir a sua falta de uma maneira horrvel!
       Ele sorriu e encostou a cara  dela.
        Eu tambm vou sentir a tua falta, Dani. Mas, agora, s uma menina crescida e deixa-me ir embora que eu mando-te um presente de vez em quando. Podes mostr-los  tua amiga e, assim ela j fica a saber que no  a nica cujo pap lhe manda presentes.
        Est bem  disse Dani, hesitante. Beijou-lhe a face.  Mas, mesmo assim, vou sentir a sua falta.
       Sam beijou-a outra vez e endireitou-se. Pegou nas malas.
        Tenho de me despachar. 
       Dani seguiu-o pela escada abaixo.
        Vai para La Jolla viver num barco como o meu pap? 
       Riu-se. 
        No, Dani. Vou viver em Nova Iorque, durante uns tempos. 
       A voz dela mostrou-se decepcionada.
        Se vivesse num barco, podamos dar passeios. 
       Sam riu-se de novo.
        Eu no sou to bom marinheiro como o teu pap. 
       Dani seguiu-o at  porta e ficou a ver Charles pr as malas no txi. O tio Sam inclinou-se e beijou-a outra vez.
        Adeus, Dani. 
       A pequena acenou-lhe e o txi ps-se em movimento.
        Adeus, tio Sam!  gritou e depois, como no sabia o que havia de dizer, acrescentou:  Espero que se divirta!
       Com ar pensativo, atravessou a casa em direco  cozinha. Charles, a cozinheira e Nanny estavam  espera dela. Todos, excepto Violet, que era a criada da me. Violet nunca aparecia quando a me ia para fora.
        A me e o tio Sam vo divorciar-se  anunciou.  O tio Sam vai viver para Nova Iorque
       A Sra. Holman trouxe o bolo de chocolate recheado e p-lo em cima da mesa.
        Que tal este bolo? 
       Dani olhou para o bolo. 
        Magnfico!  mas no havia entusiasmo na voz dela.
        Sentem-se  mesa que eu corto o bolo. 
       Obediente, Dani sentou-se. A cozinheira cortou-lhe uma grande fatia triangular e ps-lo no prato, ao lado de um copo de leite. Depois, cortou fatias para os outros e todos se sentaram. Dani sabia que estavam  espera de que ela comeasse para comerem tambm. Cortou um pedao com o garfo e p-lo na boca.
        Este bolo est uma maravilha  balbuciou.
        No se fala com a boca cheia, Dani.
       Comearam todos a comer.
        O bolo est muito bom, Sra. Holman  disse Charles.
        Bom, vamos l a ver  preveniu a cozinheira, a rir.
        Claro que os seus bolos tambm so sempre muito bons  disse Charles, pensando que nestes tempos, no  nada fcil encontrar uma boa cozinheira.
        Por que  que eles se vo divorciar?  perguntou Dani, de repente.
       Os criados trocaram olhares embaraados. Foi a preceptora quem respondeu.
        No sabemos, minha filha. No nos compete a ns saber essas coisas.
        Ser por a me ser to bonita e ter tantos amigos? 
       No responderam.
        Ouvi o tio Sam e a me discutirem h poucos dias. O tio Sam disse que estava cansado dos negcios de lenis da me. Eu sabia que o tio Sam e o Sr. Scaasi negociavam em objectos de arte, mas no sabia que a me tambm negociava em lenis. Por que  que eu no saberia uma coisa dessas?
        Isso so coisas que no nos dizem respeito, minha filha  disse a Sra. Holman com severidade.  E a ti tambm no, alis. Come mas  o bolo e preocupa-te com as coisas que te dizem respeito.
       Dani comeu em silncio durante alguns minutos. Depois, levantou os olhos.
        O tio Sam disse que me ia mandar presentes, para eu poder mostrar  Susie Colter que no  s ela que tem paps que lhe mandam presentes.
       Duas semanas depois, Dani fez dez anos e recebeu um grande caixote vindo de Nova Iorque. Estava cheio de presentes. O tio Sam tinha cumprido a sua promessa. Ficou um pouco mais satisfeita. Mas,  sua maneira, sentia a falta dele.
       Quando a escola fechou, a me levou-a para um rancho elegante, perto do lago Talioe, onde passaram o vero. A me disse que tinha de fazer assim para conseguir o divrcio, mas Dani no se importou. Divertia-se bastante. Montava a cavalo todas as manhs e passava as tardes no lago. Rick tambm l estava. Agora era ele o novo agente da me. Devia estar ligado aos negcios que o tio Sam mencionara quando estava a discutir com a me, porque de vez em quando, via-o sair do quarto da me pela manh.
       Mas gostava de Rick. Gostava das mesmas coisas que ela. Montava a cavalo com ela e ensinavaa a fazer esqui aqutico. E ria muito. No era como o tio Sam, que quase no se ria. A me costumava dizer que Rick parecia to criana como ela.
       A me no gostava de andar a cavalo, nem de passar muito tempo na gua. Dizia que lhe estragava a pele, que apanhava facilmente um golpe de sol. Em vez disso, passava a maior parte do tempo no quarto que tinha armado numa espcie de estilizo. s vezes,  noite, levantava-se e ia com Rick para Reno. No dia seguinte, a me dormia at tarde. Mas Rick levantava-se cedo todas as manhs para irem montar juntos. Rick costumava chamar-lhe "Pequeno Vendaval".
       Nessa altura, ele usava bigode. Um trao fino, um pouco mais largo do que um risco de lpis, que lhe ia at aos cantos da boca rasgada. Achava que lhe dava um ar engraado. Uma certa parecena com Clark Gable. Um dia disse isso  me e, fosse pelo que fosse, esta ficou zangada. Disse ao Rick que rapasse aquele bigode ridculo. Dani comeou a chorar. No sabia porqu.
        No rapes!  pediu.  Por favor, no rapes! 
        Acaba com essa tolice!  gritou a me.
       Dani voltou-se para a me, furiosa.
        A nica razo por que a me quer que ele rape o bigode  por eu lhe ter dito que gostava. No quer que ningum goste de mim, nem que eu goste de ningum!  Voltou-se para Rick.  Diz-lhe que no o rapas!
       Rick olhou para ela, depois para a me. Hesitou. Nesse momento, a me sorriu. Era um sorriso esquisito, o tipo de sorriso que lhe surgia no rosto quando obrigava algum a fazer uma coisa que no queria.
        s livre, branco e tens mais de vinte e um anos, Rick. Resolve o que queres fazer.
       Rick ficou um momento parado, depois, voltou-se e foi at ao quarto dele. Quando saiu de l, passados alguns minutos, o bigode tinha desaparecido.
       Dani ficou a olh-lo fixamente. Parecia diferente. Havia uma linha branca, bastante cmica, no stio que antes estava tapado pelo bigode. J no se parecia com o Clark Gable. Dani largou a chorar e fugiu para o quarto. Depois disso, Rick nunca mais saiu com ela a cavalo. Nem a levou no barco para fazer esqui aqutico. Mas a verdade  que tambm no teve muita importncia porque as frias estavam a terminar. A me mandou-a para um campo de frias, para passar o resto do vero.

       Nora levantou os olhos do trabalho para responder  pancada leve que se ouviu na porta do estdio.
        Entre.
       A porta abriu-se ligeiramente e a Sra. Holman apareceu, hesitante,  entrada da sala.
        Posso dizer uma palavrinha  senhora?  perguntou com toda a formalidade.
       Nora fez que sim com a cabea.
        Claro.  Pousou o pedao de barro e limpou as mos.
       A preceptora entrou, constrangida. Aquela era uma das raras vezes em que tinha entrado no estdio.
        Gostava de falar com a senhora por causa da Danielle.
       Deitou um olhar a Rick, que se encontrava perto.
        O que  que h?  perguntou Nora.
       A Sra. Holman olhou novamente para Rick. Hesitou. Rick compreendeu.
        Vou deix-las sozinhas.  Saiu para o quarto ao lado, deixando a porta aberta.
        Ento?  perguntou Nora.
       A mulher mais idosa continuava pouco  vontade.
        A Danielle est a crescer.
        Claro  disse Nora.  Todos sabemos isso.
        J no  o que se possa dizer uma criana. Est a tornar-se uma rapariguinha e bem depressa.
       Nora olhou-a em silncio.
        O que eu quero dizer  continuou a preceptora, num tom de embarao   que no  fcil explicar-lhe certas coisas.
        Que coisas?  perguntou Nora com ar aborrecido.  Tenho a certeza de que no vai ser preciso explicar-lhe os factos da vida. Na Escola de Miss Randolph tm esse cuidado e fazem-no com toda a eficincia.
         isso mesmo  disse a Sra. Holman excitada.  Ela j sabe. 
       Nora sacudiu a cabea.
        Claro que sabe.  natural que saiba.
        Ela sabe  disse a mulher  e sabe o que v.
       Nora ficou um momento silenciosa.
        Exactamente, onde  que est a querer chegar, Sra. Holman?
       A preceptora no olhou para ela.
        Danielle v o que acontece nesta casa. E sabe o que sabe. O que acontece  que no  bom para uma rapariga ver essas coisas na sua prpria casa.
        Est a querer dizer-me o que devo fazer na minha prpria casa?
       A preceptora sacudiu rapidamente a cabea.
        No, Miss Hayden. Estou apenas a falar-lhe da sua filha. Estas coisas que ela v e estas coisas que ela sabe, so demais para uma criana como a Dani poder compreender. Pensa muitas coisas erradas a esse respeito.  Os olhos da preceptora fixaram-se candidamente nos de Nora.  J no consigo explicar-lhe que ela, na realidade, no v aquilo que v.
        No creio que nada disso lhe diga respeito, Sra. Holman  disse Nora friamente.
       O rosto da preceptora fechou-se numa expresso de teimosia.
        Num certo sentido, no , Miss Hayden. Mas eu tenho-me ocupado da Dani desde que ela nasceu. No me sentiria bem comigo mesma se no lhe dissesse at que ponto isto est a afect-la.
        Muito obrigada, Sra. Holman  disse Nora no mesmo tom cheio de frieza.  Mas, por favor, no se esquea de que eu sou a me da Dani desde que ela nasceu. A responsabilidade por tudo quanto lhe diz respeito  minha e no sua.
       A preceptora olhou para ela.
        Sim, Miss Hayden.  Voltou-se e saiu do estdio.
       A porta fechou-se atrs dela e Rick entrou, vindo do quarto ao lado.
        Ouviste o que ela disse?  perguntou Nora. 
       Rick olhou para Nora.
        Essa mulher tem de se ir embora.
        Num certo sentido, ela tem razo. A Dani est a crescer.  Nora pegou num pedao de barro.  Temos de ser mais cuidadosos.
        Cuidadosos?  explodiu Rick.  Como  que se pode ser mais cuidadoso? Tenta sair  socapa desta casa, a altas horas da madrugada, para voltares para aquele apartamento por cima da garagem. Aposto que metade da vizinhana sabe o que eu estou a fazer!
       Nora riu-se.
        Podias tentar ser um bocado menos barulhento quando fechas as portas.
        Faz tu a experincia! Especialmente quando est a chover e fica tudo atolado. Quase que me afogo.
       Nora pousou o barro. 
        Pois , vamos ter de fazer qualquer coisa.
        Podamos casar-nos  disse Rick.  J se acabava com todas estas confuses.
        No. Nora olhou-o bem de frente.  Ns no somos feitos para o casamento. J tentei duas vezes, sei muito bem. E tu, l no fundo, tambm no tens mais inclinao para isso, do que eu.
       Rick aproximou-se e passou os braos em volta dela.
        Mas ainda no tentmos um com o outro, minha querida. Assim ia ser diferente.
       Nora afastou-o.
        Pra de tentares enganar-te. Nenhum de ns  do gnero de se amarrar. Somos iguais. Ambos gostamos de experimentar coisas novas de vez em quando.
        Eu no, minha querida. Era capaz de ser muito feliz se vivesse s para ti.
       Ela evitou-lhe o abrao.
        E como  que ias explicar aos teus amigos quando no pudesses sair s teras e quintas  noite? Especialmente  tua amiguinha italiana, a fotgrafa de cabars, que cozinha spaghetti para ti quando est de folga? O que  que tu lhe podias dizer, depois de ela ficar este tempo todo  espera que casasses com ela?
       Ficou a olh-la com o rosto afogueado.
        Tu sabes?
       Nora sorriu.
        Sei tudo a teu respeito. No sou assim to tola.  Encolheu os ombros e pegou num cigarro. Antes de continuar, esperou que ele o acendesse.  Mas no me importo, sinceramente. Podes fazer o que quiseres, desde que eu tenha aquilo que quero.
       Devagarinho o sorriso espalhou-se no rosto dele.
        E eu tenho aquilo que tu queres, no  verdade, minha querida?
       Estendeu os braos para ela. Desta vez no lhe evitou o abrao. Rick tirou-lhe o cigarro da boca e p-lo num cinzeiro. Depois beijou-a, premindo a boca forte e brutal de encontro  dela. Nora ficou de olhos abertos, a olh-lo, no rosto. Rick empurrou-a de encontro  mesa, enquanto lhe metia a mo por debaixo da saia.
        A janela  disse Nora, fazendo um gesto com a mo na direco da enorme janela envidraada que havia em frente deles.
        Que se lixe, no posso esperar. Os vizinhos que vo para o diabo.

       Quando Dani voltou do campo de frias, Charles foi esper-la  estao. Ela olhou em volta. A Sra. Holman costumava ir com o mordomo.
        Onde  que est a Nanny?
       Charles comeou a pegar na bagagem, sem olhar para ela.
        No sabia, Miss Dani? A Sra. Holman foi-se embora.
       Dani parou de repente.
        A Nanny deixou-me?
       Charles sentiu-se embaraado.
        Julgava que j sabia, Miss Dani. Ela arranjou outro emprego.
       O rosto de Dani mostrou-se zangado.
        Foi a me que a mandou embora? 
        Isso no sei, Miss Dani. Aconteceu logo a seguir  sua partida.  Abriu a porta do carro para ela entrar.
        Sabes onde  que a Nanny est a trabalhar?  perguntou.
       Charles fez que sim com a cabea.
        Quero que me leves at l.
       Charles hesitou.
        No sei. A sua me...
        Eu quero que me leves l!  disse Dani, zangada.
        Miss Dani, A sua me vai ficar muito zangada comigo.
        Eu no lhe digo nada. Leva-me at l!
       Dani sentou-se no banco de trs e Charles fechou a porta. Quando se instalou no assento da frente, fez mais uma tentativa para a dissuadir.
        Miss Dani... 
       De repente, a voz da pequena soou to glacial como a da me.
        Se no me levas l, digo  me que levaste.
       Era uma das casas de um conjunto de construes novas em St. Francis Wood. Nanny vinha precisamente ao longo do passeio, empurrando um pequeno carro cinzento de beb. Dani saltou do carro, sem quase o deixar parar.
        Nanny!  gritou, correndo para ela.  Nanny! 
       A Sra. Holman parou e franziu os olhos por causa do sol da tarde. Ps uma das mos a servir de pala em frente dos olhos.
        Dani?  Depois, comeou a ver claramente e abriu os braos para receber num abrao a pequenita que corria para ela.  Dani!  gritou, enquanto os olhos se lhe enchiam de lgrimas.  Dani, mein kleines Kind.
       Dani chorava tambm.
        Por que  que me deixou, Nanny? Por que  que me deixou?
       A preceptora beijou-lhe o rosto todo.
        Minha pequenina  murmurou enlevada.  Minha rica menina. Deixa-me olhar para ti. O que tu cresceste e como ests queimada!
       Dani enterrou-	lhe a cabea no seio volumoso.
        Devia ter-me dito  soluou.  No devia ter-me deixado desta maneira!
       De repente, a velha senhora compreendeu o que Dani queria dizer. Levantou a cabea e olhou para Charles. O mordomo sacudiu a cabea, lentamente. Intuitivamente, compreendeu o que ele queria dizer. Voltou-se novamente para a pequenita.
        Agora j s uma menina crescida, Dani. J s crescida de mais para ter uma nanny.
        Devia ter-me dito  continuou Dani, ainda com os olhos cheios de lgrimas.  No est certo.
        Verdadeiramente, o meu trabalho  tomar conta de bebezinhos, minha pequenina Dani. Os bebs precisam de mim.
        E eu preciso de si  disse Dani.  Tem de voltar para casa comigo.
       A preceptora sacudiu a cabea, devagar.
        No posso, Dani.
        Por qu? 
       A Sra. Holman ps a mo no carrinho.
        Este beb tambm precisa de mim  disse simplesmente.
         Mas eu preciso mais. Tenho-a tido sempre comigo. 
        E agora j  tempo de aprenderes a passar sem mim  disse a velha preceptora.  J s uma menina crescida. O que  que me restaria fazer a no ser ficar sentada a ver-te ir de um lado para o outro? J s capaz de tomar conta de ti. No foi o que fizeste todo o vero sem mim? Por que  que as coisas ho-de ser diferentes s porque ests em casa?
        Mas eu gosto tanto de si, Nanny. 
       A preceptora abraou-a de novo.
        E eu gosto muito de ti, minha querida Dani. 
        Ento, tem de voltar para casa comigo.
        No Dani  disse a preceptora.  No posso voltar contigo para casa. A tua me tinha razo. Ela disse que isto tinha de acontecer, mais cedo ou mais tarde.
        A minha me? Ento eu tinha razo! Foi mesmo ela que a mandou embora!
        Mais tarde ou mais cedo teria de acontecer, Dani  disse tristemente a preceptora.  J tens doze anos. s quase uma senhora. Em breve, os rapazes vo comear a procurar-te. Vais ter convites para sair, festas. Para que  que tu querias uma velha Nanny  tua volta? Vais comear a viver a tua prpria vida.
        Foi a me que a mandou embora?  perguntou, teimosa. 
        Concordmos em que seria o melhor. A tua me foi muito generosa. Pagou-me um ano inteiro de indemnizao.
        Mesmo assim devia ter falado comigo, Nanny  disse Dani.  No era ela que ia ficar sem a Nanny, era eu.
       A preceptora ficou silenciosa. A lgica da pequenita ultrapassava-a.
         melhor ires andando. A tua me vai ficar preocupada. Alm disso, ela tem uma linda surpresa para ti.
        No me interessa a surpresa dela  disse Dani.  Posso vir visit-la? De vez em quando? Isto , se a Nanny no pode ir visitar-me a mim?
       A Sra. Holman apertou-a muito.
        Claro, Dani. A quinta-feira  o meu dia livre. Talvez possamos encontrar-nos quando sares da escola.
       Dani beijou a preceptora no rosto.
        Vou sentir muito a sua falta.
        Eu tambm vou sentir a tua falta  disse a Sra. Holman. Parecia prestes a comear a chorar de novo.  Vamos, agora vai, seno o Charles vai ter problemas.
       Beijaram-se de novo e Dani encaminhou-se lentamente para o carro. Foi quase todo o caminho em silncio at casa. Quando estavam quase a chegar, inclinou-se para a frente.
        Que espcie de surpresa  que a me tem para mim? 
        No posso dizer. A sua me fez-me prometer que guardava segredo.
       Mas, no final, sempre acabou por ser Charles a dar-lhe a novidade. A me estava a ter uma reunio no estdio e tinha deixado recado que no queria que a incomodassem. Dani subiu as escadas, seguida de Charles que transportava as coisas dela e voltou em direco ao que sempre fora o seu quarto.
        Para a, no, Miss Dani. Por aqui.  Charles voltou-se para o lado oposto, afastando-se do seu antigo quarto e do da me.
       Dani seguiu-o.
         esta a surpresa?
       O mordomo fez que sim com a cabea, enquanto parava em frente do que tinha sido o maior dos quartos de hspedes. Abriu a porta com um gesto forte.
        Faz favor, Miss Dani.
       O quarto tinha mais do dobro do tamanho do outro. Tudo o que l estava dentro era novo, desde a cama reluzente, aos aparelhos de alta fidelidade e de televiso embutidos na prpria parede. Havia um grande armrio onde se podia entrar, como o da me, e uma casa de banho nova com a banheira enterrada no cho e um recanto de toilette.
        Pode regular a televiso e a alta fidelidade na cabeceira da cama  disse Charles com orgulho.
        Muito interessante  disse Dani sem entusiasmo. Olhou em volta.  Onde  que est o meu tesouro?
        A cmoda no ficava bem com os mveis novos e a sua me mandou p-la no sto.
        Tragam-na para baixo.
        Est bem, Miss Dani. 
        O que foi que aconteceu ao meu antigo quarto?
        A sua me mandou transform-lo num gabinete para o Sr. Riccio. E o velho quarto da Sra. Holman , agora, o quarto dele.
        Oh!  disse Dani. 
       J tinha idade suficiente para perceber o que aquilo queria dizer. No campo de frias, todas as raparigas cochichavam acerca do que se passava entre os monitores e monitoras que tinham os quartos perto uns dos outros.
       Charles levou as coisas dela para dentro do quarto. A mala que tinha vindo do campo de frias j l estava.
        Vou mandar a Violet para a ajudar a desfazer as malas. Estvamos  sua espera para trazer a chave da mala grande.
        No preciso de ajuda.
        Claro que precisas.  A voz da me veio da porta aberta.  No podes tirar isso tudo sozinha.
       Dani voltou-se, ficando de frente para a me.
        Fui eu que pus tudo na mala, sozinha  disse.  No preciso da ajuda da Violet.
       Nora olhou para ela. Sabia que havia qualquer coisa que no estava a correr bem. Olhou de relance para Charles. Ele fez que sim com a cabea.
        Isso  maneira de cumprimentares a tua me depois de passares todo o vero fora? Vem aqui ao p de mim e deixa-me olhar bem para ti.
       Nora inclinou-se ligeiramente para a frente, para que Dani lhe beijasse o rosto. Obedientemente Dani fez como era hbito. Charles saiu do quarto e fechou a porta atrs dele. 
        Por que foi que mandou a Nanny embora?  perguntou logo que ouviu a porta fechar- se.
         essa a primeira coisa que tens para me dizer, depois de eu me ter dado ao trabalho de arranjar este quarto para ti? O menos que podes fazer  dizer-me que gostas.
        Est muito bonito.  O tom de voz de Dani indicou que no havia nada que lhe interessasse menos.
        A televiso e o gira-discos tm controlo  distncia, na cabeceira da cama.
        Eu sei. O Charles j me disse. 
       Dani parecia esperar uma resposta  pergunta que fizera. Nora mostrava-se igualmente decidida a no lha dar.
        Cresceste. Ests quase da minha altura. Que altura tens? 
        Um metro e sessenta.
        Volta-te  disse a me.  Deixa-me olhar para ti.
       Obediente, Dani rodou devagarinho.
        Cresceste tambm noutros aspectos. Ests uma senhora.
        J uso um soutien trinta e dois  disse Dani, com uma nota de orgulho na voz.  Mas tenho as costas muito largas, A crescer desta maneira, a minha monitora acha que no prximo vero, j devo usar, pelo menos, o trinta e quatro.
       A voz de Nora mostrou-se aborrecida.
        As raparigas no falam nessas coisas. Vou mandar a Violet para te ajudar a desfazer as malas.
        No quero a Violet  disse numa voz que comeava a tornar-se mal-humorada.  Quero a Nanny.
       Nora voltou-se, exasperada.
        Pois bem, a Nanny j c no est. Se no queres que a Violet te ajude, vais ter de te governar sozinha.
        Ento, no preciso de ningum!  retorquiu Dani. Os olhos humedeceram-se-lhe.  Por que  que no me disse que ia mandar a Nanny embora? Por que foi que guardou segredo?
        No guardei segredo nenhum  disse Nora em voz zangada.  J ests muito crescida. No precisas de bab.
       Dani comeou a chorar. 
        Podia ter-me dito.
        Deixa de te portares como uma criana! Eu no tenho de te dizer nada. Fao o que acho que devo fazer!
        Isso  o que diz sempre! Disse o mesmo quando mandou o pap embora. E depois quando mandou o tio Sam embora. Sempre que descobre que algum gosta mais de mim do que de si, manda-o embora! Foi por isso que fez isto.
        Cala-te! 
       E, pela primeira vez na vida, a me, esbofeteou Dani. A criana levou rapidamente a mo  cara e levantou para a me um olhar horrorizado.
        Odeio-a! Odeio-a! Um dia h-de gostar de algum tanto como eu gosto e eu hei-de afastar essa pessoa de si! Depois  que vai ver se gosta!
       Nora caiu de joelhos em frente da filha.
        Desculpa, Dani  murmurou.  Desculpa, no foi por querer! 
       Dani olhou-a nos olhos durante alguns momentos, depois, voltou-se e correu para a casa de banho.
        V-se embora! Deixe-me!  gritou atravs da porta fechada.  Odeio-a. Odeio-a  disse, por fim.

       Sally Jennings olhou para ela por cima da mesa. Os olhos da pequenita estavam vermelhos de chorar. As lgrimas tinham-lhe marcado um sulco ao longo das faces. Sally empurrou a caixa dos lenos de papel em direco a ela. Dani tirou um e secou a cara. Olhou para a psicloga, agradecida.
        Aquilo no era verdade. No era o que eu sentia. Mas no havia outra maneira de falar com a minha me. Se eu no gritasse ou berrasse ou tivesse um ataque de histerismo, ela no me dava ateno.
       Sally fez que sim com a cabea. Olhou para o relgio de parede.
        Acho que vamos ficar por aqui, Dani  disse suavemente.  Vai ver se consegues dormir um bocadinho.
       Dani ps-se de p. 
        Sim, Miss Jennings. Vejo-a na segunda-feira? 
       A psicloga sacudiu a cabea.
        No creio, Dani. Tenho trabalho no hospital. No venho c todo o dia.
        E na tera-feira  a audincia. Tambm no vou poder falar consigo.
       Sally fez que sim com a cabea. 
        Tens razo. Mas no te preocupes. Havemos de arranjar qualquer coisa.
       Ficou a ver a enfermeira levar a pequenita ao longo do corredor. Recostou-se na cadeira e pegou num cigarro. Acendeu-o e ligou o gravador. Ainda no era tudo, mas dava para comear. Era a parte mais desagradvel daquele trabalho. Nunca tinha tempo bastante para acompanhar uma coisa at ao fim.

       Dirigi-me para a janela e olhei para fora. Sobre a rua havia ainda o nevoeiro denso da manh. Acendi um cigarro, inquieto. Voltei-me e olhei para o telefone. Talvez devesse tentar contactar novamente com Elizabeth. Depois, pensei melhor. No ia obter resposta. Ela no ia atender. Que idiota eu tinha sido. Nunca devia ter-lhe mandado aquela fotografia. Elizabeth tinha ficado muito calada ao telefone quando eu lhe tinha contado.
         uma histria louca  tinha dito.  O que  que a Nora esperava conseguir de uma coisa dessas?
        No sei. Talvez fosse como disse o homem, uma questo de segurana, ou talvez uma coisa a usar contra mim, como um trunfo.  por isso que te vou mandar a fotografia.
        No me mandes fotografia nenhuma, Luke. No quero v-la. Deita-a fora.
        No posso  disse.  A nica hiptese que tenho  mandar-ta para ti. Se no fosse falsa no ta mandava. Sabes isso. Vou mand-la de avio, registada. No precisas abrir. Basta p-la em lugar seguro.
        Ests a pedir muito. Sabes que eu no vou conseguir resistir  tentao de ver a fotografia.
        Ento v  disse.  V bem o papalvo com quem casaste. 
       Ficou um momento silenciosa.
        Estou arrependida de te ter deixado ir.
        Agora  demasiado tarde para pensar nisso.
       Ficou outra vez em silncio.
        Sentes-te bem?
        Sinto. 
        Tens a certeza?
        Tenho. Estamos ambos  espera de que voltes para casa. 
       Aquela conversa tinha sido na quinta-feira de manh. Pus a carta no correio e telefonei-lhe no dia seguinte,  hora que eu calculava que ela j a tivesse recebido. Logo que ouvi a voz dela percebi que havia problema. Parecia que tinha estado a chorar.
        Volta para casa j!
        Mas Elizabeth  protestei.  J faltam s uns dias para a audincia em que o juiz vai decidir a quem ser entregue a tutela.
        No me interessa!  disse.  Vem para casa!
        Viste a fotografia?
        A fotografia no tem nada a ver!
        Eu disse-te que foi cilada.
        Mesmo assim  soluou.  Escusavas de tomar um ar to feliz!
        Elizabeth, s razovel! 
        J h muito tempo que estou a ser razovel. Agora estou a ser apenas mulher. No quero falar mais contigo ao telefone. Manda-me um telegrama a dizer quando  que ests preparado para vir!
       E desligou. Telefonei-lhe na mesma volta. Mas durante uma hora apenas consegui obter o sinal de impedido. Deve ter deixado o auscultador fora do stio. Depois, da recepo, ligaram para mim, dizendo que Miss Spicer estava  minha espera e eu desci. Tivemos a nossa entrevista no caf.
        Como  que est a Dani?  perguntei, logo que a empregada nos trouxe os cafs.
        Muito melhor  disse.  Nos ltimos dias tem-se mostrado muito mais disposta a colaborar.
        Alegra-me sab-lo. 
       Miss Spicer olhou para mim. 
        Mas continua a ser uma rapariguinha muito doente.
        O que  que a leva a dizer isso?
        Seja o que for que a preocupa, est enterrado bem fundo. Ainda no encontrmos a razo que a fez explodir daquela maneira. H coisas relacionadas com ela que no conseguimos compreender.
        Como, por exemplo?  perguntei.  Talvez eu possa ajudar.
        Em criana, ela era dada a acessos de fria, exploses de mau humor ou cleras violentas, quando no conseguia fazer o que queria?
       Sacudi a cabea.
        No que eu me lembre. Habitualmente era at o contrrio. Quando estava aborrecida, isolava-se. Ia para o quarto dela ou para o da preceptora.  parte isso, fingia que no tinha acontecido nada. Mostrava-se particularmente simptica, tentava agradar ainda mais s pessoas.
        Comportava-se assim em relao a si?
       Ri-me.
        Acho que nunca foi preciso. A Dani conseguia de mim tudo o que queria.
        Nesse caso, procedia assim com a me?
       Hesitei.
        Fale, por favor  disse.  No quero que pense que estou a tentar lev-lo a ser menos caridoso. Mas, no ponto em que estamos, todas as informaes so importantes.
        A Nora nunca a tratou mal  respondi.  As coisas que chocavam Dani eram geralmente actos de omisso e no de prepotncia.
        O senhor e Miss Hayden costumavam discutir em frente da criana?
       Olhei para ela e ri-me.
        Tnhamos uma relao muito civilizada, pelo menos, na opinio de Nora. Vivamos num estado constante de guerra fria. Nunca foi declarado um conflito aberto.
        O que foi que o fez interromper as visitas  sua filha naquela altura?
        Disseram-me que o fizesse.
        Miss Hayden?  Fiz que sim com a cabea.  No h qualquer registo de que o tribunal tenha posto fim ao seu direito de a visitar. No levantou a questo, quando Miss Hayden proibiu as visitas?
        No estava em situao de fazer nada. Estava teso.
        Ento o que  que fez?
       Olhei-a nos olhos.
        Apanhei uma bebedeira  disse simplesmente.
        No tentou explicar  sua filha porque  que no podia visit-la?
       Sacudi a cabea.
        Para qu? Isso no ia modificar nada.
       Miss Spicer no respondeu. Passados alguns momentos, disse:
        Falei com a sua ex-sogra, ontem. Julgo que est ao corrente dos projectos dela relativamente  Dani.
        Sim, estou.
       Tinha estado presente na reunio em que isso tinha sido discutido. A velha senhora tinha conseguido coisas espantosas no pouco tempo que lhe fora dado. Devia ter gasto bastante dinheiro, mas Dani j tinha sido aceite numa nova escola com uma reputao estabelecida no que dizia respeito  educao de crianas com problemas. O Dr. Weidman, eminente psiquiatra infantil, tambm ligado  escola, estivera presente na reunio e estava pronto a aceitar a responsabilidade pela reabilitao de Dani.
        Est de acordo?  perguntou Miss Spicer.
        Acho que se trata de um plano muito bom. Parece-me que a Dani ter, assim, muito melhor tratamento do que o que o Estado lhe poder proporcionar.
        No pe qualquer objeco a que a Dani fique sob a tutela da av?
        No. Parece-me mesmo a nica soluo prtica. A Sra. Hayden  uma pessoa extremamente responsvel. H-de fazer que a Dani tenha tudo aquilo de que precisa.
        Tenho a certeza disso  disse Miss Spicer secamente.  Mas se aquilo que me diz  verdade, foi o que fez a me.
       Percebi o que ela queria dizer. Nora tinha dado a Dani tudo aquilo de que ela parecia necessitar e, no entanto, no tinha evitado nada.
        A Sra. Hayden ter muito mais tempo disponvel para a Dani. No tem os mesmos interesses fora de casa que Nora tem.
        Creio que sabe, coronel, que a sua filha j no  virgem. O mais provvel  que estivesse a ter uma ligao com o homem que matou.
        J tinha pensado nisso  respondi francamente.
        Miss Hayden disse que no tinha dado por isso.
       No encontrei resposta para aquilo.
        A ns, parece-nos que a Dani tem pouca noo da moralidade sexual. E, daquilo que conseguimos averiguar, o exemplo da me no foi particularmente bom.
        Acho que todos temos conscincia disso  disse.   uma das razes por que eu acho que Dani estaria melhor com a av.
       Miss Spicer olhou para mim.
        Isso pode ser verdade. Mas estamos um bocado preocupados. Se a av no conseguiu controlar os impulsos da prpria filha, at que ponto se pode esperar que tenha sucesso com a neta?   Acabou de beber o caf.  Talvez a melhor soluo para a criana fosse afast-la completamente desse ambiente.  Ps-se de p.  Muito obrigada por ter vindo falar comigo, coronel.
       J na sala de entrada, parou um momento.
        H duas coisas que me intrigam.
        Quais so? 
        Por que  que a Dani o matou se estava apaixonada por ele?
        E a outra?
        Se, na realidade, ela o matou, por que  que seja para que lado for que nos voltemos, no encontramos quaisquer vestgios de que Dani tivesse um carcter suficientemente violento para explodir num homicdio?  Hesitou um momento.  Se, ao menos, tivssemos mais tempo.
        Em que  que isso podia ajudar?
        Temos de descobrir a causa, antes de podermos recomendar a cura  disse.  Estamos a trabalhar contra o relgio. Recomendamos determinadas medidas e esperamos acertar. Mas se no conseguimos descobrir a razo, temos de recomendar que a pequena seja enviada para Perkins, para um estudo em profundidade. Precisamos de ter a certeza.
        Qual  a sua percentagem de erro?  perguntei.
       De repente, olhou para mim e sorriu.
        Surpreendentemente baixa. Eu prpria fico admirada.
        Provavelmente os vossos servios so melhores do que pensam.
        Espero que sim  disse, muito sria.  Mais pelas crianas do que por ns.
       Fiquei a v-la sair e depois voltei para o meu quarto. Liguei outra vez para Elizabeth, mas mais uma vez o telefone tocou sem que ningum atendesse. Por fim, desisti e fui at ao Tommy Johnny, do outro lado da rua, jantar uma enorme salsicha alem com feijo e uma caneca de cerveja.
       No domingo, fui ao Lar Juvenil. Dani parecia muito bem disposta.
        Esta semana, a me veio-me ver duas vezes. Por pouco no se encontrava com ela. Disse-me que estavam a arranjar tudo para eu poder ir viver com a av quando sasse. Das duas vezes veio com o Dr. Weidman. Conhece-o, pap?
        J o vi.
         psiquiatra. Acho que a me gosta dele.
        Porque  que dizes isso?
       Teve um sorriso furtivo.
         o tipo dela. Sabe como , fala muito e no diz nada. Sobre arte e as histrias do costume.
       Ri-me.
        Vai uma cola?
        Combinado. 
       Dei-lhe duas moedas e fiquei a v-la caminhar para a mquina. Muitas das mesas estavam ocupadas. Parecia mais que se estava numa escola, no Dia dos Pais, do que num lar de deteno. S as enfermeiras s portas e as grades nas janelas altas  que me faziam ver que no era assim. Dani voltou para a mesa e pousou as Colas.
        Quer uma palhinha, pap? 
        No, obrigado. Bebo mesmo assim. 
       Levei a garrafa  boca e bebi um golo. Dani olhou para mim por cima da palha.
        Quando eu bebo assim, a me diz que no so maneiras. 
        A tua me  uma especialista em boas maneiras  respondi rapidamente, mas arrependi-me logo. Ficmos um bom minuto em silncio.
        Ainda bebe como bebia, pap?  perguntou, de repente, Dani.
       Olhei-a surpreendido.
        O que foi que te fez perguntar isso assim de repente?
        Lembrei-me de uma coisa  disse.  Do cheiro que costumava ter quando me ia buscar. No tem importncia. Foi s uma ideia, mais nada.
        No, agora j no bebo assim.
        Era por causa da me?
       Fiquei um momento a pensar. Seria fcil dizer que sim. Mas no seria totalmente verdade.
        No  disse.  No era essa a razo.
        Ento por que era, pap?
        Por vrias razes, mas principalmente porque estava a tentar esconder-me de mim prprio. No queria enfrentar os meus prprios falhanos.
       Dani ficou silenciosa, a pensar naquilo. Depois encontrou resposta.
        Mas o pap no era um falhado. Tinha o seu barco.
       Sorri, pensando em como a lgica dela tornava a coisa to simples. Mas, de certa maneira, Dani tinha razo. Provavelmente nem sabia que eu alguma vez tivesse tentado uma coisa diferente.
        Eu era arquitecto e queria ser construtor, mas no resultou.
        Mas agora o pap  construtor. Era o que dizia um dos jornais.
        No propriamente. Trabalho para um construtor. O que eu sou, na verdade,  capataz da construo.
        Gostava de ser construtor  disse ela, de repente.  Havia de construir casas felizes.
        E como  que fazias isso?
        No construa uma casa para nenhuma famlia que no vivesse feliz e no quisesse continuar unida.
       Sorri-lhe. O que estava certo, estava certo. Ela tinha encontrado o nico alicerce sobre o qual se podia construir. Mas quem dava garantias? Deus?
        Uma vez que estamos a jogar o jogo da verdade  disse num tom mais natural possvel  importas-te de me dizer umas quantas coisas?
       No olhar dela surgiu uma expresso cautelosa.
        Que espcie de coisas, pap?
        Afinal o Riccio era namorado de quem? De ti ou da tua me?
       Dani hesitou.
        Da me.
        Mas tu...  Foi a minha vez de hesitar.
       O olhar dela cruzou-se com o meu, cheio de candura.
        Disseram-lhe que ns nos entendamos?
       Fiz que sim com a cabea. Ela baixou os olhos para a garrafa da Cola.
         verdade, pap.
        Por qu, Dani?  perguntei.  Por qu logo ele? Por que no qualquer outro?
        Sabe como  a me. Gosta de ser o centro de tudo. Ao menos esta vez queria mostrar-lhe que no era assim.
        Querias?  perguntei.  Foi por isso que o mataste? 
       Os olhos dela afastaram-se dos meus.
        No era minha inteno  disse em voz muito baixa.  Foi um acidente.
        Tinhas cimes da tua me, Dani? Foi por isso?  Sacudiu a cabea.
        No quero falar nisso  disse, teimosa.  Disse-lhes tudo na esquadra da polcia, antes de me trazerem para aqui.
        Se no lhes disseres a verdade, Dani  continuei  eles so capazes de no te deixar ir viver com a tua av.
       Ela continuou a no olhar para mim.
        No podem reter-me para sempre. Quando eu tiver dezoito anos deixam-me sair. Isso sei eu.
        Trs anos e meio  muito tempo; demais da vida de uma pessoa para ficar encarcerada.
        E que diferena lhe faz?  Olhou-me com ar de desdm.  Na tera-feira, quando estiver tudo acabado, volta para casa e, provavelmente, nunca mais vem ver-me. Tal como antes.
        Mas faz-me muita diferena, Dani.  por isso que estou aqui. J te expliquei porque  que no podia vir antes.
       A voz dela mostrou-se irritada.
         s conversa. Se se importasse, no tinha deixado de vir! 
       Baixou novamente os olhos para a garrafa. Perguntei a mim mesmo o que seria que ela via de to absorvente no lquido castanho, atravs do vidro verde. 
         fcil para si voltar aqui e dizer essas coisas  disse em voz baixa.   sempre fcil dizer coisas bonitas. Mas j no  to fcil faz-las.
        Eu sei isso, Dani. Sou o primeiro a admitir os meus erros. 
        Est bem, pap.  Levantou os olhos e, de repente, j no era uma criana. Era uma mulher jovem.  Todos ns cometemos erros. Deixemos isso de lado. J disse que no quero falar mais no assunto. Trata-se da minha vida e nada do que possam dizer vai modificar nada para mim.  demasiado tarde. Esteve tempo demais ausente.
       Dani estava errada e, ao mesmo tempo, estava certa. Tal como nunca nada  completamente preto ou completamente branco.
        Houve mais algum, alguma vez? Outros rapazes, quero dizer? 
       Sacudiu a cabea.
        No. 
        No me ests a mentir, pois no, Dani? 
       Os olhos dela fixaram os meus, bem de frente. 
        No, pap. No estou a mentir. No conseguia fazer aquilo com mais ningum.  possvel que tenha comeado s para mostrar  me, mas acabou por ser uma coisa completamente diferente.
        Diferente, como? 
       Os olhos dela eram lmpidos e suaves e havia neles uma grande tristeza.
        Eu amava-o, pap  disse calmamente.  E ele tambm me amava. Tencionvamos fugir e casar-nos, logo que eu tivesse idade para isso.

       O sol comeava finalmente a dispersar o nevoeiro. Afastei-me da janela, inquieto. Peguei no jornal e procurei a pgina das diverses. Pensei em ir a um cinema, mas j tinha visto quase todos os filmes em exibio na cidade. Liguei a televiso. Dez minutos depois, apaguei-a. Estava numa espcie de terra-de-ningum para os programas do dia. Precisaria de ser uma gerao mais velho ou uma gerao mais novo. Depois, o telefone tocou e levantei-me de um salto para ir atender. Talvez a zanga de Elizabeth j tivesse passado.
        Coronel Carey? 
        Sim. 
        Daqui Lorenzo Stradella. Lembra-se daquelas duas cartas que Ana saiu para ir buscar?
        O que  que elas tm? 
        Bom,  que ainda esto em meu poder  respondeu.
        E para que  que me est a telefonar? Sabe bem quem  que as comprou.
         verdade. Mas ela j pagou. Acho que estas duas devem estar a calhar para si.
        No estou interessado  disse.  Leve-as a Miss Hayden.
        Espere um momento! No desligue.
        Estou  espera.
        No posso lev-las a Miss Hayden. Eu fao-lhe um bom preo. 
       De repente, compreendi. Claro que no podia lev-las a Nora. Nora diria a Coriano. E Coriano no gostava que os rapazes lhe escondessem nada. Fiz a experincia.
        Ok, mas eu no trato com a arraia mida. Diga ao Coriano que fale comigo. Assim, talvez possa ter a certeza de que no vo aparecer outras mais tarde.
       O palpite estava certo.
        Nada de Coriano. O negcio  entre si e mim.
        O Coriano no vai gostar.
        Fao-lhe um preo to barato que ele no precisa de saber.
        O que  que chama barato?  perguntei.
        Cinco mil.
        Adeus, Charles  respondi e desliguei. 
       Apenas tive tempo de acender um cigarro antes de ele voltar a telefonar. Desta vez, a voz era um pouco mais branda.
        Qual  a sua ideia de barato?
        Cinqenta dlares.
        Isso  mesmo barato.
        Voc est a falar com um tipo barato. Perteno ao lado pobre da famlia.
        Vou-lhe tornar a coisa mais fcil. Duzentos e cinqenta.
        Cem  at onde posso pagar.
       Ficou um momento em silncio. Calculei que estivesse a pensar.
         dinheiro achado  disse-lhe.
        Negcio feito.
        Traga-as aqui.
        Mais devagar. Voc  um tipo que gosta das coisas direitas. Pode ter a os chus.
        No seja idiota.
        Esteja no seu quarto s onze da noite. Vou mandar algum entregar-lhas.
        Ok  respondi.
        No se esquea. Nada de partidas. Massa na mo e as cartas so suas.
       O telefone ficou silencioso e eu pousei-o no lugar. Aproximei-me da mesa e fiz um cheque de cem dlares. Em seguida desci para levantar o dinheiro. Conservei-me tenso enquanto o caixa contava as notas. S esperava que houvesse massa suficiente no banco para pagar o cheque. Quando voltei ao meu quarto, a luz do telefone acendia e apagava. Nora tinha telefonado e queria que eu ligasse para ela. Marquei o nmero.
        Daqui fala o Sr. Carey, Charles  disse.  Miss Hayden est?
        S um momento, Sr. Carey. Vou passar-lhe a chamada. 
       Ouvi um estalido e depois a voz dela.
        Luke? 
        Sim  respondi.  O que  que querias? 
        Quero falar contigo. Podes vir jantar? 
        No me parece. Acho que no estaria bem. 
        No sejas bota-de-elstico. No te como. Quero falar contigo por causa da Dani.
        O que  que h com a Dani? 
        Falamos durante o jantar.
       Hesitei um momento. Uma boa refeio no me ia fazer mal nenhum. J no podia ver knockwurst e feijes.
        A que horas?
        Vem cedo para tomarmos uma bebida. Pelas sete? 
        Est bem  respondi e pousei o telefone, perguntando a mim mesmo o que  que tinha provocado aquilo, assim de repente.
       Quando toquei  campainha, s sete, Charles abriu aporta quase imediatamente.
        Boa tarde, coronel.
        Boa tarde, Charles. 
       Era quase como se eu nunca me tivesse ido embora.
        A senhora est na biblioteca. Sabe o caminho  disse, com um leve sorriso.
        Sim, sei o caminho  respondi, secamente. 
       Bati  porta da biblioteca e entrei. Nora levantou-se do grande sof em frente da secretria. O Dr. Weidman ficou uma fraco de segundo atrs dela. Nora caminhou para mim de mo estendida.
        Luke. Ainda bem que vieste.
       Conhecia aquele tom de voz. Era quente e cordial, como se nunca tivesse havido qualquer desentendimento, entre ns. A voz social que ela sempre usava quando tinha pblico.  Segurando ainda a minha mo, voltou-se para o mdico.
        Lembras-te do Dr. Weidman? Estava em casa da me.
       Como  que eu me podia esquecer? Especialmente depois do que Dani tinha dito. O que  que ela esperava de mim, que a desse em casamento?
        Como est, doutor? 
       Ter-lhe-ia estendido a mo mas, fosse por que razo fosse, Nora continuava agarrada a ela.
       Ele inclinou-se ligeiramente.
        Tenho muito prazer em voltar a v-lo, coronel.
       Nessa altura, Nora largou-me a mo.
        H uma garrafa nova de bourbon no bar. Bourbon continua a ser a tua bebida, no  verdade?
       Fiz que sim com a cabea. Nora j tinha marcado a sua posio. Dirigi-me para o bar.
        Queres que te prepare alguma coisa?  perguntei automaticamente. 
       Era como se eu ainda vivesse ali. Costumava fazer-lhe a mesma pergunta sempre que tomvamos bebidas na biblioteca.
        No, obrigada. O doutor e eu estamos a tomar martini.
       Voltei-me para olhar para eles. Era um indicio seguro de que Nora estava interessada no mdico. Basicamente, ela era uma bebedora de uisque escocs, mas havia duas coisas que ela adoptava imediatamente quando arranjava uma nova conquista: a marca de cigarros e a bebida que ele preferia.
       Todos levmos os copos  boca. S quando me sentei  que compreendi que tinha passado para trs da secretria, para a minha antiga cadeira. Levei novamente o copo  boca e, em seguida, pousei-o em cima da secretria.
        Nada mudou  disse, olhando em volta. 
        No havia razo para mudar nada, Luke  disse Nora rapidamente.  Esta sala foi sempre tua.
       Perguntei a mim mesmo por que seria que ela tinha dito aquilo. Nora no era sentimental em coisas como aquela.
        A mim parece me que a teria mudado um bocado  respondi.  Quanto mais no fosse para evitar recordaes desagradveis.
       Sorriu.
	 Eu no tinha nada a evitar.
       O Dr. Weidman terminou a bebida e ps-se de p.
        Bom, tenho mesmo de ir, Nora.
        Tem a certeza de que no pode ficar para jantar, doutor?
       Sacudiu a cabea com ar desgostoso.
        Tenho de voltar para o consultrio  disse.  Tenho uma marcao para as oito horas.
       Nora pousou o copo e levantou-se.
        Eu acompanho-o  porta.
       Weidman voltou-se para mim. Desta vez apertmos as mos.
        Tive muito prazer em voltar a v-lo, coronel.
        Adeus, doutor. 
       Fiquei a v-los sair da sala e depois voltei a sentar-me atrs da secretria. Distradamente abri uma das gavetas. Havia l uma velha fotocpia. Peguei-lhe e olhei para ela. Era o projecto da casa-piloto do meu primeiro empreendimento. Tantos anos tinham passado e, no entanto, era como se fosse ontem. Estudei os planos. Continuava a poder dizer-se que era uma boa casa. Havia apenas umas pequenas alteraes que eu faria, se fosse construi-la hoje. 
       Nora parou  porta, a observar-me.
        Como vs, nada mudou, Luke. Nem sequer despejei a secretria.
         o que estou a ver.  Guardei novamente as plantas e fechei a gaveta.  Exactamente, por que foi que me convidaste para jantar?
       Sorriu e fechou a porta atrs dela.
        Isso pode esperar at depois do jantar. s sempre muito mais razovel quando tens a barriga cheia.
       Aproximou-se e ficou em frente da secretria, a olhar para mim.
        Sempre disse que as casas eram para as pessoas. De qualquer maneira, esta sala sempre me pareceu vazia sem ti.
        Deixa-te disso, Nora.  Sorri para aliviar o azedume das palavras.  O pblico j se foi embora. No s sentimental com coisas ridculas como essa.
       De repente, Nora riu-se.
        J no nos restam quaisquer iluses, pois no, Luke? 
       Sacudi a cabea.
        Acho que no. 
       Dirigiu-se para o stio onde deixara a bebida e pegou no copo. Depois, de repente, pousou-o outra vez, com uma pancada seca.
        S bom rapaz, Luke. Arranja-me um scotch com soda. No entendo como  que as pessoas podem beber esta porcaria destes martinis. Cheiram a perfume barato.
       Levantei-me e preparei-lhe uma bebida. Depois levei-lha at ao sof. Bebeu um golo s e acenou com a cabea.
        Isto  muito melhor.
       Afastei-me e peguei no meu copo. Encostei-me  secretria e levantei o copo na direco de Nora. Ela tambm levantou o dela. Ambos bebemos.
        O Dr. Weidman tem uma cara muito interessante. No achas, Luke? 
       Fiz um gesto com as mos.
        Sabes qual  o primeiro nome dele?
        No.
        Isidore. Consegues imaginar uma coisa assim? Isidore. Nestes tempos e com esta idade. Seria de esperar que mudasse um nome daqueles.
        Talvez goste dele.
        No creio  disse, pensativa.  Mas  demasiado orgulhoso para o admitir.  uma coisa que eu tenho notado nestes mdicos judeus. So muito orgulhosos.
        Tm razes para isso.
        Usam a religio como um manto. E sabes outra coisa que notei neles?
        O que ?
        Tm todos um olhar to triste  disse.  Como as pinturas de Cristo.
       A porta abriu-se e Charles entrou na biblioteca. 
        O jantar est servido, minha senhora.
       O jantar era excessivo. Comeou com sapateira recheada, servida sobre folhas de alface e gelo migado e com aquele molho de mostarda, deliciosamente forte, que s Charles parecia ser capaz de produzir. Em seguida, veio cioppino, uma espcie de bouillabaisse  moda de So Francisco, que se parece mais com um guisado de peixe do que com uma sopa e que leva dentro tudo aquilo que o Pacifico tem para oferecer. Depois roast beef, uma trancha larga, com a costela ainda agarrada, mal passada, com o sangue a escorrer para o prato. E por fim, enormes metades de pssegos amarelos, colocadas em cima de um saboroso sorvete de chocolate, tal como eu sempre gostara. Levantei os olhos para Charles enquanto ele me enchia a chvena de caf.
       Sorriu, lembrando-se de como eu gostava de pssegos de lata. A principio tinha ficado horrorizado com o meu gosto e tinha encomendado gigantescos pssegos frescos, especialmente para mim. Mas, passado algum tempo, cedeu e comprou as latas. Tambm se tinha lembrado de que eu gostava de uma chvena grande com caf, depois do jantar, no de uma chavenazinha minscula.
        Foi um jantar magnifico, Nora  disse-lhe no fim. 
       Sorriu.
        Fico contente por teres gostado, Luke.
       Tinha gostado mesmo. E tinha comido como um cavalo, mas ela apenas tinha debicado, como era seu hbito.
        Acho que te conheo o suficiente para saber que no te importas de que eu v  cozinha dizer como gostei.
       Nora levantou-se da mesa.
        Vai, sim. Quando voltares, tomamos mais caf e brandy no estdio.
       Entrei na cozinha. A cozinheira l estava, com o seu rosto vermelho, a transpirar por causa do forno, tal como sempre me lembrava de o ter visto. S que agora tinha os cabelos grisalhos, para me lembrar o passar dos anos.
        Coronel Carey!  exclamou num tom cheio de satisfao.
        No me podia ir embora sem lhe dizer que o seu jantar estava maravilhoso.
        Tive muito prazer em o preparar para o senhor, coronel. Sempre apreciou aquilo que comia.  Depois, o rosto dela ensombrou-se.  S faltou uma coisa. Quem me dera que Miss Dani aqui estivesse tambm.
         possvel que ela volte em breve  respondi suavemente. 
        Acha que sim, coronel? 
        Espero bem que sim. 
        Tambm eu. Se ns estivssemos em casa naquele dia, talvez aquilo no tivesse acontecido.
       Preparava-me j para sair, mas voltei-me de novo para ela.
        No estavam em casa naquele dia? 
        No, senhor. Quinta-feira  o nosso dia de sada. Mas como Miss Hayden estava em Los Angeles e no voltava seno na sexta-feira  noite, j tarde, o Sr. Riccio tambm nos tinha dado a sexta-feira.
        No sabia nada disso. 
        Eu fui a Oakland visitar a minha irm e s voltei bastante tarde.
       Quando tudo j estava acabado.  Olhei para Charles.
        E voc, Charles?
        Voltei s seis horas  disse.  Miss Hayden j estava em casa.
        E a Violet
        Violet chegou alguns minutos depois de mim.
        Ento devem ter ouvido parte da disputa  disse. 
       Charles sacudiu a cabea.
        No, senhor, Ningum quis a refeio fria que eu tinha preparado, por isso, Violet e eu ficmos na cozinha. Aqui no se ouve nada do que se passa na casa.
       Tinha razo. Lembrava-me de ter planeado a casa de forma a que a cozinha e os quartos dos criados ficassem separados do resto. Nora dizia sempre que no havia nada mais aborrecido do que tentar conversar de mistura com os barulhos do lavar da loua na cozinha. Voltei-me novamente para a cozinheira e sorri.
        A verdade  que foi um jantar maravilhoso  disse.  Muito obrigado.
       A mulher sorriu para mim.
        Muito obrigada, coronel.
       O brandy e o caf estavam em cima da mesa dos cocktails, no meio de um recanto confortavelmente arranjado num canto do estdio. Nora levantou os olhos da cadeira em que estava sentada e sorriu quando entrei na sala. Compreendi por a que estava pronta para falar de coisas srias.
        Ento?  perguntou.  A cozinheira gostou de te ver?
        Foi uma recepo  moda dos velhos tempos.
       Fechei a porta e sentei-me em frente dela. Deitou o brandy nos copos e passou-me um. Fechei as mos na parte de baixo do copo e fiz rodar suavemente o brandy, para o aquecer, Cheirei o bouquet que subia do copo. Era penetrante e quente e explodia-me, no nariz, como minsculas bombinhas de Carnaval.
       Nora observava-me.
        Ento?  perguntei. 
       Pegou no copo de brandy e bebeu um pequeno golo. Quando falou, a voz dela era roufenha.
        Quero que me ajudes a trazer a Dani de volta para aqui, que  o verdadeiro lugar dela.
       Era como se, finalmente, a montanha tivesse chegado junto de Maom.
        Por qu eu?  perguntei por fim. 
       A voz dela continuava rouca.
        Porque juntos poderamos consegui-lo. Tu e eu. Podamos trazer a Dani para casa.
       Bebi uma golada de brande.
        Ests a esquecer-te de uma coisa. Eu j no vivo aqui.
        Isso podia-se arranjar  disse suavemente.
       Fiquei ali sentado, a olhar para ela e de repente compreendi que no tinha mudado nada. As leis por que se regia eram as mesmas de sempre. A nica coisa que lhe importava era aquilo que queria fazer. Quais os estragos que isso causava, quem pudesse magoar, no tinha qualquer importncia.
        Ah, ah!  disse.  Pensa nisso. A Dani ficaria melhor connosco do que com a me. Certamente melhor do que num desses lares para jovens. Gordon acha que se nos unirmos, conseguiremos. O Dr. Weidman acha tambm que a proposta  psicologicamente equilibrada; que o tribunal seria forado a concordar.
        Poderia ser uma boa ideia, se eu ainda fosse solteiro  disse  mas no sou.
        Disseste que a tua mulher era uma pessoa compreensiva. Ela deve saber o que sentes pela Dani, seno no te teria deixado vir aqui. Podemos tornar-lhe a proposta muito atraente. Nunca mais precisaria de se preocupar com dinheiro durante o resto da vida!
        No te canses, Nora  disse.   impossvel. 
       Pousei o balo do brandy e preparei-me para me pr de p. Nora inclinou-e para a frente, na cadeira, e ps a mo em cima da minha. Olhou-e na cara.
        Luke. 
       Fiquei a olh-la fixamente. Sentia a electricidade vir at mim atravs da presso dos dedos dela. Fiquei quieto, sem falar.
        Lembras-te de como costumava ser, Luke?  perguntou suavemente.
        Lembro-me, sim.  A presso dos dedos tornou-se mais forte. 
        Pode voltar a ser assim, Luke. No voltou a ser com mais ningum como era entre ns os dois, pois no?
       Sentia-me quase como que hipnotizado.
        No  respondi.
        Podia voltar a ser assim. 
       Retirei a mo, zangado, mais zangado comigo do que com ela. Sabia que aquilo que sentia eram outra vez as coisas erradas que Nora tentava tornar certas. O encanto estava quebrado.
        No!  disse com aspereza.  As coisas nunca mais podiam voltar a ser como eram. Fosse como fosse, nunca nada foi verdadeiro. Nunca foi real. No posso recomear a viver com mentiras.
         precisamente isso, Luke. J no  preciso. J no temos iluses, lembras-te? Podemos fazer um acordo muito sensato.
        No sejas uma idiota chapada, Nora!
        Eu tenho o meu trabalho  disse, sem deixar de olhar para mim  e tu terias o teu.  J falei com o primo George. Disse que teria todo o gosto em que tu voltasses. E o mais importante  que teramos um lar onde receber a Dani.
       De repente senti-me cansado. Nada tinha escapado a Nora, mas ela no percebia que nada daquilo era real. Comecei a sentir pena dela.
        No, Nora  disse com brandura. 
       Recostou-se na cadeira, enquanto um lampejo de ira lhe surgia na voz.
        Choraste tanto por causa da tua filha  disse com aspereza.  Amavas tanto, querias fazer tanta coisa por ela. E agora que tens a possibilidade de fazer alguma coisa, no s capaz de mexer um dedo!
       Havia muitas coisas que eu s agora comeava a compreender. Como, por exemplo, aquilo a que Elizabeth se referia ao dizer-me que voltasse para casa sem os fantasmas que me tinham atormentado durante tanto tempo. De certa maneira ela devia saber que chegaramos a isto. Que eu ia ter de escolher entre ela e Dani. Senti o corao inchar-me. Ela j sabia e, no entanto, deixara-me vir. Que mais podia um homem esperar de uma mulher?
       Baixei os olhos para Nora e, de certa maneira, era como se estivesse a v-la pela primeira vez. Sam Corwin tivera razo ao dizer que a nica coisa que ela tinha era a sua arte. Fora isso, no havia mais nada que ela pudesse compartilhar com quem quer que fosse.
        Vim aqui para ajudar a Dani  disse calmamente.  Mas no construindo para ela uma vida de falsidade e destruio.
        Que pobreza! A seguir, suponho que me vais dizer que amas a tua mulher!
       Olhei para ela pensativo. De repente, sorri. Nora tinha posto tudo em palavras por mim.
         isso mesmo, Nora  disse.  Amo-a. 
        E ela, ser que ainda  capaz de te amar depois de eu lhe mandar aquelas fotografias?
       J estava  espera disso. No respondi.
        Nessa altura, que razo podes ter para me recusares? 
        A melhor razo do mundo, Nora. Simplesmente a de no gostar de ti.
       O amor morre com palavras como estas. Arde e consome-se com a linguagem do dio e da recriminao. Destri-se na ira e na violncia. Mas depois da exploso, ainda ficam alguns vestgios, pegados ao esprito e ao corao, como uma esperana no realizada, a memria de uma paixo no realizada. E, por fim morre, em palavras simples, quase infantis. E os fantasmas vo-se, o sentimento de culpa desaparece. Foi isto que aconteceu e era isto que tinha de acontecer. Fizesse-se o que se fizesse.
       Abri todas as janelas do pequeno carro, enquanto regressava ao motel. O ar fresco e lmpido da noite lavava at o dio que sentira na alma. Nora j no era assim to importante para mim. Deixara de o ser. Cheguei de volta ao motel s onze menos um quarto e fui directamente para o meu quarto. Exactamente s onze horas, bateram-me  porta. Fui abrir. Apareceu-me Ana Stradella, quase com uma expresso de pnico no rosto. Dei um passo para trs.
        Entre, Ana  disse. Fechei a porta atrs dela.  Por que foi que ele a mandou a si?
        Porque pensou que no seria capaz de me entregar aos chulos, se eles aqui estivessem.
        No precisa de estar assustada. No est c ningum.
       Um certo alvio surgiu nos olhos dela.
        Tambm no pensei que estivessem.
        Tem as cartas?
       Abriu a carteira, silenciosamente. Tirou de l as cartas e entregou-mas.
        E se eu dissesse que no tinha o dinheiro?
       Encolheu os ombros.
        No fazia mal. 
        O que  que dizia ao seu irmo?
       Voltou-se para mim com uma expresso profundamente magoada no olhar.
        No tenho de lhe dizer nada. J lhe dei os cem dlares antes de ele me ter dado as cartas.
        Por que  que fez isso?  perguntei.
        Porque queria que elas lhe viessem parar s mos. J lhe fizemos bastante mal.
       Comeou a chorar. Fiquei parado, a olhar para ela.
        Ana  disse.  Por favor, no chore. Eu tenho o dinheiro.
        No estou a chorar por causa disso  disse. As lgrimas rolavam-lhe agora pela cara, deixando bem visveis os sulcos negros da maquiagem.  Est tudo to confuso.
        O que  que est confuso?  perguntei.  Por que  que est a chorar?
         o Steve. Pedia-me hoje para casar com ele. E eu no sabia o que havia de lhe dizer.
       Sorri. Continuava a no compreender as mulheres.
        Julgava que era isso que voc queria.
        E .  Fungou para um leno de papel que tinha tirado da carteira.
        Ento, qual  o problema? Ele sabia do irmo?
       Olhou para mim.
        Sabe do Tony. Mas no sabe mais nada.
        E que mais  que ele tem de saber?
        As mesmas coisas que o Tony sabia  respondeu.  Uma rapariga que trabalha para o Coriano tem de fazer certas coisas.
       Respirei fundo.
        Voc quer casar com ele?
       Fez que sim com a cabea. Pus-lhe uma mo no ombro.
        Ento no hesite. Todas as outras coisas que fez no contam. 
       Levantou os olhos para mim.
        Est mesmo convencido disso?
        Ele gosta de si, seno no lhe pedia que casasse com ele. Isso  a nica coisa que conta.
       Ps-se a sorrir.
        Agora entre na casa de banho e lave a cara. Vou telefonar l para baixo para trazerem caf. Acho que nos vai saber bem.
       Ana entrou para a casa de banho e fechou a porta. Eu liguei para pedir o caf e depois sentei-me e olhei para as cartas.
       Abri primeiro a de Dani. Senti uma espcie de vertigem ao l-la. Era o tipo de carta que s uma criana podia escrever e, no entanto, as coisas que estavam escritas nela nenhuma criana devia saber. Era exactamente o tipo de carta que Lorenzo tinha descrito.
       Ouviu-se uma pancada na porta. O servio era rpido, pensei para comigo mesmo, enquanto me encaminhava para a porta. Abri-a. Era Nora. Fiquei a olh-la, de boca aberta. 
        Posso entrar?  perguntou, passando  minha frente para entrar no quarto.  Vim pedir desculpa, Luke.  Tirou um sobrescrito da carteira.  Aqui esto as fotografias. De qualquer maneira, no as teria usado.
       Automaticamente peguei no sobrescrito. Ainda no tinha dito palavra, quando a porta da casa de banho se abriu e Ana saiu de l.
       Trazia uma toalha na mo e o rosto lavado, sem maquiagem. 
        J trouxeram o caf, Sr. Carey?  perguntou. Depois viu Nora e ficou parada.
       Ficaram um momento a olhar uma para a outra. Depois Nora voltou-se para mim. O que quer que fosse que eu tinha visto no rosto dela momentos antes, tinha desaparecido. Agora mostrava-se magoada, zangada e ludibriada.
        Como fui estpida!  disse friamente.  Comeava a acreditar em tudo o que me tinhas dito.
       Pus-lhe uma mo no brao para a fazer parar.
        Nora.
       Sacudiu-me bruscamente a mo e olhou-me na cara.
        Podes parar de representar, Luke  disse.  No s nenhum santo. Falas  como se fosses!
       E saiu batendo com a porta.
        Desculpe, Sr. Carey. Eu estou sempre a arranjar problemas, no ?
       Fiquei a olhar para a porta fechada. Nunca tinha ouvido Nora pedir desculpa fosse pelo que fosse. Olhei para o sobrescrito que tinha na mo. As fotografias estavam l dentro. Meti-as na algibeira.
Ouviu-se nova pancada na porta. Desta vez era o criado. Paguei o caf e enchi as chvenas.
        Tome  disse, estendendo-lhe uma delas.  Beba isto. Ver que se sente melhor. 
       Depois, aproximei-me novamente da mesa. Ana sentou-se  minha frente, com os grandes olhos muito tristes. Peguei na carta de Nora e comecei a l-la. De repente, era como se no estivesse mais ningum no quarto. Estava tudo ali na carta. Tudo. Todos os elos de ligao. Todas as respostas que eu procurava sem saber. Reli o ltimo pargrafo, apenas para ter a certeza.

       E agora, meu querido, que escolhemos definitivamente o dia para o nosso casamento, deixa-me prevenir-te apenas de uma coisa. Sou uma mulher possessiva e ciumenta e, se alguma vez te apanho nem que seja s a olhar para outra mulher, corto-te o corao aos bocadinhos pequeninos. Portanto, tem cuidado.
       Com todo meu amor.
       Nora.

       A voz de Ana pareceu-me vir do muito longe.
        O que  que se passa?  perguntou.  Tem o rosto branco como um lenol.
       Levantei os olhos da carta. A dor apertava-me as tmporas; comeou a passar quando vi a expresso preocupada no rosto de Ana.
        Estou bem  disse com aspereza.  No h nenhum problema.
       Tudo encaixava agora no seu lugar. Todas as peas soltas. Todas as viragens tortuosas e mentiras obscuras. Sabia agora a verdade embora fosse o nico, alm de Nora e de Dani, que a sabia. Agora s restava um problema:
       Provar ao tribunal que a minha filha no tinha cometido nenhum crime. A me  que tinha.



























QUINTA PARTE

A Histria de LUKE
O julgamento


       Quando entrou na sala do tribunal, Dani parecia plida e tensa. Parou  entrada, atrs de Marian Spicer e percorreu a sala com os olhos.
       Estvamos sentados  mesa comprida onde nos tnhamos sentado para a ltima audincia, s que desta vez o Dr. Weidman estava sentado ao lado de Nora e Harris Gordon estava entre Nora e a me. Isso deixava-me na extremidade d mesa oposta quela onde Dani iria sentar-se com Miss Spicer.
       O juiz j estava no seu lugar, o funcionrio do tribunal e o escrivo, com a sua mquina de taquigrafia, estavam igualmente sentados. O oficial de diligncias, com o uniforme do delegado do xerife, estava encostado, com a sua maneira habitualmente descuidada, a uma porta fechada.
       Estendi o brao e toquei na mo de Dani, quando ela passou atrs de mim, a caminho do seu lugar. Tinha a mo fria como gelo. Fiz-lhe um sorriso encorajador. Ela forou-se tambm a sorrir, mas no passou de uma simples imitao. Ergui o polegar num gesto de coragem. Dani fez que sim com a cabea e seguiu. Parou um momento para beijar a av e Nora e depois avanou at ao seu lugar.
       O juiz no perdeu tempo. Bateu com o martelo na mesa, quase antes de Dani se sentar.
        A finalidade desta audincia  disse   determinar a quem incumbir futuramente a tutela de Danielle Nora Carey, menor, de acordo com os seus melhores interesses e os melhores interesses deste Estado.  Baixou os olhos para Dani.  Compreendes isso, Danielle?
       Dani fez que sim com a cabea.
        Sim, senhor.
         natural tambm que te lembres de que quando estiveste neste tribunal, na semana passada, te informei de que tens certos direitos: o direito de chamares testemunhas a depor a teu favor; o direito de pedir e receber pareceres; o direito de pr em causa qualquer afirmao feita a teu respeito e que consideres difamatria ou prejudicial.
        Sim, senhor.
        Estou informado de que conjuntamente com a tua famlia, designaste o Sr. Gordon para vos representar a todos. Concordaste com isso, Danielle?
       No levantou os olhos.
        Sim, senhor.
       O juiz olhou-nos a todos.
        Nesse caso, vamos prosseguir  disse, pegando em vrias folhas de papel que estavam em cima da mesa,  frente dele.  Temos perante ns duas peties diferentes relativamente  tutela desta criana. Uma foi-nos apresentada pela funcionria nomeada para a vigilncia e orientao da menor, Miss Marian Spicer, que pede que o Estado mantenha a tutela at que a criana tenha tido uma reabilitao e tratamento satisfatrios e possamos ento, estar razoavelmente certos de que no voltar a fazer mal aos outros ou a si prpria atravs dos seus actos. A outra petio vem do Sr. Gordon em nome dos pais e parentes da criana, pedindo que ela fique sob a guarda e tutela da av materna, Sra. Hayden. Esta senhora encarregar-se-ia da educao, tratamento e orientao da criana, at a sua maioridade. Ambas as propostas so completas nas recomendaes que se referem pormenorizada e especificamente ao tratamento e orientao da criana. No havendo objeces, comearemos esta audincia com a anlise da proposta do departamento oficial de vigilncia e orientao.
        No tenho quaisquer objeces, Excelncia  disse Gordon.
        ptimo.  O juiz olhou para a funcionria do Departamento de Vigilncia e Orientao.  Miss Spicer, quer ter a bondade de indicar ao tribunal as razes que a levam a pedir ao Estado que mantenha a tutela da criana?
       Marian Spicer pigarreou, nervosa, e ps-se de p.
        H vrias razes, Excelncia.  Comeou numa voz fraca e tensa, Depois,  medida que foi falando, o nervosismo desapareceu gradualmente e a voz tornou-se-lhe mais normal.  Temos de reconhecer que esta criana foi trazida  ateno do nosso departamento e deste tribunal, atravs de uma acusao criminal grave... homicdio. 
        Objeco!  Harris Gordon ps-se de p.  O veredicto do tribunal foi "homicdio justificvel".
       Percebi que Miss Spicer tinha ficado perturbada. Olhou para o juiz.
        A objeco  aceite e tomada a devida nota  disse, baixando os olhos para Gordon.  Mas, se me permite, gostaria de lhe chamar a ateno para o facto de que a Lei Juvenil se encarrega automaticamente de providenciar para que todas as objeces desse tipo sejam feitas e devidamente anotadas em nome da criana. No entanto, dado que este tribunal no conta com a presena de um jri que necessite de instrues a esse respeito, no nos parece necessrio dar voz a tais objeces.
       Gordon fez que sim com a cabea.
        Sim, Excelncia.
       O juiz olhou para Marian Spicer.
        Pode continuar, Miss Spicer. 
       Ela baixou os olhos para os papis que tinha  frente, em cima da mesa, e comeou de novo.
        O Departamento de Vigilncia e Orientao est preocupado, evidentemente, no apenas com a tutela em si, mas com as razes que levaram a menor a cometer tal crime e com aquilo que se poder fazer para evitar atitude semelhante, por parte da menor, no futuro. Como pode ver pelo nosso relatrio, Excelncia, fizemos uma investigao exaustiva quanto aos antecedentes da criana e as circunstncias que rodearam o acto. Examinmos a criana fsica e psicologicamente e fizemo-lo o melhor possvel dentro das circunstncias.
       Olhou de relance para Nora. 
        Atravs do exame, fsico e clinico da criana, determinmos que de uma maneira geral, ela se encontra de boa sade, mas que se tinha dedicado a uma actividade sexual intensa no perodo que antecedeu imediatamente a data em que foi trazida at ns.  opinio do mdico que a examinou que ela teve relaes sexuais pelo perodo de pelo menos, um ano anteriormente a essa data. Conclui-se, portanto, que teria pouco mais de treze anos quando iniciou este tipo de actividade.
       Olhei para Dani. O rosto dela estava plido e olhava fixamente para a mesa. Miss Spicer continuou.
        Quando interrogmos Dani a esse respeito, ela recusou-se a discutir esse ponto. No quis dizer-nos com quem tinha cometido esses actos, assim como se negou a confirmar ou a negar que tais actos de contacto sexual fossem favorecidos por ela. Quando lhe fizemos notar que a sua recusa em discutir o assunto podia actuar desfavoravelmente  sua situao, insistiu com teimosia que esse tipo de conduta nada tinha a ver com o assunto pelo qual a tinham trazido aqui.
       O juiz tossiu para aclarar a voz.
        Dani  disse num tom spero.  Compreendes o que Miss Spicer est a dizer?
       Dani no levantou os olhos.
        Sim, senhor.
        Sabes, evidentemente, que tais aces so profundamente erradas?  disse, no mesmo tom de voz.  Que uma menina como deve ser no faz essas coisas? Que esta espcie de comportamento  contrria a todos os padres morais e  considerada pecaminosa?
       Dani continuou a no olhar para ele.
        Sim, senhor. 
        Ento, tens qualquer coisa a dizer-nos a esse respeito, para te justificares?
       A pequena levantou os olhos para ele.
        No, senhor  respondeu com voz firme.
       O juiz baixou os olhos para ela, um momento, depois voltou-se de novo para Miss Spicer.
        Por favor, continue.
        A criana teve vrias entrevistas com Miss Sally Jennings, a psicloga dos nossos servios, durante as quais se recusou igualmente a discutir estes assuntos, alegando que eram demasiado pessoais. No entanto discutiu livremente com Miss Jennings muitos outros assuntos que foram tambm includos na petio deste departamento.
       Miss Spicer pegou numa folha de papel. 
        Aqui est um resumo do relatrio de Miss Jennings. Passo a citar: "Depois de vrias entrevistas com Danielle Nora Carey, cheguei s seguintes concluses. Sob a aparente aceitao que evidencia exteriormente, existe na criana, profundamente enraizado e bem escondido, um sentimento de ressentimento e cime em relao  me. Este sentimento evidenciou-se muitas vezes, segundo as palavras da prpria criana, nas suas exploses e discusses com a me. Sente-se reconfortada com o facto de a me gostar dela, uma vez que durante esses momentos de rebelio lhe prodigaliza todas as atenes. Noutras alturas, Dani sente a certeza de que a me no est minimamente interessada nela. Dani exprime o sentimento de que a me a tem separado de todos aqueles que a amam mais a ela do que  me; que a me tem cimes dela; depois contradiz-se a si prpria, assegurando que a me a ama verdadeiramente. H alguns indcios de que por detrs destes comentrios existe uma leve parania, mas na fase actual da nossa observao  difcil ter a certeza. Se esta parania latente tem potencial para desencadear novamente a violncia em dadas circunstncias, no posso dizer com segurana. Recomendo vivamente que a criana fique sob a tutela do Estado, at que todas essas reas sejam completamente inclinadas e avaliadas."
       Miss Spicer pousou o papel e olhou de novo para o juiz.
        Como  habitual, fizemos tambm uma investigao minuciosa  vida da criana na escola e em casa. As informaes da escola so extremamente favorveis, do ponto de vista escolar. Ocupa uma posio de destaque na classe. Socialmente  bem aceite pelos colegas, embora sintam que arvora alguma superioridade em relao a eles no que diz respeito a uma certa sofisticao e conhecimento do mundo. Os poucos rapazes com quem saiu sentiram todos que ela se mostrava ligeiramente entediada enquanto na sua companhia. Falmos tambm com Miss Hayden, a me da criana, que se mostrou surpreendida perante o nosso conhecimento da actividade sexual de Dani. Pretende nunca ter dado por isso. As nossas investigaes relativamente a Miss Hayden revelaram que embora ela se ocupasse bem da filha, do ponto de vista fsico, os seus prprios padres de comportamento, tanto em casa, como fora dela, eram altamente discutveis e certamente no forneciam  filha um clima moral aceitvel. Sem pretender fazer quaisquer juzos de valor relativamente a Miss Hayden dado que compreendemos que na sua qualidade de artista, vive num mundo  parte, tambm no podemos deixar de acentuar que sem dvida, a sofisticao e conduta desse mesmo mundo no podia certamente influir de uma maneira positiva sobre Dani, em relao quilo que normalmente se considera certo ou errado. Sem entrar em pormenores especficos sobre os actos de Miss Hayden, embora tendo conhecimento de muitos deles, sentimos que este facto, s por si, nos deixa grandes reservas quanto  hiptese de a criana ficar sob a sua vigilncia.
       Olhei de relance para Nora. Tinha os lbios apertados enquanto olhava furiosa para Marian Spicer. Se os olhos pudessem matar, a outra teria cado fulminada. Miss Spicer nem sequer olhou para ela, concentrando toda a sua ateno no juiz.
        Falmos tambm com a av materna da criana, a Sra. Hayden, que gostaria que a criana ficasse sob a sua responsabilidade. A Sra. Hayden goza de excelente reputao na comunidade e todos tm por ela a maior considerao. H, no entanto, um obstculo que me parece extremamente perigoso. A Sra. Hayden tem presentemente setenta e quatro anos de idade e, embora a sua sade fsica parea excelente, temos de compreender que no lhe  possvel ocupar-se pessoalmente da criana. Tem forosamente de confiar noutras pessoas para realizar os actos fsicos que ela no pode, pessoalmente, realizar. Assim, embora as suas intenes sejam admirveis, duvidamos de que ela consiga dar satisfao a todas as responsabilidades que est disposta a assumir. Nestas circunstncias, embora tenhamos o maior respeito pela Sra. Hayden sentimo-nos relutantes em recomendar que no momento presente, a criana seja entregue aos seus cuidados.
       O olhar da velha senhora manteve-se impassvel. Continuava a observar calmamente a funcionria encarregada da vigilncia e orientao de Dani. Tudo dava a entender que j estava  espera desta objeco.
       Miss Spicer dirigiu-se a mim em ltimo lugar.
        Falmos igualmente com o coronel Carey, o pai da criana. O coronel Carey fica automaticamente excludo do nmero daqueles que poderiam tomar conta da menor, pelo facto de residir fora deste Estado. Mas alm deste, h ainda outros factores que poderiam obstar a que assumisse essa responsabilidade. Durante muitos anos, no viu nem esteve em comunicao com a filha. Afastaram-se e esto separados por factos que ultrapassam a circunstncia corrente do crescimento da criana. Duvidamos de que tenha a experincia ou a capacidade, tanto financeira como pessoal, necessrias para assumir a responsabilidade da filha.
       Compreendia agora porque  que ela me tinha dito que no podiam muitos casos. Levantei os olhos para ver se o juiz tinha ficado to impressionado como eu. O rosto avermelhado brilhava-lhe por causa do calor hmido da sala do tribunal. Mas os olhos eram imperscrutveis por detrs dos culos.
        Com base nas informaes atrs apresentadas  continuou Miss Spicer  solicitamos que o tribunal entregue a criana  Direco da Juventude Californiana, no Centro de Recepo do Norte da Califrnia, em Perkins. Temos esperana de que depois de a examinarem, a mandem para Los Guillicos, a escola de reabilitao de Santa Rosa, onde estar sob uma orientao competente e receber uma terapia psiquitrica adequada at atingir a maioridade e ser libertada  sua prpria responsabilidade.
       Quando se sentou, fez-se silncio na sala. Nenhum de ns olhou para qualquer dos outros. De certa maneira, creio que nos sentamos todos envergonhados. A voz do juiz interrompeu o silncio. 
        Querem fazer alguma pergunta relativa  recomendao do Departamento de Vigilncia e Orientao?
       Harris Gordon ps-se de p. 
        Existem numerosas objeces, as quais, tenho a certeza, no escaparam ao tribunal, e que eu, em condies normais, contraporia a um relatrio desta natureza. Mas tambm tenho a certeza de que o tribunal as reconhece to bem como eu e sero devidamente feitas.
       O juiz acenou com a cabea.
        Sero devidamente feitas, Sr. Gordon.
        Muito obrigado, Excelncia  disse Gordon com brandura.  Cremos que a nossa petio esclarece bem a nossa posio assim como quaisquer perguntas que possamos ter em relao  petio do Departamento de Vigilncia e Orientao. Estamos convencidos de que a investigao deste departamento foi, sob muitos aspectos, extremamente superficial e orientada por ideias preconcebidas. Em muitos casos penso que este facto no faria grande diferena, mas o departamento tem de reconhecer que a capacidade da famlia para prestar  criana os cuidados necessrios  indiscutvel, tanto do ponto de vista fsico como financeiro. Cuidados melhores, talvez, do que aqueles que o prprio Estado lhe poderia prestar.
        O tribunal leu a sua petio, Sr. Gordon. Estamos preparados para passar  anlise. Quer fazer o favor de prosseguir?
       Gordon fez que sim com a cabea. Continuou de p. 
        Excelncia, relativamente ao propsito desta petio, pedimos que seja notado que a requerente neste caso,  a Sra. Marguerite Cecelia Hayden, av materna da criana.
        O tribunal reconhece-o.
        Obrigado, Excelncia. Sem ideias preconcebidas sobre a criana, seja-me permitido dizer que a requerente reconhece muitos dos factos inerentes a este caso e que so tambm apresentados na petio do Departamento de Vigilncia e Orientao. No entanto, a requerente alega que o Departamento de Vigilncia e Orientao, dadas as suas limitaes fsicas, e o Estado, em virtude dos muitos fardos que lhe esto confiados, no podem dispensar  criana os cuidados que so to necessrios para a sua total reabilitao, o que est dentro das possibilidades da requerente. Em vez das generalidades vagas acerca da deteno e tratamento mencionadas na petio do Departamento de Vigilncia e Orientao, propomos e estamos prontos a pr em prtica um mtodo especfico de cuidado e tratamento para esta criana.
       Estabelecemos j um acordo com a Escola Feminina de Abingdon para a inscrio imediata da criana. No necessito referir a reputao da Escola de Abingdon. Tenho a certeza de que  bem conhecida do tribunal.  talvez a escola do pas que tem obtido maiores sucessos com os chamados "casos-problemas". Uma das razes de sucesso, diz-se,  o facto de a criana no ser afastada de todo o contacto com uma vida normal, em famlia. A criana  tratada num ambiente inteiramente normal e regressa a casa todas as noites, como em qualquer outra escola.
       Tenho aqui neste tribunal o Dr. Isidore Weidman, proeminente psiclogo infantil. O Dr. Weidman est estreitamente ligado  Escola de Abingdon e  ele que se vai ocupar dos cuidados psiquitricos e do tratamento a dispensar a esta criana. Ele prprio decidiu pr-se  vossa disposio, caso houvesse algumas perguntas relativamente aos planos especficos que elaborou para esta criana. 	 Gordon olhou para o juiz com ar interrogador.
        O tribunal conhece o Dr. Weidman  disse o juiz e tem o maior respeito pelas suas capacidades e opinies. No entanto, no tem qualquer motivo, nesta altura, para interrogar o doutor.
       Gordon fez que sim com a cabea.
        A Sra. Hayden tomou tambm todas as disposies para que a neta comeasse a freqentar a igreja de St. Thomas, a fim de poder comear a usufruir da orientao dos slidos princpios cristos. O reverendo J. J. Williston da igreja de St. Thomas, que infelizmente no pde estar presente  audincia desta manh est disposto, no entanto, a vir a este tribunal hoje mesmo,  hora da vossa convenincia, caso desejem consult-lo. 
        O tribunal tomar esse facto em considerao, Sr. Advogado.
        A Sra. Hayden tambm j reservou os quartos necessrios, na sua prpria casa, a fim de serem redecorados e postos  disposio da criana. Est, alm disso, preparada para exercer todos os cuidados fsicos e morais que incumbem aos pais de qualquer criana. Quanto  preocupao do Departamento de Vigilncia e Orientao relativamente  situao fsica da Sra. Hayden... 
       Gordon retirou um copo de gua da mesa e levou-o aos lbios. Pousou novamente o copo e voltou-se para o juiz.
        A Sra. Hayden  actualmente membro do conselho de administrao de onze empresas diferentes e est activamente empenhada nos negcios de quatro dessas companhias.  ainda procuradora da Escola de Artes e Cincias, da Universidade e  tambm administradora das Filhas dos Fundadores da Sociedade de So Francisco. Ainda h poucos dias a Sra. Hayden foi, a meu pedido, ao Hospital Geral onde se submeteu a um exame fsico completo. Tenho comigo os relatrios escritos daquele exame e gostaria de os ler.  Pegou numa folha de papel.   opinio dos mdicos que procederam ao exame e cujas assinaturas subscrevem este relatrio, que a Sra. Marguerite Cecelia Hayden, de setenta e quatro anos de idade, goza de excelente sade e vigor e no mostra quaisquer defeitos extraordinrios geralmente associados com as pessoas da sua faixa etria. Somos ainda de opinio, ressalvando a possibilidade de um acidente ou de quaisquer circunstncias imprevisveis, que a Sra. Hayden ir gozar os benefcios do seu excelente estado de sade actual por muitos anos.
       Gordon fez uma pausa e olhou para o juiz. 
        Este relatrio est assinado pelo, Dr. Walter Llewellym professor de Georiatria, Faculdade de Medicina, Universidade da Califrnia do Sul, que foi o mdico que chefiou a equipa examinadora. Constam as assinaturas de mais cinco mdicos. Estou pronto a l-las, se o tribunal assim o desejar.
        O tribunal aceita a declarao do advogado. No h razo para nomear os restantes mdicos.
       Gordon bebeu novo golo de gua.
        Pouco mais posso acrescentar  petio, alm de uma coisa.  Olhou atravs da mesa para Dani.  Pedirmos ao tribunal que tenha bem presente que, para uma criana, no h cura melhor ou mais poderosa do que ser amada; sentir-se em segurana na certeza de que  amada. Sem isso todos os nossos conhecimentos de medicina e de psiquiatria so impotentes. Com isso no h curas impossveis. Afirmamos que a Sra. Hayden pode fazer tudo e mais pela neta, do que poderia o Estado. E h ainda um importante factor a juntar... o amor que tm uma pela outra. Amor que uma instituio, por mais bem intencionada, nunca pode dar.
       O juiz olhou para Miss Spicer.
        Tem alguma pergunta relativamente a esta petio? 
       A funcionria ps-se de p. 
        O Departamento de Vigilncia e Orientao estudou com o maior cuidado a petio feita pela Sra. Hayden e continua a pensar que os melhores interesses da criana e do Estado seriam servidos antes pela sua prpria proposta. Se tivssemos chegado a uma concluso diferente, teramos juntado  sua a nossa recomendao.
       O juiz olhou para Dani. 
        Danielle, tens alguma pergunta a fazer acerca de qualquer das duas peties?
        No, senhor  respondeu em voz baixa.
        Compreendes qual  a deciso que eu vou ter de tomar agora?  perguntou.  Agora tenho de decidir o que vamos fazer contigo. Se ficas sob a tutela do Estado ou se vais para casa da tua av. Quanto melhor eu te conhecer, melhor saberei decidir. H alguma coisa mais que gostasses de me contar neste momento?
       Dani no olhou para ele.
        No, senhor.
        No s tu cometeste uma aco terrvel  disse numa voz muito sombria.  como admites um comportamento fortemente imoral e imprprio. Ou seja, a espcie de comportamento que ambos sabemos que est errado e que, em circunstncia alguma, se pode permitir que continue. H alguma coisa que me possas dizer que seja passvel de me persuadir a aceitar a petio da tua av?
       Continuou a no olhar para ele. 
        No, senhor.
        Se no queres falar comigo no tribunal, estarias disposta a falar comigo em particular? No meu gabinete, onde mais ningum nos pode ouvir?
        No, senhor.
       O juiz suspirou.
        Sabes que no me ests a ajudar muito na minha deciso? 
       A voz dela era muito fraca.
        No, senhor. 
       Pareceu-me ver uma sombra de tristeza nos olhos do juiz, quando se recostou na cadeira. Ficou assim sentado um momento, depois, voltou-se ligeiramente e olhou-nos a todos. A expresso dele era solene. Tossiu como quem vai falar.
        Excelncia  disse, pondo-me de p.
        Faz favor, coronel Carey. 
       Olhei em volta da mesa. Notei a surpresa e a expresso de choque que se estampou em todas as caras, mas a nica que eu vi verdadeiramente foi a de Dani.
       Dani ficou a olhar para mim, com os olhos muito grandes e redondos no rosto plido. Notei os leves crculos azulados que tinham por baixo e percebi que devia ter estado a chorar antes de vir para o tribunal. Voltei-me e olhei para o juiz. Era a ltima oportunidade que tinha de fazer alguma coisa pela minha filha. Aclarei a voz. 
        Ser que tenho o direito de fazer algumas perguntas, Excelncia?
        Neste tribunal, o senhor tem os mesmos direitos que a sua filha, coronel Carey  respondeu o juiz.  Tem o direito de recorrer a um conselheiro jurdico, de convocar e interrogar as testemunhas sobre os assuntos relacionados com esta audincia.
        Muito obrigado, Excelncia  respondi.  Tenho uma pergunta a fazer a Miss Spicer.
        Pode fazer essa pergunta.
       Voltei-me para Marian Spicer, a encarregada da vigilncia e orientao de Dani.
        Miss Spicer, acredita que a minha filha seja capaz de cometer um crime?
       Gordon ps-se de p.
        Objeco, Excelncia!  disse, zangado.  O coronel Carey acaba de fazer uma pergunta que pode ser prejudicial  minha cliente. 
       O juiz olhou para ele.
        Sr. Gordon  disse num tom vagamente aborrecido.  Pensava que j lhe tnhamos explicado que todas as objeces em nome da menor so feitas automaticamente.  Voltou-se para Miss Spicer.  Pode responder  pergunta.
       A rapariga hesitou.
        No sei.
        Disse-me no outro dia, que lhe custava a acreditar que uma criana como Dani pudesse cometer um crime  continuei.  Que se sentiria mais  vontade se conseguisse arranjar uma slida explicao psicolgica para os actos dela. O que foi que a levou a sentir isso?
       Ela olhou para o juiz. 
        Nem Miss Jennings nem eu conseguimos estabelecer um contacto suficientemente estreito com Danielle para podermos determinar aquilo de que ela realmente  capaz. Sentimos que apresenta uma extraordinria capacidade de autodomnio para a sua pouca idade.
        Esteve no tribunal e ouviu o testemunho apresentado ao jri pelo mdico legista. Concordou com o veredicto?  perguntei.
       Miss Spicer olhou para mim.
        Aceitei o veredicto do jri.
        No foi essa a minha pergunta, Miss Spicer. A julgar por aquilo que sabe agora acerca da minha filha, pensa que ela possa ter morto um homem, como se afirmou naquele tribunal?
       Hesitou de novo. 
        Acho que  possvel. 
        Mas ainda tem certas dvidas? 
       Fez que sim com a cabea.
        H sempre dvidas, coronel. Mas temos de jogar com os factos de que dispomos e no podemos deixar que os nossos sentimentos pessoais se lhes sobreponham. Os factos que temos corroboram a concluso daquele tribunal. Temos, portanto, de actuar em conformidade.
        Muito obrigado, Miss Spicer.
       Voltei-me de novo para o juiz. Estava inclinado sobre a secretria, a observar-me. Parecia aguardar com curiosidade aquilo que eu iria fazer a seguir. Gordon ps-se outra vez de p.
        Sou forado a protestar, Excelncia  disse.  No consigo perceber o que  que o coronel Carey espera obter atravs de tais perguntas. Toda esta forma de proceder me parece altamente irregular. 
       O juiz voltou-se para mim.
        Tenho de confessar o meu prprio espanto, coronel Carey. Exactamente o que  que o senhor espera conseguir?
        No sei exactamente, Excelncia, mas h vrias coisas que me preocupam.
        E quais so essas coisas, coronel Carey? 
        Se a minha filha no fosse menor, mas sim adulta, e o veredicto, fosse "homicdio justificvel", o mais provvel era que ela estivesse agora livre de retomar a sua vida normal. Ou no seria assim? 
       O juiz fez que sim com a cabea.
        Mas uma vez que  menor, ainda est sujeita a castigo e  por isso que se encontra agora neste tribunal?
        Isso no  verdade, coronel  disse o juiz.  A sua filha no est aqui a ser julgada por homicdio. Trata-se de uma audincia de tutela cuja principal preocupao  o seu prprio bem-estar e beneficio. 
        Desculpe-me a dificuldade de compreenso, Excelncia. Mas no sou advogado. Para mim o simples facto de ela ser ameaada de recluso  um castigo. Sejam quais forem as razes, o crime do qual  acusada ou qualquer outra razo dada pelo Estado, parece-me que o resultado final  o mesmo.
        Pode ter a certeza, coronel, de que as medidas punitivas so o que mais distante se encontra do esprito deste tribunal  disse o juiz, cheio de formalismo.
        Muito obrigado, Excelncia. Mas h outra coisa que me preocupa.
        E do que  que se trata?
        Se eu fosse acusado de um crime teria de ser julgado em tribunal. A, teria o direito de me defender contra tais acusaes para de uma vez por todas, se estabelecer a minha inocncia ou culpa.
       O juiz acenou novamente com a cabea.
        Mas no caso da minha filha isso no foi julgado necessrio. Desde o primeiro momento em que aqui cheguei que me foi cuidadosamente explicado que no havia necessidade de nos preocuparmos com o castigo, porque Dani era menor. A nossa nica preocupao era a quem  que ela seria entregue. S hoje  que compreendi que faltava uma coisa muito importante.
       Tinha muita sede e servi-me de um copo de gua. O juiz olhou-me curioso, quando comecei de novo a falar.
        Em parte alguma, ao longo de todo este processo vi o que quer que fosse que se assemelhasse a uma defesa a favor da minha filha. Com certeza que ela tem direito a uma oportunidade de se defender.
        No foi negado  sua filha nenhum dos direitos que lhe assistem, coronel  disse o juiz com uma certa irritao.  Parece-me que o senhor e a me da criana usaram um advogado da maior capacidade para actuar em nome dela. O Sr. Gordon tem estado presente em todas as audincias. Se tem algumas queixas a apresentar relativamente  maneira como conduziu a sua defesa, certamente no  este o local indicado para o fazer. 
       Comeava a sentir-me enleado num emaranhado de legalismos. Era uma estupidez da minha parte ter pensado que seria capaz de penetrar na teia de obscuridades que a lei tinha tecido em volta dela.
        Excelncia  disse, desesperado.  O que eu estou a tentar perguntar  simplesmente isto: O que  que eu possa fazer para introduzir neste tribunal a verdade acerca da minha filha?
       O juiz olhou longamente para mim. Depois, reclinou-se na cadeira.
        Se  s isso que deseja, coronel  disse lentamente.  Prossiga da maneira que lhe parecer mais indicada. Este tribunal deseja tanto a verdade quanto o senhor.
       Gordon ps-se novamente de p.
        Isto  inteiramente irregular, Excelncia  protestou.  A nica coisa que o coronel Carey pode fazer  prolongar desnecessariamente a questo. O jri j apresentou o seu veredicto. No vejo qual possa ser a vantagem de retomarmos a questo. Todos sabemos que esta audincia se destina a definir a tutela da criana e oponho-me a que seja transformada em qualquer coisa diferente.
        Em qualquer outro tribunal a minha filha teria o direito de recorrer, Excelncia  disse.  No poderia este tribunal dar-lhe a mesma oportunidade?
       O juiz olhou-nos. 
        No est dentro das atribuies deste tribunal rever as decises de qualquer outro tribunal. No entanto,  inteno deste tribunal escutar tudo aquilo que possa ajud-lo no seu julgamento sobre qualquer questo que lhe seja apresentada.  dever deste tribunal garantir a proteco, ao menor, seja de que natureza for, at perante os seus prprios actos. Dado que estas audincias so conduzidas de maneira mais ou menos informal, no vejo que haja algum problema em ouvirmos o coronel.
        Muito obrigado, Excelncia.
       Gordon deitou-me um olhar curioso, enquanto se sentava. Voltei-me de novo para o juiz.
        Posso chamar uma testemunha?
       O juiz fez que sim com a cabea. Atravessei a sala do tribunal e abri a porta da sala de espera. Ana estava sentada na outra ponta, perto das janelas envidraadas. Fiz-lhe sinal e ela entrou na sala do tribunal.
        Excelncia  disse.  Esta  Ana Stradella.
       O rosto de Nora estava plido de raiva. Vi-a murmurar qualquer coisa para Gordon. O rosto da velha senhora estava calmo; o de Dani apenas curioso.
        Sente-se, por favor, Miss Stradella  disse o juiz.
        Indicou-lhe uma cadeira perto de onde ele estava. Ana sentou-se e o funcionrio avanou com uma Bblia na mo. Rapidamente f-la jurar e foi sentar-se de novo.
        Pode continuar, coronel  disse o juiz.
       Os seus olhos estavam agora muito vivos por detrs dos culos. Surgira-lhe na cara uma expresso de interesse que no tinha antes. Ana estava vestida de preto, mas mesmo o fato escuro no lhe escondia a exuberncia do corpo. Ficou sentada, muito quieta, com as mos cruzadas em cima da carteira.
        Quer fazer o favor de contar ao tribunal como foi que nos conhecemos, Ana?  perguntei.
        Conheci o coronel Carey quando ele veio  casa funerria para falar com a famlia de Tony Riccio.
       Pelo canto do olho vi Dani, de repente, inclinar-se para a frente por cima da mesa e olhar para a rapariga.
        Porque  que estava l, Ana?
        Tony era meu noivo  respondeu calmamente.  Estvamos para casar.
        H quanto tempo? 
        Nove anos.
         um noivado muito longo para os tempos que vo correndo, no lhe parece?
        Acho que sim  respondeu.  Mas o Tony queria esperar at ficar rico.
        Estou a ver. Sabia do emprego dele junto de Miss Hayden, no sabia?
       Fez que sim com a cabea.
        Alguma vez discutiu esse assunto com o Tony? 
       A rapariga sacudiu a cabea.
        No, nunca. Mas o Tony falava muitas vezes de Miss Hayden. 
        E o que era que ele dizia acerca dela? 
       Gordon levantou-se de um salto.
        No posso deixar de objectar fortemente a este tipo de interrogatrio, Excelncia. Todo este assunto  completamente irrelevante e sem qualquer interesse para a questo posta perante este tribunal.
        Objeco recusada  disse o juiz quase com indiferena. Percebi que se sentia curioso quanto ao que eu estava a fazer.  Continue, coronel Carey.
        Dizia que era uma mulher rica, de meia-idade e que um dia ia apanhar-lhe umas boas massas.
       Olhei furtivamente para Nora. O rosto dela estava plido e zangado. Voltei-me novamente para Ana.
        Fez alguma referncia s suas relaes com a famlia da patroa?
        Sim  quase murmurou.  Disse que entre a mida e a me, no tinha um minuto de descanso.
        Deduzo da que ele queria dizer que tinha relaes sexuais com ambas?
        Sim. 
        Durante esse tempo, tambm tinha relaes consigo? 
       Ana olhou para o cho.
        Sim  murmurou.
        Voc no levantou objeces ao comportamento dele para com Miss Hayden e a filha?
        E se tivesse, para que serviria isso?  perguntou num tom inexpressivo.  Disse-me que tinha de o fazer. Era parte do trabalho.
        Isso  mentira!  gritou Dani de repente.   uma mentira suja!
       O juiz bateu vivamente com o martelo na mesa.
        Esteja sossegada, Danielle  advertiu-a.  Caso contrrio terei de a mandar sair do tribunal.
       O rosto de Dani ficou paralisado e deitou-me um olhar furioso. Agora eu sabia o que Judas sentiu quando olhou para o rosto de Cristo. Voltei-me de novo para Ana.
        Quando foi a ltima vez que viu o seu noivo com vida?  perguntei.
        Cerca de duas semanas antes de ele morrer.
        O que foi que ele lhe disse nessa altura?
        Deu-me um grande sobrescrito de papel pardo e pediu-me que lho guardasse  disse.  Disse-me que continha cartas de Miss Hayden e da filha e que dentro de pouco tempo essas cartas iam valer uma fortuna para ns. O bastante para nos casarmos.
        Leu as cartas?
        No  respondeu.  O sobrescrito estava fechado. 
        E o que  que fez com ele? 
        Guardei-o  disse.  Depois, uma noite, o meu irmo disse-me que o Tony queria outra vez as cartas e eu dei-lhe o sobrescrito. S depois de o meu irmo se ter ido embora  que vim a saber que o Tony j estava morto.
        O que foi que o seu irmo fez com as cartas? 
        Vendeu-as. 
        A quem? 
        A Miss Hayden. 
        Mas Miss Hayden no recebeu todas as cartas, pois no?  perguntei.
        No, o meu irmo ainda ficou com duas. 
        E o que foi que fez com elas? 
       Ana olhou para mim de frente. 
        Vendeu-lhas a si por cem dlares. 
       Desta vez foi Nora que saltou da cadeira.
        Ladrozinho imundo! 
       Gordon puxou-a, obrigando-a a sentar-se de novo. Vi que estava to admirado como qualquer um dos outros. Provavelmente nem sequer sabia que as cartas existiam. Tirei-as da algibeira. 
        So estas as cartas que o seu irmo lhe deu para me entregar?  perguntei.
       Olhou para elas.
        So.
         tudo, Ana. Muito obrigado. 
       Levantou-se da cadeira e encaminhou-se para a porta. Antes de sair, parou e olhou para trs um momento. Depois, a porta fechou-se atrs dela.
        Gostaria de ler um excerto de uma dessas cartas  disse e em seguida, li o ltimo pargrafo da carta de Nora, sem esperar a autorizao do juiz.
        No me tinha dito que ia casar com ele, me!  disse Dani. Baixou os olhos para a mesa com ar acusador.  No me disse nada!
        Est calada, Dani!  Miss Spicer ps a mo no brao de Dani.
       Gordon estava outra vez de p.
        Proponho que o testemunho daquela mulher e o excerto da carta sejam cortados do processo por irrelevantes e sem significado!
        Aceite  disse o juiz com naturalidade.  Ordena-se que assim se faa.  Olhou para mim.  Tem mais algumas surpresas, coronel Carey?
        Tenho, sim, Excelncia. Gostaria de interrogar Miss Hayden.
       Gordon ps-se outra vez de p. 
        Objeco, Excelncia.
        Recusada.
        Peo um pequeno intervalo para conferenciar com a minha cliente  disse Gordon.
       O juiz inclinou-se para a frente e baixou os olhos.
        O senhor parece ter um excesso de clientes neste tribunal, Sr. Gordon. A que cliente se est a referir neste momento?
       O rosto de Gordon ruborizou-se.
        Refiro-me a Miss Hayden, Excelncia.
       O juiz fez que sim com a cabea. Bateu com o martelo na mesa.
        O tribunal declara um intervalo de quinze minutos. 
       Pusemo-nos todos de p enquanto ele saa da sala. Miss Spicer levou Dani para a sala de espera das raparigas. Logo que a porta se fechou atrs dela, Gordon voltou-se para mim. A voz dele era spera e zangada.
        Que raio est voc a tentar fazer, Luke?
        O seu trabalho, advogado  repliquei.  Defender a minha filha!
        Isso  um disparate, Luke. S est a piorar as coisas para ela! 
        Acha que podem piorar mais? O juiz est preparado para a mandar para longe.
        No se pode saber  disse.  Ele ainda no apresentou nenhuma deciso. E mesmo que fosse contra ns, amos pedir a reabertura da audincia amanh. Temos esse direito.
        E para que  que serviria isso?  perguntei.  A Dani continuaria a ficar encarcerada. Por que  que tem tanto medo de que eu possa desenterrar a verdade? Ou ser que tambm est metido nisso?
        Metido em qu? 
       Percebi que o seu espanto era genuno.
        Nora tinha medo de que eu pudesse tropear na verdade do que aconteceu realmente naquela noite. Foi por isso que mandou o Coriano meter-me numa armadilha quando fui buscar as cartas.
        Met-lo numa armadilha? 
       Tirei as fotografias da algibeira, mostrei-lhas e expliquei o que tinha acontecido. Gordon empalideceu quando as meti de novo na algibeira. 
        Nora preveniu-me de que no me metesse nisso, seno mandava-as  minha mulher.
        Nunca devia ter dado de volta!  disse Nora furiosa.  Devia estar louca!
       Gordon tambm estava zangado. Agarrou-a pelo brao quase com rudeza e arrastou-a para longe.
       Vi-os encaminharem-se para a parte de trs da sala do tribunal. O sibilar do seu dilogo murmurado chegou at mim, mas no consegui perceber o que estavam a dizer. Sentei-me e peguei num copo de gua. Queria um cigarro, mas no sabia se me era permitido fumar na sala do tribunal.
        A sua filha est muito abalada com isto, coronel  disse o Dr. Weidrnan.
       Levantei os olhos. Pareceu-me ver um brilho de simpatia genuna nos olhos dele. Bebi a gua.
        Prefiro abal-la um pouco agora, doutor, do que tentar reparar o mal causado por trs anos de reformatrio.
       Weidrnan no disse nada. Peguei num cigarro e acendi-o. Os regulamentos que fossem para o diabo. Senti a mo tremer-me. A velha senhora estendeu o brao e ps a mo em cima da minha. A voz dela era suave e bondosa como uma caricia.
        Espero que saiba o que est a fazer, Luke. 
       Olhei para ela. Parecia ser a nica de ns todos que tinha conservado a lucidez. Correspondi  presso da mo dela.
        Assim o espero  respondi. 
       De repente, desejei que Elizabeth ali estivesse. Ela saberia o que eu devia fazer; saberia acalmar os receios repentinos e as dvidas que comeavam a crescer dentro de mim. Talvez Gordon tivesse razo. Talvez eu estivesse a fazer mais mal do que bem. No sabia. No me lembrava de alguma vez me ter sentido to s como naquele momento.
       A porta dos aposentos do juiz abriu-se e ele regressou  sala do tribunal. Permanecemos de p at que nos fez sinal com o martelo para que nos sentssemos. Gordon e Nora tinham voltado para a mesa. Vi que o rosto de Gordon continuava vermelho e zangado.
        Chame-se a criana  disse o juiz.
       O delegado do xerife encaminhou-se para a sala de espera das raparigas e bateu  porta. Num momento, Dani e Marian Spicer voltaram  sala. Os crculos azuis por baixo dos olhos de Dani pareciam ainda mais fundos. Percebi que tinha estado outra vez a chorar. No olhou para mim e deixou-se deslizar para o seu lugar.
        Pode continuar, coronel Carey  disse o juiz.
       Gordon ps-se de p ainda antes de mim.
        No posso deixar de protestar uma vez mais contra este procedimento, Excelncia.  altamente irregular e, se for permitido que continue, pode dar lugar a que sejam feitas acusaes de parcialidade e tendenciosismo por parte deste tribunal.
       Os olhos do juiz Murphy tornaram-se, de repente, frios e cortantes.
        Est a ameaar o tribunal, advogado?
        No, Excelncia. Estou apenas a dar voz a uma opinio considerada legalmente.
        O tribunal respeita a opinio do douto advogado  disse o juiz, com a mesma voz fria.  Aprecia a sua preocupao. Mas o tribunal deseja fazer notar que se for acusado de parcialidade ou tendenciosismo a favor da menor que tem perante si, estar apenas a cumprir a sua finalidade. O propsito confesso deste tribunal, segundo a lei,  o de proteger completamente o menor que perante ele comparece.
       Gordon sentou-se em silncio. O juiz olhou para mim. A voz dele era branda.
        Pode continuar, coronel. 
       Levantei-me da cadeira. 
        Gostaria de interrogar Miss Hayden, por favor.
        Miss Hayden quer fazer o favor de ocupar este assento aqui ao lado?  perguntou o juiz, indicando-lhe a cadeira que j tinha sido ocupada por Ana.
       Nora olhou um momento para Gordon. O advogado fez que sim com a cabea; ela levantou-se e encaminhou-se para a cadeira. O funcionrio do tribunal avanou para lhe fazer o juramento. Nora sentou-se e olhou para mim. Tinha o rosto calmo e impassvel, quase como se tivesse sido esculpido numa das lajes que tinha no estdio. Respirei fundo.
        Nora  comecei.  A semana passada quando foi apresentado o relatrio da autpsia, declarou que tinha estado a discutir com Tony Riccio no dia em que ele foi morto.  capaz de nos dizer a que horas comeou a discusso?
        No me lembro bem. 
        Aproximadamente. Eram oito da manh? Dez? Doze? Duas da tarde?
       Via o brilho desaparecer-lhe do olhar. Sabia onde eu queria chegar.
        -me difcil dizer exactamente.
        Talvez eu possa ajudar a refrescar-lhe a memria  disse.  Na quinta-feira esteve todo o dia em Los Angeles. A Western Airlines diz-me que figurava na lista de passageiros do vo de Los Angeles que chegou a So Francisco dez minutos depois das quatro, na tarde de sexta-feira. Descontando a demora normal provocada pelo trnsito deve ter chegado a casa digamos, pelas cinco horas. Foi por essa hora que a discusso comeou?
       Os olhos dela comearam a ficar frios e irados. 
        Por volta dessa hora. 
        Portanto, a discusso a que se referiu no durou todo o dia, mas comeou por volta das cinco horas da tarde? Est certo?
        Est certo, sim. 
       Gordon ps-se mais uma vez de p, como um boneco a sair de uma caixa de surpresas.
        Excelncia  disse.  No consigo...
        Sr. Gordon!  a voz do juiz ecoou zangada.  Queira fazer o favor de se abster de causar novas interrupes neste tribunal. Na qualidade de advogado que representa ostensivamente a menor trazida perante este tribunal, devia receber com agrado qualquer informao que viesse lanar mais luz sobre os seus actos, ajudando assim na sua defesa. Comea a parecer a este tribunal que est a tentar servir senhores a mais e a julgar antecipadamente um grande nmero de factos. Deixe-me repetir-lhe que neste tribunal o juiz sou eu e que em devido tempo, ter a oportunidade de exprimir todas as suas opinies. Entretanto, por favor, queira retornar ao seu lugar.
       Gordon sentou-se. Tinha o rosto quase purpreo de raiva. O juiz voltou-se de novo para mim.
        Continue, por favor, coronel Carey. 
        Estava algum em casa, quando l chegou?  perguntei. 
       Pela primeira vez, Nora hesitou. 
        No sei de que  que est a falar. 
        Estavam alguns dos criados em casa?
        No, no creio. 
        E Dani ou Tony Riccio?
        Sim.
        Ambos?
        Ambos.
        Viu-os quando entrou?
        No.  Sacudiu a cabea.  Fui directamente para o estdio. Queria desenhar umas ideias que tinha tido, antes que se perdessem.
        Que horas eram ento, quando os viu? 
       Olhou para mim, Pela primeira vez. vi um ar de splica aparecer-lhe nos olhos. Parecia estar a implorar-me que parasse.
        Que horas eram?  repeti friamente.
        Mais ou menos... mais ou menos sete e meia.
        Ento, a discusso s comeou s sete e meia e no s cinco?  perguntei.
       Baixou os olhos para as prprias mos. 
         verdade.
        Tambm declarou na audincia da autpsia que a sua discusso com Tony Riccio fora provocada por questes de negcios  disse.  Mas a verdadeira razo no foi essa, pois no?
        No. 
        E quando disse a Miss Spicer que no sabia do romance de Dani com Riccio  continuei  isso tambm no era verdade, pois no?
       Comeou a chorar em silncio, com as lgrimas a juntarem-se-lhe nas plpebras inferiores e a rolarem-lhe pela cara. Comeou a torcer as mos, nervosamente.
        No. 
        Onde foi que os viu? 
        Quando fui ao primeiro andar vestir-me para o jantar  disse quase num murmrio.
        Onde no  quando. Em que quarto?
       No levantou os olhos. 
        No quarto de Rick.
        O que era que estavam a fazer?
        Estavam...  a voz dela perdera toda a emoo. Tinha o olhar bao e vidrado.  Estavam na cama.
       Olhei para ela. 
        Por que  que no disse isso logo de inicio?
        As coisas j estavam suficientemente ms  murmurou.  No pensei...
        No pensou!  interrompi, zangado.  Pois a  que est. Pensou, mas foi com todo o cuidado. Sabia que se contasse esse bocadinho, teria de contar a verdade toda. Sobre tudo o que aconteceu naquela noite!
        No... no estou a entender  disse com uma expresso de espanto e medo no olhar.
        Compreende sim  disse brutalmente.  No sei como  que conseguiu que a Dani concordasse com isso, mas bem sabia que, se dissesse a verdade, o resto no podia ficar escondido... que foi voc que matou Tony Riccio e no a Dani!
       Vi-a envelhecer diante dos meus olhos. O rosto contraiu-se-lhe e apareceram nele rugas que eu nunca tinha visto antes. Nessa altura, um grito veio de trs de mim.
        No, mam, no! Ele no pode obrig-la a dizer que o matou! 
       Dei meia volta na direco de Dani, mas ela j tinha saltado da cadeira e corria para a me. Estreitou Nora de encontro a ela e ficou ali com os braos em volta da me numa atitude de proteco. As lgrimas continuavam a correr pelas faces de Nora, mas os olhos de Dani chispavam ira e dio contra mim.
        Pensa que sabe muitas coisas!  gritou.  Volta depois destes anos todos e pensa que sabe tudo. Mas no passa de um estranho. Nada mais que um estranho. No me conhece, nem eu o conheo a si. A nica coisa que sabemos um do outro so os nossos nomes!
       Fiquei a olhar para ela.
        Mas, Dani...
        Eu disse-lhe a verdade!  gritou.  Mas no quis acreditar! Disse-lhe que tinha sido um acidente, que no queria fazer aquilo, mas no me acreditou. Odeia tanto a minha me que se recusou a ouvir! Pois , j que quer tanto ouvir a verdade, pap, ento, oua! No foi o Rick que eu tentei matar naquela noite no estdio. Foi a minha me!
       Olhei em volta. A sala mergulhara num silncio mortal. Todos os olhos estavam postos em Dani. At o estengrafo do tribunal, cujo rosto se mantivera imperturbvel toda a manh, com os olhos fitos no espao, sem ver, enquanto os dedos voavam rapidamente sobre as teclas da mquina de estenografia.
        Estvamos na cama de Rick, quando a me nos encontrou  disse numa voz calma e cheia de naturalidade.  Sabamos que j era tarde, mas eu no queria deix-lo. Ele queria que eu me fosse embora, mas eu no queria. No ouvamos nada, por isso pensmos que ainda estvamos ss, Havia quase dois dias que estvamos na cama, excepto para comer qualquer coisa, desde que os criados tinham sado. Mesmo assim, eu no queria ir-me embora.
       Surgiu-lhe nos olhos aquele olhar de desafio que j me habituara a reconhecer.
        Gostava de saber o que ns estvamos a fazer quando a me deu connosco, pap?  perguntou.  Gostava? 
       No respondi. 
        Estvamos os dois nus na cama. Ele estava estendido e eu estava de gatas. Percebe o que eu quero dizer, pap? Estava a tentar fazer que ele me quisesse outra vez para eu no ter de me ir embora.
       Comecei a sentir uma espcie de enjoo. Isso deve ter sido visvel na minha cara, porque o desafio estendeu-se-lhe agora  voz.
        Sabe o que eu quero dizer, no sabe, pap?  disse num tom suave.  Mas no gosta de pensar nisso. Nem mesmo s para si. Gosta de pensar que eu ainda sou a mesma rapariguinha que deixou h seis anos. Bom, no sou. No gosta de pensar que eu conheo certas coisas... todas as maneiras que h de fazer isso. Mas eu sei. No gosta de pensar que a sua pequenina era capaz de fazer essas coisas. Mas fiz.  A voz dela elevou-se ligeiramente e nos olhos surgiu-lhe uma vaga ameaa de lgrimas.  E fi-las uma vez e outra e outra. Todas as vezes que tive essa oportunidade!
       Olhava-me nos olhos e os ns no meu estmago estavam cada vez mais apertados.
        No gosta de ouvir isso, pois no, pap? 
       No respondi. No consegui. 
        A me entrou pelo seu antigo quarto. Lembra-se de como costumava passar do seu quarto para o meu? Foi por a que ela entrou. S que esse quarto agora  o do Rick... era do Rick. Puxou-me para fora da cama e arrastou-me pelo trio at ao meu quarto, onde me fechou. Eu estava a chorar. Disse-lhe que o Rick e eu amos casar, mas ela no me deu ouvidos. Nunca a tinha visto to zangada. Depois desceu para o estdio e eu fiquei em cima da cama, at que ouvi a porta do Rick abrir-se. Ouvi-lhe os passos na escada e percebi que ia descer para falar com ela. Vesti-me a toda a pressa e sai do meu quarto pela casa de banho, que a me se tinha esquecido de fechar. Deslizei pela escada abaixo, o mais silenciosamente que consegui. Ouvi Charles e Violet na cozinha, no outro lado da casa. Depois, atravessei o vestbulo, sem fazer barulho e pus-me do lado de fora da porta do estdio,  escuta. Ouvi quase tudo o que diziam. Ouvi a me dizer ao Rick que tinha exactamente uma hora para sair l de casa. Depois o Rick disse que j conhecia o suficiente de ns duas para contar ao mundo inteiro as prostitutas que ns ramos. A me disse-lhe que, se no sasse, acabava na cadeia.
       Houve um burburinho na sala.
        Depois ouvi a me rir-se e dizer que j esperava isso dele e quanto  que ele queria. E Tony riu-se tambm. "Assim j era outra coisa", disse. "Cinquenta mil dlares." A me disse que estava doido, dez mil dlares era o mximo que estava preparada para lhe dar. Vinte e cinco ento, disse ele. "Est bem", ouvi a me dizer. E ai fiquei como doida.
       Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas que comearam a correr pela cara.
        Fiquei mesmo como doida! A nica coisa que eu sabia era que ela estava outra vez a fazer o mesmo. Aquilo que fazia com todas as pessoas de quem eu gostava. Aquilo que fazia com todas as pessoas que gostavam de mim. Estava a mandar o Tony embora! Empurrei a porta para trs e gritei-lhe: "No pode fazer isso! No pode mand-lo embora!" A me olhou para mim e disse-me que voltasse para o meu quarto. Olhei para Rick e ele disse-me que fizesse o que a minha me tinha dito. Nessa altura vi o cinzel em cima da mesa, ao p da porta. Peguei nele e corri para a minha me. "No pode mand-lo embora", gritei. "Ainda a mato primeiro!" Levantei o brao em direco  minha me, mas Rick apareceu de repente no meio das duas, com o cinzel enterrado no estmago. Ficou parado a agarrar o estmago com as mos. "Santo Deus, Dani, por que  que fizeste uma estupidez destas?" disse. Depois vi o sangue escorrer-lhe entre os dedos e corri em direco  me, a gritar: "Foi sem querer! Foi sem querer, mam!" "Eu sei que foi, queridinha", disse ela com brandura e tornava a dizer: "Eu sei que foi sem querer." E disse que amos contar a toda a gente que ele a estava a magoar e que eu tinha feito aquilo para a proteger. Assim ningum precisava de saber o que se tinha passado entre mim e o Tony. Repetiu-me tudo vezes sem conta, para ter a certeza de que eu diria as mesmas coisas. Depois tapei a cara com as mos, a porta abriu-se e Charles entrou.
       Estavam agora agarradas uma  outra, a chorar. Fiquei a olhar para elas. Era quase como olhar para um slide esteretipo, sem o aparelho prprio. Eram como duas fotografias separadas da mesma pessoa. Eram to parecidas, com as mesmas lgrimas a correrem-lhes pelas faces. Me e filha. Uma e a mesma. Era quase como se estivesse hipnotizado. Depois, de repente, foi como se o encanto tivesse sido quebrado. Os olhos de Dani estavam agora secos, embora Nora continuasse a chorar.
        Agora que sabe a verdade, pap  perguntou calmamente  j se sente melhor?
       Olhei-a bem fundo nos olhos. No sei o que foi que vi neles, mas os ns que sentia no estmago desfizeram-se. Sabia a verdade. No sei como  que eu a sabia, porque Dani continuava a no a ter dito, mas agora j no tinha importncia. Porque era assim que Dani queria que as coisas ficassem. Porque era assim que tinha de ser. E porque eu continuava a saber, l muito no fundo, que ela no tinha cometido nenhum crime. O juiz ordenou que se fizesse um intervalo de dez minutos. Quando ele voltou para a sala do tribunal, sentmo-nos todos em silncio, enquanto ele anunciava a sua deciso.
        Decidiu este tribunal que o estado da Califrnia retenha a tutela da menor, Danielle Nora Carey, tal como se recomenda na Petio do Departamento de Vigilncia e Orientao. A mesma , portanto, por este meio, colocada sob tutela da Direco da Juventude Californiana e ser-lhes- entregue pelo funcionrio do Departamento de Vigilncia e Orientao no Centro de Recepo da Califrnia do Norte, em Perkins, Califrnia, para o perodo de diagnstico normal de seis semanas. Depois, passado esse tempo e com o acordo daqueles servios, ser transferida para a escola de Los Guillicos, em Santa Rosa, Califrnia, onde entrar num perodo de reabilitao, dentro dos moldes preconizados de, pelo menos, seis meses. Nessa altura o tribunal considerar a petio para entrega da menor  tutela da av materna a qual, neste momento, somos forados, ainda que com relutncia, a recusar. A menor Danielle Nora Carey , por este meio, declarada pupila do estado da Califrnia at atingir a idade legal de dezoito anos ou at deliberao diferente deste tribunal. Os pais da menor so informados por este meio de que devero tomar as disposies necessrias junto do Departamento de Vigilncia e Orientao para pagarem ao estado da Califrnia a importncia de quarenta dlares por cada ms que a menor fique sob a tutela do Estado.
       O juiz bateu com o martelo na mesa. Depois, voltou-se para Dani.
        Los Guillicos, Danielle,  uma excelente escola e, se tu te portares devidamente e mostrares que ests a fazer todos os esforos para te redimires, nada tens a recear. Se cooperares com eles, eles tambm vo cooperar contigo e tentar restituir-te ao teu lar o mais depressa possvel.
       Pusemo-nos todos de p e o juiz passou majestosamente para os seus aposentos. 
        Pode visitar Dani amanh  disse Miss Spicer, enquanto dirigia Dani para a porta e a abria. 
       Dani voltou-se para trs, olhou para ns um momento e depois seguiu. A porta fechou-se. Nora comeou a chorar. O Dr. Weidrnan ps um brao em volta dela e ela deitou-lhe a cabea no ombro, enquanto saam da sala. Gordon veio ter comigo. Sorria.
        Bom, afinal as coisas no acabaram assim to mal. 
       Fiquei a olhar para ele. Deitou-me um olhar penetrante.
        Ele podia t-la declarado sob a tutela do Estado at ao fim; at ela ter dezoito anos. Desta maneira h boas hipteses de ela estar c fora dentro de seis a oito meses.
       No respondi e ele saiu atrs de Nora. Ento uma mo envelhecida premiu a minha. A velha senhora olhou-me nos olhos. Havia nos dela um ar de compreenso.
        Obrigado por tudo o que tentou fazer, Luke  disse com gentileza.  Vou tentar tomar conta dela quando voltar para casa.
        Eu sei isso, Sra. Hayden. Peo-lhe desculpa. Por causa da Nora.
        J no h nada a fazer, Luke. Todos fizemos o que podamos. Adeus. E boa sorte.
        Obrigado.
       Ela saiu para o corredor. Olhei para a escada. Tinham desaparecido todos. Hesitei um momento, depois segui pelo corredor fora e atravessei o vestbulo at  secretaria da parte das raparigas. Miss Spicer estava sentada  secretria quando l cheguei.
        Tenho de voltar para Chicago esta tarde  disse  seria possvel eu falar com a Dani agora em vez de ser amanh?
        Vou ver se a Dani quer falar consigo  disse delicadamente e saiu. Mal tive tempo de acender um cigarro antes de ela voltar com Dani.  Podem falar aqui  disse.  Eu espero l fora. 
       A porta fechou-se atrs dela. Estendi os braos e a minha filha correu para eles.
        Desculpe, pap  disse.
        No h problema, Dani  disse suavemente.  Levei tempo a perceber, mas agora entendi perfeitamente.
       Olhou-me na cara.
        No a odeia tanto que quisesse v-la na cmara de gs, pois no?
        No, Dani  respondi.  Agora no a odeio de todo. J no a odeio. Dantes costumava ter medo dela, mas agora apenas sinto pena.
        Ela tem de ter sempre algum que goste mais dela do que de todas as outras pessoas. Toda a gente precisa. O pap tem a sua mulher. Ela gosta mais de si do que de qualquer outra pessoa.
        E a tua me tem-te a ti, Dani. 
       Os olhos dela brilharam de repente.
        Talvez um dia possa vir visitar-me, pap. Ou talvez eu o possa ir visitar a si. 
        Um dia  respondi.
       A porta abriu-se.
        Desculpa, Dani, mas o tempo acabou. 
       Dani esticou-se e beijou-me na cara.
        Escreve-me, pap?
       Beijei-a na testa.
        Escrevo, sim, minha filhinha. 
       Fiquei a v-la seguir pelo vestbulo fora, os saltos pequeninos com os seus protectores de metal a baterem no cho. Depois dobraram a esquina e Dani desapareceu.
       Adeus, Dani. Adeus, meu bebezinho de rosto avermelhado. Lembro-me do dia em que nasceste. Lembro-me de como olhei para dentro da janela de vidro e tu franziste a cara pequenina e gritaste e eu fiquei todo desfeito e fracturado c dentro porque sabia que tu eras minha e eu era teu e tu eras o beb mais maravilhoso do mundo. Para onde quer que o amor tenha ido, vai contigo.
       
       Eram nove e meia dessa noite quando o enorme jacto tocou o aeroporto de O'Hare, em Chicago. O ar fresco invadiu a cabina quando a porta se abriu. Fui o primeiro a sair. No tinha tempo para delicadezas. Perguntava a mim mesmo se Elizabeth teria recebido o meu telegrama. Quase corri atravs do campo para o edifcio de chegada, ainda em construo. A principio no a vi. Havia tanta gente. Depois dei com os olhos nela, a acenar, a sorrir e a chorar, tudo ao mesmo tempo. Corri para ela e o mundo parou de abanar, as dores desapareceram todas. Apertei-a muito a mim.
        Amo-te e senti a tua falta  disse. 
        E eu senti a tua falta e amo-te.
       Depois seguimos e fui buscar a minha mala e fomos para o carro. Abri a porta de trs para pr a mala e vi l outra mala. Olhei para ela. Sorriu-me.
        No te disse? Temos de passar pelo hospital, agora de seguida.
        Agora?
        Agora.
        Por que  que no me disseste?  gritei.  Em vez de estarmos a perder aquele tempo todo. Despacha-te! Mete-te no carro!
        No  preciso tanta pressa. Ainda temos tempo. As contraces ainda vm s uma vez de hora a hora.  Olhou para o grande placar elctrico que estava por cima da entrada do parque de estacionamento.  A verdade  que vai comear j uma.
        No fiques ai parada  gritei.  Mete-te no carro.
       Sentou-se no momento preciso em que comeou. Vi-lhe o rosto tornar-se branco e crispado. Depois passou e as cores voltaram-lhe.
        Vs? No foi muito mau.
       Chegmos a St. Joseph num abrir e fechar de olhos. Os polcias deviam ter ido todos jantar fora. Entrmos e levaram-na logo para o andar de cima. Um quarto de hora depois ela estava numa cama rolante e era levada para a sala de partos. Pus-me em frente do elevador e olhei para ela. Estava plida, mas sorridente.
        No tomes esse ar preocupado  disse  Ns, as suecas, no temos problemas. Temos s os bebs.
       Inclinei-me e beijei-a.
        Eu quero  que tudo corra bem.  As portas abriram-se e a enfermeira comeou a empurr-la para o elevador.
        Tudo vai correr bem. Toma conta de ti. No arranjes mas  tu nenhum problema, ests a ouvir?
        Estou a ouvir  disse, enquanto a porta se fechava.
       Segui pelo corredor at  sala a que chamavam "O Clube". Mais alguns pais  espera. Levantaram os olhos quando atravessei a porta. Olhei em volta e sa outra vez. No me apetecia l muito sentar-me no meio deles. Tinham um ar to sombrio.
       Desci a escada e comprei mais um mao de cigarros. Acendi um, puxei algumas fumaas e apaguei-o. Segui pelo corredor fora. Subi de novo at ao "Clube". Mesmo aqueles rostos sombrios eram preferveis a no ver ningum.
        J aqui estou h nove horas  disse-me um homem quando me sentei.
        ...  disse, acendendo um cigarro. 
       Olhei em volta. Todas as caricaturas do costume estavam espalhadas pelas paredes. "Ainda no perdemos nenhum pai." Muito engraado! Uma enfermeira chegou  porta e todos voltmos a cara para ela, como se fssemos marionetas.
        Sr. Carey?  perguntou.
        Sou eu  disse, pondo-me de p. Sentia a cabea vazia.
        Que raio de sorte!  ouvi um dos homens murmurar.  J aqui estou h nove horas e ele s c esteve cinco minutos!  A enfermeira tambm o ouviu, porque se dirigiu a mim a sorrir:
         verdade  disse acenando com a cabea.  O senhor  um homem de sorte...
      FIM
                 2
      
      
      
      
      
      


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1 Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.
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